"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



segunda-feira, 15 de abril de 2013

A CULTURA DE TOLERÂNCIA ÀS DROGAS

 


Como sugere o grande poeta nordestino Falcão, vivo sob a filosofia “eu não bebo, não fumo, não cheiro, não danço e não jogo” (por preferência pessoal mesmo). Conto isso a um amigo de jeitão aristocrata, daqueles que votam no Partido Conservador desde sempre. “Mas você nunca sequer provou cocaína? Não é mais barato na América do Sul?” De início considerei um comentário preconceituoso. Mas era questão cultural.

Os britânicos têm uma tranquilidade comovente com drogas. Não apenas com as mais toleradas, como a maconha -- seu porte aqui, na prática, é descriminalizado. Admitir consumo de drogas sintéticas e de cocaína não é vergonha para ninguém. E nem precisa ser um consumo raro, já que alguns dizem usar praticamente todas as semanas. O fundo do poço parece ser reservado aos usuários de heroína e de crack.

Há um mês estava em um bar no centro antigo da cidade. Em uma parte mais afastada da entrada, um grupo de cinco conhecidos celebra a chegada de uma menina já muito rosada. Ela tira um papelote de cocaína da bolsa, põe na mesa e usa o cartão de crédito para separar fileiras para cada um dos confrades. Ouço dizer que gastou quarenta libras -- o equivalente a R$ 130. Aspiram e seguem conversando.

Assisto à cena ao lado de um amigo descendente de indianos. Eu, em choque. Ele, nem tanto. “Não suporto riquinhos. Cheiram na frente dos outros para mostrarem que têm dinheiro”, diz. Seguimos dali para a casa de um funcionário do Parlamento (não um dos graúdos, é claro). Na sala, eu integro o grupo dos que não tomaram ecstasy e dançam mal. No quarto ao lado, oito usam cocaína e riem na cama.


Não que eu tenha percebido o que acontecia. Só me dei conta no dia seguinte, depois de contar a um amigo como era estranho que uma garota sempre estivesse bêbada nas festas, por horas. “Isso não tem nada a ver com cerveja. Ela vem do interior. O que você acha que fazem nos lugares onde não se faz nada? Passam frio, ouvem música e se drogam antes de irem dançar”, disse ele.

Pensei que só podia ser questão de idade. Pergunto a um londrino já quarentão se testemunhei algo raro. “Não tanto. Acho que provar drogas não deixa ninguém necessariamente viciado. Eu provei várias e estou aqui”, contou. “Gostei de algumas, de outras nem tanto. Não uso porque existe um risco, sim, e porque não sinto necessidade. Mas tenho amigos que usam até hoje e tudo bem.”

Em um ano de Londres vi mais gente admitindo o consumo do que nos meus outros 30 de Brasil. Talvez seja por puritanismo meu, dos brasileiros com quem convivi ou falta de atenção mesmo. Mas não para evitar uma inveja de gente que, mais do que tolerar as (más) escolhas dos outros, tem a segurança de não sofrer violências adicionais -- nem do Estado, nem de criminosos -- simplesmente por usarem seus alucinógenos.

15 de abril de 2013
Mauricio Savarese é mestrando em Jornalismo Interativo pela City University London. Foi repórter da agência Reuters e do site UOL.

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