"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sábado, 7 de julho de 2012

OS ALIADOS OCIDENTAIS, OS JUDEUS E ISRAEL


          Artigos - Cultura  Em artigo anterior estudei as atitudes de Stalin, cabe agora ver como foram – e ainda são – as relações dos países supostamente aliados de Israel e seus vizinhos no Oriente Médio. A relação é também bastante perturbada. Há tempos venho abordando a ambigüidade americana e européia, principalmente após a posse de Obama, culminando no expressivo apoio à chamada “primavera árabe” que, como já se antevia desde os primeiros passos, está entregando o poder ao fundamentalismo islâmico e ao mais radical fanatismo judeófobo e anti-ocidental. Tomando-se em consideração o Egito, a Fraternidade Muçulmana é um movimento abertamente antijudaico, talvez o mais importante do mundo atualmente, desde seu apoio à Alemanha nazista. É inaceitável que possa ser considerado ‘moderado’.

Apesar de falar bonito, principalmente para audiências judaicas, nenhum outro presidente americano, Jimmy Carter incluso, foi tão desinteressado em relação a Israel e incapaz de entender sua verdadeira natureza e interesses. Os próprios líderes de Israel não confiam em Obama, embora para efeito externo digam que sim.

Numa excelente análise, Barry Rubin demonstra que mesmo as boas relações bilaterais, inclusive no que se refere a armamentos têm muito pouco a ver com Obama, pois o Congresso, o povo, as forças armadas americanas apóiam Israel e Obama está limitado em suas opções. Mesmo assim tentou o quanto pôde apoiar as pretensões ‘palestinas’ e pressionar Israel a aceitar suas exigências, mas sentiu-se forçado a recuar por total falta de reciprocidade. Rubin declara: “Note-se que nem mesmo com as repetidas humilhações a que foi submetido pelos árabes, nunca os criticou abertamente, nem o fez mudar sua política para a região ou apoiar Israel mais entusiasticamente”.

Suas atitudes em relação aos demais países anti-Israel, através da sua política regional de apaziguamento com os países árabes, o Irã e principalmente com a Turquia, bem como com os movimentos terroristas Hezbollah e Hamas só tem ajudado a fortalecer o antissemitismo endêmico no Oriente Médio.

Internamente, além de mentir descaradamente ao afirmar que o Islã teve forte influência na formação dos EUA, suas políticas estimulam professores universitários a ensinar uma falsa história de Israel e do Oriente Médio, como faz o professor de ciência política Farhad Malekafzali, da Universidade de Illinois: um entusiasta das falsas teses orientalistas de Edward Saïd mostra Israel como o malvado, que rotineiramente ataca os árabes, suas vítimas. Esta visão já é a predominante na maioria das universidades americanas.
Mas esta situação tem uma longa história, iniciada já quando do lançamento do movimento sionista. Oportunamente retornarei a estes primeiros tempos.

Durante os anos finais da II Guerra, quando já se conhecia muito bem o Holocausto, Stalin, Churchill e Roosevelt se reúnem na Conferência de Moscou de outubro de 1943. No documento que resultou deste encontro, a Declaration Concerning Atrocities, os judeus e o Holocausto sequer foram mencionados. Apesar dos líderes terem perfeita noção do extermínio em massa de judeus, o Holocausto foi tratado somente como mais um aspecto da ocupação alemã e nenhum deles o via como uma razão em si para guerrear contra a Alemanha nazista! Houve uma concordância tácita em sequer citar o morticínio seletivo, como se não tivessem sido os judeus os mais prejudicados.

A “questão judaica” não era apenas uma questão alemã ou soviética, mas também nos países aliados ocidentais a presença do anti-semitismo obstruiu o julgamento dos crimes de guerra. Parece ter havido uma concordância entre a necessidade comunista de ocultar suas políticas de extermínio, principalmente na Ucrânia, Polônia, Bielo-Rússia (hoje Belarus) e países do Báltico, e a onda de anti-semitismo que arrastou, durante a ocupação, França, Bélgica, Holanda e países da Europa Oriental tornando-os colaboradores voluntários dos nazistas na “Solução Final”, embora nominalmente inimigos da Alemanha. Esta distinção é importante: havia uma guerra entre países, mas uma tácita aliança anti-semita.

Nos documentos do Julgamento de Nüremberg, especialmente o Case nº 72 [1] vemos o degradante trecho:
“Alguns campos de concentração possuíam câmaras de gás e fornos crematórios para o extermínio em massa dos internados e queima dos corpos. Alguns deles eram de fato usados para o extermínio de judeus como parte da ‘solução final’ dos problemas judaicos. A maioria de não judeus eram submetidos a trabalhos forçados, embora as condições sob as quais trabalhavam tornavam trabalho e morte praticamente sinônimos. Os internados que adoeciam e ficavam incapazes de trabalhar, eram destruídos nas câmaras de gás ou enviados para enfermarias especiais onde recebiam tratamento inadequado, comida ainda pior do que para os que trabalhavam, e abandonados para morrer”. (United States Military Tribunal, Nüremberg, 30th December, 1947- 28th October 1948, Parte VI – [Crimes against Civilians])
É de ressaltar que a ‘solução final’ é tratada apenas como um assunto acessório e periférico.

PARTE II
Ao mesmo tempo em que aumentavam as tensões entre estados na virada do século, conflitos fundamentais vinham à superfície em virtualmente todas as áreas das ações e comportamentos humanos: nas artes, na moda, nos costumes sexuais, na política e no conflito de gerações.

 Modris Eksteins, na obra Rites of Spring

O surgimento do movimento modernista na Alemanha aumentou as tensões com a Inglaterra, a grande potência conservadora da época. O Império Britânico, ‘onde o sol nunca se punha’ e o longo reinado de Victoria (1837-1901) propiciaram ao Reino Unido a condição de Império ‘onde tudo tem lugar e cada coisa no seu lugar” (1).

Com o movimento modernista as coisas como que saíram dos seus lugares, além de que a Alemanha há pouco unificada, foi profundamente modificada pela Kulturkampf que opôs o nordeste, a Prússia Luterana, e a Baviera Católica, ao sul. Embora Bismarck tivesse que retroceder pela vitória nas eleições do Partido Católico de Centro, a Prússia tornou-se a verdadeira potência por suas tradições militares. Bismarck hesitava em implementar as pretensões do Kaiser Guilherme I no sentido de tornar a Alemanha uma potência mundial através da aquisição de colônias ("um lugar ao sol"). Bismarck desejava de todas as maneiras evitar tensões com as potências européias que ameaçassem a segurança da Alemanha. Mas quando, entre 1880 e 1885, o quadro internacional se mostrou auspicioso, acedeu, estabelecendo-se colônias ultramarinas na África (Tanganika, hoje Tanzânia pela união com Zanzibar, e África do Sudoeste, hoje Namíbia, e na Oceania, aumentando as ameaças sobre o Império Britânico. O sucessor de Victoria, Edward VII (1901-1910) reforçou os laços com a França criando um corpo expedicionário para se engajar do lado da França em caso de ataque alemão.

Portanto, estavam criadas as condições culturais e estratégicas para um conflito. Segundo Eksteins, se para a Alemanha era um conflito espiritual, para os ingleses era uma luta para preservar valores sociais, exatamente aqueles valores e ideais que a avant garde atacava: noções de justiça, dignidade, civilidade, contenção e ‘progresso’ sob o império das leis. Lloyd George viria a dizer em 1914: ‘Temos vivido por várias gerações num vale protegido. Temos vivido de forma muito confortável e auto-indulgente e a face dura dos fados nos castiga agora, forçando-nos a nos elevar para poder ver os grandes e eternos valores que interessam a uma nação – os valores elevados que esquecemos: a Honra, o Dever, o Patriotismo e o Sacrifício que aponta o duro caminho para o Céu’ (Eksteins, ibid.).

A virada de século foi conturbada para todo o planeta. As duas primeiras décadas do século XX foram marcadas por diversas crises, entre as quais as mais importantes foram (2):1905 – I Crise do Marrocos, 1908 – Crise Bósnia, 1911 – Agadir e II Crise Marroquina, 1929 – A Guerra de Trípoli, 1912 – I Guerra dos Bálcãs, 1913 – II Guerra dos Bálcãs, 1913 - Crise da Albânia, 1913 – O Caso Liman Von Sanders (tenente-general alemão designado Inspetor Geral do Exército Turco, sob protestos da Rússia), 1914 – Sarajevo e I Guerra Mundial.
Acordos e tratados durante a guerra e pós-guerra imediato

Sem dúvida a maioria dos acordos diplomáticos durante o período de guerra dizia respeito à disposição dos territórios do Império Otomano logo após a prevista derrota. Desde o início do conflito, tanto Inglaterra e França, quanto a Alemanha, tentaram ganhar a simpatia das lideranças árabes e catalisar o crescente nacionalismo árabe sufocado pelo Império Otomano que explodiu durante a guerra. Os planos alemães foram frustrados por seu aliado otomano que não tinha a mínima intenção de aceitar nenhuma independência. A Inglaterra e a França encorajavam os árabes a se rebelarem contra a autoridade do Sultão, ou, ao menos se abster de apoiar suas campanhas.

Em 1915-16, o alto comissário inglês no Egito, Sir Henry McMahon entrou em negociações com o sheriff de Meca Hussein ibn Ali. A chamada Correspondência McMahon-Hussein garantia a independência dos territórios árabes desde que estes se aliassem à Inglaterra contra os turcos. Mas em 1916 britânicos e franceses firmam secretamente o Tratado Sykes-Picot no qual previam a divisão do Oriente Médio em: (1) áreas controladas diretamente por cada um dos dois países, (2) áreas de influência e (3) mandato misto na Palestina. Não haveria a menor chance de independência árabe. No entanto, o pano de fundo das relações franco-britânicas continuava sendo a desconfiança mútua que persistia desde as Guerras Napoleônicas. Ambos os países, e também a Rússia e a Alemanha, manobravam ainda em 1914 para conseguir influência nos Bálcãs e no Império Otomano que estava falido. Naquele mesmo ano a França emprestou ao Império a fundo perdido, milhões de francos de seus contribuintes. Enquanto a Alemanha e a Inglaterra brigavam pelos direitos de construção da Baghdad Railway (3).

A aliança franco-britânica, tão propalada pelos vencedores da guerra, vacilava quase ao início desta. Edward Grey, secretário para Negócios Estrangeiros afirmava perante o gabinete que ‘sob nenhuma circunstância a Inglaterra toleraria o esmagamento da França’, mas em 11 de junho, pouco tempo antes do início da guerra, afirmava na Câmara dos Comuns: ‘se começar um conflito entre as potências européias, não há nenhuma negociação secreta decidindo sem consulta ao Parlamento se a Inglaterra participará do conflito e, na minha opinião, não deveríamos participar’. Mentiu descaradamente, o que encorajou a Alemanha a aliar-se ao Império Austro-Húngaro (id. ibid.) e iniciarem o conflito.
Dois outros fatores foram importantes: (1) o clima generalizado de conflagração que tomou conta da Europa nestas primeiras décadas e (2) a Declaração Balfour de novembro de 1917.
Ambigüidades, indefinições e traições

Já comentei antes que a Declaração Balfour (4) foi extremamente ambígua ao não falar da criação de uma Pátria Judia, mas sim de um lugar onde os judeus poderiam regular sua convivência com as comunidades não judias da área. Deve-se ressaltar que ela não era nem um acordo, nem uma promessa de um estado Judeu na Palestina nem que a Palestina seria judia, mas somente uma declaração unilateral propondo um lar judeu na Palestina.

A Declaração deixou Hussein apreensivo, no que foi apaziguado pelo governo britânico de que ‘o assentamento judeu na Palestina somente ocorrerá se for consistente com a liberdade política e econômica da população árabe’ (5). Na Conferência de Paz de Paris, em 1919, ocorreu o primeiro encontro entre as lideranças sionista e árabe. Chaim Weizmann, que sucedera Theodor Herzl no comando do movimento Sionista, se reúne com o sucessor de Hussein e firmam o Tratado Weizmann-Faisal, no qual é reconhecida a ascendência comum e a necessidade dos dois povos viverem em paz. Hussein, com muita clarividência, condicionou o Tratado ao cumprimento, por parte dos britânicos, da correspondência McMahon-Hussein, o que já estava previsto que nunca aconteceria pelo Sykes-Picot, que lhe era desconhecido, mas de cujas intenções provavelmente desconfiava por conhecer bem a deslealdade de ingleses e franceses. Assim, a primeira grande chance de entendimento entre árabes e judeus foi perdida pela traição britânico-gaulesa.

Quando a Liga das Nações concede o Mandato para a formação de um estado judeu na Palestina, os ingleses logo disseram que a Declaração Balfour não era bem assim e a re-interpretaram.

A ambigüidade levou as próprias autoridades britânicas - signatárias dos tratados, inclusive o Tratado de Sèvres (6) fixando as novas fronteiras da Turquia -, impedissem o desembarque de navios de refugiados judeus que eram internados em campos provisórios em Chipre.

Na realidade, os diversos acordos, declarações e tratados eram tão incompatíveis entre si, além de ambíguos e indefinidos, que criaram uma imensa confusão em todos os participantes, sem dúvida muito maior nos que mais dependiam de seus resultados: judeus e árabes. As ambigüidades eram evidentes, segundo Quigley:

Existe um claro contraste entre a avareza imperialista dos acordos secretos como o Sykes-Picot e o tom altruísta das declarações públicas, há também um evidente contraste entre a forma dos britânicos negociarem as disposições na Palestina com os judeus e com os árabes, fazendo com que ambos se sentissem justificados em acreditar que a Inglaterra conduzia a seu favor as ambições naquela área. Esta crença, seja ela baseada em mal entendidos, ou em farsa deliberada, serviu posteriormente para desmoralizar os britânicos aos olhos de ambos os grupos. Como conseqüência, Hussein iniciou uma revolta contra a Turquia em 1916, recebendo um subsídio de £ 225.000 mensais dos britânicos.

Em minha opinião, baseado nestas negociações e na atitude britânica posterior (1938) em relação à Checoslováquia, o que houve foi farsa deliberada. Os árabes estavam desarticulados entre inúmeros sheiks, sendo os principais Hussein e Ibn Saud, fundador da dinastia saudita. Uma Comissão de Inquérito Americana, conhecida como Comissão King-Crane (1919), nomeada por Woodrow Wilson, sugeriu: (1) o abandono do apoio americano à causa sionista, (2) severa restrição à imigração judia e (3) um governo americano ou britânico para a Palestina. Finalmente, a Conferência de San Remo entre as grandes potências decidiu que o Reino Unido receberia o mandato da Palestina (inclusive a Transjordânia) e do Iraque, enquanto que a França ganhava o controle da Síria, inclusive o atual Líbano. Em linhas gerais, a conferência confirmou os termos do Acordo Sykes-Picot e contrariou a Declaração Balfour e as promessas de independência árabe. À ambigüidade e à mentira somava-se a imprecisão, pois as fronteiras entre aqueles territórios não foram especificadas.

Parte III

O Colonial Office, o Milner Group e os ‘White Papers’

O Milner Group foi derivado da Secret Society of Cecil Rhodes, o milionário explorador da África do Sul de cujo nome foi derivado Rodésia. O grupo dominou o The Times, fundou o The Round Table, seu porta-voz, teve grande influência na fundação da British Commonwealth of Nations e da Liga das Nações, fundou o Royal Institute of International Affairs (RIIA) e seu ramo americano, o Council on Foreing Relations (CFR) (7).

O Colonial Office era dominado por nomes ligados ao Milner Group, ao qual pertencia Lord Balfour e a maioria dos representantes britânicos na Conferência de Paz de 1919, assim como a cúpula do Partido Conservador, e de onde partira a idéia dos Mandatos. Era simpático aos judeus e às suas legítimas aspirações, mas seu contato maior era com os árabes, pelos quais se sentiam particularmente atraídos, embora nunca se inclinassem ao romantismo pró-árabe de T. E. Lawrence (Lawrence da Arábia).

Carroll Quigley (AAE) afirma que a declaração deveria ser chamada de Milner Declaration, e não Balfour, pois Milner era o verdadeiro redator e seu principal apoio no Gabinete de Guerra, fato que só veio a público através de um discurso de Ormsby-Gore nos Comuns: ‘a redação originalmente apresentada por Lord Balfour não era a redação final aprovada pelo Gabinete de Guerra (...) esta última foi a redação de Lord Milner que teve que ser (por razões de precedência) emitida em nome do Secretário dos Assuntos Estrangeiros’.

No entanto, havia certa relutância em apoiar a causa sionista mais concretamente, baseada, segundo Quigley (op. cit.), em dois fatores: (1) o sentimento de que não seria justo permitir que a minoria de sionistas viesse para a Palestina e expulsassem os árabes ou os levassem a uma posição social e econômica inferior e (2) o sentimento de que isto afastaria os árabes do ocidente, especialmente da cultura britânica, o que seria certo se os judeus obtivessem o controle do Mediterrâneo do Egito à Síria. E a intenção do Milner Group era ocidentalizar os árabes. John Dove (AAE) sugeria que a partição não deveria ser permanente e que os judeus deveriam se contentar em ser apenas parte de uma unidade potencial: ‘Eles não precisam temer serem absorvidos porque têm tudo a ganhar de uma Federação Árabe, como um campo maior para suas atividades’.

O White Paper de 1922 (8) uma tentativa de esclarecer a Declaração Balfour, trouxe ainda mais confusão e ambigüidade. Em linhas gerais, comentava as apreensões dos árabes com ‘certas interpretações exageradas’ baseadas na Declaração virem a favorecer um ‘Lar Nacional Judeu na Palestina’. Declarações ‘não autorizadas’ se referiam que o propósito britânico era criar uma Palestina totalmente judia, mas o paper afirma que ‘a Palestina não deveria ser judia, no mesmo sentido que a Inglaterra é Inglesa’: ‘o Governo de Sua Majestade considera qualquer expectativa neste sentido como impraticável e não tem esta finalidade em vista. Os termos da Declaração (Balfour) não contemplam que a Palestina como um todo possa ser convertida numa Pátria Nacional Judia (como haviam proposto Chaim Weizmann e Nahum Sokolow), mas que tal Lar poderia ser fundado ‘na Palestina’.

Ao mesmo tempo em que dizia que ‘o status de todos os cidadãos da Palestina deveria ser o de palestinos e jamais poderiam ter outro status jurídico’, reafirmava o compromisso com a população judia e garantia que ‘os receios dos judeus de perderem o apoio são infundados e que a Declaração (Balfour) estava reafirmada pela Conferência de San Remo e o Tratado de Sèvres, os quais não eram suscetíveis de modificações’. Considerava ainda o fato que durante as últimas duas ou três gerações os judeus haviam re-criado uma comunidade na Palestina, a qual contava na época 80 mil pessoas e que sua presença lá era de direito e não por permissão.

“Re-criavam” estaria se referindo ao fato de que o território era originalmente judeu e por isto estavam lá por direito? Parece que sim, porque na frase seguinte afirmava-se: ‘Esta é a razão pela qual é necessário que a existência da Pátria Nacional Judia deva ser internacionalmente garantida e reconhecida tendo em conta conexões históricas ancestrais’.

Porém o paper esclarecia que ‘as fronteiras da Palestina não foram definidas nem pela Declaração Balfour, nem pela Conferência de San Remo ou pelos Tratados de Sèvres e Lausanne, ou mesmo pelos termos do Mandato Britânico’.

Que Pátria é esta sem fronteiras definidas? E quem viria a defini-las e defendê-las?

Ficava estabelecido também que a comunidade judia poderia aumentar de número pela imigração, desde que não fosse tão maciça que excedesse a ‘capacidade econômica do território de absorver os recém-chegados’ e que imigrantes não deveriam ser um fardo para o povo palestino como um todo, nem privar os já estabelecidos de seus empregos’.

Neste mesmo ano a opinião pública e também a do governo inglês tinham-se tornado menos favoráveis à política sionista. Winston Churchill declarava: ‘Em ambas as Casas do Parlamento há um crescente movimento de hostilidade contra a política sionista na Palestina. Não dou grande importância a este movimento, mas está cada vez mais difícil contestar o argumento de que não é justo pedir ao contribuinte britânico, já sufocado com impostos, suportar o custo da uma política impopular na Palestina’.

Lord Milner, num discurso na Câmara dos Lordes em 27 de junho de 1923, comentou a Declaração Balfour e o White Paper, principalmente quanto à questão da imigração: ‘a agitação árabe que acreditamos ser devida, em grande parte, a estímulos externos, não nos deve afastar dos termos da Declaração. (...) Há espaço no território para uma grande população de imigrantes sem prejudicar de forma nenhuma a população árabe residente e a imigração (judia) pode ser inclusive benéfica para eles. (...) Sou, e sempre fui favorável às políticas pró-árabes e creio na independência dos países árabes. (...) Antevejo uma Federação Árabe e creio que eles cometeriam um grande erro se quisessem incluir a Palestina nesta Federação. Esta requer um mandato permanente e sob esta condição poderia ser um Lar Nacional para os Judeus, recebendo tantos imigrantes quantos o país pudesse economicamente suportar, mas jamais deverá se tornar um estado judeu’ (AAE). Esta foi a posição do governo Britânico até 1939.

Durante o restante da década de 20 e na de 30 ela se tornou insustentável devido a quatro fatores: (1) a permanente obstrução árabe, (2) a intenção sionista de obter controle político e soberania sobre seu território, o que implicaria em revogar o Mandato Britânico, (3) as pressões tanto sionistas quanto árabes durante a Grande Depressão de 1929 e (4) o surgimento de um novo motivo para a imigração: a necessidade de um refúgio para os judeus que escapavam da perseguição nazista.

O Partido Trabalhista, então no poder, emitiu o White Paper de 1930, elaborado por Sidney Webb, Lord Passfield (9), Secretário de Estado para as Colônias (posteriormente Assuntos dos Domínios) do governo de Ramsay MacDonald. Contrariando as reivindicações sionistas, estatuía que o desenvolvimento de uma Pátria Judia na Palestina não era assunto fundamental para o Mandato Britânico. Não obstante, esclarecia que a Inglaterra tinha a intenção de cumprir com suas obrigações com árabes e judeus e resolveria qualquer conflito como resultante de suas necessidades específicas. Apesar de não considerar fundamental para o Mandato comprometia-se a continuar o apoio de um Lar Nacional Judeu na Palestina. O tom, entretanto, era claramente anti-semita. Diversas instituições judias eram severamente criticadas, entre elas a Histradut (Federação Geral dos Trabalhadores) e a Agência Judaica, pois ambas contratavam apenas trabalhadores judeus. O Hope-Simpson Report concluíra que não havia terra suficiente para suportar a imigração contínua e os fazendeiros árabes estavam sofrendo dificuldades econômicas devido à política das organizações judias, e concluía recomendando a cessação da imigração até que novos métodos agrícolas fossem introduzidos no território. O White Paper confirmava esta posição, considerando que esta política era lesiva ao desenvolvimento econômico da população árabe.

O Milner Group protestou veementemente contra o White Paper de 1930, considerado contra os interesses judeus na Palestina, denunciando seu evidente anti-semitismo em artigos no The Times assinados por Jan Smuts e Sir John Simon.

(O assunto não está esgotado e continuará a ser abordado em textos futuros.)

Heitor De Paola
07 de julho de 2012

Notas:

1 - Samuel Smiles in Modris Eksteins, Rites of Spring, Mariner Books, NY, 1989

2 - Cf. Carroll Quigley, Tragedy & Hope: A History of the World in Our Times, Macmillan, London-NY, 1966. Passa a ser referido com T&ampH.

3 - Jim Powell, Wilson’s War: how Woodrow Wilson’s great blunder led to Hitler, Lenin, Stalin and WW II, Crown Forum, NY, 2005

4 - His Majestys Government view with favour the establishment in Palestine of a national home for the Jewish people, and will use their best endeavours to facilitate the achievement of this object, it being clearly understood that nothing shall be done which may prejudice the civil and religious rights of existing non-Jewish communities in Palestine, or the rights and political status enjoyed by Jews in any other country.

5 - Carroll Quigley, The Anglo-American Establishment: Rhodes to Cliveden, GSG & Associates, 1981. A partir de agora será referido como AAE.

6 - Com a revolução dos Jovens Turcos comandados por Mustafá Kemal Atatürk foi substituído pelo Tratado de Lausanne com vários territórios voltando à nação turca.

7 - Brevemente publicarei mais dados sobre estes grupos.

8 - Os “white papers” são publicados pelos governos para apresentar uma política ou propor uma linha de ação em um tema de preocupação atual ou esclarecer melhor tratados e convênios diplomáticos. Em diversas Nações, "white paper" é o nome informal de um documento que anuncia uma política governamental. O termo surgiu no Reino Unido, onde se aplica aos documentos governamentais, informes, anúncios ou esclarecimento de políticas. Durante o Mandato britânico da Palestina, publicaram-se três "white papers" que determinaram o futuro imediato do Mandato.

9 - Webb foi um dos fundadores em 1884 da Fabian Society, ligada à Marxist Social Democratic Federation, juntamente com sua mulher, Beatrice, George Bernard Shaw, Annie Besant (mais tarde convertida à Teosofia de Madame Blavatsky), H. G. Wells, Leonard e Virginia Woolf. Até a morte o casal Webb defendeu os métodos stalinistas de opressão, evidenciando a mentira de que há oposição entre socialistas e marxistas-leninistas.

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