"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

UM PAÍS, A ÉTICA, AS RAPOSAS E AS PEQUENAS MENSAGENS

 
Nosso país é um daqueles lugares engraçados, onde algumas coisas acontecem que, se você as contasse, todos diriam serem mentiras. Fraudes, falcatruas, roubos e toda sorte de ilícitos são cometidos por figuras conhecidas e reconhecidas da política nacional e da sociedade, sem que nenhuma consequência danosa atinja essas pessoas.
 
Muito disso se deve a nossa própria cultura egoísta de levar vantagem em tudo e do fato de termos perdido velhos ideais saudáveis do cotidiano como honra, lealdade, honestidade e decência. Não me refiro ao puritanismo vazio e hipócrita. Quero me referir à postura ética e cidadã que todos deveríamos ter.
 
Costumamos bater no peito e exigir nossos direitos, mas desrespeitamos sem pestanejar os direitos dos outros. Gritamos “Fora Sarney” ou “Fora Renan”; mas pagamos a propina do guarda de trânsito para não sermos multados ou furamos a fila de qualquer coisa só para nos sentirmos “espertos”.
 
O Brasil é um país que carece de exemplos a serem seguidos. Carece de líderes na total acepção da palavra. Carece de metas claras no trato da “coisa pública” e, principalmente, carece de seriedade em todos os setores de sua sociedade.
 
Por mais que se tente mudar essa realidade tão desesperadora, são as pequenas mensagens emanadas das altas esferas do poder que solapam qualquer perspectiva de que algo mude num futuro próximo.
Muito mais dos que os Mensalões, os Propinodutos e todos os escândalos que vemos pipocar nos jornais a cada dia; são os detalhes da cara de pau dos corruptos e desonestos que mais impressionam e marcam negativamente nossa gente.
 
Todos nós sabemos que um juramento é algo de foro íntimo e que, muitas vezes, para algumas pessoas é meramente uma chata formalidade a ser ultrapassada ao assumir um determinado cargo ou responsabilidade. No entanto, por mais que sejam apenas palavras bonitas colocadas num papel para serem ditas numa cerimônia; o juramento tem certo “cheiro de verdade”.
A retirada da menção ao exercício ético do mandato de senador, no juramento de posse, pode não significar nada na prática laborativa do cargo e, muito menos, ser incapaz de constranger ou deter os velhos e novos corruptos e demagogos que infestam o Senado Federal. Contudo, é uma das pequenas coisas que servem de exemplo do desprezo e da degeneração que hoje reina na atividade pública brasileira.
 
Qual a objetividade de deixar a palavra ética no juramento de posse dos senadores? Como eu disse: absolutamente nenhuma. Mas, sua retirada tem o poder de chocar e de tornar vívida a ideia de que aqueles que ali estão a desprezam.
 
Da mesma forma, a escolha do advogado Elano Rodrigues Figueiredo para dirigir a ANS (Agência Nacional de Saúde Complementar) é outra dessas pequenas mensagens emanadas do Congresso Nacional para a sociedade assumindo que a esperteza e a bandalheira são o que valem. Afinal de contas, é impossível imaginar que os senadores que aprovaram seu nome desconheciam que esse senhor advogava há anos em prol das empresas de planos de saúde. A “malandragem” e a “esperteza” desse senhor saltam aos olhos de qualquer um ao sabermos que ele omitiu intencionalmente tal fato de seu currículo apresentado aos senadores.
 
Como muitas das coisas inexplicáveis que acontecem em nosso país; fica difícil buscar argumentos que amparem a aceitação do nome do advogado para a chefia da agência sem que haja algum “acerto” por trás disto. Como aceitar um possível desconhecimento dos senadores da figura pública e notória do advogado e de suas ligações longas e íntimas com as empresas que terá de fiscalizar?
 
Sua própria atitude de omitir oficialmente esse relacionamento do currículo apresentado para a sabatina do Senado não transmite a ideia de uma postura ética e de lisura na condução de sua administração de tão importante órgão.
O que os nobres senadores fizeram foi, literalmente, colocar a raposa para vigiar o galinheiro.
 
Enquanto formos infestados de raposas e espertalhões; as pequenas mensagens negativas continuarão emanando para a sociedade fomentando a cultura do “meu primeiro” e o egoísmo hipócrita que recheia cada ato dos habitantes dessa nação de “malandros otários”.
E você, o que pensa disso?
 
08 de agosto de 2013
arthurius maximus

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