"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 27 de maio de 2012

AS FORÇAS DA ECONOMIA CHINESA


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Baque na economia chinesa não deve criar colapso semelhante ao dos Tigres Asiáticos (eyevine/alamy)
Apesar de uma recente desaceleração, a segunda maior economia do planeta é mais resiliente do que acreditam os críticos
O impacto da China na economia global domina as atenções mundiais. Quando o ritmo de sua indústria, seu setor de construção e sua produção de eletricidade desaceleram, como aconteceu até abril, as notícias têm um peso sobre os mercados globais de ações e os preços das commodities. Quando seu Banco Central relaxa a política monetária, como aconteceu em maio, isso cria um rebuliço semelhante a uma decisão da Reserva Federal norte-americana.
E quando o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, destaca a necessidade de manter o crescimento, como fez no último fim de semana, suas palavras têm um peso maior que declarações semelhantes de líderes europeus. Nenhuma revolução industrial anterior foi acompanhada tão de perto.

Mas o rápido desenvolvimento também pode parecer um tanto desordenado se visto de perto, e há muita coisa de errado com a economia chinesa. Ela é surpreendentemente ineficaz, e não tão justa quanto deveria ser.
Mas a principal preocupação dos estrangeiros – a de que o crescimento irá entrar em colapso caso sofra um sério golpe, semelhante ao que aconteceu com o euro – não é justificado. No momento, ele deve se mostrar mais resiliente do que temem os detratores. Suas consideráveis dificuldades irão surgir mais tarde.

Estrangeiros tendem a ver a China como um modelo de eficiência liderada por exportações. Mas essa visão não corresponde à verdade. Investimentos em maquinaria, construções e infraestrutura foram responsáveis por mais da metade do crescimento chinês em 2011; as exportações não contribuíram em nada.
Boa parte dos investimentos é obra de empresas estatais, que se beneficiam de subsídios implícitos, mercados protegidos, e empréstimos encorajados politicamente. Exemplos de desperdício se multiplicam, de cidades-fantasma nas estepes no norte do país até resorts decadentes nos balneários do sul.

O modelo econômico chinês também é injusto com a população do país. Taxas de juros reguladas permitem que os bancos explorem seus correntistas. Barreiras na competição permitem que as estatais cobrem abusivamente por seus produtos.
O sistema de registro domiciliar do país nega igualdade de acesso aos serviços públicos para os migrantes rurais, que trabalham nas grandes cidades, mas estão registrados nos vilarejos. Leis arbitrárias permitem que os governos locais se aproveitem dos fazendeiros, pagando pouco pelos lotes agrícolas que compraram do Estado para produzir. E boa parte dessa receita termina nos bolsos de funcionários do governo.

Esse cenário leva os críticos a comparar a China a outras economias de crescimento rápido que sofreram uma queda espetacular, como aconteceu com os Tigres Asiáticos entre 1997 e 1998. O alto investimento nos países do bloco econômico fortaleceu o crescimento durante certo tempo, mas também criou uma fragilidade financeira que foi exposta com a desaceleração das exportações, e a interrupção nos fluxos de capital estrangeiro.
Os críticos mostram que não apenas a China está investindo de maneira mais rápida do que os Tigres, mas seus bancos têm vivido uma onda de empréstimos que fez com que o crédito pulasse de 122% do PIB em 2008 para 171% em 2010, com a decisão do governo de adotar um ”estímulo de empréstimos”.

Ainda assim, a própria injustiça do sistema chinês dá a ele uma resiliência incomum. Ao contrário dos Tigres, a China depende muito pouco de empréstimos estrangeiros. Seu crescimento é financiado por recursos extraídos de sua própria população, não de estrangeiros volúveis livres para fugir, como aconteceu no Sudeste Asiático (e está acontecendo novamente em partes da Europa).
As poupanças chinesas, que representam 51% do PIB, são ainda maiores que sua taxa de investimento. E o opressor sistema financeiro dominado pelo Estado que mantém essas poupanças está bem alinhado para lidar com atrasos nas reposições e moratórias.

Além disso, os bancos chineses têm alta liquidez, e os depósitos que recebe são maiores que os empréstimos que faz (um quinto desses depósitos é mantido em reservas no Banco Central). Isso dá aos bancos alguma liberdade para voltar a estimular o crescimento, caso as exportações para a Europa despenquem.
O governo chinês gastou muito com infraestrutura durante a crise de crédito no Ocidente, mas há uma infinidade de outras coisas a serem financiadas.
O país poderia redobrar seus esforços para expandir a saúde na área rural, por exemplo, o que poderia fazer com que seus cidadãos economizassem. O consumo doméstico representa menos de 1/3 da economia.

O tempo como um elemento a favor

A China terá que aprender a usar seu capital de maneira mais sábia. Isso exigirá que o país abra mão das barreiras contra os investimentos privados em mercados lucrativos ainda dominados pelas estatais. Também exigirá um sistema bancário menos paparicado, e uma rede mais ampla de seguro social, sem falar nas reformas políticas e sociais que serão necessárias na próxima década.

As reformas chinesas são uma grande tarefa, mas os responsáveis por elas ainda têm tempo. Pessimistas comparam o país ao Japão, de quem a China era credora quando a bolha nipônica estourou em 1991.
Mas o Japão não quebrou até que sua renda per capita se tornou maior que a dos norte-americanos (segundo as taxas de câmbio do mercado). Para que a renda per capita chinesa atinja esse nível, sua economia teria que ser cinco vezes maior que a norte-americana. Isso ainda está muito distante.

27 de maio de 2012
opinião & notícia

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