"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A FUNDAÇÃO SARNEY É NOSSA

O Supremo Tribunal Federal recebeu uma ação contra a estatização da Fundação José Sarney. Não vai dar em nada. Se o próprio Sarney já foi estatizado, nada mais natural que sua Fundação siga o mesmo caminho.

A estatização de José Sarney ocorreu em 2009, quando se descobriu que ele usava o Senado como propriedade particular, através de atos secretos. O Brasil soube, o Brasil viu, o Brasil aprovou. Um estrangeiro desavisado perguntaria: como assim? Ele não perdeu o mandato? Seria constrangedor demais responder que ele não perdeu nem a presidência do Senado. Melhor explicar que Sarney se tornou estatal.

Se o Brasil sancionou as manobras privadas de José Sarney no poder público –fazendo do Senado uma extensão de sua casa, em prol dos parentes e amigos –ficou combinado que entre a pessoa do senador e o Estado brasileiro não há fronteira (nem divisória, nem cortina japonesa). Sarney é público. Por isso, nada lhe aconteceu também quando usou o helicóptero da polícia do Maranhão para ir descansar em sua ilha particular. Se o passageiro era estatal, o descanso também era.

Agora, o PPS quer questionar a estatização da Fundação José Sarney, transformada em Fundação Memória Republicana.

O que deu no partido de Roberto Freire? Só pode ser inveja. Que mal pode haver em transferir ao contribuinte a conta da ONG umbilical de Sarney, que o ajuda na função social de eternizar a si mesmo em vida?

O que o PPS tem contra a socialização das despesas da família Sarney, em prol da memória republicana?

O STF haverá de rechaçar esse ato impatriótico da oposição. Até porque já há jurisprudência clara sobre a matéria: no caso Agaciel Maia (ex-operador dos atos secretos), o Brasil decidiu, de uma vez por todas, que aquilo que é do Estado é de Sarney, e não se fala mais nisso. Se assim não fosse, como poderia a Fundação José Sarney ter recebido dinheiro da Petrobras a fundo perdido, em convênios de fachada?

Na ocasião, a Controladoria-Geral da União afirmou que houve desvio de verbas da estatal, mas estava enganada. A CGU não entende nada de patrimônio público. O que sai dos cofres da Petrobras para os cofres de Sarney não é desvio, é linha reta. Se a Petrobras é estatal, Sarney também é. Portanto, está tudo em casa.

E se papai decidiu pegar uns vales pré-sal para Roseana e os meninos, isso é assunto deles.

Graças a Lula e Dilma, Sarney foi ressuscitado e anabolizado com os poderes mágicos da mitologia esquerdista.
O certo é que as crianças justificam amplamente o investimento. Roseana, governando o Estado que ganhou do pai, sancionou a lei que estatiza a Fundação Sarney. Uma joia de filha. Fernando amordaçou o jornal que insistia em se meter nos negócios da família – e que chegara ao cúmulo da deselegância ao bisbilhotar telefonemas dos Sarneys com o compadre Agaciel.

Fernando acabou com a baderna, usando suas relações quase sanguíneas com o Poder Judiciário. Um filho estatal, a cara do pai.

O povo brasileiro deve estar orgulhoso de bancar toda essa memória republicana, que o Estado do Maranhão poderá preservar com os recursos que recebe da União.

E os brasileiros não podem deixar de agradecer, mais uma vez, a Lula e Dilma. Graças a esses dois líderes progressistas, o símbolo da modernidade democrática que é José Sarney foi ressuscitado e anabolizado com os poderes mágicos da mitologia esquerdista. O enclave PT-Sarney é a consagração do paradigma da solidariedade: o Estado entregue aos companheiros, aos amigos e aos amigos dos amigos.

Bem que Lula e Dilma poderiam pedir a Sarney um cantinho na Fundação Memória Republicana para o companheiro Carlos Lupi. Esse exemplo de salvação da máquina pública, tirando o Ministério do Trabalho da vala comum dos interesses nacionais e trazendo-o para o aconchego do partido, com a devida drenagem de recursos para o projeto político que sustenta a companheira presidenta, não pode cair no esquecimento.

A resistência de Dilma, Lula e Lupi aos ataques da imprensa burguesa – provavelmente invejosa por não ser ONG e ter de prestar conta de tudo – é um capítulo histórico da solidariedade republicana.


E, se não for pedir demais ao nobre senador estatizado, será que dava para reservar uma portinha de armário na Fundação para os movimentos anticorrupção?
A bondade deles para com o companheiro Lupi não pode ser esquecida jamais.

GUILHERME FIUZA

NOTA AO PÉ DO TEXTO

Não tenho memória de ter lido algo tão engenhoso sobre o Sarney e a Sarneylândia. Realmente tudo é tratado com a maior seriedade que a gargalhada pode alcançar. Comicidade com as verdades insólitas da nossa República, nunca foi tão engraçada, se me permitem a redundância. Sarney estatizado, só mesmo o Guilherme para arrancar essa pérola do fundo do baú republicano.
Engenho e Arte como diria Camões, unem-se nessa crônica política. Tratar com seriedade e gargalhadas o nosso triste cotidiano, requer esse casamento camoniano. Tudo dito com a sobriedade irônica, que ao tim e ao termo desanda em gargalhar. É que fica muito sutil em tal matéria, a linha divisória entre ironia e sarcasmo. Um conúbio que se impõe quando se trata de Sarney. Até nisso há inovação: não se pode tratar o affaire Sarney et famiglia, sem operar a socrática ironia e o sarcasmo voltairiano.
Uma pérola, essa crônica... Uma verdadeira pérola !!!

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