"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 18 de março de 2012

BRITÂNICA FAZ DIETA: DE 58 KG A ZERO GRAMA...

Era São Paulo, anos 90. Uma moça bateu cá em casa e ofereceu-me nada menos que uma Britânica. Ora, a idéia de uma enciclopédia sempre me tentou. Mas o preço era salgado. Sem falar no espaço que a obra exigiria em minhas estantes. Não lembro quantos volumes tinha na época, mas era algo perto de trinta. Perguntei:

- Não há uma edição em CD-ROM?

A moça fez uma cara de quem estava ouvindo grego. Nem tinha idéia do que fosse CD-ROM. Mas me prometeu que ia perguntar na empresa. Perguntou e obviamente não tinha. Deixei então de lado a idéia de ser o feliz proprietário de uma enciclopédia.
A Encyclopedia Britannica Inc., alguns anos mais tarde, fez uma edição eletrônica, se bem me lembro custava algo como mil dólares. Achei ainda muito caro. Perambulando um dia pela Santa Ifigênia – obviamente com más intenções – encontrei edição mais palatável: três CDs, “10 real” cada um. A empresa cedera às novas tecnologias e seu produto, aqui em São Paulo, já estava disponível nas boas e ágeis casas do ramo, a preços humanos.

Leio nos jornais que, depois de 244 anos em circulação e dezenas de edições, a Enciclopédia Britânica deixará de ser publicada no papel. A edição de 2010 é a última que vai poder ser guardada nas bibliotecas, já que as próximas publicações serão feitas somente online.

Curiosamente, os jornais não falam da edição on line da enciclopédia. Que, aliás, durante um curto espaço de tempo teve acesso gratuito. Depois, passou a ser cobrado. A vocação da obra era obviamente digital. Sua edição de 2010 tinha 32 volumes e pesava 58,5 quilos. O simples transporte de cem exemplares significava quase seis toneladas. Mil exemplares, quase sessenta mil quilos. Três CDs, alguns gramas. On line, grama nenhum e acesso mais imediato que aos próprios CDs.

A publicação tem atualmente cerca de 120 mil artigos. Hoje, sua versão em DVD custa cerca de 30 libras (85 reais) no site da Amazon, e são cobradas 70 libras (200 reais) para fazer uma assinatura anual. Aquelas famílias que gostam de livros como objetos de decoração e símbolo de status devem estar de luto. Nós, leitores que alimentamos mais a curiosidade que o status, estamos de parabéns.

A Internet há muito destronou as enciclopédias. Sem ir muito longe, o Google é enciclopédico e traz informações práticas que nenhuma enciclopédia traz. Verdade que está longe de ser confiável, mas sempre se pode garimpar na rede boas informações. Além disso, surgiu recentemente a Wikipedia. Melhor que Google, é claro, mas nem por isso muito honesta.

Há muitos verbetes excelentes na Wikipédia. O problema é que esses verbetes podem ser alterados a qualquer momento. Ora, não se pode confiar numa enciclopédia cambiante. Você não pode citar, numa pesquisa acadêmica, uma definição que hoje é uma e amanhã é outra. Para pesquisas rápidas, ela é ótima. Mas há muita distorção quando o assunto é História ou implica ideologias. O mesmo ocorre com religiões. Cada um puxa brasa para seu assado.

A Wikipédia não registra as vigarices de Osho, Rigoberta Menchú ou Madre Teresa de Calcutá. E certamente omite também as de muitos outros. É muito fácil condenar Stalin ou Hitler. Quando se trata de revelar os podres de líderes religiosos ou políticos contemporâneos, a enciclopédia se cala. Mas, a bem da verdade, isso ocorre até mesmo em outras enciclopédias em papel, de prestígio. A própria Britânica, ao longo das décadas, foi acusada de imprecisões. Entre muitas outras, a 11ª edição não biografou Marie Curie, apesar de ela ter recebido dois prêmios Nobel, o de Física e o de Química.

A mesma edição via com certa simpatia a Ku Klux Klan, definida como movimento que protegia a raça branca depois da Guerra Civil nos Estados Unidos e controlava os negros para prevenir qualquer combinação de raças e as violações de mulheres brancas por negros. Sobre eugenia, dizia ser irracional "propagar pessoas com baixo grau de inteligência, aumentando as fileiras dos pobres, deficientes e criminosos, que hoje em dia constituem obstáculo a ameaçar o progresso racial."

Humores da época. Sem falar que muitas vigarices só são descobertas séculos após sua ocorrência. "Hoje nosso banco de dados digital é muito maior do que o que pode caber na impressão. E podemos revê-lo em poucos minutos, a qualquer hora", escreveu o presidente Jorge Cauz em comunicado da empresa. Cada edição das Britânica exigia dez ou vinte anos de elaboração. Hoje, a morte de um papa ou presidente, de um Arafat ou bin Laden, não precisa esperar uma década para ser publicada.

Seria interessante reler as edições dos anos 20 e 30 da enciclopédia. Deve ter pérolas sobre Stalin, revolução soviética, comunismo. O fato é que os homens necessitam de distância para julgar as épocas em que viveram. Hoje, sabemos mais sobre a Revolução de 1917 do que se sabia em 1920. A grande vantagem da edição on line da Britânica é que uma revisão histórica pode ser processada em minutos. O que gera outro problema, o de uma enciclopédia tão mutante como os jornais.

Pessoalmente, prefiro a Bompiani. Outro dia falo dela.

18 de março de 2012
janer cristaldo

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