"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 20 de janeiro de 2013

É OU NÃO É A CASA DO ESPANTO?

Suplicy e seu Museu do Absurdo


Sem consultar ninguém, o senador Eduardo Suplicy convidou Chambinho do Acordeon, que interpreta Luiz Gonzaga no filme Gonzaga ─ De pai para filho, para apresentar-se no Congresso nesta segunda-feira.
Alegando impedimentos regimentais, o senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), que presidia a sessão, proibiu a ampliação do imenso acervo de odes à insensatez, monumentos ao besteirol e hinos à cretinice acumulados pelo parlamentar paulista.

Confiram algumas peças do Museu do Absurdo fundado por Suplicy:


Outubro de 2012, em Diadema: interpretando mais uma vez Blowing in the Wind, de Bob Dylan.

Junho de 2012, no Senado: fantasiado de Robin Hood, o parlamentar do PT paulista defendeu a criação de um fundo internacional destinado à erradicação da pobreza, financiado por recursos oriundos de uma taxa sobre operações financeiras.

Novembro de 2010, no Senado: interpretando a canção Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores em homenagem ao autor Geraldo Vandré


Agosto de 2009, no Senado: interpretando Father and Son, de Cat Stevens, em homenagem ao Dia dos Pais

Agosto de 2009, no Senado: exigindo aos berros a renúncia de José Sarney.

Outubro de 2009, no Congresso: abrilhantando o programa Pânico na TV como astro convidado
 

Maio de 2007, no Senado: cantando o rap Homem na Estrada, do grupo Racionais, durante a sessão que analisou o projeto de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.

20 de janeiro de 2013
 

A CONFRARIA DOS GALETOS PODE REDUZIR A SOLIDÃO DOS CHEFES ENJAULADOS


Um dos participantes do 'Jantar 470', ou A Ceia dos 171 (Foto: Roberto Jayme/UOL)

A corrupção pode ter limites. Por exemplo, com condenações e cadeia.
A burrice e estupidez costumam ultrapassar a capacidade de armazenamento que cérebros sem neurônios demonstram ter.

A indecência e imoralidade, estas sabemos que é doença.
O PT (com o nome fascista de “Juventude Petista”, que tem como idealizador e incentivador Delúbio Soares) resolveu demonstrar, na prática, a teoria dos postulados aqui elencados.

Quando, de modo indecente e imoral, muares de estupidez evidente resolvem defender condenados por corrupção, prestes a serem presos, só temos uma classificação: são petistas!

Reunidos em uma galeteria de Brasília, 80 representantes (a crer no chefe dos novos “camisas verdes”, agora de esquerda) da maioria dos petistas no Brasil pagaram entre R$ 100,00 e R$ 1.000,00 para serem filmados e expostos ao país, sem direito a esconder os rostos. O “Jantar 470″ (ou A Ceia dos 171) serviu como motivo de galhofa e espanto.
Haja galeto!

Um dirigente sindical de Brasília se alegra ao informar que comprou 10 convites de R$ 100,00 (fica a dúvida: porque não comprou logo um de R$ 1.000,00? Para fazer crescer o número de adesões? A mentira está mesmo enraizada no lulopetismo). E avisa que irá atrasar as prestações da casa própria em nome desta contribuição a Zé Dirceu, Delúbio, João Paulo e Genoíno (outra dúvida: ninguém vai ajudar o Pizzolatto e o neo-petista Valério: não é injusto?).

Os assistidos pelo prestimoso companheiro sindicalistacertamente estão comovidos. Entre baforadas de cubanos e doses de puro malte, observam de longe (em alguma mansão do interior de SP ou apartamentos do companheiro Palocci, de alto valor e desocupados) a confraria dos galetos pingando os tostões para cobrir a multa imposta pelo STF.

Cada um tem o direito de fazer com o dinheiro o que quiser. Por mais que, em muitos casos, este dinheiro seja nosso. Mas isto é assunto para outro comentário.

O que não se pode dar direito a ninguém é a tentativa de emporcalhar a Justiça. Em nome da manutenção do butim ou da inocência já negada.

Querem ser solidários? Façam uma escala de visitas diárias aos companheiros na jaula, para que não se sintam sós. Ou assumam os crimes cometidos pelos chefes. Não é assim no pensamento único? No dito centralismo democrático? Por que não assumem os delitos cometidos pelos chefes?

O chefe maior comia balas Juquinha na greve de fome. E tinha até lula à dorê encomendada pelo carcereiro. Hoje o PT parece se contentar com galetos. A R$ 1.000,00!
Só não entendo como simples trabalhadores podem pagar R$ 1.000,00 para comer galetos. Certamente estão sobrando fundos. E faltando vergonha.

Foram 80 heróis. Lá na avaliação deles.
Já houve dia que uma ordem de Dirceu e Delúbio mobilizou um público maior.

PS: Rose mandou avisar que não frequenta galeterias. Aprendeu com o namorado ─ quem seria? ─ que paladares delicados só aceitam magret de pato ou, no máximo, filé de avestruz. Só por isso não foi. (Ela também tem dúvidas de quanto irá precisar arrecadar ─ para ela mesma…).

20 de janeiro de 2013
REYNALDO ROCHA

OS SETE PECADOS DA CAPITAL

 

 
Os pecados capitais são sete, mas tratemos do primeiro:
a Gula.
 
A gula com que meteram a mão no dinheiro público, conforme demonstrado pelo Supremo Tribunal Federal.E a maneira de reduzir o incômodo na parte do corpo que mais doi entre os condenados do Mensalão:
o bolso.
 
Pois não é que a primeira iniciativa em favor dos mensaleiros foi apelar à gula dos aliados para arrecadar mais algum, que ajudasse os coitadinhos a pagar a multa a que foram condenados?
Não deu certo:
só os integrantes do núcleo político do Mensalão, João Paulo Cunha, José Genoíno e José Dirceu, foram condenados a multas de R$ 1,5 milhão (fora as penas de prisão).
No banquete de arrecadação de fundos, cada participante pagou entre R$ 100 e R$ 1.000; deste valor, devem deduzir-se R$ 46, cobrados pelo restaurante. Como havia 170 convites, a arrecadação máxima possível seria de menos de R$ 110 mil - isso se não houve também dedução da taxa de serviço para remunerar os companheiros garçons. Falta dinheiro.
E ninguém pensou ainda no condenado às maiores multas, o companheiro Marcos Valério! Mas, cá entre nós, houve um erro sério:
o tempo dos franguinhos passou, é da época de luta sindical.
Hoje, para entusiasmar os companheiros, é preciso caprichar, trocar a cerveja por bons vinhos, colocar um cardápio de pescados da Capital que atraia os convidados e seus gurus políticos. Truta sempre faz sucesso.
 
Quase todos ali gostam de robalo.
E um prato mais chique, da cozinha francesa:
escargot, por exemplo.
Escargot na entrada, escargot na saída.
A ordem dos fatores É Brasil, é Brasília.
Primeiro eles comem, depois eles jantam
 
Perguntas sem resposta
 
1 - Por que senadores e deputados (estaduais e federais) precisam de um carro à disposição, mais motoristas, com gasolina e manutenção por nossa conta?
 
2 - Imaginando que precisassem, por que a concorrência foi especificada de tal maneira que só dois modelos de automóveis podem concorrer?
 
3 - Por que magistrados precisam de carro oficial? Nos Estados Unidos, só o presidente da Suprema Corte tem direito a carro oficial.
 
4 - O prefeito de Atibaia, bela cidade de 130 mil habitantes perto de São Paulo, deve precisar de carro oficial, pois tem de viajar muito à Capital. Mas precisa de um Ford Edge importado do Canadá, de mais de R$ 130 mil? Da mesma marca, um Ford EcoSport, que custa a metade, não resolveria o problema?
 
5 - Pouca coisa? Some o número de parlamentares, magistrados, prefeitos, multiplique pelo preço dos carros, mais motoristas, mais despesas. É por essas e outras que o dinheiro para atividades essenciais acaba ficando curtinho.
Me dá um dinheiro aí
 
Vereadores e prefeitos andaram promovendo fartos aumentos de salários nessas últimas semanas, pouco se importando com o atendimento das necessidades da população (as cidades serranas do Rio, por exemplo, continuam em ruínas desde as chuvas do ano passado, mas Suas Excelências tiveram bons aumentos).
Até aí, neste país, tudo normal.
 
Mas o prefeito de Nova Iguaçu, RJ, o peemedebista Nelson Bornier, tripudia sobre o cidadão. Seu reajuste foi de 102,1% (algo que o caro leitor dificilmente terá obtido), e ainda disse que este tsunâmico aumento "é digno".
 
Completando:
"É mais do que justo para quem quer fazer trabalho sério e honesto, principalmente no momento em que há gente que vive de corrupção". Ou seja, o corrupto só é corrupto porque ganha pouco. Marcos Valério, pobre moço, se ganhasse melhor não estaria entre os mensaleiros.
O livrinho, ora o livrinho
 
Quando foi presidente da República, o marechal Eurico Dutra, para ajudar a apagar seu papel de homem-forte da ditadura, fazia questão de obedecer rigorosamente à Constituição, à qual chamava de "livrinho".
Quando lhe sugeriam alguma medida, a primeira pergunta que fazia era sobre o que dizia o livrinho. O livrinho, a nossa Constituição, proíbe a censura prévia.
O juiz de Macaé, Estado do Rio, determinou que "obras eróticas" - como, por exemplo, 50 tons de cinza - sejam apreendidas, e só vendidas em embalagem lacrada. Ler trechos na livraria, nem pensar.
Folhear o livro para decidir a compra, não:
o juiz não deixa.
Mas o juiz não se manifestou sobre outro livro não apenas erótico, como também de extrema violência e que viola todos os conceitos de vida em sociedade. Trata de um rei, casado, que se apaixona pela esposa de um de seus maiores amigos, um dos seus generais mais próximos.
Numa guerra, aproveitando a ausência do general, seduz e engravida sua esposa. Para evitar problemas, envia o marido para uma batalha impossível, onde certamente será morto. Seu filho com a adúltera herdará o trono; e terá 700 mulheres.
 
Nome do livro? A Bíblia.
 
Militar na Defesa
 
Com a viagem do ministro da Defesa, Celso Amorim, ao Uruguai, o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, ocupou o Ministério por dois dias.
O que está passando despercebido dos meios de comunicação é que, desde a criação do Ministério da Defesa, no Governo Fernando Henrique, o brigadeiro Saito, profissional sério, competente e respeitado, é o primeiro militar a ocupá-lo.
 
Coluna Carlos Brickmann
23 de janeiro de 2013

E NO BRASIL DECENTE...

O CACHACEIRO PATIFE, PROMÍSCUO, PARLAPATÃO ASQUEROSO : é eleito a personalidade mais corrupta de 2012


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou 2013 vencendo mais uma eleição. Entre as personalidades mais corruptas de 2012, Lula ganhou com 65,69% dos 14.547 votos válidos o Troféu Algemas de Ouro.
Em segundo lugar, com 21,82%, ficou o ex-senador Demóstenes Torres (sem partido) seguido pelo governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB), com 4,55%.
Ironicamente, a segunda edição da premiação organizada pelo Movimento 31 de Julho foi marcada pela fraude. Os organizadores detectaram a utilização de um programa de votação automática que criou perfis falsos no Facebook, que direcionou 38% do total de votos (23.557) para candidatos ligados ao PSDB e ao DEM.

A premiação, que aconteceu na tarde deste domingo no Leblon, Zona Sul do Rio, foi marcada pela descontração. Em clima de carnaval, com máscaras representando os candidatos que disputaram o Algemas de Ouro 2012, os manifestantes elogiaram a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) na condução do julgamento do mensalão e lembraram os feitos históricos de cada concorrente.
Além de Lula, Demóstenes e Cabral, estavam no pleito o senador
Jader Barbalho (PMDB-PA);
os deputados federais Eduardo Azeredo (PSDB-MG)
e Paulo Maluf (PP-SP);
o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior,
Fernando Pimentel,
e sua ex-companheira de Esplanada, Erenice Guerra;
o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (sem partido);
e o empresário Fernando Cavendish.
Depois de eleger poste, o ex-presidente Lula mostra que ainda tem fôlego para ganhar mais eleições daqui para frente. Foram três candidatos que fizeram jus à premiação. Todos eles se destacaram nas páginas do jornal, mas o ex-presidente se sobressaiu. No ano passado, ele foi responsável por um dos momentos mais lamentáveis da história brasileira ao tentar chantagear um ministro do Supremo.
Acho que por sua atuação em 2012, e nem quero lembrar de Valérios e Rosemarys, ele mereceu esse troféu e o cheque simbólico de R$ 153 milhões afirmou Marcelo Medeiros, coordenador do Movimento 31 de Julho.
No último dia 9, os organizadores comunicaram à imprensa e à rede social Facebook plataforma utilizada para computar os votos a tentativa de fraude. A denúncia partiu dos próprios eleitores da enquete que perceberam que parte das escolhas foram feitas por perfis falsos, recém-criados no ambiente virtual.
Não é militância. Se fossem militantes, era válido. O que detectamos foi uma organização criada para fraudar a disputa. Coincidentemente, os votos sempre eram para candidatos da oposição do governo petista e Cabral explicou Medeiros, que prometeu mudanças na plataforma de computação dos votos na próxima eleição.
O Globo
20 de janeiro de 2013

'CRÔNICAS DO FIM DO MUNDO'

 
“Feliz fim de mundo”, dizia a manchete do jornal venezuelano Tal Cual no dia de dezembro marcado para ser o último, com base no calendário maia. De certa forma, o mundo acabou e, de tão felizes, não nos demos conta.

Como baratas que sobrevivem ao inverno nuclear, o PMDB prepara-se para assumir o controle do Congresso Nacional. São os mesmos de sempre, como diz o personagem de Beckett ao perguntarem quem lhe deu uma surra na rua.


O calendário de Marco Maia terminou com uma ação importante: a compra de 1.500 iPads para os deputados. Medida econômica destinada a poupar montanhas de papel. Acontece que os iPads serão pregados nas mesas. É compreensível o medo de serem subtraídos.

Tantos recursos, conhecimento e inovação foram gastos para criar uma tecnologia móvel e os deputados vão usá-la pregada. A esquerda no poder sempre pode argumentar: se a aristocracia reacionária pregou Cristo na cruz, qual o problema de pregar uma conquista tecnológica?

O problema é que, se fizessem um aplicativo para celular, poderiam economizar os iPads, montanhas de papel e, naturalmente, os pregos. Todos os deputados têm celulares e do bolso dos assessores brotam celulares como dinheiro amassado do bolso dos bicheiros.

Do iPad vamos para o Photoshop. É um programa, com muitas funções, para tratar imagens. Com o Photoshop, os políticos sempre parecem mais novos do que sua idade real e as contas, mais arrumadinhas do que autoriza a crise real. Algumas rugas em forma de débito foram suprimidas. Dizem as notícias que as manobras feitas pelo governo para formalizar a maquiagem, mobilizando estatais e o BNDES, deram um prejuízo de R$ 4,7 bilhões, via mecanismo, forçado pela urgência, de comprar ações na alta e vendê-las na baixa.

Na energia, Edison Lobão é a cara do fim do mundo. Ele aconselhou a usar energia à vontade num momento em que os reservatórios estão baixos, as empresas hidrelétricas se desidratam na Bolsa e as térmicas a todo vapor emitem milhões de toneladas de gases de efeito estufa. Em todo o mundo, o conselho dos dirigentes é usar energia com critério e procurar economizá-la sempre que possível.

Lobão é generoso. Como Dilma, que nos promete uma redução de 20% na conta de luz, nesta conjuntura complicada. Como as térmicas encarecem a energia, a única saída será subsidiar uma parte da redução. Parte do que Dilma nos dá com toda a pompa devolvemos silenciosamente ao pagar a conta.

O sistema brasileiro é considerado bom por muitos analistas do setor. Precisa de investimento e gestão. Hidrelétrica fechada há quase 20 anos e central eólica funcionando sem linhas de transmissão para distribuir a energia são sinais de desgoverno. Costumo dizer que Barack Obama escolheu um Prêmio Nobel de Física para a pasta de Energia; quis o destino, graças à coligação vitoriosa, que nosso ministro fosse Lobão.

Os vitoriosos impõem-nos condições constrangedoras. No passado, decisões brasileiras com repercussão continental eram pelo menos comunicadas às Comissões de Relações Exteriores do Congresso. Em alguns casos, falava-se até com a oposição.

A Venezuela está sendo governada por aparelhos. Eles são o vínculo de Hugo Chávez com a vida. Os chavistas poderiam respeitar a Constituição e eleger Nicolás Maduro dentro de um mês. Resolveram suprimir esse caminho, afirmando ser apenas uma formalidade constitucional.

Um assessor especial brasileiro viaja para Havana, discute com cubanos e venezuelanos e afirma: a posição do Brasil é apoiar o adiamento das eleições na Venezuela. Os vitoriosos não deveriam poder tudo. A política externa do Brasil não precisa coincidir totalmente com a do PT. Ela é o resultado de um pacto com a maioria que elegeu Dilma. E quando se trata de decisão de peso é preciso ao menos comunicar à oposição.

Marco Aurélio Garcia encarnou o PT, o governo e o Brasil. Que viagem! Enquanto espera as malas na esteira, proclama: a posição do Brasil é pelo adiamento das eleições na Venezuela.

Com o esfacelamento da oposição, os vitoriosos deixaram de fazer política. Desfilam solitários. Um partido substitui o País, que, por sua vez, é substituído por um assessor especial.

Na crise energética de 2001, fazíamos comissões, íamos ao Planalto, chamávamos o Pedro Parente, responsável pela gestão do problema, ao Congresso. Hoje está tudo morto por lá. E o PMDB prepara-se para roer os escombros. Esses dois momentos em que um setor vital como a energia invade a agenda revelam a devastadora decadência da política no Brasil.

Aos vencedores, as baratas. Pena que a paisagem na oposição seja também tão desoladora. O calor do debate político poderia levar-nos a pensar numa alternativa para tudo isso. A alternativa não é fácil. Os grandes partidos da oposição parecem não se interessar por ela. No mínimo, estariam se reunindo, discutindo os temas, lançando notas sobre a energia, a posição do Brasil nas eleições da Venezuela, a maquiagem das contas públicas.

Se a imprensa se tornou o único setor que questiona tudo isso, melhor talvez fosse distribuir os iPads aos repórteres. De que vale ser eleito como oposição e não realizar a tarefa?

Um certo mundo acabou. Ainda não apareceram aquelas brumas do amanhecer nos rios do Pantanal. Elas nos dão a ilusão de uma nova gênese, um outro mundo despontando gradualmente da névoa. Não espero nenhum paraíso. É pedir muito que o Brasil tenha um ministro da Energia à altura da importância do tema, que a política externa seja mais democraticamente exercida, que as contas públicas não sejam maquiadas? E que o Congresso funcione, a oposição se oponha?

Começam pregando iPads, daqui a pouco vão comprar aviões para a linha de ônibus Madureira-Central do Brasil, desativando sua capacidade de decolar. Começam com o ministro da Energia estimulando o consumo e, daqui a pouco, o da Saúde aconselhará a fumar.

O mundo acabou de certa forma. De tão felizes, não percebemos que está de pernas para o ar.

20 de janeiro de 2013
Fernando Gabeira, O Estado de São Paulo

ESTRANGEIROS JÁ COMPRARAM US$ 60 BILHÕES EM TERRAS NO BRASIL

 
O último relatório do Banco Central sobre investimentos no país, nas mãos da presidente Dilma Rousseff, informa que estrangeiros já compraram US$ 60 bilhões em terras no Brasil.

A maioria deles é de empresários da China e Oriente Médio. As propriedades adquiridas concentram-se nas regiões Centro-Oeste e Norte.

A Agência Brasileira de Inteligência tem informes de que agora os chineses, para driblar eventual desconfiança sobre seus interesses, têm usado argentinos como ‘laranjas’.

20 de janeiro de 2013
Leandro Mazzini - UOL

EX-PRESIDENTE LULA, SEM SURPRESA, ELEITO O MAIS CORRUPTO DO BRASIL

Ex-presidente Lula é eleito a personalidade mais corrupta de 2012.
‘Algemas de Ouro’ também premiou o senador cassado Demóstenes Torres e o governador Sérgio Cabral.
Eleição foi marcada por fraude eletrônica na votação.
Perfis falsos no Facebook direcionaram 38% dos votos para candidatos ligados a PSDB e DEM

O Troféu Algemas de Ouro 2012, premiou os politicos Demóstenes Torres, Sergio Cabral e Lula, representados por integrantes mascarados do Movimento 31 de julho
Foto: Leo Martins / Agência O Globo
O Troféu Algemas de Ouro 2012, premiou os politicos Demóstenes Torres, Sergio Cabral e Lula, representados por integrantes mascarados do Movimento 31 de julhoLeo Martins / Agência O Globo

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou 2013 vencendo mais uma eleição. Entre as personalidades mais corruptas de 2012, Lula ganhou com 65,69% dos 14.547 votos válidos o Troféu Algemas de Ouro. Em segundo lugar, com 21,82%, ficou o ex-senador Demóstenes Torres (sem partido) seguido pelo governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB), com 4,55%. Ironicamente, a segunda edição da premiação organizada pelo Movimento 31 de Julho foi marcada pela fraude.

Os organizadores detectaram a utilização de um programa de votação automática que criou perfis falsos no Facebook, que direcionou 38% do total de votos (23.557) para candidatos ligados ao PSDB e ao DEM.

A premiação, que aconteceu na tarde deste domingo no Leblon, Zona Sul do Rio, foi marcada pela descontração. Em clima de carnaval, com máscaras representando os candidatos que disputaram o Algemas de Ouro 2012, os manifestantes elogiaram a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) na condução do julgamento do mensalão e lembraram os feitos “históricos” de cada concorrente.

Além de Lula, Demóstenes e Cabral, estavam no pleito o senador Jader Barbalho (PMDB-PA); os deputados federais Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e Paulo Maluf (PP-SP); o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, e sua ex-companheira de Esplanada, Erenice Guerra; o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (sem partido); e o empresário Fernando Cavendish.

— Depois de eleger poste, o ex-presidente Lula mostra que ainda tem fôlego para ganhar mais eleições daqui para frente. Foram três candidatos que fizeram jus à premiação. Todos eles se destacaram nas páginas do jornal, mas o ex-presidente se sobressaiu. No ano passado, ele foi responsável por um dos momentos mais lamentáveis da história brasileira ao tentar chantagear um ministro do Supremo. Acho que por sua atuação em 2012, e nem quero lembrar de Valérios e Rosemarys, ele mereceu esse troféu e o cheque simbólico de R$ 153 milhões — afirmou Marcelo Medeiros, coordenador do Movimento 31 de Julho.

No último dia 9, os organizadores comunicaram à imprensa e à rede social Facebook — plataforma utilizada para computar os votos — a tentativa de fraude. A denúncia partiu dos próprios eleitores da enquete que perceberam que parte das escolhas foram feitas por perfis falsos, recém-criados no ambiente virtual.

— Não é militância. Se fossem militantes, era válido. O que detectamos foi uma organização criada para fraudar a disputa. Coincidentemente, os votos sempre eram para candidatos da oposição do governo petista e Cabral — explicou Medeiros, que prometeu mudanças na plataforma de computação dos votos na próxima eleição.

20 de janeiro de 2013
Renato Onofre - O Globo

INIMIGOS DA PÁTRIA


 


Incapaz de olhar além do próprio umbigo, reconhecer erros e buscar correção de rumos, o PT tenta fazer com a economia o que fez com os seus malfeitos na política: gerar versões fantasiosas sobre a realidade e culpar o mensageiro pelo conteúdo desagradável da missiva.

Nessa toada, começou a espalhar a versão de que a oposição e analistas da grande imprensa estão torcendo para que o País afunde. Que, impatrioticamente, desejam pibinho e apagões.

Falam como se o PIB de 1% em 2012, talvez aquém disso, ou os malabarismos para fechar o ano fiscal fossem invenção diabólica de uma mídia satânica que teria como tarefa precípua desestabilizar governos petistas.

Mesmo de férias, coube ao ministro das Comunicações Paulo Bernardo os primeiros tiros oficiais, resposta ao artigo publicado pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) no jornal Folha de S. Paulo. “Não dá para ele e a oposição ficarem torcendo a favor do pibinho e do apagão”, reagiu o ministro, mas sem contestar os números expostos.

No dia seguinte, neste blog, o ex-ministro José Dirceu adicionou o elemento que faltava: a mídia. Os “jornalões”, que, segundo ao réu condenado no processo do mensalão, “fazem campanha pelo apagão”.

Sem dúvida, melhor seria se tudo não passasse de oportunismo oposicionista e conservadorismo da mídia.

Que os apagões não existissem, que as contas públicas estivessem equilibradas, que a inflação não tivesse rompido a casa dos 6% e de mais de 10% quando se fala nos preços dos alimentos. Que o governo não lançasse mão de artifícios - tão grotescos que desacreditam o País – para fechar 2012.

Também não passam de invenção as pás eólicas gastando para ficar paradas, sem gerar um único watt, devido aos atrasos nas obras dos sistemas de transmissão. Os otimistas falam em aproveitamento parcial delas daqui cinco ou 17 meses.

Enquanto isso, dá-lhe o caro e poluente gás como fonte complementar. Isso, com produção industrial baixíssima ou negativa. Imaginem como seria com um pibão.

Como não há sedimento para tapar os buracos, a pregação do governo e do PT de que tudo não passa de torcida contra da oposição e da mídia tende a aumentar.

Vale tudo. Até dizer – como se viu nas redes sociais - que o blecaute de uma hora que atingiu 33 cidades do Piauí na mesma manhã em que a presidente Dilma Rousseff desembarcava no estado foi sabotagem; coisa da direita ou criação da imprensa. Uma prática conhecida.

Mas é melhor ter cuidado. Dizer que o mensalão era ficção não serviu para a Suprema Corte. Na economia, é ainda mais difícil que o enredo cole. O bolso, não raro, é mais sensível do que a razão.

20 de janeiro de 2013
Mary Zaidan é jornalista, trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília.

MAIS AÇÃO, MENOS DISCURSO, PARLAMENTARES

 

Não é de hoje a impressão de que, por aqui, o trem do Legislativo corre sobre os trilhos do Executivo. Noutros termos, o Poder Legislativo é refém do Poder Executivo, em confronto com os princípios constitucionais da harmonia, autonomia e independência dos Poderes.
A imagem ganha corpo ante a vocação legislativa do Executivo, que se materializa em edições sucessivas de medidas provisórias pelo presidente da República.

A banalização do uso de MPs, deixando de lado a relevância e a urgência expressas na Constituição Federal, acentua o caráter imperial do presidencialismo e expande a convicção de que se cultiva, no Brasil, um “parlamentarismo às avessas”, modelagem enviesada que lembra a monarquia parlamentar de Pedro II.

Nos idos de 1847, sob o manto do poder moderador, criava o imperador um Conselho de Ministros, à semelhança do modelo inglês, para exercer funções do Executivo, assumindo ele, também, a prerrogativa de escolher o primeiro ministro.

Este organizava as eleições (que sempre ganhava), conferindo ao soberano a condição de Todo Poderoso. Eis o chiste da época: “na Inglaterra, a rainha reina, mas não governa; no Brasil, o rei reina, ri e rói – reina sobre o Estado, ri do Parlamento e rói o povo”.

Hoje, a imagem da inversão parlamentarista volta à baila com a percepção de que o Executivo governa com as leis que, ele mesmo, estabelece.

Não sem razão, a imagem do Legislativo é a mais borrada no cenário institucional. Basta compará-la com a de outros Poderes.

De um lado, desponta a extraordinária força do Executivo, que canaliza os efeitos das políticas sociais e econômicas, propiciando a elevação da figura presidencial aos píncaros da admiração popular.

De outro lado, vê-se o prestígio do Poder Judiciário, o mais sagrado no sistema cognitivo da sociedade por conta da missão de administrar e distribuir a justiça.

Nos últimos tempos, coroando o reconhecimento público, o Judiciário cumpriu extensa pauta de decisões sobre matérias de impacto social, fechando um ciclo de fama com a Ação Penal 470 (mensalão) e expandindo a visibilidade, a ponto de conferir alta popularidade aos seus componentes.

Esses traços contribuem para empanar o retrato do Legislativo. A par da bateria crítica que corrói a imagem de atores que balizam suas práticas nas mazelas da política (patrimonialismo, mandonismo, coronelismo, fisiologismo, nepotismo), o conjunto parlamentar mostra-se débil em algumas frentes.
Na esfera do Orçamento que passa por seu crivo, a prerrogativa de liberar recursos é da Chefe do Executivo. Com o “poder da caneta”, só com sua assinatura, chegará às bases dos parlamentares o dinheiro a elas destinado.

Como se pode aduzir, há forte desequilíbrio na balança dos Poderes. O nó da questão pode ser cortado pela espada do próprio Legislativo.

No caso das Medidas Provisórias, basta analisar sua pertinência e, ainda, expurgá-las de matérias exógenas que escapam ao seu objeto. Como se sabe, as MPs dão carona a uma pletora de temas estranhos à sua finalidade.

No caso do Orçamento, basta que o Parlamento aprove emenda alterando sua natureza, de autorizativo para impositivo, pelo qual os recursos aprovados não carecerão da caneta presidencial para chegar ao destino.

E por que essa decisão, que parece tão simples, não entra na pauta? Por não ser do interesse do Executivo.

Cavalo comedor, cabresto curto. Sob esse axioma, embutem-se as metas de pleno controle do Orçamento, dos fluxos de caixa do Tesouro e, por fim, da estratégia de controlar os painéis de votação nas casas congressuais.

Afinal, administrar a parte mais sensível ao corpo parlamentar – verbas para as bases –faz parte da engenharia que mantém insuperável a capacidade do Poder Executivo de manobrar as rédeas do Parlamento. Por todos os lados, transparece o poder descomunal do Executivo.

Mas há facetas que apresentam grau menor de dificuldades operacionais e estão a merecer tratamento prioritário por parte do Legislativo. Uma delas é o vácuo infraconstitucional que se criou, a partir da Constituição de 1988.

Apesar da incrível marca de mais de 3,7 milhões de leis (há dois anos, o numero era de 3.776.364), o arcabouço legislativo está inconcluso. Ainda resta apreciável numero de dispositivos (cerca de 140) para ser regulamentado.

Quando se atribui ao Poder Judiciário usurpação da função legislativa – pelo fato de interpretar a Constituição e ser acusado de invadir os domínios do Parlamento– esquece-se que a “judicialização da política”, como se batizou o fenômeno, decorre também de buracos constitucionais não fechados.

Eventuais tensões entre os dois Poderes se ancoram na omissão do corpo parlamentar no capítulo da legislação infraconstitucional a ser completada.

Distorções, vazios e desequilíbrios entre Poderes não constituem matéria nova. Deputados e senadores conhecem sobejamente os vãos e desvãos das cúpulas côncava e convexa do Congresso. O que parece faltar é coragem de avançar.

Daí o flagrante descompasso entre o andar social, rápido e solto, e o lento caminhar do corpo parlamentar. Não por acaso, aponta-se grande distância a separar a esfera política da sociedade.
Pretende o Parlamento melhorar sua imagem perante a sociedade? Basta tomar atitudes. Assumir os princípios constitucionais da independência, harmonia e autonomia. Fechar os buracos abertos desde 1988.

Respirar o ar das ruas. Gravar o eco dos grupos organizados. Reformar a pauta de costumes rotineiros. Se for preciso, cortar a própria carne.

A reforma política deve deixar o plano da retórica. Perguntaram, uma vez, ao grande Demóstenes (384-322 a. C.), famoso pelo dom da oratória: “qual a principal virtude do orador”? Respondeu: “ação”. E depois? Voltou a repetir: “ação”.

Sabia ele que essa virtude, própria dos atores, era mais nobre que a eloquência. A razão? Porque é o motor da Humanidade. Mais ação, senhores parlamentares.

20 de janeiro de 2013
Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação

CONGRESSO x MEDIDAS PROVISÓRIAS

 

O Congresso se prepara para enfrentar uma batalha pela credibilidade perdida com relação às medidas provisórias pelo aspecto mais imediatista e fisiológico, sem encarar as verdadeiras razões de seu desprestígio.
Uma das bandeiras do candidato oficial à presidência da Câmara, deputado Henrique Alves, é permitir que os parlamentares possam fazer acréscimos ao que vier do Palácio do Planalto no momento da votação, e não apenas até seis dias depois de a medida provisória chegar, como determinam as regras definidas pelo Supremo Tribunal Federal.

A votação torna-se, por isso, mera homologação do que foi enviado, alegam os deputados. Na verdade, querem poder negociar com o governo sob a pressão do prazo fatal, para poder tirar vantagens.

O que os novos dirigentes do Congresso deveriam cuidar é das motivações do governo para editar medidas provisórias, restringindo o papel do Congresso de legislar, como os critérios de urgência e relevância, que não são obedecidos.

O senador do PSDB de São Paulo Aloysio Nunes Ferreira já fez uma reclamação formal, e um estudo sobre várias medidas provisórias, inclusive a recente sobre a polêmica mudança nas licitações do setor elétrico, mostrando que muitas vezes não há razão para que a medida provisória não seja transformada em projeto de lei para ser debatido no Congresso.

A aprovação das medidas provisórias era tão automática que nem mesmo a comissão do Congresso que deveria analisá-las funcionava. E não foram poucas as vezes em que o governo enviou ao Congresso medidas provisórias que traziam embutidos assuntos diferentes, sem que fosse respeitado o inciso II do art. 7 da Lei Complementar no 95 de 1998, que proíbe que uma lei contenha matéria estranha a seu objeto.

O governo fez isso durante muito tempo, até que as “pegadinhas”, como ficaram conhecidas, foram descobertas e denunciadas pela oposição.

Uma medida provisória tratando de um tema irrelevante — e que portanto não poderia ser objeto de uma MP — embutia decisão importante, como por exemplo a prorrogação do prazo para as empresas que aderiram ao Refis.

Há outros exemplos: um artigo que interessa aos plantadores de soja numa MP sobre habitação popular; um artigo sobre o acerto de contas da União com a Petrobras na MP que regula a venda de remédios; e um artigo que autoriza o uso de recursos do Tesouro para amortizar a dívida pública numa MP sobre distribuidoras de energia.

A edição de MPs passou a ser uma forma de impor fatos consumados ao Congresso, pois elas geram efeitos imediatos e irreversíveis. Mas, em vez de impedir essa manobra governista, que vem desde o governo Lula, os congressistas passaram a se utilizar dela para embutir em medidas provisórias questões de seu interesse.

No estudo do senador Aloysio Nunes Ferreira há um exemplo claro disso com relação à medida provisória 559/2012, que autorizava a Eletrobrás a adquirir no mínimo 50% da Celg (Companhia de Eletricidade de Goiás).

Ela se transformou no Projeto de Lei de Conversão (PLV) que acrescentou diversos itens ao tema principal, tais como: instituir o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento das Instituições de Ensino Superior (Proies) – (Arts. 4º a 25); alterar a Legislação Tributária para estabelecer novas regras da base de cálculo para o PIS/Pasep e Cofins referente às indenizações das despesas e custos operacionais com os atendimentos médicos (Art. 26); e até mesmo dar autorização para a União doar alimentos do estoque público, por meio do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, à Bolívia, a El Salvador, à Guatemala, ao Haiti, à Nicarágua, ao Zimbabue à Cuba, aos países de Língua Portuguesa, à Autoridade Palestina, ao Sudão, à Etiópia, à República Centro-
Africana, ao Congo, ao Somali, ao Níger, e à República Popular da Coreia (Art. 27); além de alterar o limite de valor para a contratação de construção de unidades do Minha Casa Minha Vida para R$ 85 mil (Art. 31).

A medida provisória original entra em vigor imediatamente, e o Projeto de Lei de Conversão (PLV) quando aprovado vai à sanção da Presidência da República.

Se o Congresso não recuperar a capacidade de fiscalização sobre as medidas provisórias, rejeitando aquelas que estiverem fora das regras constitucionais, não recuperará a credibilidade em outros campos.

20 de janeiro de 2013
Merval Pereira, O Globo

NOS PORÕES DO ESPORTE

Caberá a pergunta se a Nike, a Oakley ou a Anheuser-Bush de nada sabiam ou nada suspeitavam contra seu atleta de ouro. Alguma vez quiseram saber?

 
Assim como José Dirceu e outros mensaleiros condenados pelo Supremo Tribunal Federal, o americano Lance Armstrong, maior ciclista de todos os tempos movido a doping, também tem sua empedernida legião de fiéis.

Essa tropa de choque renitente é movida a saudosismo, lealdade, manipulação e, sobretudo, interesses. Sempre que provas ou indícios, denúncias ou acusações adquirem volume avassalador ou irrefutável, ela encontra refúgio na afirmação de que se trata do linchamento público de um herói.
Ou, à falta de outro argumento, de que “todo mundo faz a mesma coisa”.

A dimensão da idolatria ao atleta nascido no Texas, mesmo fora da esfera do esporte, explica a facilidade com que essa tropa de fiéis sempre desqualificou qualquer denúncia.
“Trata-se de uma caça às bruxas com financiamento do governo”, era uma das linhas de defesa mais frequentes de sua equipe de advogados.

“Passei por mais de 500 testes antidoping e nenhum jamais resultou positivo”, defendia-se o próprio atleta, omitindo o fato de que à época em que foi colhido o material não existiam exames capazes de detectar EPO ou doping sanguíneo.

Não fosse o congelamento de seis amostras em 1999, retestadas oito anos atrás, seus primeiros resultados positivos teriam se perdido. “Ele é muito forte, está bem para quem teve a carreira e seu sustento arrancados”, diz hoje outro de seus advogados, atualizando o discurso para a atual campanha de empatia com um caído.



A própria doença de Armstrong solidificou o seu status de herói nacional: interrupção da carreira aos 25 anos por um câncer de testículos grau 4, quase letal, a história da superação narrada em livro, a construção de uma obra caritativa de grande visibilidade e apelo popular, turbinada pelas famosas pulseirinhas amarelas Livestrong que arrecadaram US$ 26 milhões só no primeiro ano de vendas.

Isso tudo, antes de seu retorno triunfal às pistas. “Lance deixou de ser apenas um ciclista”, declarou em 1977 seu agente Bill Stapleton. “Devido à superação do câncer, a sua marca agora adquire outra envergadura. Ele está na iminência de fazer a transição para outro patamar de celebridade.”

A partir daí, Lance Armstrong foi o roteirista de sua meteórica carreira, centrada, como declarou, no lema “vencer a qualquer custo”. Em tom monocórdio, esclareceu: “Decidi fazer qualquer coisa para ganhar — e isso é bom.”

Para isso, engolia pílulas a 50km da chegada, outras a 30km da chegada, controlava o estoque de doping da equipe, ensinava como tomar EPO (apelidou-a de “Edgar Poe”) a cada 3 ou 4 dias, embarcava em jato privado para a retirada de 500cc de sangue e camuflava eventuais hematomas usando camisas de manga comprida, denunciavam ex-colegas.
Seu apartamento em Gerone, na Espanha, tornou-se o quartel-general da operação.

Na entrevista em duas partes concedida esta semana à apresentadora Oprah Winfrey, Armstrong correu o risco calculado de romper com seus súditos mais leais. Admitiu ter recorrido a doping durante 13 anos, dos primórdios de sua carreira até chegar ao apogeu, em 2005, como o “Homem de Aço”.

Fez sua confissão pública no mesmo tom impessoal e controlado com que mentiu por tantos anos. Tampouco mudou o olhar gélido com que brindava seus adversários depois de vencer uma prova.

Na entrevista, manteve-se blindado: confessou mas não explicou, reconheceu “falha de caráter” mas não pediu desculpas por ter perseguido, ameaçado e questionado a honra de colegas. Teve a chance de esclarecer os cantos mais sombrios do porão do esporte, mas não quis acelerar o roteiro para sua eventual reabilitação.

O uso generalizado de testosterona, cortisona, hormônio de crescimento, autotransfusão de sangue e EPO (o hormônio sintético que aumenta a produção de glóbulos vermelhos) por Armstrong e sua equipe, embora conhecido, jamais fora admitido.

Um mapeamento minucioso feito pela Agência Antidoping dos Estados Unidos (Usada) ao longo de dois anos resultara num relatório de mais de mil páginas, divulgado três meses atrás.
E este, por sua vez, acarretou a perda de todos os títulos mundiais conquistados pelo atleta e seu banimento da prática de qualquer esporte olímpico para o resto da vida.

Mas a Usada e o governo americano, que mantém aberta uma investigação federal paralela, querem ir mais fundo. E para isso uma colaboração de Armstrong, apelidado de “Bernie Madoff do esporte” por ter conseguido manter a fraude tanto tempo, seria crucial.

A velocista Marion Jones, estrelíssima dos Jogos de Atlanta, em 2000, com cinco medalhas olímpicas no pescoço, também passou anos negando seu envolvimento em outro vasto esquema de doping.

Acabou por fazer confissão chorosa, cumpriu pena de seis meses por perjúrio e jamais retornou às pistas. No caso de Armstrong, contudo, a acusação é bem maior: a de ter liderado o programa de doping mais sofisticado, profissional e exitoso da história do esporte.

A intenção da Usada é conseguir montar uma Comissão da Verdade e de Reconciliação capaz de pegar todos os tentáculos do programa de doping — a começar pelo papel da própria União Internacional de Ciclismo, dos grandes patrocinadores e das equipes.

A U. S. Postal de Armstrong, por exemplo, investiu US$ 32,2 milhões na equipe entre 2004 e 2011 e faturou mais de US$ 103 milhões em marketing — 320% de retorno, portanto.

Caberá, então, a pergunta se a Nike, a Oakley ou a Anheuser-Bush de nada sabiam ou nada suspeitavam contra seu atleta de ouro. Alguma vez quiseram saber? “Sempre que um ciclista é flagrado, o sistema se proclama chocado e se declara completamente contrário à prática do doping.

Tacha o culpado de ovelha negra e tudo continua igual”, constata o alemão Jörg Jaksche, já aposentado.

Talvez nem tudo. Para os crédulos inveterados, a vitória do britânico Bradley Wiggins no Tour de France 2012, seguida de sua conquista do ouro nos Jogos de Londres, é um alento. Wiggins demonstrou que é possível vencer fazendo apenas o que deve: pedalar.

20 de janeiro de 2013
Dorrit Harazim é jornalista

AO TRABALHO, "COLEGAS"


Existe uma competente cobertura de imprensa em Brasília. Os melhores repórteres políticos do Brasil, obviamente, estão na cidade. Para este grupo seleto de profissionais não há segredos. Todo mundo sabia da namorada do Lula, por exemplo. Por que não divulgaram? Ora, porque não sabiam que a mesma estava envolvida em falcatruas maiores do que colocar almofadas com a cara do ex-presidente nos sofás da recepção. Agora assistimos a um festival de denúncias contra Renan Calheiros (PMDB-AL) e Henrique Alves (PMDB-RN), ambos virtualmente eleitos para a presidência do Senado e da Câmara.

Denúncias vêm à tona, mas nada que estes jornalistas não saibam há anos. Renan e Alves têm um suspeitíssimo currículo e vários envolvimentos com denúncias de uso da máquina e de recursos públicos. Por que não foram denunciados antes? Agora, na última hora e na falta de assunto, espoucam denúncias hilárias. Exemplo? Registram que Alves dobrou o patrimônio nos últimos anos, tendo declarado, inclusive, "uma fazenda de 32 hectares". Ora, isto é a metade da média nacional de um lote de assentamento de reforma agrária. Já contra Renan, informam que teria pago verbas indenizatórias a assessores, como se praticamente todos os senadores não fizessem o mesmo. O que acontece? Ninguém dá a mínima para as denúncias, pois elas são mais do mesmo. Ambos serão eleitos com larga margem de votos.

Ouvi, esta semana, de um importante jornalista, que Eduardo Campos (PSB), governador de Pernambuco, é um fenômeno eleitoral apenas para a imprensa de Brasília. Não existe nem mesmo no Nordeste, a não ser no estado que dirige e onde seus aliados são donos dos principais veículos de comunicação. Isto sim, é notícia. Isto sim, é matéria. A imprensa de política de Brasília deveria trabalhar mais.

Ontem, Nariz Gelado lembrava desta entrevista de Ricardo Noblat, um dos mais importantes jornalistas políticos do país, concedida à revista Playboy, em outubro de 2005...Acho que ela ilustra muito bem a diferença entre o saber e o divulgar uma noticia.

Playboy: Você já sabia do Delúbio?

Noblat: Comecei a ouvir em meados de 2003 que o Delúbio estava cobrando comissão de fornecedor de governo. Era o que se comentava no meio publicitário, e como eu tenho amigos na área...

E por que não publicou?

Porque só contavam se eu não publicasse. E jornalista não pode viver sem ser capaz de ouvir histórias, mesmo sob essa condição. Muitas vezes essas histórias vão ser úteis mais adiante. Ou vão lhe abrir os olhos e você vai prestar atenção em coisas em que antes não prestava. Logo depois que estourou o caso do Waldomiro, o José Genoíno me ligou dizendo que sabia que a Veja estava apurando um perfil do Delúbio e perguntando por que a imprensa estava interessada nele. Eu respondi que o cara estava por aí cobrando comissão de fornecedor adoidado, que eu tinha ouvido muito isso. E avisei a ele: "Tira o Delúbio e o Silvinho de circulação, porque eles vão se complicar".

E as outras sacanagens de Brasília? A Jeany Mary Corner é só uma promotora de eventos?

Ela promove eventos. E as meninas que recruta se encarregam de promover a felicidade dos convidados. Dinheiro, poder e sexo estão juntos em toda parte, mais ainda em capitais do poder.

Sempre foi assim?

Em 1982, quando cheguei aqui, a Jeany da época era uma funcionária da Câmara. Ela atendia deputados e senadores. Algumas de suas recepcionistas davam expediente na própria Câmara durante o dia. A verdadeira Jeany chegou no fim do governo Sarney e se firmou no de Collor. A República de Alagoas foi uma festa. Agência de propaganda que servia ao governo fretava jatinho para assessor de Collor ir trepar em São Paulo no fim da tarde e retornar para dormir em casa. Mas a própria Jeany já confessou que governo nenhum superou até hoje o governo Lula em matéria de libidinagem - até que Roberto Jefferson estragou tudo.

As fontes de notícias em Brasília, sempre disputadas, já perceberam a importância do blog?

Meu blog aconteceu para os políticos por causa de um furo que dei logo no início. Lula estava reunido com vários ministros discutindo a expulsão do correspondente do New York Times por causa da matéria sobre a relação do presidente com bebida. Nesse momento entra um assessor do Lula com a Constituição na mão: "Olha, presidente, está na Constituição, não pode expulsar o cara não". A resposta foi: "Foda-se a Constituição". A maioria dos jornais tremeria, piscaria dez vezes antes de publicar que o presidente disse "Foda-se a Constituição". Eu publiquei exatamente assim.
 
20 de janeiro de 2013
in coroneLeaks

COM FICHA MORALMENTE SUJA, LULA NÃO VOLTA EM 2014

Depois das denúncias de Marcos Valério e das armações da sua Rose, Lula não tem mais moral para disputar cargos eletivos. Ontem, prefeito de São Bernardo falou por ele, que perdeu a língua depois das denúncias.

O prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), disse na noite de ontem que uma eventual candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência em 2014 "não está colocada" no partido. Questionado sobre as especulações de que Lula estaria se movimentando para voltar a disputar uma eleição presidencial já no ano que vem, ele foi enfático: "Isso não é nem especulação. Isso é papo furado de quem não tem o que fazer", afirmou o prefeito, antes de assistir ao lado do ex-presidente à partida de abertura do Campeonato Paulista, entre São Bernardo e Santos, na cidade do ABC paulista.Ao ser perguntado sobre uma possível candidatura em 2014, Lula desconversou. "Não discuto política agora. Hoje só quero falar de futebol."

Marinho afirmou que o PT está focado na reeleição da presidente Dilma Rousseff. "Estamos trabalhando no processo de alianças com aliados para ter uma chapa forte para reeleger a presidente Dilma." O prefeito petista se tornou um dos políticos mais próximos do ex-presidente, que mora e iniciou sua trajetória política em São Bernardo. Lula já disse publicamente que defende o direito de Dilma se candidatar à reeleição em 2014. Ontem, o ex-presidente, que é corintiano, fez questão de assistir à estreia do time de sua cidade, que no ano passado subiu para a primeira divisão do campeonato estadual. A partida foi realizada no estádio Primeiro de Maio, onde Lula comandou greves na época de sindicalista.

Ao lado também da mulher, Marisa Letícia, do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, e do presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), Marco Polo del Nero, o ex-presidente assistiu à derrota do São Bernardo - que perdeu por 3 a 1. Antes da partida, porém, o Lula chegou a citar a política para manifestar confiança numa "zebra". "Não é fácil enfrentar o time do Santos, mas eu acho que o São Bernardo tem garra, tem motivação. No futebol e na política nada é impossível."

 
(Estadão)
 
20 de janeiro de 2013
in coroneLeaks

COM FICHA MORALMENTE SUJA, LULA NÃO VOLTA EM 2014

Depois das denúncias de Marcos Valério e das armações da sua Rose, Lula não tem mais moral para disputar cargos eletivos. Ontem, prefeito de São Bernardo falou por ele, que perdeu a língua depois das denúncias.

O prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), disse na noite de ontem que uma eventual candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência em 2014 "não está colocada" no partido. Questionado sobre as especulações de que Lula estaria se movimentando para voltar a disputar uma eleição presidencial já no ano que vem, ele foi enfático: "Isso não é nem especulação. Isso é papo furado de quem não tem o que fazer", afirmou o prefeito, antes de assistir ao lado do ex-presidente à partida de abertura do Campeonato Paulista, entre São Bernardo e Santos, na cidade do ABC paulista.Ao ser perguntado sobre uma possível candidatura em 2014, Lula desconversou. "Não discuto política agora. Hoje só quero falar de futebol."

Marinho afirmou que o PT está focado na reeleição da presidente Dilma Rousseff. "Estamos trabalhando no processo de alianças com aliados para ter uma chapa forte para reeleger a presidente Dilma." O prefeito petista se tornou um dos políticos mais próximos do ex-presidente, que mora e iniciou sua trajetória política em São Bernardo. Lula já disse publicamente que defende o direito de Dilma se candidatar à reeleição em 2014. Ontem, o ex-presidente, que é corintiano, fez questão de assistir à estreia do time de sua cidade, que no ano passado subiu para a primeira divisão do campeonato estadual. A partida foi realizada no estádio Primeiro de Maio, onde Lula comandou greves na época de sindicalista.

Ao lado também da mulher, Marisa Letícia, do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, e do presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), Marco Polo del Nero, o ex-presidente assistiu à derrota do São Bernardo - que perdeu por 3 a 1. Antes da partida, porém, o Lula chegou a citar a política para manifestar confiança numa "zebra". "Não é fácil enfrentar o time do Santos, mas eu acho que o São Bernardo tem garra, tem motivação. No futebol e na política nada é impossível."

 
(Estadão)
 
20 de janeiro de 2013
in coroneLeaks

STEDILE (DO MST): DILMA ESTÁ CEGA E SENDO ENGANADA POR PUXA-SACOS

 

A sociedade brasileira enfrenta no meio rural problemas de natureza distintos que precisam de soluções diferenciadas. Temos problemas graves e emergenciais que precisam de medidas urgentes.

Há cerca de 150 mil famílias de trabalhadores sem-terra vivendo debaixo de lonas pretas, acampadas, lutando pelo direito que está na Constituição de ter terra para trabalhar.
Para esse problema, o governo precisa fazer um verdadeiro mutirão entre os diversos organismos e assentar as famílias nas terras que existem, em abundância, em todo o País.
Lembre-se de que o Brasil utiliza para a agricultura apenas 10% de sua área total.



Há no Nordeste mais de 200 mil hectares sendo preparados em projetos de irrigação, com milhões de recursos públicos, que o governo oferece apenas aos empresários do Sul para produzirem para exportação.

Ora, a presidenta comprometeu-se durante o Fórum Social Mundial (FSM) de Porto Alegre, em 25 de janeiro de 2012, que daria prioridade ao assentamento dos sem-terra nesses projetos. Só aí seria possível colocar mais de 100 mil famílias em 2 hectares irrigados por família.

Temos mais de 4 milhões de famílias pobres do campo que estão recebendo o Bolsa Família para não passar fome. Isso é necessário, mas é paliativo e deveria ser temporário. A única forma de tirá-las da pobreza é viabilizar trabalho na agricultura e adjacências, que um amplo programa de reforma agrária poderia resolver. Pois nem as cidades, nem o agronegócio darão emprego a essas pessoas.

EXPLORAÇÃO

Temos milhões de trabalhadores rurais, assalariados, expostos a todo tipo de exploração, desde trabalho semiescravo até exposição inadequada aos venenos que o patrão manda passar, que exige intervenção do governo para criar condições adequadas de trabalho, renda e vida. Garantindo inclusive a liberdade de organização sindical.

Há na sociedade brasileira uma estrutura de propriedade da terra, de produção e de renda no meio rural hegemonizada do modelo do agronegócio que está criando problemas estruturais gravíssimos para o futuro. Vejamos: 85% de todas as melhores terras do Brasil são utilizadas apenas para soja/milho, pasto e cana-de-açúcar.

Apenas 10% dos fazendeiros que possuem áreas acima de 200 hectares controlam 85% de todo o valor da produção agropecuária, destinando-a, sem nenhum valor agregado, para a exportação. O agronegócio reprimarizou a economia brasileira.

Somos produtores de matérias-primas, vendidas e apropriadas por apenas 50 empresas transnacionais que controlam os preços, a taxa de lucro e o mercado mundial. Se os fazendeiros tivessem consciência de classe, se dariam conta de que também são marionetes das empresas transnacionais.

DESEMPREGO

A matriz produtiva imposta pelo modelo do agronegócio é socialmente injusta, pois ela desemprega cada vez mais pessoas a cada ano, substituindo-as pelas máquinas e venenos. Ela é economicamente inviável, pois depende da importação, anotem, todos os anos, de 23 milhões de toneladas de fertilizantes químicos que vêm da China, Uzbequistão, Ucrânia etc. Está totalmente dependente do capital financeiro que precisa todo ano repassar: 120 bilhões de reais para que possa plantar. E subordinada aos grupos estrangeiros que controlam as sementes, os insumos agrícolas, os preços, o mercado e ficam com a maior parte do lucro da produção agrícola.

Essa dependência gera distorções de todo tipo: em 2012 faltou milho no Nordeste e aos avicultores, mas a Cargill, que controla o mercado, exportou 2 milhões de toneladas de milho brasileiro para os Estados Unidos. E o governo deve ter lido nos jornais, como eu…

Por outro lado, importamos feijão-preto da China, para manter nossos hábitos alimentares.
Esse modelo é insustentável para o meio ambiente, pois pratica a monocultura e destrói toda a biodiversidade existente na natureza, usando agrotóxicos de forma exagerada. E isso desequilibra o ecossistema, envenena o solo, as águas, a chuva e os alimentos.

O resultado é que o Brasil responde por apenas 5% da produção agrícola mundial, mas consome 20% de todos os venenos do mundo. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) revelou que a cada ano surgem 400 mil novos casos de câncer, a maior parte originária de alimentos contaminados pelos agrotóxicos. E 40% deles irão a óbito.

Esse é o pedágio que o agronegócio das multinacionais está cobrando de todos os brasileiros!
E atenção: o câncer pode atingir a qualquer pessoa, independentemente de seu cargo e conta bancária.
Uma política de reforma agrária não é apenas a simples distribuição de terras para os pobres.
Isso pode ser feito de forma emergencial para resolver problemas sociais localizados. Embora nem por isso o governo se interesse.

DEMOCRATIZAÇÃO

No atual estágio do capitalismo, reforma agrária é a construção de um novo modelo de produção na agricultura brasileira. Que comece pela necessária democratização da propriedade da terra e que reorganize a produção agrícola em outros parâmetros.

Em agosto de 2012, reunimos os 33 movimentos sociais que atuam no campo, desde a Contag até o movimento dos pescadores, quilombolas, MST etc., e construímos uma plataforma unitária de propostas de mudanças.

É preciso que a agricultura seja reorganizada para produzir, em primeiro lugar, alimentos sadios para o mercado interno e para toda a população brasileira. E isso é necessário e possível, criando políticas públicas que garantam o estímulo a uma agricultura diversificada em cada bioma, produzindo com técnicas de agroecologia. E o governo precisa garantir a compra dessa produção por meio da Conab.

A Conab precisa ser transformada na grande empresa pública de abastecimento, que garante o mercado aos pequenos agricultores e entregue no mercado interno a preços controlados.
Hoje já temos programas embrionários como o PAA (programa de compra antecipada) e a obrigatoriedade de 30% da merenda escolar ser comprada de agricultores locais. Mas isso atinge apenas 300 mil agricultores e está longe dos 4 milhões existentes.

O governo precisa colocar muito mais recursos em pesquisa agropecuária para alimentos e não apenas servir às multinacionais, como a Embrapa está fazendo, em que apenas 10% dos recursos de pesquisa são para alimentos da agricultura familiar.
Criar um grande programa de investimento em tecnologias alternativas, de mecanização agrícola para pequenas unidades e de pequenas agroindústrias no Ministério de Ciência e Tecnologia.
Criar um grande programa de implantação de pequenas e médias agroindústrias na forma de cooperativas, para que os pequenos agricultores, em todas as comunidades e municípios do Brasil, possam ter suas agroindústrias, agregando valor e criando mercado aos produtos locais.

BNDES

O BNDES, em vez de seguir financiando as grandes empresas com projetos bilionários e concentradores de renda, deveria criar um grande programa de pequenas e médias agroindústrias para todos os municípios brasileiros.

Já apresentamos também ao governo propostas concretas para um programa efetivo de fomento à agroecologia e um programa nacional de reflorestamento das áreas degradadas, montanhas e beira de rios nas pequenas unidades de produção, sob controle das mulheres camponesas.

Seria um programa barato e ajudaria a resolver os problemas das famílias e da sociedade brasileira para o reequilíbrio do meio ambiente. Infelizmente, não há motivação no governo para tratar seriamente esses temas.

Por um lado, estão cegos pelo sucesso burro das exportações do agronegócio, que não tem nada a ver com projeto de país, e, por outro lado, há um contingente de técnicos bajuladores que cercam os ministros, sem experiência da vida real, que apenas analisam sob o viés eleitoral ou se é caro ou barato…

Ultimamente, inventaram até que seria muito caro assentar famílias, que é necessário primeiro resolver os problemas dos que já têm terra, e os sem-terra que esperem. Esperar o quê? O Bolsa Família, o trabalho doméstico, migrar para São Paulo?

Presidenta Dilma, como a senhora lê a CartaCapital, espero que leia este artigo, porque dificilmente algum puxa-saco que a cerca o colocaria no clipping do dia.

(artigo enviado por Sergio Caldieri)

20 de janeiro de 2013

João Pedro Stedile (Carta Capital)