"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A NOÇÃO DE ERRO NA LÍNGUA

A coisa é bem simples: é um fato elementar para as ciências da linguagem que a variação é uma característica inerente a qualquer língua. Não existe uma única língua no mundo sem variação linguística.

Num mesmo idioma, por exemplo, há regras diferentes para designar uma mesma construção ou palavra. Isso é fácil de observar. No dia-a-dia, encontram-se pessoas que dizem os peixe, os livro e dez real. A regra dessa “gramática” consiste em marcar com “s” apenas o primeiro elemento significativo, no caso o artigo e o numeral. Existe também outra gramática, essa mais famosa, conhecida como gramática normativa, que segue uma regra diferente daquela: marca com “s” todos os elementos da sequência – os livros, os peixes, dez reais. O interessante é que essas duas construções são regulares, ou seja, as duas seguem regras rigorosas, exatas.

A partir disso, a sociedade faz uma avaliação de cada uma dessas variedades, considerando uma errada e outra certa, uma feia e outra /bonita, uma que soa bem e outra que soa mal. Cria-se assim uma língua boa, bonita, elegante e que seria mais inteligível e exata do que outras variedades dela – pelo menos na cabeça das pessoas. O mito de que existe uma língua certa e outra errada começa aqui, em achar que o outro é quem fala errado, tomando como viés a sua própria fala. Isso porque as pessoas que falam qualquer língua acabam julgando que a diferença é um defeito. Ou um erro. O outro não sabe falar porque não fala igual a mim, pensamos.

Pode acontecer algo mais grave ainda: acabamos nos convencendo de que nós é que não sabemos falar quando falamos de forma um pouco diferente daqueles que são nossos “modelos de comportamento linguístico”. Daí ser possível ouvir algumas pessoas dizerem que não sabem falar sua língua materna. “Não sei falar português”, afirmam.

Bastava abrir o ouvido para constatar que só o fato dela falar, já demonstra que ela sabe falar.

Noções relativas

Boa parte dos brasileiros acha que não sabem falar português. Julgam sua fala errada. Já os que sabem (ou acham que sabem), creem que é errado alguém falar dez real ou menas. No entanto, sendo a língua uma realidade essencialmente variável, não há formas de falar

intrinsecamente erradas. A noção de certo e errado, no português, tem origem na sociedade, não na estrutura da língua. Numa língua, é certo o que a sociedade considera certo e errado o que a sociedade considera errado. E, claro, essa avaliação muda com o passar dos anos.

Pense bem: por que os livro é errado? Em inglês não é assim. The book sem o “s” no artigo? E o francês também não fala le livre no plural sem o “s”? “Mas isso é inglês e francês” dirão os sábios. Ok. Mas os livro é português. “Mas é errado”, rebaterão. Ora, mas por que é errado em português, se em inglês e em francês é certo? “Por que não é nossa língua”, dirão. Mas se os livro é falado em português, segue uma regra estrita e é empregado por milhões de falantes, por que é errado? “Porque é”, será a melhor reposta que os sábios conseguirão dar.

Pense bem novamente: quem disse que os livro é errado? Provavelmente foi sua professora de português. Ok, mas, onde ela viu isso? Provavelmente numa gramática normativa. Certo, mas onde esse gramático viu isso? Provavelmente em algum livro de algum escritor do romantismo pra cá. Para pegar alguns exemplos, poderíamos pegar Evanildo Bechara, que afirma na introdução de sua excelente gramática:

“Fundamentam-se as regras da Gramática Normativa nas obras dos grandes escritores, em cuja a linguagem as classes ilustradas põem o seu ideal de perfeição porque nela é que se espelha o que o uso idiomático estabilizou e consagrou” (p. 6).

Em outra ótima gramática, a de Celson Cunha e Lindley Cintra, encontramos também a “prova do crime”. Eles afirmam o seguinte:

“Trata-se de uma tentativa de descrição do português atual na sua forma culta, isto é, da língua como a têm utilizado os escritores portugueses, brasileiros e africanos do Romantismo pra cá” (p. xiv).

Perceba que o certo e o errado na língua vêm com os grandes escritores. Em tese, a gramática normativa se baseia num modo peculiar de atividade linguística (escrita) de um grupo seleto de cidadãos que fizeram uso de uma das variantes prestigiadas no que costumam ser chamadas de obras clássicas. Em outras palavras, a sociedade elege, às vezes de maneira arbitrária ou baseada no que ela convencionou chamar elegante, uma variante linguística, torna-a padrão e em seguida passa a estigmatizar todo e qualquer falante que não siga aquela variação.

Inversão histórica

Esse é o processo de inversão histórica entre língua e gramática normativa. Essa última foi escrita precisamente para descrever as manifestações linguísticas escritas que foram usadas espontaneamente pelos escritores dignos de admiração. Em tese, as gramáticas normativas são decorrência da língua, sendo subordinadas e dependentes dela. A concepção de que os falantes e escritores é que precisam da gramática é resultado da inversão de uma realidade histórica. É como se primeiro tivessem escrito uma gramática e só depois as pessoas passassem a usar a língua. E o ideal seria resgatar essa língua imaginária que foi codificada nos livros de gramática do passado, bem antes da fala.

O certo numa língua acoberta assim um conjunto de ideias imprecisas: uma língua ideal, baseada no suposto uso dos grandes escritores do passado, sendo por isso um modelo abstrato que não corresponde efetivamente a nenhum conjunto real das regras que governam a atividade linguística pelos falantes de carne e osso da atualidade. E o que não se enquadra nesse padrão escolhido seria tratado como “erro” ou, mais grave ainda, não é tido como português.

Assim, o certo e o errado na língua são noções relativas.

Infelizmente, convive-se com esta noção como se fosse um valor absoluto, portador de uma verdade inerente e imutável. Poucos percebem que as formas consideradas certas são as que pertencem à língua, ao dialeto ou à variedade das pessoas que detêm o poder econômico ou cultural. Um dos clichês dos estudos sociolinguísticos ilustra isso bem: o que importa não é o que se diz, mas quem diz o quê a quem. Isso acontece porque o que está sendo avaliado não é apenas a língua da pessoa, mas sim, a própria pessoa. As questões que envolvem a linguagem não são simplesmente linguísticas, são também ideológicas. Mas isso é assunto para uma outra oportunidade.

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13/12/2011
[Bruno Ribeiro Nascimento é graduado em Comunicação Social, João Pessoa, PB]

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