"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sexta-feira, 27 de julho de 2012

O PERIGOSO DESPREZO PELO CONGRESSO

Nos fins de 62, os governadores, quase todos, já estavam em guerra com o presidente João Goulart. Criaram um conselho de governadores, presidido por Magalhães Pinto (Minas), secretariado por Aluísio Alves (Rio Grande do Norte), para o pressionarem coletivamente. O argumento deles era o de sempre: os estados estavam sem dinheiro.
Um dia, foram a Brasília, puseram a faca no peito de Jango:
- Os estados não têm com o pagar seus compromissos.
- Qual a idéia dos senhores?
- Um empréstimo do governo federal.
- Vou ver.

###

JANGO CEDEU

Jango telefonou para Miguel Calmon, baiano, ministro da Fazenda:
- Ministro, atenda os governadores.
- O que eles querem?
- Dinheiro, ministro. Um empréstimo com letras do Tesouro.
- Presidente, o tesouro não tem disponibilidade.
- Dê um jeito, ministro. Os governadores estão aflitos.
- Aflitos, presidente? Aflitíssimos estamos nós. O Tesouro Federal está com mais dificuldades do que os estados.
- Veja o que pode fazer, ministro.

###

MAGALHÃES E O TROÇO

Os governadores foram ao ministro, em comitiva. Carvalho Pinto (São Paulo), foi em solidariedade aos outros, mas disse logo que São Paulo não precisava de empréstimo. Magalhães, mineiro e banqueiro, expôs a situação.
Miguel Calmon, grandalhão, simpático, de bengala e perna dura, ouviu, ficou calado, pensando. Magalhães, insistiu:
- Qual é a resposta, ministro?
- O presidente mandou, vou fazer. Mas esse troço estoura.
- Que troço, ministro?
- O Brasil, governador.
Carvalho Pinto ficou branco como uma vela. O empréstimo foi feito. Magalhães saiu dali e foi conspirar para derrubar Jango. Um ano e pouco depois, Magalhães comandou o “Estouro do Troço”. E derrubaram Jango.

###

DIREITA E ESQUERDA

Lembrai-vos da história brasileira. Todos os que esnobaram o Congresso, desprezando-o ou encurralando-o, mesmo quando tiverem vitórias iniciais e eventuais, acabaram perdendo a parada.
Esse é um velho e perigoso vício da esquerda internacional e brasileira: o desprezo pelo Congresso.
E não só a esquerda. Quando D. Pedro I dissolveu nossa primeira Assembléia Constituinte, abria um caminho antiparlamentar que é a maior praga política de nossa história: dobrar ou fechar o Parlamento.

Foi assim Floriano no começo da República, Getúlio na Revolução de 30 e os generais no golpe de 64. E o pior é que também nossos líderes nacionais mais avançados, da direita ou da esquerda, progressistas, esquerdistas, sempre quiseram o Congresso como um órgão auxiliar do governo.

O principal ideólogo da República, Julio de Castilhos, positivista, queria “o Executivo forte em detrimento do Legislativo”. Benjamin Constant, também positivista, mestre primeiro da República, defendia a “ditadura republicana dos cientistas”, fundou o Clube Militar, foi ministro da guerra.

Gatúlio nasceu com a ditadura na alma. Os mais influentes intelectuais da década de 30, Plínio Salgado, Tristão de Athayde, Dom Helder, Santiago Dantas, acabaram no integralismo ou por ele passaram, contra o Parlamento.

A lista da esquerda é igual: Prestes, Brizola, Arrais, todos caudilhescos. Se dependesse deles, o Congresso seria uma comissão de assessores, no máximo consultores. E todos os que assim pensaram acaaram humilhados. Pelos Parlamentos.

Sebastião Nery
27 de julho de 2012

Nenhum comentário:

Postar um comentário