"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

É QUE O BAHREIN NÃO É A SÍRIA...

Emocionante coincidência, que o primeiro aniversário de um verdadeiro movimento árabe pró-democracia no Golfo Persa – imediatamente esmagado com violência – tenha caído no dia 14 de fevereiro, quando se celebra no ocidente o “Dia dos Namorados” [Valentines’s Day]. Um caso de amor fracassado.

E o que faz Washington, em homenagem a essa trágica história de amor? Recomeça a vender armas para a repressiva dinastia sunita al-Khalifa que está no poder no Bahrein.

Recapitulemos: o presidente Barack Obama dos EUA diz ao presidente da Síria Bashar al-Assad que “se afaste e permita que se inicie imediatamente uma transição democrática”, ao mesmo tempo em que o rei Hamad al-Khalifa ganha novos brinquedinhos para detonar seus subversivos cidadãos pró-democracia.

Será caso de dissonância cognitiva? Claro que não. Afinal, a Síria é apoiada por Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU; e o Bahrein hospeda a 5ª Frota dos EUA – defensores do “mundo livre” contra os iranianos-do-mal que querem fechar o Estreito de Ormuz.

Há um ano, a maioria da população do Bahrein – que são xiitas pobres, tratados como cidadãos de terceira classe, mas há também sunitas estudados e cultos – saíram às ruas para exigir, dos al-Khalifas reinantes, um mínimo de democracia.

Como na Tunísia e no Egito – mas diferente da Líbia e da Síria – o movimento pró-democracia no Bahrein foi autóctone, legítimo, não violento e não infiltrado pelo Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).

A reação foi repressão violentíssima, seguida de invasão pela Arábia Saudita, que cruzou a ponte até Manama. Foi resultado tácito de negócio acertado entre a Casa de Saud e Washington: damos a vocês uma resolução que lhes permita ir à ONU e proceder ao bombardeio humanitário, pela OTAN, contra a Líbia; e vocês nos deixam à vontade para detonar os doidos dessa Primavera Árabe.

O governo Obama não perdeu tempo e logo comemorou preventivamente a democracia esmagada no Bahrein, despachando para lá um dos chefetes do Departamento de Estado.

Como noticiou o Gulf Daily News, chamado “a Voz do Bahrein” (parece mais a voz dos al-Khalifas), o secretário de Estado assistente dos EUA para o Oriente Próximo, Jeffrey Feltman, elogiou entusiasticamente as providências tomadas pelo rei Hamad para “diluir as tensões” – como a “libertação de prisioneiros políticos, uma reforma parcial do Gabinete e a retirada das forças de segurança”.

Os informantes de Feltman devem ser cegos e surdos, porque os prisioneiros políticos continuam na cadeia, a reforma do Gabinete é cosmética, e as forças de segurança continuam operando em modo de repressão total.

Feltman disse que Washington prestigia o “diálogo nacional”, soluções “made-in-Bahrein”, e que não haja “interferência de estados estrangeiros no processo”. Os bahrainis devem então obedecer ao modelo CCGOTAN aplicado à Síria?

Feltman disse também que “os bahreinis podem contar com o apoio dos EUA para um consenso bahraini com vistas a avançar” e elogiou “a sinceridade” do Príncipe Coroado Salman, também vice-comandante-supremo e regente do diálogo nacional. Com amigos assim, o movimento pró-democracia no Bahrein não carece de inimigos.

Eis pois, em síntese, a mensagem de Washington: façam essa gente parar de fazer barulho, e nós deixamos aí a nossa base para defender vocês e seus primos, contra as massas imundas. Se suas mulheres se assustarem, convoque uma invasão!

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SOB LEI MARCIAL

A vida real no Bahrein é completamente diferente disso. O que a imprensa-empresa nos EUA chama de “emirado tenso” vive ainda, de fato, sob lei marcial. Os manifestantes pró-democracia que foram “libertados” – são centenas – continuam presos. A ONG Human Rights Watch, diga-se a favor dela, mas ainda confiando em números subestimados, diz que “não há como investigar denúncias de tortura e assassinatos – crimes nos quais está implicada a Força de Defesa do Bahrein”. De fato, a transparência é zero.

Já prevendo novos ataques contra a população no primeiro aniversário do levante, o Ministério da Saúde ordenou que os hospitais privados entreguem ao aparato de segurança listas dos nomes de todos os feridos que procurem os hospitais; centenas de médicos e enfermeiros, acusados de ter socorrido manifestantes feridos, têm sido presos nos últimos meses.

O exército cercou com arame farpado todas as áreas próximas da rotatória da Pérola – onde o monumento à Pérola foi demolido, metáfora gráfica extrema de democracia reduzida a cacos. Dois cidadãos norte-americanos, Huwaida Arraf e Radhika Sainath, foram recentemente presos em Manama durante protesto pacífico, não violento. Ayat al-Qormozi foi presa porque declamava um poema de críticas contra o rei Hamad, na rotatória da Pérola.

Em novembro passado, a Comissão Independente de Inquérito sobre o Bahrein acusou os al-Khalifas de ter usado “força excessiva, com extração de confissões forçadas dos detidos”. No final de janeiro, a Anistia Internacional conclamou os Al-Khalifas “a investigar e prestar informações sobre mais de dez mortes atribuídas ao gás lacrimogêneo usado pelas forças de repressão” e exigiu que Washington “suspenda a entrega às autoridade do Bahrein de gás lacrimogêneo e outros equipamentos para controle de tumultos”.

A segurança local apoiada pelos sauditas depende quase completamente das forças paquistanesas antitumulto – para nem falar do gás lacrimogêneo e das granadas de fumaça fabricadas nos EUA, úteis para dispersar completamente qualquer manifestação pacífica contra o governo.

Grande número de idosos e crianças morreram por asfixia quando as tropas do governo dispararam bombas de gás lacrimogêneo em áreas residenciais e até dentro das casas. A repressão apoiada pelos sauditas atingiu até famílias que participavam dos funerais de manifestantes mortos pelo aparelho de repressão dos al-Khalifas.

Qual é o problema?! Tudo isso é parte do “diálogo nacional” conduzido pelo príncipe coroado.

Apesar da repressão violenta que nunca diminui, continuam praticamente todos os dias as demonstrações que exigem o fim do reinado dos al-Khalifas. Essa exigência não aparecia na pauta original do movimento pró-democracia; foi incluída depois da invasão dos sauditas.

E para provar que vivemos em mundo de “O significado da Vida” de Monty Python, confiram o que diz o rei Hamad em entrevista publicada pela semanal alemã Der Spiegel.

O rei diz que pediu ao Conselho de Cooperação do Golfo que invadisse seu país em março de 2011 para proteger as “instalações estratégicas” do Bahrain – “no caso de o Irã tornar-se mais agressivo”. Teerã nada teve a ver – absolutamente nada a ver – com os protestos, que foram causados por uma monarquia sunita que ameaça a absoluta maioria dos cidadãos, como os Emirados Árabes Unidos ameaçam os trabalhadores sul-asiáticos.

O rei disse também que “nossas mulheres estavam muito assustadas, e um cavalheiro tem o dever de proteger as mulheres”. Ora! Em vez de invasão, tortura, matanças e repressão ininterrupta, o rei bem poderia ter acalmado suas “mulheres assustadas” com um sortimento patrocinado pelo Estado, de bolsas Louis Vuitton.

22 de fevereiro de 2012
Pepe Escobar (Asia Times Online)

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