"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sexta-feira, 27 de abril de 2012

"SOBRIEDADE E FOCO", OU PISANDO EM OVOS: GUERRA DE CONVOCAÇÕES À VISTA


 Em reunião tensa, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista que investigará as relações do bicheiro Carlinhos Cachoeira com políticos e empresas públicas e privadas abriu os trabalhos ontem com os parlamentares do colegiado demonstrando que o debate não escapará de uma batalha política.

Os primeiros requerimentos aprovados foram pedidos de compartilhamento de informações relativas aos tentáculos da quadrilha do contraventor, que estão em posse do Supremo Tribunal Federal (STF), da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da Polícia Federal (PF). Outros 160 requerimentos foram apresentados, a maior parte para convocação de autoridades.

A reunião teve início com a confirmação das eleições do senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) como presidente do colegiado e do deputado Odair Cunha (PT-MG) na relatoria. Os requerimentos serão sistematizados e passarão a ser avaliados na próxima sessão, marcada para quarta-feira da semana que vem, às 14h30.

Na esteira das convocações como instrumento de pressão política, o senador Fernando Collor (PTB-AL) chegou a defender a convocação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. A presença do PGR serviria para prestar esclarecimentos sobre as operações Vegas e Monte Carlo, mas também para que explicasse a demora de quatro anos em pedir a abertura de inquérito ao STF.
Collor deve apresentar o requerimento na próxima reunião.

Líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (SP) tentou impedir a manobra, mas existe um entendimento consensual de que Gurgel deve ir à comissão. Na próxima semana, Vital do Rêgo e Odair Cunha visitam o PGR para convencê-lo a comparecer, evitando o constrangimento de uma convocação.

"Acho interessante que, antes de chegarmos à metade dos trabalhos, o procurador-geral venha à CPI, pois é peça fundamental para entendermos o que já existe de concreto em termos de investigação. Podemos ouvi-lo enquanto analisamos os documentos", disse Vital.

Ele defende que Gurgel seja o primeiro a comparecer.

A oposição, acuada, também começou a colocar em prática o que pretende com a CPI:
empurrar as denúncias o mais próximo possível do Palácio do Planalto.
O intuito é afastar o foco do governador de Goiás, Marconi Perillo.

De formada velada, há até a ameaça de pressão sobre governadores do PMDB que tinham relações com Fernando Cavendish, ex-presidente da Delta Construções.

Como pano de fundo, os oposicionistas acenam com um acordo de cessar-fogo.

Nessa linha, o deputado Ônyx Lorenzoni (DEM-RS) apresentou requerimentos de convocação incômodos ao governo. Cavendish, que mantém contratos milionários com o Executivo, é um dos nomes propostos.

Outros são o de Waldomiro Diniz, personagem principal do primeiro escândalo do governo Lula, em 2004, e de Luiz Antônio Pagot, ex-diretor-geral do Dnit, visto como um "fio desencapado" pelo potencial de dano a governistas.

Do outro lado da rua, o Palácio do Planalto monitora com atenção as ações da CPI. A preocupação é manter os membros da CPI satisfeitos para que blindem o governo durante as investigações.

Na terça e na quarta-feira, Vital do Rêgo esteve com a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, para conversar sobre a comissão, emendas parlamentares e uma disputa regional em que a ministra, inclusive, pode interferir para ajudar o senador.

O caso em questão se refere ao seu irmão, prefeito de Campina Grande (PB), Veneziano Vital do Rêgo. Ele foi abandonado pelo PT municipal após oito anos de aliança. Palacianos prometem ajudar o PMDB na cidade a recuperar os petistas desgarrados, uma ação para agradar o presidente da CPI.

"Acho interessante que, antes de chegarmos à metade dos trabalhos, o procurador-geral venha à CPI, pois é peça fundamental"

Vital do Rêgo (PMDB-PB), presidente da CPI do Cachoeira

Gabriel Mascarenhas -
Correio Braziliense

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