"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sábado, 12 de janeiro de 2013

INCOMPETÊNCIA E POLUIÇÃO

Poluição pelo uso de térmicas já é maior que a do desmatamento


No fim do ano, foram emitidas 15,3 milhões de toneladas de gás carbônico

O uso prolongado das usinas térmicas, que começaram a ser acionadas em outubro para preservar os níveis dos reservatórios das hidrelétricas, que estão em patamares críticos, já provocou a emissão de mais de 16 milhões de toneladas de gás carbônico (CO2) equivalente até o último dia 10.

Apenas entre outubro e dezembro do ano passado, o total de CO2 despejado pelas termelétricas na atmosfera chegou a 15,3 milhões de toneladas, de acordo com a consultoria WayCarbon, que fez o estudo a pedido do GLOBO.


Reservatório de Furnas. Foto: O Globo

De acordo com Tasso Rezende Azevedo, consultor em sustentabilidade do Ministério do Meio Ambiente, além de ser o maior volume de gases de efeito estufa já produzido pelas térmicas em um único ano, as emissões totais de CO2 da geração de energia no país deverão superar, pela primeira vez, em 2012, as emissões provocadas pelos desmatamentos.

— Registramos um recorde de tempo de uso de térmica. Por isso, pela primeira vez na História, as emissões de gás carbônico oriundo da geração de energia vão superar as do desmatamento. O Brasil está piorando a sua matriz — diz Azevedo.

O tempo de térmicas ligadas hoje também é inédito. Historicamente, diz ele, o período de acionamento dessas usinas é de 15 dias por ano, em média.

— Todas as térmicas ligadas geram, em um mês, 5,1 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente. É um número elevadíssimo. A potência dessas usinas tem sido aumentada constantemente, o que amplia a emissão sempre que episódios de estiagem ocorrerem. É preciso investir em matrizes limpas, não só em térmicas — diz Luísa Krettli, consultora da WayCarbon.

Como a capacidade de geração térmica do país mais do que dobrou na última década, os gases tóxicos gerados nos três últimos meses do ano passado vem subindo. O parque térmico brasileiro tem hoje 1.155 usinas, sendo 145 a gás natural, 999 movidas a óleo diesel e 11 a carvão natural. Há dez anos, eram 600 térmicas.

Azevedo afirma que sujar a matriz brasileira “não tem cabimento, já que o país tem os maiores potenciais eólico, solar, hídrico e de biomassa do mundo”.

O Greenpeace estima que, de outubro até o fim deste mês, o custo da operação das térmicas chega a R$ 1,6 bilhão. A ONG tomou como base informação do Operador Nacional do Sistema (ONS), de que o ativamento emergencial de todas as usinas custa R$ 400 milhões ao mês.

Se esse montante fosse aplicado na construção de parques eólicos, diz Ricardo Baitelo, coordenador do Greenpeace, cerca de 450 megawatts (MW) teriam sido acrescentados a essa matriz, energia suficiente para abastecer cerca de um milhão de pessoas. Se fosse investido em placas fotovoltaicas, a geração adicional seria de 300 MW.

— Esse investimento deveria ter sido feito há dois ou três anos para termos essa energia limpa e mais barata hoje no sistema. Os nossos cálculos e conclusões comprovam a falta de planejamento do governo e quem paga por isso é o cidadão brasileiro — critica o coordenador do Greenpeace.

12 de janeiro de 2013
O Globo

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