"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



quinta-feira, 16 de maio de 2013

"NÃO TEM NADA DE MAIS..."

 
Um político com o passado e a ideologia de Afif se integra ao governo petista de Dilma que, anteontem, esculhambou a direita liberal, as elites e os velhos políticos


A gente já sabia que isso de programa e doutrina não era exatamente uma preocupação dos políticos brasileiros, mas Guilherme Afif Domingos conseguiu levar essa postura, digamos assim, a um nível máximo.

Para ele, não tem nada de mais ser ministro do governo Dilma e vice-governador de São Paulo, Estado administrado por um tucano de primeira linha, Geraldo Alckmin.
 
Para falar a verdade, o ministro/vice admite que haverá um probleminha. Quando Alckmin precisar deixar o governo - para uma viagem ao exterior, por exemplo - ele, Afif, teria que assumir o governo estadual. Aí sim, admite, seria incompatível acumular com o ministério.
 
Por razões doutrinárias? Porque seria impossível combinar a gestão de governos liderados pelo PT e pelo PSDB? Nada disso. É por uma questão prática.
 
Ocorre que o vice-governador não faz nada, observa Afif. Assim, se não faz nada como vice, pode prestar um bom serviço como ministro. Por outro lado, se precisar assumir como governador, que faz alguma coisa, não conseguirá tocar o serviço de ministro. Ou inversamente.
 
Solução? Simples. Quando precisar assumir o governo, ele vai se exonerar do cargo de ministro. Mas só um pouquinho. Será uma "exoneração temporária", como explicou. Quando voltar a fazer nada em São Paulo, retorna ao batente em Brasília. Tudo dentro do "espírito da lei", garantiu.
 
Afif, é verdade, nunca foi tucano. Pertence hoje ao Partido Social Democrático, fundado por Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo, para ser uma agremiação assumidamente nem de direita, nem de esquerda, nem de centro. Mas os dois foram dos partidos Liberal e, depois, do Democratas, de uma longa aliança com o PSDB desde o governo FHC. Afif, em especial, apresenta-se como militante da livre iniciativa.
 
Ficamos assim, então: um político com esse passado e essa ideologia se integra ao governo petista de Dilma que, ainda anteontem, em festa partidária em Porto Alegre, esculhambou a direita liberal, as elites, os velhos políticos.
 
Não tem nada de mais, não é mesmo?
 
E por falar nisso: se vice-governador não faz nada mesmo, por que não eliminar essa boquinha? Pelo menos se economizariam uns trocados com a eliminação dos salários do vice e dos funcionários de seu gabinte, que o assessoram a não fazer nada.
 
Legalidade
 
Já o governador do Acre, Tião Viana, declarou ser contra a corrupção e pela transparência, em nota da útima sexta-feira, quando soube que secretários e funcionários de de seu governo haviam sido presos na Operação G7 da Polícia Federal, juntos com empresários que trabalham para sua administração.
 
São todos acusados de fraudar licitações e, assim, desviar dinheiro público. O governador sugeriu que não há provas e que ele não tem nada com isso.
 
Mas a história seguiu e apareceram transcrições de grampos, nos quais Tião Viana diz a um empresário - agora preso - que o Banco do Estado do Sergipe tinha uma linha especial de crédito para empreiteiras, "sem amarras" e sem necessidade de garantia de obras. E que ele, Viana, faria a mediação entre empresários e banco.
 
Não prova nada, assegurou o secretário de Comunicação do Acre, Leonildo Rosas. E se Afif recorreu ao "espírito da lei", Rosas, baseou-se na "legalidade" para defender seu governador.
 
É verdade que Tião Viana não é alvo da investigação. Mas o que deve dizer um governador quando nove homens de confiança vão em cana? Reparem: não é uma investigação qualquer, mas uma operação da PF, como autorização e mandados de prisão assinados por juízes.
 
Não tem nada de mais, parece.
 
E a conversa sobre o crédito do banco? Não tem nada de mais, o governador apenas buscava recursos para o Estado.
 
E quer saber? Tião Viana tem até razão quando sugere que os financiamentos bancários normais têm "amarras" e exigem muitas garantias. Deve ser mesmo possível agilizar os processos, mas de que jeito? Aliás, a diretoria do Banco de Sergipe apressou-se a dizer que lá não tem moleza e que exige garantias, sim.
 
E tem mais. A PF diz que o governo acreano é "leniente com o referido cartel".
 
E daí? Por enquanto, não tem nada de mais, tal é o sentido da resposta do governador e seus assessores, os que não estão detidos.
 
Na verdade, nessa história, tem uma coisa dentro da estrita legalidade: a investigação da PF.

16 de maio de 2013
Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

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