"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



quinta-feira, 30 de maio de 2013

A HORA DO LOBO

Terminei ontem o Manifesto do Nada na Terra do Nunca, do cantor de rock, escritor, e de agora em diante para mim, pelo menos para mim, pensador brasileiro – João Luiz Woerdenbag, o Lobão. São duzentas e quarenta páginas duma leitura de “lavar a alma”. Muito daquilo que está escrito ali eu mesmo queria colocar no papel.
Partindo de uma bibliografia que  conta com Edgar Morin, Olavo de Carvalho, David Horowitz e tantos outros capazes de (não me perguntem como)  manter um pensamento original, Lobão vem para, literalmente, não deixar “pedra sobre pedra”. Tendo como base a Semana de Arte Moderna e o Manifesto Antropofágico de 1922, Lobão diverte, comove, convence e cativa numa prosa alucinada e permeada por uma honestidade intelectual que há muito, mas muito tempo mesmo, deixou de existir no Brasil.
Em sete capítulos que tratam de arte, cultura, música, viagem e também, com muito senso de humor, de si mesmo, ele mostra a podridão da chamada intelectualidade brasileira atual. Seu recado para escória que infesta a universidade, a música, a literatura..enfim, para o próprio pensamento brasileiro atual é um só – “sejam originais, pô!” Chega de coitadismo, de indianismo, de multiculturalismo misturados com autopiedade e com essa complacência com a falta de caráter de um povo que fez de Macunaíma seu herói e das ONGS as suas novas Igrejas.
Lobão não tem pudor algum em mostrar que para ser intelectual politicamente correto no Brasil petista basta ter escrito algum samba durante a Ditadura Militar, algum romance que se passa no leste Europeu, ou ter passado uma noite numa delegacia qualquer nos anos 70. Ele desmascara a Lei Rouanet e os privilégios de um certo tipo de artista que toca violão como se estivesse “tomando cafezinho com nojo”.
Demonstra o porquê da falta de espaço para o verdadeiro rock na mídia brasileira, mostra a hipocrisia daquilo que chama de “Omissão” em vez de “Comissão” da verdade e deixa uma dura lição para todos os estudantezinhos dessa Universidade do B – a lição de que quem se vendeu, quem se tornou decadente, quem não tem mais peito nem coragem alguma para sair à rua são eles!
Bem vindo, Lobão, ao grupo daqueles poucos que merecem, de verdade, o título de intelectual. Uma pequena fração de brasileiros capazes de manter uma razão livre de fanatismos e que não está nem aí para esse Partido-Religião que está acabando com a cultura do Brasil.
Definitivamente, chegou a Hora do Lobo.

30 de maio de 2013
Milton Simon Pires é Médico.

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