sábado, 19 de novembro de 2011

ATÉ LOGO, THEMISTOCLES



Tornei-me amigo do senhor Themístocles de Castro e Silva em meados de 2007. Eu tinha 22 anos de idade, e ele, 78. A bem dizer, esta amizade iniciou-se antes, em 2002, quando comecei a lê-lo semanalmente. Eu o lia e tentava imaginar quem era o homem por trás de opiniões tão fortes e escrita tão ágil e correta. No meio de todos aqueles artigos anêmicos, os escritos de Themístocles eram os únicos com sangue nas veias; ele escrevia como se estivesse em um barco em chamas; suas palavras ricocheteavam pelas paredes. Em 2007, eu era um estudante de jornalismo da Universidade Federal do Ceará, local onde o nome Themístocles era praticamente proibido.

Os estudantes, burros demais para saber qualquer coisa, estavam ocupados, muito ocupados, idolatrando o Lula, o Che Guevara, o socialismo, entre outras besteiras. Já os professores, mesmo os mais velhos, faziam questão de pôr Themístocles no ostracismo, alguns por ressentimento, outros por pura picaretagem. Acontece que eu não era o único leitor de Themístocles na UFC.

Um dia, conheci um estudante de jornalismo chamado Bruno Pontes e, certa vez, conversando pelos corredores da universidade, ele me confessou sua paixão pelo Themístocles. “É um homem de fibra, deveríamos ir lá, ouvi-lo”, disse-me. Pouco tempo depois, a oportunidade surgiu quando, por meio da revista Entrevista, da qual eu e Bruno fazíamos parte, tivemos a ideia de entrevistar o famoso jornalista. Era uma entrevista longa, de dez, doze páginas, e, para tanto, precisávamos, enfim, convidá-lo pessoalmente, explicar-lhe os propósitos da entrevista, etc. Cortei os cabelos rebeldes, pus a melhor roupa que tinha, preparei uma apresentação pessoal, mas, assim que cheguei ao local do encontro, o nervosismo dominou-me por completo. “E se o homem não nos receber? E se nos ignorar por completo?”. Bruno, ao meu lado, mal se continha em pé.

Até que a figura surgiu à nossa frente, cheio de energia. “Sentem aí, malandros, tenho pouco tempo, mas podem começar a falar”. Jamais esquecerei a generosidade com que nos recebeu naquela e em todas as outras ocasiões em que o procuramos. E foram muitas ocasiões.

Depois da entrevista, ficou a amizade regada a muitas sextas-feiras de café e prosa. Sempre que tínhamos tempo, eu e Bruno íamos ao encontro de Themístocles, pedir-lhe a bênção. “Olha quem apareceu para tomar café, a dupla dinâmica”, disse um dia ao nos receber. Em dezembro de 2010, eu e Bruno, já formados, o entrevistamos para o jornal O Estado, e, mais uma vez, prevaleceu a inteligência brilhante, a ironia sutil, a elegância de sempre e a indignação de um homem que não queria calar-se. Fica com Deus, Themístocles, e até logo.

Artigo do Rodolfo Oliveira no Estado

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