Em tempos de ministros com graves problemas no hipocampo, aquele pedaço ali do cocuruto que age na memória, este blog, em um exercício aplicado de moral e bons costumes, deixa a dica para as autoridades:
Sim, excelências, mirem-se no exemplo do ex-prefeito de Palmeiras dos Índios Graciliano Ramos (1929-30).
Neste município alagoano, o autor de “Vidas Secas” (aí acima no traço do Fortuna) foi tão zeloso com o cacau público quanto era com a sua escrita.
Um furto, por menor que fosse, era tão ofensivo para o velho Graça quanto um gerúndio ou um adjetivo frouxo no seu texto movido a olho seco.
O alagoano, comunista perseguido e levado ao cárcere pela ditatura getulista, deixou, nos seus ``Relatórios´´, um código de ética que ajudaria bastante aos ilustríssimos senhores da Esplanada dos Ministérios.
A seguir, pequenas mostras de prestações de conta do prefeito Graciliano ao governador Álvaro Paes:
GRATIFICAÇÕES - 1:560$000. Estão reduzidas.
ILUMINAÇÃO - A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.
CEMITÉRIO - No cemitério enterrei 189$000 - pagamento ao coveiro e conservação.
ESTRADAS - Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.
Os relatórios do escritor-prefeito são uma obra-prima de gestão pública. Sem se falar no estilo, óbvio, outra aula de correção.
Em livro, as prestações de contas foram publicadas em 1994, graças a uma co-edição da Fundação de Cultura Cidade do Recife com a ed. Record. O exemplar foi organizado por Mário Hélio, com prefácios de José Paulo Cavalcanti Filho e Joel Silveira.
Deveria ser adotado em todas as repartições públicas deste Patropi Patropizza.
Escrito por Xico Sá

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