"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

HOMO LABORANS

 

 
Na abertura do Congresso do Partido Comunistas, no dia 09 de novembro pp., ao sair do cargo de Presidente da República da China, Hu Jintao confessou publicamente que a corrupção é a maior ameaça à sustentação do Estado.
Reconheceu que, naquele país, “interesses especiais” impediam a realização de reformas estruturais necessárias para a prática de uma maior justiça social, podendo provocar mal-estar e revoltas populares.
Na verdade, hoje em dia, graças aos modernos meios eletrônicos que facilitam o conhecimento das atividades políticas e econômicas, o uso indevido do dinheiro público é facilmente denunciado.
Nenhum governo, portanto, seja qual for o regime institucional, terá longa vida, se não der satisfação ao povo de como é gasto o dinheiro dos impostos cobrados dos cidadãos.
 
Infelizmente, esta não é a preocupação do Partido dos Trabalhadores que atualmente dirige o destino do nosso país. Na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei, apresentado pela presidente Dilma, que cria o 39° ministério, o de microempresas, dispondo mais 68 cargos em comissão.
Os interesses das pequenas empresas não poderiam ser cuidados pelos já existentes Ministérios da Indústria ou do Desenvolvimento?
O PT está continuando o ancestral absolutismo de monarcas, presidentes, governadores ou prefeitos, que distribuem bens ou cargos públicos entre parentes e amigos, olhando apenas a conveniência, sem exigir a competência avaliada por concurso de títulos ou provas.
Desta forma, a máquina burocrática emperra cada vez mais.
 
Precisamos tomar consciência de que a honestidade não é uma virtude natural, mas uma conquista da civilização.
O ser humano nasce egoísta, como qualquer outro animal. O poeta romântico Rousseau cometeu um grande equívoco ao formular o mito do “bom selvagem”.
A criança deve ser educada, desde pequeninha, a não se apossar do que é de outro e fazer por merecer o que lhe é de direito (assistência, carinho, educação) pelo exercício de seus deveres (estudar, obedecer aos pais e a outros educadores).
Ao Estado cabe formular leis para a salvaguarda dos direitos e a obrigação dos deveres de todos os cidadãos, promovendo a justiça e punindo qualquer forma de dano feito contra o bem comum.
 
Por sorte de nossos descendentes, a humanidade está avançando a longos passos rumo à civilização. No início do séc. XIX, com a Revolução Industrial e a afirmação das idéias socialistas, o “homo sapiens” começou a dar valor a outro atributo, o do “homo laborans” (o homem que trabalha, que produz).
Enquanto na cultura greco-romana e medieval as atividades braçais eram exercidas por escravos, na era moderna também o trabalho manual passa a ser dignificado. Esta fala do barão Nikolai Tusenbach, personagem da peça As três irmãs, de Anton Tchekhov, representada em 1901, foi profética, pois, 16 anos depois, estourou a Revolução Bolchevique na antiga União Soviética, obrigando todos os homens a produzirem bens para a coletividade:
 
. “Um dia trabalharei. E dentro de vinte e cinco ou trinta anos, no máximo,
cada homem trabalhará. Cada homem!”
 
Nas nações cultural e economicamente mais avançadas (anglo-saxônicas e escandinavas), já há tempo vigora o critério do mérito: o cidadão ganha conforme sua competência e produtividade. A virtude mais cultivada é a justiça e não a caridade, pública ou privada, pois viver de esmolas é uma degradação do ser humano.
O Estado, como qualquer chefe de família, não deveria gastar mais do que arrecada e destinar os recursos apenas aos bens e serviços públicos. Mas como controlar os gastos estatais se, quem faz as leis, são os governantes que delas se beneficiam?
Daí a necessidade de promulgar uma nova Carta Magna, não redigida pelos políticos no poder, que consagrasse o princípio da meritocracia.
Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
in lilicarabina

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