"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 13 de janeiro de 2013

"É O BICHO".

 
André Luis Vargas Ilário, deputado federal pelo Paraná e secretário de Comunicação do PT, tem sido um leão na defesa dos mensaleiros condenados pela Suprema Corte. Notabiliza-se pela fartura de declarações de efeito contra a mídia e o que ele chama de elites conservadoras; um besteirol sem tamanho feito sob medida para ecoar na militância petista mais radical.

Juvenil, na ânsia de proteger o réu José Genoíno (PT-SP) fez o dever de casa ao contrário e puxou uma sujeira protegida pelo tapete dos companheiros há mais de uma década: a relação suspeita entre o PT e o jogo do bicho.

Irritado com a reprimenda pública que o ex-governador Olívio Dutra fez ao recém-empossado deputado José Genoíno durante entrevista à Rádio Guaíba – “Eu acho que tu deverias pensar na tua biografia, na trajetória que tem dentro do partido... que tu deverias renunciar” -, André Vargas sacou do coldre a cobertura que o PT dera a Dutra na CPI estadual do jogo do bicho, em 2001.

“Para quem teve a compreensão do conjunto do partido em um momento difícil, ele está sendo pouco compreensivo”, disparou.

Pela cabeça do parlamentar, que está prestes a virar vice-presidente da Câmara, não ocorreu que estava colocando lenha em uma fogueira que nem brasa mais tinha.

Por 36 votos a favor e 10 contra, a CPI da Segurança Pública (jogo do bicho) realizada pela Assembleia do Rio Grande do Sul chegou a enquadrar Dutra por improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Depois disso, o processo caminhou devagar e acabou sendo rejeitado pelo Ministério Público.

Em 2004 o tema voltou à baila quando a loteria gaúcha foi entregue a Carlos Almeida Ramos. Ele mesmo, o Carlinhos Cachoeira.

No ano seguinte, o esquema foi alvo de denúncia do deputado José Vicente Goulart Brizola, ex-diretor da loteria estadual. Na CPI dos Bingos, ele afirmou que fora coagido por petistas gaúchos a buscar recursos de campanha com donos de bingos e bicheiros.

Os petistas negaram. Viraram bichos. Literalmente.

Tido como um dos responsáveis por fazer a presidente Dilma Rousseff trocar o PDT pelo PT, José Vicente Goulart Brizola morreu, prematuramente, aos 61 anos, no último dia 28 de dezembro.

O filho do ex-governador Leonel Brizola, pai do ministro Brizola Neto, não está mais aqui para cobrar a reabertura do caso. Mas investigar os elos que, por mais de uma década, ligam o PT a bicheiros é algo inadiável depois de o deputado André Vargas confessar a proteção propiciada pela “compreensão do conjunto”.

O bicho pode até não pegar. Mas não abrir novas diligências será incompreensível.

13 de janeiro de 2013
Mary Zaidan, Globo online

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