"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sexta-feira, 31 de agosto de 2012

ABERTURA DE PROCESSO CRIMINAL CONTRA MILITARES ANIMA PARENTES DE DESAPARECIDOS POLÍTICOS

 

A decisão judicial de processar criminalmente militares envolvidos em mortes e desaparecimentos na Guerrilha do Araguaia deverá abrir caminho para que outras responsabilidades sejam apuradas, disse a representante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São Paulo, Criméia Almeida, ao participar de debate sobre o atendimento às vítimas da violência do Estado no Brasil e Argentina, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.



“É uma luta antiga nossa. Temos encontrado muita barreira, mas agora surgiu uma nova oportunidade. Vamos aguardar o julgamento”, disse Criméia, referindo-se a uma decisão inédita tomada quarta-feira pela Justiça Federal em Marabá, no Pará: processar o coronel da reserva do Exército Sebastião Curió Rodrigues de Moura e o major da reserva Lício Augusto Maciel por crimes cometidos durante a guerrilha.

Criméia teve o companheiro, pai de seu filho, desaparecido na Guerrilha do Araguaia, em outubro de 1973. Ela espera que a decisão da juíza Nair Pimenta de Castro, da 2ª Vara Federal em Marabá, seja mantida, mesmo que o caso seja levado ao Supremo Tribunal Federal (STF) com o argumento de que os militares foram beneficiados pela Lei da Anistia.

“Será uma contradição se a denúncia for questionada. O STF extraditou dois torturadores argentinos, porque eles eram responsáveis pelo desaparecimento forçado de pessoas. É crime na Argentina, e não no Brasil?”, pergunta Criméia.

Para a diretora do Instituto de Estudos sobre Violência do Estado, Janaína Teles, a decisão judicial mostra que esses crimes não estão restritos ao passado. “Pelo direito internacional, o desaparecimento forçado dos guerrilheiros é um crime permanente. Enquanto o corpo não for encontrado, e as circunstâncias esclarecidas, o crime continua acontecendo, aqui e agora. E os culpados precisam ser responsabilizados”, ressaltou a historiadora.

QUANDO O HUMOR DESENHA A REALIDADE



DEPOIS DA CRISE EM OSASCO, PT DÁ VEXAME DE CORRUPÇÃO TAMBÉM EM SÃO CAETANO

 

O vereador petista Edgar Nóbrega renunciou à disputa pela prefeitura de São Caetano do Sul. O motivo da saída de Nóbrega foi a divulgação de um vídeo em que ele aparece pedindo R$ 100 mil ao secretário de Governo da prefeitura, Tite Campanella, em troca de uma oposição petista mais branda.

O Diretório Municipal do PT decidiu não apresentar outro nome e o partido não terá mais um candidato.

Em carta ao partido, Nóbrega diz que o vídeo foi “editado de maneira criminosa, constrange minha honra e a minha história”. Ele afirma ainda sobre sua saída da disputa, ” essa é uma decisão que faço para me dedicar integralmente a agenda de minha defesa pessoal”.

No vídeo, divulgado pelo candidato a vereador Eder Xavier (PC do B), Nóbrega diz que os R$ 100 mil serviriam para garantir os votos de militantes do PT na disputa pela presidencia do partido em São Caetano do Sul, em 2009. Com isso “O grupo que governa a cidade vai ter um aliado ou um adversário leal”, diz Nóbrega. Ele ganhou o cargo.

A prefeitura de São Caetano do Sul informou em nota que abriu sindicancia pela Corregedoria Municipal para investigar o ocorrido.

Também afirmou que o prefeito José Auricchio Júnior (PTB) “desconhece a existência desse diálogo entre o secretário de Governo Anacleto Campanella Júnior e o vereador Edgar Nóbrega”. Campanella pediu exoneração do cargo na última segunda-feira, 27.

Na última pesquisa Ibope de intenções de votos Nóbrega aparece com 3% das intenções. A disputa é liderada por Paulo Pinheiro (PMDB), com 29%, seguido por Regina Maura (PTB), com 26%.

PENSAR É PERIGOSO

 

 Por onde andará Júlio Verne ? O visionário que incendiou a imaginação de tanta gente anda meio esquecido. Conversei com uma garotada e quase ninguém tinha ouvido falar deste francês que, no século dezenove, povoou a literatura com histórias fantásticas e, não raro, premonitórias.

O clássico 20 Mil Léguas Submarinas, por exemplo, conserva uma atualidade desconcertante. Escrito em 1870, abre tantas janelas que fica difícil saber por onde começar. Vou me concentrar no que aprendi de melhor.



Um militar, o capitão Nemo, constrói um submarino, o Nautilus, com aspecto de fera marinha, e passa a atacar barcos de guerra. É impiedoso. Não recolhe náufragos e trabalha com uma equipe de marujos absolutamente fiéis. A destruição das naves se fazia de forma engenhosa: na parte superior do Nautilus havia uma estrutura serrilhada, que, ao tocar os cascos dos navios, os destroçavam.

A nave submersa era movida por uma fonte de energia autônoma, supostamente eletricidade, espécie de antecipação dos combustíveis nucleares. O aspecto medonho cria o mito de um monstro marinho que afunda buques de guerra. A propaganda já era a alma do negócio.

Qual era, afinal, o objetivo de Nemo ? Pacifista radical, mas ingênuo, achava que poderia acabar com as guerras destruindo as ferramentas da Morte e seus usuários. Mesmo contemporâneo de Clausewitz, não ouviu falar que a guerra é a política feita por outros meios. Cometeu, a seu tempo, o mesmo engano dos luditas, que, no alvorecer da Revolução Industrial, atacaram as máquinas.

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JOGO DO PODER

Não percebeu que as expedições guerreiras de todas as épocas não são uma catarse coletiva, com requintes de crueldade, mas uma forma de consolidar ou ampliar o poder de grupos que raramente pegam em armas. Manipulam, desinformam, insuflam, financiam, e, sob montanhas de cadáveres, festejam. Quantos presidentes, imperadores ou primeiros-ministros estiveram em frentes de batalha ? A carnificina é sempre terceirizada. Do Nautilus surge um dilema moral fascinante. O submarino liquidava militares aos montes. É virtuoso matar para impedir que se mate mais ?

Nemo foi retratado por Hollywood, num filme da década de 1950, como um desequilibrado. Típico. Personagem complexo,refletindo provavelmente a angústia de Verne com os massacres das guerras coloniais no século dezenove, inaugurou no imaginário de sua época o sonho de uma agricultura marinha sustentável. Os tripulantes do Nautilus, vestindo arrojados escafandros, plantavam pepinos do mar e não pescavam de forma predatória. Mal sabiam que estavam antecipando ripongas e conservacionistas.

A história não termina bem. Não entro nos detalhes, quem quiser conhecê-los é só ler o livro. Tal como na Dança dos Vampiros (em que o professor Abronsius acaba, involuntariamente, espalhando o mal que pretendia eliminar), Nemo entrega para mãos nada inocentes a tecnologia que usara para, na sua perspectiva, criar um mundo melhor. Trágica ironia. A mesma que levou Einstein a dizer que cometera “o maior erro de sua vida” por ter sugerido ao presidente Roosevelt, em 1939, que se poderia construir uma bomba com alto poder de destruição a partir de reações em cadeia com átomos de urânio. Sabemos o resultado.

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E O TIO PATINHAS

Como disse Marx na introdução d’O Capital, não há atalho para o conhecimento. A superfície e seus joguinhos hipnóticos já produziram muitos Nemos. Houve certa vez, entretanto, em que a história foi outra. Pelo menos na ficção. Lembram-se do tio Patinhas ? Qual era a fonte de sua riqueza ?
Um amuleto, a famosa moeda número 1. Essa era a casca, a lenda, a notícia do jornal, a mentira goebbelsiana. Pois bem, um grupo de desenhistas italianos, credenciados pela Disney, deu um nó na falácia. Fim da inocência.

Os Irmãos Metralha, tradicionalmente articulados para tentar roubar a moedinha, resolvem … pensar. Não demorou muito e perceberam que aquele negócio de amuleto era p’ra inglês ver. O pato sovina tinha fábricas, bancos, lojas, minas, poços de petróleo, uma verdadeira multinacional de penas. Era dali, da propriedade dos meios de produção, que ele tirava a fortuna e enchia os cofres.

Os mascarados mudam a estratégia e arrumam um jeito, bem ao estilo dos quadrinhos, de privar o Patinhas de suas verdadeiras fontes de renda. O milionário amanhece pobre … e com a moedinha número 1. A história foi censurada e tirada de circulação. Pensar é perigoso.

(Artigo enviado por Mário Assis)
31 de agosto de 2012
Jacques Gruman

MINISTRA PREVÊ ENTRADA DE 56 MIL ESTUDANTES NEGROS POR ANO NAS UNIVERSIDADES FEDERAIS

 

A ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros, disse que a Lei de Cotas deverá ampliar de 8,7 mil para 56 mil o número de estudantes negros que ingressam anualmente nas universidades públicas federais.



A lei determina que as universidades públicas federais e os institutos técnicos federais reservem, no mínimo, 50% das vagas para estudantes que tenham cursado todo o ensino médio em escolas da rede pública, com distribuição das vagas entre negros, pardos e indígenas.

Segundo a ministra, a associação de critérios sociais e raciais para as cotas foi a solução “politicamente possível” para tentar reverter a desigualdade no acesso ao ensino superior público.

“Todo o esforço ao longo do tempo foi no sentido de se constituir cotas para negros, independentemente da sua trajetória escolar. Mas as propostas são colocadas de acordo com o grau de maturidade política da sociedade. Dentro dessa medida, conseguimos um resultado que eu considero positivo”, avaliou.

As universidades e institutos federais terão quatro anos para implantar progressivamente o percentual de reserva de vagas estabelecido pela lei, mesmo as que já adotam algum tipo de sistema afirmativo na seleção de estudantes. As regras e o cronograma para a transição ainda serão estabelecidos pela regulamentação, que deve sair ainda este ano.

PENSAMENTO DO DIA

 

Livre pensar é só pensar (Millôr Fernandes)


JOÃO PAULO CUNHA PODE PERDER O DIREITO AO REGIME SEMIABERTO E CUMPRIR PENA EM PENITENCIÁRIA COMUM

 

Como o ministro César Peluso se aposenta segunda-feira, não podendo mais participar do julgamento do mensalão, ele antecipou suas sugestões de pena para os casos que julgou. Com isso, ele evitou possíveis questionamentos das defesas, no sentido de ter condenado sem estabelecer as penas, o que poderia ser considerada uma sentença incompleta.


Regime fechado ou semiaberto?

No total, ele fixou para João Paulo a pena em seis anos em regime semiaberto, o pagamento de 100 salários mínimos e a perda do mandato. Nas penas sugeridas, Peluso propôs três anos de prisão pelo crime de corrupção passiva. A pena mínima é de dois anos, mas o ministro considerou como agravante o fato de o petista presidir a Câmara na época.
E disse não importar o destino dado aos R$ 50 mil, se foi para pagar fatura de TV a cabo ou pesquisa pré-eleitoral. A prescrição, com base nessa condenação, ficaria descartada. Já que a punição é multiplicada por três e é contada a partir da aceitação da denúncia. Ou seja, a punição valeria até 2016.

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DOSIMETRIA

Acontece que é preciso esperar pelo fim do julgamento para saber a chamada dosimetria – a punição exata de João Paulo Cunha. Com o voto do presidente do STF, Ayres Britto, pela condenação também pela lavagem de dinheiro, os seis anos propostos por Peluso estão descartados e o deputado petista pode perder o direito ao regime semiaberto, se for condenado a mais de oito anos. Isso significaria que teria de cumprir pelo menos 1/6 da pena em regime fechado, num presídio comum, porque João Paulo não tem diploma universitário.

A pena por lavagem de dinheiro vai de três a dez anos. Assim, se ele for condenado aos três anos, por exemplo, sua pena total pelos vários crimes iria para nove anos, e o deputado petista teria de cumprir um ano e meio em regime fechado.

Conforme já explicamos, até mesmo os dois ministros que votarem pela absolvição (Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli) terão de participar da dosimetria da pena, opinando sobre a fixação da condenação à reclusão e à multa. Geralmente, nesses casos os ministros que pediram absolvição propõem a pena mínima em caso de derrota, e nem poderia ser diferente.

QUANDO O HUMOR DESENHA A REALIDADE

 



O PROBLEMA DE AÉCIO NEVES É QUE SUA TURMA NÃO SABE MUITO BEM LIDAR COM AÉCIO NEVES

 

Não deve ser fácil ser Aécio Neves. Aos 52 anos, ele parece desconfortável com o papel que lhe coube na política nacional: de herdeiro do avô Tancredo e a grande esperança branca do PSDB.

Aécio é presidenciável, seja lá o que isso quer dizer, mas foge do protocolo sempre que pode, num impulso irresistível para por em prática seu bordão favorito: “A alegria é a coisa mais séria da vida” (a frase foi emprestada do pintor e escritor português Almada Negreiros).


Aécio acredita na alegria

A última do mineiro mais carioca do mundo é o vídeo em que ele aparece cambaleante num boteco do Rio dando uma gorjeta de 100 reais ao rapaz que o atendeu. As imagens não têm nada, mas, como no episódio das fotos da balada do príncipe Harry, se alastraram feito rastilho de pólvora na internet.
Em 2010, ele foi um dos Homens do Ano da revista Alfa, que eu dirigia.

Quem o entrevistou foi o excelente repórter Lucas Figueiredo, mineiro também, conhecedor do personagem. Foi uma negociação longa. Queríamos humanizar Aécio, abordando aspectos pouco conhecidos de sua vida pessoal. Mas, até publicarmos, tivemos de lidar com a turma de Aécio, que não sabe muito bem como lidar com Aécio.

Simpático, prosador, ele apareceu no estúdio de JR Duran, na Vila Madalena, em São Paulo, para fazer as fotos. Topou a ideia do fotógrafo de posar no papel de “candidato”: com uma criança no colo; dando uma entrevista coletiva; colocando os pés numa salmoura após uma caminhada de campanha. Fez piadas sobre José Serra, seu arquiinimigo, mandou um abraço para a avó da editora de moda, que também era de Minas. Enfim: um político.

Lucas conversou com cientistas políticos, com a ex-namorada Maitê Proença, com amigos, gente do governo etc. Encontrou Aécio em seu apartamento em Belo Horizonte. Aécio indagou se ele gostava de cachaça (o alambique da família produz a marca Matusalém). Relembrou suas aventuras na estrada.
Queria percorrer o litoral brasileiro de moto. Já tinha feito 2600 quilômetros, certa vez, passando pelos Lençois Maranhenses e as praias de Santa Catarina. Disse o que gostava de comer, suas bebidas prediletas (“uísque, no geral. Na fazenda, cachaça”), seu perfume (Issey Miyake). Falou da filha. Até que Lucas lhe perguntou sobre o uso de drogas.

Aécio deu a resposta: “Todo mundo teve 18 anos… Ah, experimentou um baseado com 18 anos? Sim. E ponto-final”. A entrevista acabou ali.

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PRESSÃO

Lucas entregou o perfil e nós decidimos que iríamos publicá-lo no final do ano. Meses depois de terminado o trabalho, Lucas ingressaria na campanha de Hélio Costa, adversário do candidato de Aécio, Anastasia (que acabou eleito). A assessora de imprensa de Aécio começou a me ligar.

Insinuava que havia uma armação para prejudicá-lo, que estava preocupada. A matéria, a rigor, mostrava Aécio sendo Aécio. Nenhuma fofoca, nenhum dossiê, nenhum escândalo. Mas não havia meios de tranquilizá-la. A pressão continuava. Por fim, falaram com Roberto Civita, editor e dono da Editora Abril, que publica Alfa. Civita me telefonou na redação e pediu, gentilmente, para ler o texto. Mandei para ele, que leu e me devolveu na seqüência, afirmando que não via problema nenhum.

A figura central na vida de Aécio é Andrea Neves, sua irmã. Ex-presidente do Servas (Serviço Voluntário de Assistência Social), ela é responsável pela coordenação de comunicação dele. Tenta cuidar de sua imagem e controlar tudo o que o cerca. Reservada, assertiva, de personalidade forte, Andrea é a antítese e o complemento do irmão mais novo. Em seu blog, ela se define candidamente: “Tenho péssima memória, mas acredito na força das lembranças. E do destino. Tenho ido a São João Del Rei menos do que gostaria. E, como Olavo Bilac, acredito que – de vez em quando – é possível ouvir estrelas”.

Demos o perfil em dezembro. Aécio era o nosso “político do ano”. Na foto da capa, ele está lá, todo pimpão, segurando um bebê. Como eu disse, era o perfil de um homem, com boas histórias contadas, sobretudo, por ele mesmo.
Em abril de 2011, Aécio foi parado numa blitz carioca e se recusou a fazer o teste do bafômetro. Alguns jornais se lembraram do que ele contou para Alfa a respeito das bebidas de que mais gostava.

Como no caso do vídeo que caiu na internet, Aécio estava sendo Aécio. Isso, aparentemente, é um enorme empecilho – não apenas para ele, mas, eventualmente, para as pessoas que enxergam em Aécio Neves algo que Aécio Neves, talvez, não saiba ou não queira ser.

O CASO ASSANGE, NA VISÃO DE FREI BETTO

 


Em 2010 o mundo foi surpreendido pela divulgação de uma série de documentos comprobatórios de que muitos governos e autoridades dizem uma coisa e fazem outra. A máscara caiu. Todos viram que o rei estava nu.

O site WikiLeaks, monitorado pelo australiano Julián Assange, publicou documentos secretos que deixaram governos e autoridades envergonhados, sem argumentos para justificar tantos abusos e imoralidades.



Maquiavel  já havia afirmado, no século XVI, que a política tem pelo menos duas caras. A que se expõe aos olhos do público e a que transita nos bastidores do poder.
Bush e Obama admitiam torturas no Iraque, no Afeganistão e na base naval de Guantánamo, enquanto acusavam Cuba, na Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, de maltratar prisioneiros…

O WikiLeaks nada inventou. Apenas se valeu se fontes fidedignas para coletar informações confidenciais, em geral constrangedoras para governos e autoridades, e divulgá-las. Assim, o site desempenhou importante papel pedagógico. Hoje, as autoridades devem pensar duas vezes antes de dizer ou fazer o que as envergonhariam, caso caísse em domínio público.

Apesar da saia justa, o cinismo dos governos parece não ter cura. Em vez de admitirem seus erros e tramoias de bastidores, preferem bancar a raposa da fábula de Esopo, divulgada por La Fontaine. Já que as uvas não podem ser alcançadas, melhor alegar que estão verdes…

Acusam Julián Assange, não de mentir ou divulgar documentos falsos, mas de haver praticado estupro de prostitutas, na Suécia.

Ora, com todo respeito à mais antiga profissão do mundo, sabemos todos que prostitutas se entregam a quem lhes paga. E por dinheiro – ou ameaça de extradição quando são estrangeiras -, algumas delas podem ser induzidas a fazer declarações inverídicas, como a esdrúxula acusação de estupro.

Muito estranho, considerando que relações com prostitutas muitas vezes parecem um estupro consentido. O cliente paga pelo direito de usar e abusar de um corpo desprovido de reciprocidade – sem afeto e libido. Daí a sensação de fraude que o acomete quando deixa o prostíbulo. Perdeu o sêmen, o dinheiro… e não encontrou o que procurava – amor.

De fato, governos e autoridades denunciados pelo WikiLeaks é que estupraram a ética, a decência, a soberania alheia, acordos e leis internacionais. Assange e seu site foram apenas o veículo capaz de tornar mundialmente transparentes documentos contendo informações mantidas sob rigoroso sigilo.

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QUEM DEVE SER PUNIDO

Punidos deveriam ser aqueles que, à sombra do poder, conspiram contra os direitos humanos e a legislação internacional. No mínimo, deveriam fazer autocrítica pública, admitir que abusaram do poder e violaram princípios áureos, como foi o caso de ministros brasileiros que se deixaram manipular pelo embaixador dos EUA, em Brasília.

Assange se encontra refugiado na embaixada do Equador, em Londres. O governo de Rafael Correa já lhe concedeu o direito de asilo no país latino-americano. Porém, o governo britânico, do alto de sua majestática prepotência, ameaça prendê-lo caso ele saia da embaixada a caminho do aeroporto, onde embarcaria para Quito.

Nem a ditadura brasileira na Operação Condor chegou a tanto em relação a centenas de perseguidos refugiados em embaixadas de países do Cone Sul. Por isso, a OEA, indignada, convocou uma reunião de seus associados para tratar do caso Assange. Este teme ser preso ao deixar a embaixada e entregue ao governo sueco que, em seguida, o poria em mãos dos EUA, que o acusam de espionagem – crime punido, pelas leis estadunidenses, inclusive com a pena de morte.

Assange não se nega a comparecer perante a Justiça sueca e responder pela acusação de estupro. Teme apenas ser vítima de uma cilada diplomática e acabar em mãos do governo mais desmoralizado pelo WikiLeaks – o que ocupa a Casa Branca.

O caso Assange já prestou inestimável serviço à moralidade global: demonstrou que, debaixo do sol, não há segredos invioláveis. Como diz o evangelho de Lucas (12, 2 e 3), “nada há encoberto que se não venha a descobrir; nem oculto, que se não venha a saber. Por isso o que dissestes nas trevas, à luz será ouvido; o que falastes ao ouvido no interior da casa, será proclamado dos telhados”.

(Artigo enviado por Mário Assis)
 
31 de agosto de 2012
Frei Betto

OS RUMOS DO STF

Com o término do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal da primeira das oito etapas do processo do mensalão, já é possível tirarem-se algumas conclusões.

Parece certo, por exemplo, que os políticos que sacaram na boca do caixa do Banco Rural ou receberam dinheiro, seja a que título for, das empresas de Marcos Valério, serão condenados por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, ressalvada alguma especificidade da acusação.

O núcleo financeiro, que começou a ser julgado ontem nas figuras dos diretores do Banco Rural, pela lógica majoritária no julgamento, também não escapará de condenação por lavagem de dinheiro, já que foi aceita pela maioria dos ministros a tese da acusação, assumida pelo relator Joaquim Barbosa, de que o dinheiro depositado no Rural e distribuído por Marcos Valério era produto de desvios de dinheiro público.

O banco também teria colaborado com o esquema do publicitário, pois aceitou pôr em seus registros oficiais que o dinheiro fora sacado pela agência SMP&B para pagamento de fornecedores e, paralelamente, pagava a pessoas autorizadas por Valério, registrando em contabilidade extraoficial, que só foi descoberta anos depois devido à quebra de sigilo bancário, os nomes dos sacadores, com suas assinaturas. Eram registros para prestação de contas a Marcos Valério, e não ao Banco Central ou ao Coaf.

Será interessante acompanhar os votos a respeito da “formação de quadrilha”, um dos crimes pelos quais os dirigentes do Rural estão sendo acusados. José Roberto Salgado e Kátia Rabello respondem também por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e gestão fraudulenta de instituição financeira.

Vinicius Samarane e Ayanna Tenório respondem pelos mesmos crimes, menos evasão de divisas.
O relator montou sua peça baseado na conexão entre os diversos itens, e a “formação de quadrilha” é uma acusação que une o núcleo financeiro ao núcleo operacional e ao núcleo político, formado pelo ex-ministro José Dirceu, por José Genoino e Delúbio Soares.

Seu voto será no sentido de que os empréstimos dados pelo Rural às agências de Valério e ao PT foram fraudulentos, isto é, serviram para encobrir a distribuição pelo valerioduto de dinheiro desviado dos cofres públicos.

A maioria dos ministros parece ter comprado a tese de que houve “um rematado esquema de desvio de dinheiro público”, nas palavras do presidente do STF, Ayres Britto, e o crime de “formação de quadrilha” começará a ser delineado no julgamento do núcleo financeiro do esquema.

Esse mesmo raciocínio será carregado para o julgamento dos demais segmentos da proposta do relator. Dirceu, acusado pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e pelo relator de ser o chefe da quadrilha, passou de um réu sem “atos de ofício” nos autos que o condenassem, como defendiam seus advogados, a incluso entre os que são passíveis de punição pelo conjunto de provas testemunhais e indiciais que estão nos autos.

Ontem, Ayres Britto pôs mais um tijolo na peça acusatória que está sendo erigida pela maioria do STF. Disse que, embora não se possa admitir condenação criminal “apoiada tão somente em depoimento de corréu, até porque sabemos que o corréu não pode ser testemunha, pois não tem o dever de dizer a verdade”, adiantou que “nada impede que o julgador lance mão dos depoimentos colhidos para subsidiariamente sustentar condenação penal”.

Se formos para o caso de Dirceu, a acusação do corréu Roberto Jefferson era descartada por sua defesa como sendo uma peça sem força, justamente pela condição do acusador.

Já se sabe que, ao contrário, seu depoimento será juntado a outros indícios e testemunhas para a avaliação final dos juízes. A diretora do Rural Kátia Rabello, por exemplo, teve encontros com José Dirceu, e há relatos, inclusive de Valério, de que o então ministro sabia do esquema de empréstimos ao PT e era consultado por Genoino e Delúbio antes de tomarem uma decisão.

Também o fato de a ex-mulher de Dirceu, Ângela Saragoça, ter conseguido empréstimo no Rural de R$ 200 mil para comprar um apartamento, a pedido de Valério, deve entrar na consideração dos ministros. Para aumentar as coincidências nesse caso, o apartamento antigo de Ângela foi comprado por amigo de Valério.

31 de agosto de 2012
Merval Pereira, O Globo
 

MINISTROS DO STF 'COMEM PELA MÃO' DE QUEM OS NOMEOU? BALELA!

 

As condenações que vêm sendo expedidas até agora no caso do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal – sobretudo as que recaíram sobre as costas do primeiro grande figurão do PT, deputado João Paulo Cunha — são um forte e demolidor argumento contra a ideia, consideravelmente difundida, de que juiz indicado para a Casa por um presidente “paga” a designação, posteriormente, em sua atuação como magistrado.

A tese, como toda generalização, é injusta por definição. Mas vou mais além.

Vejam bem: dos 11 ministros em atividade, apenas três – Celso de Mello, Marco Aurélio e Gilmar Mendes – não foram indicados ao Senado por governos petistas.

E no entanto, até agora, não se pode em hipótese alguma e em sã consicência dizer que o tribunal, como um todo, esteja sendo dócil aos interesses do partido do governo – pelo contrário.

O relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, vem sendo severíssimo e implacável. Foi indicado por Lula e assumiu em junho de 2003.

O presidente da corte, Ayres Britto, que decidiu que o mensalão seria julgado este ano, que fixou um calendário e pressionou para que o relutante ministro revisor, Ricardo Lewandowski, não empurrasse com a barriga para 2013 seu trabalho, foi indicado por Lula e assumiu em junho de 2003.

O ministro Cezar Peluso, cujo voto foi importantíssimo para condenar à cadeia João Paulo Cunha – o ministro fixou até a pena para o deputado –, também foi apontado por Lula e igualmente assumiu em junho de 2003.

A ministra Cármen Lúcia, da mesma forma severa e imune às artimanhas jurídicas da defesa para livrar o deputado, é outra indicação de Lula, e tomou posse em junho de 2006.

O ministro Luiz Fux, cujo voto sobre lavagem de dinheiro pode mudar a jurisprudência do Supremo – ele lembrou que nunca há documentos escritos nem recibos que comprovem o crime e que a presunção de inocência em tais casos não pode ser absoluta, mas deve levar em conta a quantidade de indícios de crime – teve seu nome proposto ao Senado pela presidente Dilma, e tomou posse em março do ano passado.


Foto: Valter Campanato / Agência Brasil
 
31 de agosto de 2012
in blog de Ricardo Setti

RECUERDOS DE LA ALHAMBRA - NARCISO YEPES

http://www.youtube.com/watch?v=RLHR8zaEsA8&feature=player_detailpage



Palácio de Alhambra

Situado na Andaluzia, a norte da Serra Nevada, junto à cidade do Goa, é património da Humanidade desde 1984.
O palácio de Alhambra marca o apogeu da arquitetura árabe e é a residência palaciana mais bem conservada do mundo muçulmano.

Foi batizado de Calat al-Hamra, que significa Castelo Vermelho, devido à cor avermelhada da pedra dos muros.

A sua construção deve-se a Mohamed I, numa altura em que o califado de Córdova perde influência a favor do sultanado de Granada, cujo apogeu vai de 1238 a 1492.
Os edifícios mais importantes foram construídos na época de Yusut I (1333-1354) e de seu filho Mohamed V (1354-1391).


Da parte mais antiga da fortaleza resta o recinto interior. O núcleo principal deste palácio-fortaleza é constituído por dois conjuntos de grandes compartimentos dispostos em torno de pátios abertos.
No quarto de Comares encontra-se o mexuar, a sala onde o sultão administrava a justiça e o salão do trono, também chamado dos embaixadores.

Para além de aposentos privados e administrativos, possuía mesquita, quartel, banhos e jardins. A sua arquitetura não corresponde a um estilo determinado, porque até à tomada pelos Reis Católicos em 1492 foi continuamente ampliado e embelezado.

As paredes aparecem cobertas de motivos ornamentais: arabescos em ouro, vermelho e azul, inscrições douradas, rosetas e azulejos.
Os arcos em ferradura ou de meio ponto apresentam uma decoração filigranada, arabescos entrelaçados e estalactites de madeira talhada.

Sobressaem a Sala dos Reis e a Sala dos Embaixadores.

De destacar o simbolismo ligado à água presente no Pátio dos Leões e nos jardins intimamente ligados ao palácio.

(Infopédia)



31 de agosto de 2012

'ARGENT DE POCHE'




Os petistas se ofendem muito com o nome que foi dado à generosa contribuição que o PT fazia aos congressistas em troca de apoio e adesão: mensalão.

Chegaram até a ensaiar a proibição de seu uso, o que, é evidente, não vingaria.

Mas eles têm razão: é uma palavra feia. Tem um som rude, antipático. Na ocasião, quando ainda era pagão, ninguém se ofendia com sua oferta e o aceitavam animadamente. Na verdade, não lhes ocorria que um dia - nem tão distante – seriam chamados de mensaleiros os dedicados recebedores da ‘ajudinha’.

Não foi o PT o primeiro a se valer da bolsa da Viúva – não foi mesmo. Mas com a gana e a fome inauguradas em 2003, lá isso foi.

(Sugiro a Lula nos palanques dizer que não compreenderam nada: não era para corromper ninguém, não. Era o que os franceses chamam de ‘argent de poche’! Só uma ajudinha da mãe Viúva para completar o mês...).

Acontece, como diz o ditado, que tantas vezes o cântaro foi à fonte que um dia se partiu. E os cacos foram parar no STF que ficou com a missão de restaurar nossa confiança na cidadania e nas instituições do país.

Na sexta-feira 27/7, embora preocupada com notícias que corriam sobre reviravoltas no número de réus, afirmei minha fé no STF: Creio que o STF honrará seu papel. Saberá respeitar nossos valores e cumprir o que diz o Livrinho. O contrário seria a morte de nossa democracia. (Julgar o STF? Claro que não. Mas avaliá-lo? Claro que sim).

No dia 10 de agosto meu artigo das sextas terminava assim: Valentes juízes do STF. O Brasil vai lhes ficar devendo, seja qual for o final do julgamento. (Nervos de Aço).

Houve quem achasse que era ingenuidade da minha parte... Que confiar assim cegamente nos ministros do STF era rematada tolice. Valeu, papudos?

E sabem por que estou citando a mim mesma? Porque estou felicíssima com a atuação da maioria dos ministros do STF.

As exceções: penso que o ministro Lewandowski, após ouvir o voto exemplar do ministro Peluso, ainda há de reconsiderar por qual motivo, pelo mesmíssimo crime, condenou um réu e absolveu outro.

Do mais jovem não espero nada. É preciso grandeza para rever seu voto e não me parece que Dias Toffoli tenha sido aquinhoado pelos deuses com esse atributo.

Já o voto do ministro Cezar Peluso foi uma aula de nobreza de sentimentos. Perder a contribuição de um Homem desse quilate porque ele completou 70 anos é um desperdício e segundo o que nos ensinou o ministro Celso de Mello, um retrocesso, já que a Constituição do Império não mencionava idade limite.

Magnânimo, equilibrado, porém forte e seguro do que disse, o ministro Peluso fará muita falta nesse final do julgamento do mensalão. É torcer para que suas palavras ecoem no coração da Suprema Corte.

O julgamento não acabou. Mas já estamos saindo do túnel e a luminosidade da manhã que se avizinha é benfazeja. Deo gratias!

31 de agosto de 2012
 Maria Helena R R de Sousa

QUANDO O HUMOR DESENHA A REALIDADE


CHARGE DO AMARILDO
31 de agosto de 2012

FRASE DO DIA

 

Esse negócio do julgamento no Judiciário não pega no eleitorado, não. O povo gosta de assistir é processo de cassação, quando o cara é chamado de ladrão na tribuna.
 

Senador Wellington Dias (PT), candidato à prefeitura de Teresina (PI)

31 agosto de 2012

O INÍCIO DO FIM DOS MEIOS SUJOS

 


Os doadores estão cabreiros e tirando o deles da reta, os tesoureiros das campanhas, à beira de um ataque de nervos: as caixas 1 e 2 estão à míngua.
O primeiro mensaleiro não só foi condenado como recebeu histórica descompostura dos ministros Cezar Peluso e Celso de Mello, como um delinquente com a marca da indignidade e o estigma da desonestidade.

Independentemente de condenações ou absolvições individuais, é um grande avanço para a democracia o Supremo Tribunal Federal firmar jurisprudência sobre a criminalização do uso político do caixa 2 - sejam quais forem os meios e os fins - e começar a acabar com um dos mais nefastos e antidemocráticos vícios da política brasileira, lastreado no cinismo do "todos fazem" e na promiscuidade com os doadores.
 
O ladrão em causa própria, seja de galinhas ou de verbas públicas, dá prejuízos pontuais a pessoas físicas ou jurídicas, ou ao Estado, que podem ser ressarcidos se o criminoso for condenado.

Usar dinheiro sujo para fraudar o processo eleitoral, manipular a vontade popular, corromper políticos, comprar vantagens para seu partido para impor a sua crença, provoca irreparáveis danos para toda a sociedade. Porque desmoraliza a democracia, institucionaliza a impunidade e interfere de forma decisiva e abusiva nos direitos dos cidadãos.
 
O ladrão ideológico é mais nocivo que o profissional.
É por isso que em países civilizados, com maior tradição jurídica que o Brasil, como a Itália, a Alemanha e a Inglaterra, a motivação política é considerada como fator agravante de um crime.

Porque o produto do delito servirá para manipular processos eleitorais e atentar contra as instituições democráticas, roubando direitos de toda a sociedade.
 
Lá, o caixa 2 já derrubou primeiros-ministros, governadores e prefeitos. Aqui, ainda é usado como atenuante, como uma bizarra sequela da ditadura, quando a luta pela liberdade justificava tudo.
 
A atitude de tolerância zero que a maioria dos ministros do STF está tomando com o caixa 2 vai melhorar muito o comportamento dos políticos, não por ética ou espírito público, mas por medo da Justiça e da cadeia.

31 de agosto de 2012
Nelson Motta - O Estado de S.Paulo

REINCIDÊNCIA

 

Foi preciso o Supremo Tribunal Federal pregar à testa de João Paulo Cunha o carimbo de corrupto para o PT se dar conta da inadequação de ter como candidato a prefeito um réu em processo criminal.
Foram necessários nove contundentes votos de condenação por corrupção passiva e peculato para que o deputado pensasse em desistir de buscar absolvição "de fato" junto ao eleitorado de Osasco.

Antes disso estava tudo normal. Três ministros gravaram manifestações de apoio para o horário eleitoral. Míriam Belchior, do Planejamento, lugar tenente da presidente da República, emprestou seu aval considerando "muito importante eleger João Paulo" para dar continuidade ao "modo petista de governar".

Pepe Vargas, do Desenvolvimento Agrário, ligou o futuro da cidade à eleição do réu: "Com o governo Lula e agora com a presidente Dilma estamos transformando o Brasil. Com uma prefeitura aliada ao governo federal podemos fazer ainda mais. Por isso, em Osasco, vote em João Paulo Cunha".

Aldo Rebelo, do Esporte, externou seu apoio ao "companheiro e amigo" com "muita honra e orgulho" pela trajetória de "serviços prestados aos interesses de Osasco e do Brasil como vereador, deputado estadual, deputado federal e presidente da Câmara".

Pois foi preciso o Supremo demonstrar com todos os efes e erres que antes dos interesses nacionais e regionais João Paulo defendia a causa própria para que o PT passasse a considerá-lo um peso em cima do palanque.

Agora aparecem os engenheiros de obra pronta dizendo o quanto haviam alertado para a impropriedade da candidatura, atribuindo o gesto temerário à vontade de João Paulo que tinha a "máquina" na mão.

Ora, sobre vontades no PT dão notícias mais precisas as candidaturas de Dilma e Fernando Haddad. Quem tem "querer" ali é Lula, que, se alguma preocupação com as aparências tivesse, teria feito João Paulo se recolher.

Mas, não viu nada demais em seu partido concorrer com um réu munido de desculpas esfarrapadas e da certeza na impunidade. Diga-se em sua defesa, porém, que o ex-presidente não chegou a essa conclusão sozinho, baseado em coisa alguma.

A sustentar-lhe a impressão de que votos podem perfeitamente transitar numa esfera à parte do mérito, inclusive no tocante aos bons costumes, há o pouco caso do eleitorado quanto à ficha dos candidatos.

Lula mesmo foi reeleito no calor do escândalo do mensalão e do caso dos "aloprados", pegos em flagrante de compra de dossiê contra seu principal adversário.

Severino Cavalcanti elegeu-se prefeito no interior de Pernambuco depois de sair da presidência da Câmara por corrupção (como sucessor de João Paulo), José Roberto Arruda recebeu mandatos de deputado e governador carregando pesadas acusações às costas e vários mensaleiros denunciados em 2005 voltaram à atividade pelo voto em 2006.

Em suma: o alto lá que o STF vai assentando pode muito no balizamento do futuro, mas não pode tudo. E não terá o esperado efeito saneador se o eleitor continuar a reincidir na concessão de seu voto a gente a respeito de quem se pode dizer qualquer coisa, menos que esteja acima de qualquer suspeita.

Autoengano. Não é de hoje que o PSDB atribui seus revezes aos programas do horário eleitoral. A justificativa não obstante confortável, ignora fatores realmente decisivos.

Partido unido, sintonizado com o eleitorado, atento às demandas da sociedade, presente nos debates fundamentais e na posse de posição clara sobre temas de interesse nacional pode até perder eleição, mas não será por obra de erros do marqueteiro.

Já partido desunido, dissociado do eleitorado, desatento às demandas da sociedade, ausente nos debates fundamentais e sem posição clara sobre temas de interesse nacional dificilmente ganha eleição por mais genial que seja o departamento de propaganda.

31 de agosto de 2012
Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

IMAGEM DO DIA

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  • O deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP)(c) sai de reunião no Sindicato dos Comerciários de Osasco e Região, na Grande São Paulo, na manha desta sexta- feira (31)
    O deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP)(c) sai de reunião no Sindicato dos Comerciários de Osasco e Região, na Grande São Paulo, na manha desta sexta- feira (31) - Renato Silvestre/AE
     
    31 de agosto de 2012

    'ESTA CADEIRA ESTÁ OCUPADA' - RESPONDE OBAMA A EASTWOOD

    Ator e diretor de cinema fez discurso com cadeira vazia atacando o presidente

    Obama sentado na cadeira presidencial
    Obama sentado na cadeira presidencial (Reprodução/ Twitter)
     
    O presidente americano Barack Obama respondeu com provocação o discurso do ator, diretor de cinema e republicano convicto Clint Eastwood a favor de seu rival nas eleições de novembro, Mitt Romney. A resposta veio através de um tweet com uma única frase e uma foto.

    Leia mais: Obama x Romney: Quem são e o que defendem os candidatos à Casa Branca
    “Esta cadeira está ocupada”, escreveu Obama, em alusão à conversa simulada por Clint Eastwood na noite de quinta-feira, quando o ator falou a um presidente imaginário diante de uma cadeira vazia. A foto anexada ao tweet mostra Obama sentado em uma cadeira identificada como ‘o presidente’.

    Eastwood roubou a cena na convenção do Partido Republicano em Tampa, na Flórida, na qual Romney foi oficializado como candidato do partido. Ele levou seu carisma e sua voz grave como orador para "esquentar" a plateia antes do discurso de Romney.

    Stan Honda/AFP
    Clint Eastwood conversa com cadeira vazia

    A aparição dele, incluindo o improvisado monólogo com o Obama imaginário na cadeira vazia, empolgou muitos espectadores, mas foi bastante criticada por observadores de todo o espectro político. "Clint, meu herói, está parecendo triste e patético", disse o lendário crítico de cinema Roger Ebert no Twitter. "Ele não precisava fazer isso consigo mesmo." A frase "Obama invisível" se tornou viral na Internet, e fotos de pessoas com cadeiras vazias encheram o Twitter, mas muitos republicanos se mostraram verdadeiramente empolgados com a performance.

    Discurso - Eastwood, de 82 anos, ganhador do Oscar como ator e diretor, declarou apoio a Romney neste mês. Depois de subir ao palco sob a música-tema do clássico faroeste "Três Homens em Conflito" (The Good, The Bad and The Ugly), Eastwood iniciou um discurso em que, com feição impassível, se alternava entre as críticas mordazes contra Obama e declarações de apoio a Romney, a quem elogiou por sua atuação empresarial "impecável".

    Mas em vários momentos ele parecia quase incoerente, saltando de tema em tema -- a economia, a guerra no Afeganistão, a prisão militar de Guantánamo. A certa altura, afirmou que "nunca achei que seria uma boa ideia que advogados sejam presidentes", aparentemente alheio ao fato de que Romney é formado em direito.

    Num momento mais lúcido, Eastwood --entortando os olhos, com o rosto magro emoldurado por seus cabelos grisalhos e desalinhados-- disse à multidão inflamada: "Quando alguém não faz o trabalho, temos de mandar embora". Ocasionalmente, ele dava uma bronca na cadeira vazia, mandando que o Obama imaginário "calasse a boca".

    Assista ao vídeo em que Eastwood conversa com presidente imaginário (em inglês):


    (Com agência Reuters)

    31 de agosto de 2012

    O PREÇO DE JOÃO PAULO CUNHA

    Pouco antes do choro a portas fechadas com os dirigentes do PT na quinta-feira, o mensaleiro João Paulo Cunha apresentou sua fatura para oficializar a (inevitável) desistência da candidatura a prefeito de Osasco.


    Numa clara demonstração de que a condenação por corrupção não abalou sua desenvoltura em fazer política por meios sub-reptícios, cobrou a manutenção de cargos na Ceagesp, o maior entreposto de distribuição de alimentos da América Latina, vinculado ao Ministério da Agricultura, e que o PMDB já trabalha para abocanhar caso o PT perca a hegemonia em Osasco.

    Leia também
    João Paulo vai recorrer no STF contra condenação por lavagem de dinheiro

    O braço de João Paulo na Ceagesp é a irmã, Ana Lúcia Cunha Pucharelli, que comanda todo o setor de Recursos Humanos. Hoje, mais de dez cargos de chefia são ligados ao PT, entre eles o diretor-presidente, Mário Maurici.

    Maurici ingressou na política em Franco da Rocha (Grande SP), onde foi prefeito, e fez carreira em Santo André como secretário do prefeito Celso Daniel (morto em 2002). É homem do ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência).

    Há tempos, a Ceagesp é um cabide de petistas. Até um sobrinho do ex-presidente Lula tem cargo na empresa: Edison Inácio Marin da Silva é responsável pelo departamento de entrepostos da capital.
    Por fim, João Paulo emplacou, como esperado, o vice na chapa em Osasco, seu aliado Valmir Prascidelli (PT).

    31 de agosto de 2012
    (Silvio Navarro, de São Paulo)

    O CÍNICO OTIMISMO DE GUIDO

    Guido Mantega: otimista delirante


    Sempre que confrontado com os índices raquíticos do crescimento econômico, o ministro Guido Mantega diz que o futuro será melhor.
     
    31 de agosto de 2012

    A LONGA NOITE DA ESTRELA VERMELHA


              Artigos - Movimento Revolucionário 
           
    maostalinMao falava em dizimar metade do povo chinês. Ele dizia que isso tinha acontecido várias vezes na história da China – e em todos os seus projetos para progredir metade da China poderia muito bem ter de morrer.

    Foi o mesmo com Stalin. Quando ele disse a Churchill “nós destruímos os kulaks, 10 milhões deles morreram”, ele estava mostrando quem era. Ele estava muito feliz por essas pessoas terem sido exterminadas.





    Nota do tradutor:

    Daniel Johnson, que conduziu esta conversa, é filho do famoso historiador Paul Johnson e editor e fundador da revista mensal inglesa Standpoint.
    Jung Chang e Jon Halliday são autores de “Mao: a história desconhecida”, uma biografia de Mao Tse-Tung. Simon Sebag Montefiore é autor de “O Jovem Stalin”, sobre a juventude do ditador soviético, e “Stalin – A Corte do Czar Vermelho”, sobre Stalin, seus aliados e seus amigos e parentes próximos durante os anos de poder.

    Daniel Johnson: Têm sido lançados muitos livros sobre Hitler e Stalin, mas em geral Mao e Stalin não são tão comparados entre si. Seria um bom começo analisar de onde estes dois impressionantes ditadores vieram.

    Simon Sebag Montefiore: Bem, Khrushchev, que os conheceu muito be
    m, por um longo período de tempo, disse numa frase famosa que eles eram completamente idênticos.

    Jung Chang: Sim, e é claro Mao Aprendeu muito de Stalin – basicamente como ele governou a China. Seus métodos, mesmo nos mais mínimos detalhes, são coisas que ele aprendeu com Stalin. Ele disse que Stalin era seu mentor, e ele sabia do que falava.

    SSM: Até onde se sabe sobre sua infância, Stalin foi brutalizado enquanto era educado. Ele era espancado por seu pai por frustração, e ele era espancado por sua mãe por amor, para ser disciplinado. Ele cresceu em uma cidade dominada pela violência, e numa cultura que valorizava violência. Ele cresceu com uma mistura muito estranha de traços pessoais que têm por um lado uma arrogante autoconfiança e por outro lado um enorme complexo de inferioridade e uma hipersensibilidade sobre seu próprio papel.

    JC: A Infância de Mao foi realmente uma infância idílica. Ele se queixava de seu pai no final da vida, mas na verdade seu pai não era um tirano. Eu acho que Mao tinha algum complexo de inferioridade em sua adolescência e juventude. Ele foi para Pequim e Xangai, para aquelas cidades cosmopolitas quando ele era jovem. Ele não foi tratado como uma estrela, mas sim como um provinciano. Mas o fato que ele tinha um complexo de inferioridade não explica sua posterior monstruosidade.

    SSM: Hitler também foi espancado pelo pai e teve uma infância infeliz nesse sentido, mas milhões de pessoas têm infâncias infelizes e pais abusivos e é claro que a maioria delas não se torna titãs históricos e mundiais. Eu acho que no século de Freud nós temos prestado atenção demasiada às infâncias destas pessoas. Tão importante no caso de Stalin, eu penso, foi o submundo conspiratório em que ele viveu na maioria de seus anos de formação, a partir dos 18 anos de idade. E também muito importante no caso dele foi sua educação religiosa.

    JC: Em 1927, quando Mao tinha 33 anos, ele teve contato com stalinismo, e nesse ano ele também começou a se engajar na violência. E eu penso que antes que o stalinismo o transformasse, a atitude de Mao em relação a violência era mais a de um chinês tradicional. Houve muitas atrocidades e atos de violência cometidos, mas as pessoas não achavam que essas coisas estavam certas. O stalinismo deu a violência uma justificativa ideológica: subitamente Mao e outros comunistas chineses receberam instruções de Moscou: “Terror é o que queremos”. Você sabe, “mate, mate, mate, queime, queime, queime” – estes eram os reais slogans. Você não pode ser um comunista sem ser brutal. Então eu penso que isso foi uma revelação para Mao: você pode ser brutal, você pode ser violento, e você pode se sentir plenamente justificado.

    SSM: Stalin começou muito mais jovem. Quando iniciei “O Jovem Stalin”, pensei que não haveria assassinatos no livro. Mas eu descobri que muito cedo na vida – 22 anos mais ou menos – Stalin já tinha liquidado supostos traidores. Obviamente ele depois passou a milhões, como Mao, mas nesse tempo ele era apenas uma pessoa sem uma posição fixa. Com Stalin havia uma combinação de personalidade, tradições georgianas e também estudos sobre a violência na história: estudos sobre o Terror, a Comuna de Paris, Robespierre, etc.

    Uma coisa que eles tinham em comum era que ambos estudavam história vorazmente desde uma tenra idade. Isso foi muito importante. Stalin adorava Robespierre – ele usava “Robespierre” como um elogio – mas ele também adorava o czar Ivan o Terrível e Xás persas como Nader Shah, que era famoso pela brutalidade.
    JC: Sim, na grande biblioteca de Mao a maioria dos livros é sobre imperadores chineses, e muitos sobre os mais terríveis imperadores chineses. O passatempo favorito de Mao era ler sobre história. Ele tinha dessas enormes camas, cuja metade tinha altas pilhas de livros para que ele pudesse acordar, rolar, pegar um livro e começar a ler.

    SSM: Stalin, no auge do Grande Terror, comparou-se a Ivã, o Terrível, dizendo que o melhor dele era ter liquidado a maioria dos boiardos, ponderando que Ivã deveria ter liquidado todos eles. Ele considerava Ivã seu “professor”. Andando no Kremlin, ele teria dito: “Ivã andou por aqui”. Mao e Stalin comparavam-se continuamente a pessoas assim, mesmo sendo dedicados comunistas de um sistema onde eles teriam matado quem usasse qualquer comparação semelhante.

    JC: Nos dois últimos anos de sua vida, quando Mao estava se identificando com todos aqueles imperadores, ele nem uma vez se identificou com qualquer outro líder comunista, com exceção de Stalin.

    SSM: Eu não penso que isso tem sido apreciado como merece: Mao deitado na cama como líder supremo, dando uma orientação muito oblíqua para as pessoas que ninguém conseguia entender, mas em verdade gastando voluntariamente todo seu tempo lendo nessas casas. Stalin dos anos 20 em diante foi muito semelhante. A ironia é que Trotsky sempre disse que Stalin era um burocrata produtor de documentos, que todos acreditavam estar em sua escrivaninha a cada minuto, escrevendo documentos. Na verdade isso acontecia muitas vezes à beira-mar ou em sua casa. As pessoas que foram à sua casa diziam que toda a superfície estava coberta com revistas acadêmicas, revistas literárias, revistas históricas, livros meio lidos. Então, houve uma grande semelhança na forma como eles deram informações e orientações para o seu povo.

    JC: Sim, Mao, eu penso, aprendeu esta maneira de administrar de Stalin.

    SSM: E geralmente pessoas como Lin Piao e Molotov saiam sem ter certeza do que tinham realmente ouvido. Eles tentavam adivinhar.

    DJ: É verdade que Mao criticava Stalin pela adoção dos clássicos europeus e russos, em vez de simplesmente acabar com eles completamente? Ele pensava que Stalin, em outras palavras, não tinha sido cruel e radical o suficiente?

    JC: Mao era muito mais dedicado à destruição da cultura chinesa que Stalin à destruição da cultura russa. Quando Mao lançou a Revolução Cultural em 1966, ele basicamente liquidou a cultura dos lares das pessoas. Os tesouros da Cidade Proibida foram preservados, mas nas casas das pessoas você não tinha permissão de ter qualquer coisa. Eu tenho algo que miraculosamente sobreviveu, este prato da coleção da minha avó. Mas a maioria das coisas foi destruída.

    Jon Halliday: Mao tem diferenças e semelhanças com Stalin nesta questão. A ideia de que o velho era perigoso e devia ser destruído era muito mais forte com Mao. Quando os comunistas chineses entraram em Pequim, eles realmente tiveram uma reunião do Politburo para decidir se eles deveriam arrasar a Cidade Proibida, e eles elaboraram listas de monumentos a ser destruídos, e a maior parte da destruição de coisas como as muralhas da cidade antiga, os edifícios e assim por diante, foi realizada nos anos de 50.

    SSM: Obviamente na Rússia dos anos 20 havia aquelas ideias sobre destruir a cultura, matar padres, explodir igrejas, mas isso realmente terminou no começo dos anos 30. Stalin estava na época se tornando cada vez mais conservador, e sua ideia de cultura era muito conservadora. De modo que é uma grande diferença.

    JC: Mao era até mais cínico que Stalin. Mao realmente amava os clássicos chineses, mas o problema era que ele não permitiria sua leitura por um bilhão de chineses. Nos seus últimos anos sua visão estava falhando então ele tinha duas fábricas construídas para imprimir livros em letras grandes para que ele pudesse lê-los, e a tiragem de cada livro era cinco exemplares, todos para Mao. Eu não imagino que Stalin fizesse coisas desse tipo.

    SSM: Não, mas havia um sistema similar porque todos os dirigentes recebiam livros proibidos para todos os demais. Então se você fosse ao apartamento de Kirov [Sergey Kirov, um dirigente soviético aliado de Stalin], por exemplo, ele tinha tudo lá – todos os clássicos, todas as coisas ocidentais. E Stalin dizia alguma coisa muito similar, eu penso que foi para Djilas, quando eles conversaram sobre Dostoiévski. Parte da obra de Dostoiévski era publicada, mas outra parte não, e Djilas perguntou: “Por que censurar tanto de Dostoiévski?”. Stalin respondeu: “Naturalmente, ele era um gênio psicológico, e por isso nós o censuramos”.

    JC: Stalin limitaria sua lista de proibições a coisas que ele considerasse como ameaças, enquanto Mao era mais simples e censurava tudo sumariamente. Eu penso que Mao na verdade queria brutalizar os chineses, desumanizar os chineses, privando-os de qualquer contribuição intelectual e de qualquer representação de sentimentos humanos.
    DJ: Será que ele não flertava com a ideia de privá-los até mesmo de nomes – simplesmente dar-lhes números, como prisioneiros em um campo de concentração?

    JC: Sim, ele flertava. No nosso livro há uma fotografia de camponeses trabalhando num campo, carregando um enorme número costurado nas costas de suas roupas. Em 1958, Mao flertou com a ideia de se livrar de nomes de pessoas, e ele mencionou isso em reuniões do Politburo. Isso não foi feito em parte porque era impraticável – simplesmente havia chineses demais!

    O que também me impressionou foi que, sob Stalin, em um ponto havia cerca de 40 compositores que apresentavam versões do hino nacional. Sob Mao você pode contar os compositores nos dedos de uma mão. O próprio Mao amava óperas chinesas, e ele tinha uma coleção de mais de mil fitas cassete. Ele era como que um connoisseur de óperas chinesas. As óperas chinesas não são como as ocidentais, são para as massas. Mao conhecia muitas óperas regionais de cor e poderia conversar com estrelas da ópera sobre árias com conhecimento de causa, mas novamente o problema era que ele não permitiria que um bilhão de chineses desfrutasse dessas óperas.

    SSM: Eu penso que uma importante parte disso era que Mao foi o Lênin da Revolução Chinesa. Stalin foi o segundo líder. Quando ele chegou ao poder, houve um retorno aos valores russos tradicionais. Mas também Stalin tinha que fazer isso porque, diferente de Mao, que era, mesmo sendo um provinciano de Hunan, um autentico chinês, Stalin sequer era russo. E ainda, um império tão multinacional aumentava a necessidade de russificá-lo, o que significava promover a cultura e a história russas, para reunir tudo em um conjunto. E Stalin pensava muito sobre isso, sobre criar uma nova ideia de nacionalidade.

    Outro ponto era que a Revolução Cultural seria impensável para Stalin. A selvagem desordem disso mostrava a imensa confiança de Mao em sua permanência no poder.

    JC: Mao falava em dizimar metade do povo chinês. Ele dizia que isso tinha acontecido várias vezes na história da China – e em todos os seus projetos para progredir metade da China poderia muito bem ter de morrer. Ele realmente pretendia isso, e também disse: “se não metade da China, digamos 50 milhões”. E ele não estava só fazendo algum tipo medonho de filosofia, ele falava isso a sério porque essa é a base sobre a qual suas políticas foram planejadas.

    SSM: Foi o mesmo com Stalin. Quando ele disse a Churchill “nós destruímos os kulaks, 10 milhões deles morreram”, ele estava mostrando quem era. Ele estava muito feliz por essas pessoas terem sido exterminadas. Mas isso também veio de Lênin. Ambos odiavam os camponeses e eles sempre tiveram genuíno prazer em todas as ocasiões em que os camponeses morriam de fome.

    DJ: De onde é que esse desejo terrível genocida vem? Seria da completa ausência de restrições morais, de qualquer tipo de respeito a uma lei maior?

    JC: Na tradição chinesa, o governante indiferente em relação à vida do seu povo não foi glorificado. Ele é considerado ruim. O primeiro imperador foi considerado como um imperador ruim. Os critérios chineses tradicionais para um imperador ser bom é considerar o quanto ele se preocupava com seu povo, portanto, nesse sentido Mao também fez uma ruptura total de valores tradicionais chineses.

    JH: Ele rejeitou todos os valores morais, de fato. A maior parte dos mortos por Mao realmente eram parte de dois grupos. Um era exterminado por ser parte das consideradas classes inimigas, o que é inerente ao comunismo. E há também o grupo, muito maior, das pessoas simplesmente consideradas dispensáveis.

    JC: Não foi por acaso. Mesmo que as vítimas não fossem inimigos reais, Mao ainda queria que morressem porque isso geraria terror, e terror é inerente ao bolchevismo.

    SSM: Certamente. O bolchevismo sempre foi sanguinário. Mesmo antes de tomar o poder, eles falavam continuamente sobre o terror. Então eu penso que Jon está absolutamente certo, o terror era inerente a todo o projeto, desde o início, na ideologia. Então, se você aceitasse o bolchevismo, o marxismo, o leninismo, como quer que você queira chamá-lo, você saberia que teria que matar um grande número de pessoas ao acaso por causa da suposta classe dessas pessoas. E eles nunca tinham certeza em que classe alguém está. A pessoa no topo dava diretrizes básicas, daí descia para as aldeias, e lá eles simplesmente matavam pessoas. Alguém decidia usando um critério qualquer que valeria para aquele dia.

    JC: Sim, para gerar medo, que é como eles perpetuavam seus regimes.

    SSM: Você estima que Mao matou 70 milhões?

    JC: Sim, pelo menos 70 milhões.
    SSM: Eu penso que Stalin matou de vinte a vinte e cinco milhões. Claro que quando alguém fala sobre esses números, esse alguém está quase entrando no mesmo mundo em que eles existiram, porque não temos muita certeza se um número está mais perto de dez milhões ou de cinco milhões: nós, tentando estimar seus crimes, estamos em um mundo onde se perde um milhão aqui, cinco milhões ali...

    DJ: Sim, é verdade, e isso nos põe face a face com o mal absoluto. Porque em ambos os casos não houve verdadeiro sentido de remorso, ou “temos que sacrificar essas pessoas para o bem maior”. Ambos parecem completamente sem arrependimentos, até o dia em que morreram, e de fato trataram seus próprios amigos mais próximos e familiares e comitiva tão mal quanto eles trataram estranhos.

    SSM: Bem, ambos consideravam a si mesmos como a personificação da história, e à história como uma máquina colossal e cruel, a qual ambos estavam conduzindo, o que eles sentiam quase representado em si mesmos e em suas personalidades. Eu não sei se realmente Stalin disse as famosas palavras sobre uma morte ser uma tragédia e um milhão de ser uma estatística, mas é muito próprio de seu típico humor negro.

    JC: Eu acho que Mao havia realmente eliminado as culpas de sua consciência quando ele era jovem de 24 anos, quando ele escreveu estas notas sobre um filósofo alemão pouco conhecido chamado Paulsen. Mao dizia que tudo o que fosse para a pessoal satisfação é automaticamente moral. Ele recusava explicitamente a se submeter à consciência, dizia que a consciência estava lá “para ajudar você a satisfazer os seus desejos”. Ele não considerava a consciência como algo que te detém. Então, ele estava completamente despreocupado com todos esses assassinatos e esse derramamento de sangue. Em seus últimos anos ele estava sempre chorando, mas ele estava sempre chorando por si mesmo, porque seus sonhos não foram cumpridos. Ele nunca derramou uma lágrima para os 70 milhões de pessoas que pereceram sob seu domínio.

    Talvez haja uma punição psicológica para esse tipo de ausência total de piedade e remorso. Mao sofria de medo intenso – mesmo no auge de seu poder. Na véspera de conquistar a China, ele desenvolveu uma tremedeira grave. Ele era alto, tinha mais de um metro e oitenta, e ele tremia como uma folha quando via um estranho. Ao longo de seu governo de 27 anos ele viveu em seu próprio país como se fosse uma zona de guerra. Ele vivia constantemente com medo de ser assassinado.

    SSM: No período pós-guerra, Stalin realmente era paranóico, mas sua paranoia não era completamente absurda. As pessoas sofriam atentados – Lênin em 1918, vários embaixadores e Kirov em 1934 – e quanto mais pessoas você mata, mais pessoas te odeiam. Então ele tinha toda razão.

    Stalin era exatamente igual a Mao em sua crença de que tudo o que ele quis e o que ele fez, era em si moral, era seu direito e era para o bem do país, do povo e da revolução e assim por diante, e ele tinha muito poucas dúvidas sobre isso, embora ele constantemente realizados saltos enormes de política e mudanças de pessoal e assim por diante.

    Mas uma coisa que talvez seja uma pequena diferença é que ele tinha momentos de um estranho, distante arrependimento, não culpa, em relação às pessoas que ele tinha matado. Depois da guerra, ele costumava sentar-se à noite em sua varanda e conversar com as pessoas, dizendo que ele lamentava que várias pessoas tivessem sido mortas por seus lacaios, ou perguntando distraidamente a Beria se algum indivíduo estava vivo ou não, como se as mortes nada tivessem a ver com ele e como se ele não tivesse organizado a coisa toda. E as pessoas que conversavam com ele achavam isso muito sinistro, e também se sentiam um tanto confusas. Elas não conseguiam compreendê-lo. E também, depois da Grande Guerra Patriótica, ele falava sobre como cada família tinha sofrido tragédias e perdas, mas se isso era de algum modo autentico nele é duvidoso. Como Mao, sua única preocupação era com ele mesmo. Suas duas esposas morreram, uma em 1907 e outra em 1932 (no segundo caso por suicídio) e nos dois casos ele desmoronou. Mas na verdade ele pensava nele mesmo, era o seu próprio melodrama que ele estava lamentando, e não a pessoa que ele tinha perdido.

    JC: Sim. Mao parece realmente ter tido um coração de pedra. Eu fiquei atônita entrevistando pessoas próximas de Mao ao saber da total indiferença que ele tinha em relação a sua família. Há uma história que nós contamos no nosso livro sobre quando seu filho morreu. Seu mais velho e único filho mentalmente normal morreu na guerra da Coreia e Mao não mostrou qualquer sinal de tristeza. E por dois anos e meio essa notícia não foi dada a jovem viúva de seu filho, que passava todos os fins de semana e férias com Mao. Ela não perguntava a razão de não receber nenhuma carta porque estava acostumada com o sigilo comunista, mas também porque Mao não dava sinais que indicassem para ela que alguma coisa tinha acontecido com seu marido. Por dois anos e meio Mao falava sobre o filho de tempos em tempos e mesmo brincava sobre isso, como se falassem de alguém ainda vivo, então ela não tinha ideia de que ele estivesse morto.

    Fiquei intrigada com isso no começo, mas então eu percebi que Mao provavelmente achava a companhia dela relaxante. Mao não queria alguém infeliz como companhia, então ele nada disse para ela.

    SSM: Uma coisa que era realmente imperdoável na corte de Stalin era quando as pessoas estavam a sós com ele e eram subitamente tentadas a mencionar que um de seus entes queridos tinha sido preso e apelar por sua libertação – isso era simplesmente a morte absoluta, porque ele estava relaxando e era totalmente inaceitável para qualquer um mostrar amargura, não importa o que tivesse acontecido. Houve mesmo uma grande cena em que Stalin visitou a família de Kavtaradze, e a esposa tinha sido torturada, quase até a morte, o marido havia sido condenado à morte e depois perdoado, e ele chegou e perguntou: “eles te torturaram” e ela disse, “sim”, e ele disse: “bem, há muitos capangas em nosso país”. E subitamente ele disse, “mas como você se sente sobre isso?”, E isto era uma armadilha perigosa, porque se ela tivesse dito que ela estava magoada com isso de algum modo, estou certo de que ela teria sido presa novamente dentro de alguns dias. Mas ela foi inteligente e disse: “Vamos ignorar quem guardar algum rancor sobre isso.” Ela sobreviveu a Stalin.

    Stalin é sempre considerado como um tipo de pessoa impassível e sombria, sem expressão, sem personalidade – essa era sua imagem, o homem de aço. Mas na verdade quando você olha para ele – e eu acho que era igual com Mao, no sentido de que ambos eram bons em melodramas – Ele tinha um grande senso de teatro e de sua própria performance, e eu penso que quando tragédias aconteciam, ele gostava de desempenhar papeis. Na sua velhice Stalin passou a gostar de filmes de faroestes. Ele adorava John Wayne e eu acho que era realmente assim que ele se via. Ele realmente gostava desses filmes, porque ele se via como um homem sem nome a cavalo numa cidade, com nada além de um rifle para fazer justiça, um homem sem família nem ninguém que o amava.

    JC: Autopiedade!

    SSM: Uma solitária autopiedade, mas também um homem justo que fazia justiça brutalmente e aí deixava a cidade. Isso era realmente como ele se via na história e era também a romantização de sua própria crueldade.

    JC: Mao também, a sua maneira diferente. Ele não gostava particularmente de faroestes, ele não assistia muitos filmes

    SSM: Mas a autoimagem era a mesma.

    JC: Sim, ele cultivava este sentimento, lendo poesia chinesa. Ele, é claro, escreveu poesia.

    JH: A minha opinião é que realmente os primeiros poemas de Mao são muito bons, e os posteriores, quando ele chegou ao poder, não são tão bons. Eu penso que Moravia na Itália fez uma edição de poemas de Mao. De fato, sua poesia foi algo que fez as pessoas pensarem muito bem dele.

    JC: Sim, muitas pessoas dizem: “Oh, Mao era um bom poeta”, como se isso fosse incompatível com ele ser um assassino em massa. Mas não há contradição. Ele pode ser um bom poeta e também ter assassinado dezenas de milhões de pessoas.

    SSM: Bem, com Stalin minha impressão é que seus poemas são excelentes, mas eles estão em georgiano e eu não os posso ler. E muita gente ajudou Stalin por causa deles. Seu grande assalto a um banco em Tiflis, em 1907, o que o fez conhecido, seu primeiro grande ato que foi manchete no mundo todo – o agente infiltrado no banco o ajudou porque ele admirava muito Stalin como poeta, o que é algo inacreditável.

    DJ: Como esses homens foram vistos no ocidente?

    JC: Uma razão para a influência de Mao no Ocidente é que ele era bom em autopromoção. A imagem benigna dele no Ocidente começou com Edgar Snow, o qual Mao teve problemas em selecionar. Não foi acidental absolutamente que Edgar Snow foi até onde estava Mao e entrevistou-o. E Mao insistiu em editar cuidadosamente o que Edgar Snow diria. Quando o livro de Snow causou alguma sensação no Ocidente, Mao o tinha traduzido para o chinês, e lhe deu o título bastante neutro de “Jornada rumo ao Ocidente” em vez de “Estrela Vermelha sobre a China”, que em chinês soava muito... bem... vermelho. Então Mao tinha sido publicado na China no final de 1930, e esses livros influenciaram uma ou duas gerações de jovens chineses radicais, incluindo os meus pais. Outra grande onda de autopromoção foi em 1960, no auge da fome. Só nesse ano mais de 20 milhões de pessoas morreram de fome. Naquele ano, Mao começou a gastar muito dinheiro no exterior, financiando organizações de esquerda para tentar influenciar as pessoas. Isso, na verdade, é um campo enorme e pouco conhecido que precisa de um estudo cuidadoso.
    Ele começou a se promover nesse ano, 1960, porque ele decidira romper com Khrushchev. Ele tinha que fazer isso porque senão ele não poderia começar o seu movimento maoísta. Foi neste ano que ele começou sistematicamente a promover seu próprio culto a personalidade no mundo.

    DJ: E ele já tinha a bomba atômica na ocasião, ou quase.

    JC: Ele estava otimista demais, o que explica em parte por sua indústria nuclear não foi tão bem como ele queria. Tinham-lhe dito que ele tinha todas as coisas necessárias para a bomba. Ele não sabia que seus cientistas eram demasiado otimistas sobre os mísseis. Ele não tinha a tecnologia de mísseis necessária.

    Quando ele rompeu com Khrushchev, ele queria duas coisas incompatíveis. Uma delas era descartar Khrushchev e estabelecer o seu próprio movimento no mundo, e a outra era continuar a receber tecnologia e equipamentos de Khrushchev. Ele não poderia ter ambos. No fim, quando Khrushchev foi deposto Mao enviou Zhou Enlai à Rússia para tentar obter a tecnologia de Brezhnev. Foi então que Malinovski, o ministro da Defesa da Rússia, disse a Zhou Enlai e ao ministro interino da defesa da China, Ho Long: “Por que vocês não se livram de Mao como nós nos livramos de Khrushchev?” Isso foi um momento muito importante na história chinesa, pois desempenhou um grande papel no desencadeamento de toda Revolução Cultural. E então Mao, é claro, se recusou a ter qualquer coisa a ver com a Rússia, mesmo querendo muito os mísseis.

    DJ: A China e a Rússia não podem se livrar do legado destes dois grandes monstros? Se não, por quê?

    JC: Na China de hoje o retrato de Mao está ainda na Praça Tiananmen, sobre o Portão de Tiananmen. O seu cadáver mumificado ainda está no centro da capital chinesa para que as pessoas o adorem, e ele é descrito na Constituição Chinesa como a força orientadora da China. Embora o chinês hoje se sinta muito mais livre para criticar os seus líderes atuais, eles ainda são inibidos demais para criticar o presidente. A maioria das pessoas tem um grande medo de Mao profundamente enraizado em sua psique. Assim, a posição de Mao é bastante diferente da de Stalin. O importante é que a imagem de Mao ainda é cultivada oficialmente. Claro que o atual regime rejeitou a maior parte do legado de Mao, mas eles também têm mantido alguns dos mais cruciais. Um deles é o controle dos meios de comunicação e da liberdade de expressão, que na China é pior agora do que cem anos atrás.

    SSM: A Rússia é muito diferente porque, é claro, Khrushchev denunciou Stalin e ele foi retirado do Mausoléu por volta de 1961. Mas algo muito estranho tem acontecido porque Stalin se considerava tanto como uma espécie de Czar Vermelho quanto como o sumo pontífice do marxismo, mas aos poucos o marxismo tem sido deixado de lado. O comunismo foi expulso e o regime atual não é de jeito nenhum comunista. Mas é muito imperial, é muito obcecado com o poder estatal de uma forma que Stalin ainda teria compreendido. Stalin foi totalmente denunciado no início de 1990, todos os seus crimes foram revelados, todos os arquivos abertos, o que mostrou as coisas em termos totalmente diretos e francos – listas de pessoas mortas, as centenas de milhares e aos milhões, de forma aleatória. Todo mundo está esquecendo isso agora, e no início do século 21, vemos a grande ironia: este internacionalista nascido georgiano está gradualmente se tornando o símbolo do poder russo, do sucesso imperial russo.

    Se você conversar com as pessoas, não apenas idosos, mas pessoas jovens, de geração de Putin, por exemplo, ou mais jovens ainda, você percebe que eles veem Stalin como o líder mais bem sucedido da Rússia. Há uma frase de um livro endossado por Putin que diz: “Stalin foi o líder mais bem sucedido da Rússia no século 20” – o que é inegavelmente verdade, com certeza, se você considerar seu poder da mesma forma que você consideraria Genghis Khan como um homem de grande sucesso por antigos critérios, critérios que as pessoas usavam antes do século 20, antes de introduzirmos considerações morais nessas questões. E o livro também diz que Stalin teve que usar o terror simplesmente para ter certeza de que a burocracia e as elites obedeceriam ordens. O império que ele deixou, se estendendo de Berlim à Mongólia, era maior que o império de qualquer czar. Então eu penso que Stalin, este georgiano que nem mesmo era russo, acabará sendo chamado de “Stalin, o Grande” nos livros russos. Eu pensei que isso levaria 50 anos, mas está acontecendo agora.

    JC: Sim, na China nosso livro foi publicado em edições clandestinas, e as pessoas também o têm escaneado em sites pessoais para download, daí há vários comentários sobre o livro. E enquanto muitos dizem o quanto Mao era terrível, há também pessoas dizendo basicamente o que, segundo você, os russos dizem sobre Stalin: “Mas o presidente nos deu a bomba atômica”, como se a morte de dezenas de milhões de pessoas valesse a pena porque ganhamos a bomba atômica.


    31 de agosto de 2012
    Daniel Johnson

    Publicado na edição de junho de 2008 da revista Standpoint.
    Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras - Tradução Francês da UnB.