"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sábado, 14 de julho de 2012

PREPÚCIO DIVIDE ALEMANHA

Em 26 de junho passado, um tribunal do distrito de Colônia, Alemanha, tomou a decisão de declarar a remoção do prepúcio por razões religiosas como lesão intencional e, portanto, ilegal. "O direito de uma criança a sua integridade física supera o direito dos pais", afirma a decisão.

Segundo uma pesquisa, 56% dos alemães concordam com isso e 32% se dizem contra. O presidente da Ajuda à Infância Alemã, Georg Ehrmann, faz parte do primeiro grupo: "o direito da criança à uma infância sem ferimentos deve ser um consenso compartilhado por todas as comunidades religiosas". A Federação dos cirurgiões para crianças, a Câmara dos médicos alemães e a Sociedade Alemã de Cirurgia da criança não recomendam a operação.

Os alemães compraram uma briga feia. A circuncisão, um dos distintivos dos judeus, já está prescrita no Gênesis. Foi imposta a Abrão – quando ainda se chamava Abrão e não Abraão - quando este completou 99 anos. Jeová lhe aparece e diz: Eu sou El-Shaddai, anda na minha presença e sê perfeito.
Disse mais Deus a Abraão: Ora, quanto a ti, observarás a minha aliança, tu e a tua descendência depois de ti, nas suas gerações. Eis a minha aliança, que será observada entre mim e vós, isto é, tua geração depois de ti: todos os vossos machos serão circuncidados. Circuncidar-vos-eis na carne do prepúcio; e isto será por sinal da aliança entre mim e vós.

À idade de oito dias, todos os vossos machos serão circuncidados, de geração em geração, tanto o nascido em casa como o comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não for da tua linhagem. Com efeito será circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro. Minha aliança estará marcada na vossa carne como aliança perpétua.

O incircunciso, o macho cuja carne do prepúcio não tiver sido cortada, esta vida será extirpada do seu povo: ele violou minha aliança.


A circuncisão, junto com a observação do shabat e dos preceitos culinários, são as três características que constituem a identidade judaica. Verdade que Jeremias fala de duas circuncisões, a da carne e a do coração. Com isto o profeta quer dizer que, da mesma forma que a circuncisão do prepúcio liberta o órgão viril de sua glande, o coração deve se abrir aos mandamentos de Jeová.

Jeremias 9:25:

Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que castigarei a todo circuncidado pela sua incircuncisão: ao Egito, a Judá e a Edom, aos filhos de Amom e a Moabe, e a todos os que cortam os cantos da sua cabeleira e habitam no deserto; pois todas as nações são incircuncisas, e toda a casa de Israel é incircuncisa de coração.

Para o rei Saul, prepúcio de incircunciso é moeda de troca. Quando propõe a mão de Mical, sua segunda filha, a Davi, este a recusa, dizendo ser um homem pobre e desprezível. Saul faz uma segunda proposta. Se Davi é pobre, isto não é obstáculo para que se torne genro do rei. Saul quer, como dote, cem prepúcios de filisteus. Em verdade, queria que Davi caísse nas mãos dos filisteus. Davi, muito zeloso, traz a Saul não cem, mas duzentos prepúcios de filisteus. Mesmo assim, Saul não entrega Mical.

Em Atos, Paulo quase morre por ter levado ao templo Trófimo, incircunciso. Atos 21:29 e seguintes:
Porque tinham visto com ele na cidade a Trófimo de Éfeso, e pensavam que Paulo o introduzira no templo. Alvoroçou-se toda a cidade, e houve ajuntamento do povo; e agarrando a Paulo, arrastaram-no para fora do templo, e logo as portas se fecharam.

E, procurando eles matá-lo, chegou ao comandante da coorte o aviso de que Jerusalém estava toda em confusão; 32 o qual, tomando logo consigo soldados e centuriões, correu para eles; e quando viram o comandante e os soldados, cessaram de espancar a Paulo. Então aproximando-se o comandante, prendeu-o e mandou que fosse acorrentado com duas cadeias, e perguntou quem era e o que tinha feito.

E na multidão uns gritavam de um modo, outros de outro; mas, não podendo por causa do alvoroço saber a verdade, mandou conduzí-lo à fortaleza. E sucedeu que, chegando às escadas, foi ele carregado pelos soldados por causa da violência da turba. Pois a multidão o seguia, gritando: Mata-o!


Ontem ainda, a Conferência Européia de Rabinos criticou severamente a decisão judicial, e a qualificou como o maior ataque aos judeus desde o Holocausto perpetrado pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. O presidente dos rabinos, o titular de Moscou Pinchas Goldschmidt, afirmou durante a reunião dos religiosos de Berlim que "a proibição da circuncisão põe em dúvida a existência da comunidade judaica na Alemanha. Se a resolução for mantida, não vejo futuro para os judeus na Alemanha", afirmou de forma taxativa Goldschmidt, convencido de que a decisão judicial acabará se incorporando à legislação alemã.

Em verdade, não só a Alemanha levantou a questão da circuncisão. Na Noruega, discute-se a proibição pura e simples, e na Holanda há um apelo nesse sentido de uma associação médica. Como a circuncisão é praticada também pelos muçulmanos, não faltarão também os gritos de islamofobia. Particularmente na Alemanha, que abriga uma considerável imigração árabe e turca.

Tem a religião direitos sobre os corpos de crianças que nem idade têm para compreender o que lhes estão a fazer? Os religiosos acham que sim. A Torá exige a circuncisão do recém-nascido antes do oitavo dia. Embora o Alcorão não a prescreva, a tradição é forte. Na Alemanha, a mídia já fala em Kulturkampf, choque cultural.

O Hospital Judaico de Berlim pratica entre "70 a 80 circuncisões por razões religiosas por ano, um terço em meninos judeus e dois terços em pequenos muçulmanos". Seu presidente, Dieter Graumann, afirmou ser escandalosa a decisão de Colônia. "Em todos os países do mundo, este direito religioso é respeitado".

Segundo o acadêmico Micha Brumlik, autor de vários livros sobre a relação entre judaísmo e a história alemã, "o judaísmo e o islã não são bem-vindos aqui". Para uma outra professora, especialista em filosofia judaica, “sem a circuncisão, não pode haver vida judaica na Alemanha".

Os judeus insistirão na intolerância dos alemães. Esquecem a própria intolerância quando Jeová promete castigar o Egito, Judá, Edom, os filhos de Amom e Moabe, e todos os que cortam os cantos da sua cabeleira e habitam no deserto, porque são incircuncisos. Não lembram que quase mataram Paulo por ter levado Trófimo ao templo. Deixam de lado os cem prepúcios dos filisteus pedidos por Saul a Davi como dote por Mical.

A queda de braço está lançada. Pessoalmente, duvido que os alemães consigam proibir uma tradição milenar judaica. Os judeus, obviamente explorarão a idéia do holocausto para se colocarem na condição de perseguidos. Os árabes alegarão islamofobia. E continuarão mutilando seus filhos.

Espantoso constatar como, cinco ou mais milênios depois do Gênesis, o prepúcio consegue dividir um país.


14 de julho de 2012
janer cristaldo

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