"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



terça-feira, 30 de outubro de 2012

INTRÓITO À CULTURA INÚTIL


Sempre fui um cultivador da cultura inútil, cheguei a escrever um livro sobre o assunto, mas seu autógrafo queimou-se junto a meu carro num acidente.
Fiquei bem zangado, mas de nada adiantava, portanto deixei para lá, mas não perdi o vício de anotar na memória, boas inutilidades, tipo: 

 
Existem 317 tipos diferentes de cruzes, SHU: Unidade de Calor Scoville (SHU) é a escala que mede o ardor da pimenta. Que o fruto romã (foto), tem sempre 613 sementes independente de seu tamanho (tive a cachimônia de contar o de três diferentes. Pode-se também partir para a escatologia, onde encontraremos coisas interessantes, por exemplo:Um flato (piedo) simultâneo dos 6,5 bilhões de humanos liberaria 19,5 milhões de litros de metano – o equivalente a 2 mil caminhões que transportam esse tipo de gás.
Bem, mas nada disso tem a que ver com o artigo do Marc, vamos a ele no que concerne aos algarismos romanos.
Antes de mudar para a Itália era um assíduo freqüentador do bar Clipper no Leblon (RJ), de uma feita conversava com um amigo, que também era um pescador de pérolas inúteis e este me explicava que os romanos desconheciam o zero, e que para fazer suas construções, especialmente pontes, não podendo fazer o cálculo do arco valia-se do recurso experiência/descarte.

Ao nosso lado estava apoiado um sujeito a quem tínhamos uma antipatia, e esta era recíproca, diziam as más línguas, que essa raiva surgira pelo o fato de meu amigo ter-lhe comido a namorada, mas nada era comprovado.
O tal, pobre desavisado, resolveu meter o bedelho em nossa conversa e falando bem alto disse:
- Poucas vezes ouvi uma besteira maior dessa que você acabou de dizer. – falou de uma forma que chamou a tenção de todos, que juntaram-se para ver o resultado da contenda que se apresentava.
- Pois é, – disse calmamente meu amigo – o que eu disse é que os romanos não conheciam o zero.
O outro sacudindo a cabeça em desaprovação, com um sorriso sardônico colado à boca e mostrando o ar de vitorioso, aumentando a voz, vaticinou:
- Pois eu lhe digo como engenheiro e professor da Pontifícia Universidade Católica, que é impossível que os romanos ignorassem esse algarismo.
Meu amigo não se apertou, pegou um guardanapo de papel, pediu a caneta emprestada ao garçom, que também parara para ouvir, e olhando bem firme para o engenheiro pediu:
- Concordo com você – e esticando-lhe o papel e a caneta, finalizou – então me faz um favor, escreve aí zero em algarismo romano.
Nem preciso ir adiante, o engenheiro saiu célere do bar sob vaia dos presentes, inclusive de sua namorada que presenciara a cena.

30 de outubro de 2012
Giulio Sanmartini

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