"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



segunda-feira, 19 de março de 2012

HISTÓRIAS DO JORNALISTA SEBASTIÃO NERY

Sarney ‘bota pra moer’

Alto, forte, mulato, valente e brigão, cara e corpo de estivador, “Bota Pra Moer” estava sempre à frente nas manifestações e lutas sociais e políticas de São Luis, no conturbado Maranhão da década de 50.

Em 3 de outubro de 1950, Eugênio de Barros, apoiado pelo senador Victorino Freire, principal líder político do Estado, foi eleito governador pelo PST (Partido Social Trabalhista), com o tenente da Marinha Renato Archer como vice-governador, derrotando o até então vice-governador Saturnino Belo, candidato das oposições reunidas no PSD, UDN e PSP.
A oposição não aceitou o resultado e levantou a população. Em 16 de janeiro de 51, Saturnino Belo morreu de repente, a crise se agravou e assumiu o governo o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Traiaú Moreira, que em fevereiro empossou Eugênio de Barros.

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EUGÊNIO DE BARROS

Mas o Maranhão continuou em pé de guerra e em março Eugênio de Barros passou o governo interinamente para o presidente da Assembléia, César Aboud. Seis meses de confusão, não se conseguia a pacificação, o governador eleito não assumia, até que em setembro o general Edgardino Pinto, comandante da 8ª Região Militar, deu posse a Eugênio de Barros.

A oposição não se conformou. Fazia grandes e violentas passeatas, tentando tomar de assalto o palácio dos Leões. Numa delas, a sede do governo já quase cercada, com “Bota Pra Moer” à frente da turba enlouquecida, o governo instalou uma fileira de metralhadoras pesadas na entrada do palácio. “Bota Pra Moer” parou, contou, gritou para a multidão:

– Daqui pra frente, arranja um mais doido do que eu!

Ninguém mais quis tirar Eugênio de Barros do poder.

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SARNEY

O Maranhão conhece bem o senador Sarney, com sua infinita sede de poder, mas sempre mantendo uma aparente elegância por trás dos bigodes pintados. Em 2007, desandou. Virou o novo “Bota Pra Moer”. Pôs na cabeça que precisava derrubar o governador Jakson Lago para colocar no governo a filha Roseana, derrotada em 2006.

O grupo Sarney entrou no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com um pedido de anulação do mandato do governador, acusando-o de “abuso de poder político” na campanha eleitoral, embora o ex-prefeito de São Luís já não exercesse função pública nenhuma, quando se candidatou em 2006.

Segundo Sarney, o “abuso de poder” teria sido praticado pelo ex-governador José Reinaldo, através de convênios com prefeituras do Estado. Mas o candidato do ex-governador nem era Jakson Lago. Ele apoiou o ex-presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), ministro Edson Vidigal.

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EROS GRAU

A “denúncia” foi feita direto ao TSE, porque o Tribunal Eleitoral do Maranhão, conhecendo os métodos de Sarney, não a aceitaria. O relator foi o ministro Eros Grau. Sarney, em um desrespeito ao ministro, fez espalhar no Estado que o ministro Eros Grau iria apressar e antecipar o julgamento e dizem por quê: perto de afastar-se do Supremo por limite de idade (70 anos), o também escritor e poeta Eros Grau gostaria de ir para a Academia Brasileira de Letras. – “E na Academia mando eu”, disse o “Bota Pra Moer” de bigode.

Jackson Lago foi cassado, Roseana assumiu o governo, mas o poeta Eros Grau não entrou na Academia, porque Sarney lá não manda nada.

Sebastião Nery
19 de março de 2012

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