"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sexta-feira, 27 de julho de 2012

DEU NO "THE ECONOMIST": CORRUPÇÃO NO BRASIL - JUSTIÇA ATRASADA (MENSALÃO)

Os políticos acusados ​​de envolvimento em um vasto esquema de compra de votos, juntamente com seus associados, afinal serão julgados.


Charge do The Economist
Historicamente a baixa reputação não tem sido impedimento para uma longa carreira na política brasileira. Fernando Collor, ex-presidente cassado em 1992 e considerado culpado de corrupção durante seu mandato, está de volta ao Senado.
 
Paulo Maluf, que foi acusado nos Estados Unidos de o roubo relacionado a um esquema de propina durante seus mandatos como governador e prefeito de São Paulo, é agora um congressista.
 
A permissão do Congresso é necessária para ministros e parlamentares a serem investigados por crimes cometidos no cargo, e apenas o Supremo Tribunal pode julgá-los. Isso permite aos políticos escapar até de uma acusação de assassinato, às vezes literalmente. Arnon de Mello, senador (e pai de Collor) disparou e matou outro político no Senado em 1963, mas nunca foi julgado.

Neste contexto, o julgamento, previsto para começar em 2 de agosto, das 38 pessoas acusadas de envolvimento no maior escândalo de corrupção do Brasil dos últimos anos é uma raridade.
 
A acusação central do “mensalão” é que, após a chegada ao poder em 2003, o PT desviou dinheiro dos orçamentos de publicidade e de pensões de empresas estatais para pagar os legisladores de partidos aliados, em troca de seu apoio. As alegações vieram à tona em 2005, e o Supremo Tribunal Federal assumiu o caso em 2007. Só agora é que os juízes estão prontos para julgá-lo.

Os acusados ​​enfrentam uma série de acusações, incluindo corrupção, formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro e uso indevido de fundos públicos. Alguns admitem ter ajudado a financiar os partidos políticos “por fora”, o que é ilegal, mas comum no Brasil. Outros negam qualquer papel nos pagamentos ilícitos.

Basta ouvir as acusações, para concluir que o processo vai demorar meses, mas ele pode ser amarrado ainda mais: alguns advogados dos réus argumentam que provavelmente vão arguir que o julgamento dos seus clientes no Supremo Tribunal lhes nega o direito constitucional de recorrer de qualquer sentença condenatória. (Apenas alguns poucos réus ocuparam cargos de alta, mas a Suprema Corte vai julgá-los todos juntos, uma vez que as acusações estão interligadas.)

Os poucos réus ainda ativos dentro do PT também podem querer adiar o veredicto até depois das eleições municipais ainda este ano, para evitar que qualquer julgamento possa afetar o partido nas urnas.

A consequência política a partir do julgamento do mensalão será provavelmente modesta. O escândalo jogou por terra a falsa pretensão petista de representar o novo, a política mais limpa. Os brasileiros dizem em pesquisas que desaprovam a corrupção, no entanto, diz Alberto Almeida, do Instituto Análise, eles também assumem que a maioria dos políticos são sujos e, portanto, ignoram o fato flagrante quando votam. Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente quando ocorreram os pagamentos, foi reeleito um ano após a notícia. Ele era popular por melhorar a vida dos pobres, não por uma cruzada contra a corrupção.

A sucessora escolhida por Lula, Dilma Rousseff, é ainda menos propensa a sofrer danos políticos. Nenhum dos réus no processo está próximo a ela. E por demitir uma série de ministros acusados ​​de corrupção no início de seu mandato, ela está amplamente protegida da ameaça de mácula por associação.

Em vez disso, o principal efeito do julgamento será alimentar a cultura de impunidade para os poderosos do Brasil. Os políticos utilizam regularmente a sua imunidade para bloquear investigações envolvendo seus aliados. Outros malfeitores permanecem livres enquanto seus advogados astutos montam recursos após recursos. Antônio Pimenta Neves, jornalista condenado em 2006 por matar sua ex-namorada em 2000, apelou para tudo que tinha direito no Supremo Tribunal e foi preso somente no ano passado.

Abolir tais táticas exige reformas ambiciosas, coisa improvável num futuro próximo. Sem eles, os esforços para limpar o governo devem basear-se no quadro jurídico existente. O caso mensalão ter vindo a julgamento é um progresso: a prisão para políticos corruptos ainda pode ser improvável, mas já não é impensável.

Enquanto isso, uma maior transparência sobre os gastos públicos já está fazendo o roubo do tesouro mais difícil. Organismos reguladores fortes podem encerrar projetos do governo, se suspeitarem orçamentos foram fraudados (embora essas garantias podem ser ignoradas em situações supostamente urgentes, como a construção de estádios para a Copa de 2014).
Uma lei de liberdade de informação nova deve tornar mais difícil para os políticos preencher a folha de pagamento do público com os seus amigos. “A boa notícia”, diz João Castro Neves, do Eurasia Group, uma consultoria “, é que para ser corrupto no Brasil você precisa ser mais criativo agora do que dez ou 15 anos atrás.”
27 de julho de 2012

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