"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sexta-feira, 27 de julho de 2012

VOCÊ É O RADUAN? VOCÊ É O LOYOLA?

Tinha acabado de ler a entrevista com Cleyde Yáconis aqui, no Caderno 2, e fiquei pensando nas coisas da vida.

Quando Nelson Rodrigues escreveu Toda Nudez Será Castigada, não encontrou atriz que quisesse fazer o papel principal. Gracinda Freire achou a personagem "repugnante".
Teresa Rachel disse que era "uma peça ruim".
Nelson implorou, Cleyde Yáconis aceitou e Toda Nudez se transformou num dos maiores sucessos do teatro. Cleyde foi catapultada.

O texto é um dos melhores momentos de Nelson. Para mim, Toda Nudez é o melhor filme do Arnaldo Jabor, com uma Darlene Gloria imortalizada. As atitudes de Gracinda Freire e Teresa Rachel representam aqueles momentos da vida em que tomamos a decisão errada (Gracinda e Teresa) ou certa (Cleyde).

Como funciona esse processo? Não tem como saber. Intuição, sorte, destino, audácia? Comentava isso e falava com minha filha também sobre os acasos, enquanto nos dirigíamos à Fnac, Pinheiros. Precisava de um novo laptop (ou notebook, como queiram), porque o meu havia "morrido" (nem sabia que morriam) e Rita aconselhou: "Vamos para a Fnac, lá tem o que você quer".

Respondi que seria melhor deixar para o dia seguinte, estava engrenado num trabalho. Ela insistiu: "Amanhã não posso nem depois de amanhã. Com minha agenda, vai ficar complicado, tenho gravações". Como precisava dela, porque nós, nesta idade, precisamos da assessoria dos jovens para os informáticos, disse: "Então, é pra já!"

Entramos na loja, compramos e subimos para a seção de retirada do produto. Fui direto ao balcão, entreguei minha nota, nem notei um senhor sentado, cabeça abaixada, à espera. Então, ouvi:
- Não é o Loyola?
Virei-me. Seria um leitor? Em geral é. Não era um leitor, era um autor. Abri os braços, entusiasmado, surpreso.
- Raduan!
Ele se levantou e nos abraçamos forte e fraternalmente. Sorriu, com a mão em meu ombro.
- Quanto tempo!
Não era clichê, era a verdade. Não via Raduan Nassar havia 20 anos. Mais velho, mas também estou. Ele ainda com fartos cabelos, enquanto os meus estão partindo. Seriam os ares do campo? A distância de São Paulo? O rosto de sempre, sóbrio, severo. Perguntei:
- O que faz aqui?
- O mesmo que você, resolvendo um problema de informática. (Ele riu, com um jeito irônico. O mesmo Raduan de sempre). E trouxe um amigo, jovem, assim como você trouxe uma jovem também.
- É minha filha.
Ele estendeu a mão, brincou:
- Como um pai feio faz uma filha tão linda?
Respondemos juntos:
- Porque a mãe é linda.

Nós dois, Raduan e eu, somos fechados, não inclinados a externar emoções, mas ambos percebemos que estávamos comovidos. Nos anos 70, estivemos muito próximos, pertencemos ao mesmo grupo, que girava em torno da revista Escrita, criada pelo Wladyr Nader. Nela publicávamos contos, ensaios, poesias; para ela dávamos entrevistas, éramos "jovens" autores. Jovens e já tínhamos passado dos 30. Nós, quem? Roniwalter Jatobá, Márcia Denser, Joyce Cavalcanti, Silvio Fiorani, João Antonio, Moacyr Amâncio, entre outros.
Quando vejo aqueles escritores que frequentam hoje a Mercearia São Pedro e formam, de algum modo, uma "geração", lembro-me daquela nossa. Vez ou outra, Raduan dava um jantar na casa dele, em Pinheiros. Sua família era dona do Bazar 13, Pinheiros era nossa região. Comia-se e bebia-se bem.

Ele nunca foi fácil, mas sempre sincero. Duro às vezes, doce outras. Depois, saiu de cena. Disse: "Me incluam fora dessa". E partiu. Desapareceu. Nada foi mais discutido do que a reclusão do Raduan.

Uns achavam que era golpe de cena, recurso de mídia. Mas ele sumiu mesmo, foi viver no interior, da terra, para a terra. Há autores que "desaparecem", mas continuam na mídia. Raduan eclipsou-se. Poucos foram tão celebrados quanto ele. Prêmios, resenhas fantásticas, ensaios, filmes, documentários. Lembro-me que o crítico Leo Gilson Ribeiro me dizia, sempre: "Você escreve demais, publica muito, desacelere, veja o Raduan, um gênio com dois livros".

O homem que escreveu Lavoura Arcaica refugiou-se no interior, na fazenda, permanecendo na dele. Íntegro. Passadas duas décadas, numa tarde, numa loja em meio a computadores, damos de frente. Eu que para vestir sou desmazelado, como se diz em Araraquara, olhei para Raduan e me senti à vontade. Minha mãe ficava irritada: "Não vai sair assim feito um Judas!" Um dia, entendi a citação.

Os Judas que malhávamos no Sábado de Aleluia eram vestidos com restos de roupas encontradas nas casas. Como eu, Raduan não liga, porque nunca ligou. Sempre foi assim. Temos roupas boas, mas nada combina com nada. Alguém que nos visse ali iria achar estranho e perguntaria: "São escritores? Meu Deus! Literatura é coisa ingrata".

Sentamos à espera de nossas máquinas. E ele:
- Passei perto, quase fui. Fiquei! Foi sério!
Fez um gesto, indicando o coração. Eu acentuei:
- Mas está aqui. Também passei perto, fiquei.
Fiz um gesto, mostrei a cicatriz na cabeça.
- O aneurisma. Somos sobreviventes.

Rimos. O riso de Raduan é contido, mas terno. Parecia que nem um dia tinha se passado, o afeto foi o mesmo. Dois dias antes havia lido extensa matéria sobre ele na revista Piauí, comentei. Ele se moveu inquieto:

- Não devia ter consentido. Tentei bloquear. A revista estava na rua. Fiquei mal. Constrangido.

Estava mesmo. Qualquer um de nós teria adorado uma matéria daquela, páginas e páginas. Ele se mostrava realmente incomodado, intimidado. Nossas máquinas chegaram, assinamos papéis.
Foi um brevíssimo encontro, lacônico. Nenhuma discussão literária, nenhum pergunta o que você está fazendo, lendo, escrevendo, coisas do gênero.
Um alô, um abraço, um até logo. Ao nos despedirmos, acompanhei Raduan com o olhar até ele entrar no elevador. Um homem simples, puro, desligado das coisas, despido de vaidades. Uma ele tem, e com razão. É um grande escritor, um homem de estilo.

Que um dia olhou para esta vida literária que agita pulsante e se perguntou: o que tenho com isso? É o que também me pergunto, às vezes. Ah, sim, o acaso onde está? Eu ter lido a Piauí dois dias antes. E minha filha ter insistido: vamos hoje à Fnac. Não amanhã nem depois. Nada é acaso, gente.

Ignácio de Loyola Brandão - O Estado de S.Paulo
27 de julho de 2012

Nenhum comentário:

Postar um comentário