"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sábado, 11 de maio de 2013

IMAGINE OS ADESISTAS!!!

 

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Ja deve fazer bem uns 10 anos eu estava hospedado em casa de uma amiga em Mar Grande e, depois de alguma resistência, tomamos um barco de aluguel e, superadas as peripécias imagináveis para atravessar uma cidade conflagrada, fomos parar num desses camarotes patrocinados do carnaval de Salvador.

Era um ambiente enorme, cheio de praças diferentes que se distribuiam em desníveis ligados por escadarias precárias de variadas inclinações, até chegar ao grande salão, lá em cima, que dava visão para a rua e para aquela folia frenética e violenta que caracteriza essa festa na capital da Bahia.

A estrutura apoiava-se numa encosta de modo que víamos o povo pulando como que dois ou tres andares abaixo. Os trios elétricos, quando passavam por ali, alinhavam o teto em cima do qual iam os cantores e as bandas quase exatamente com o assoalho desse salão.
Ficava-se literalmente cara-a-cara com eles no momento da passagem.

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Artistas, autoridades, socialites, “famosos”, garçons-equilibristas se esgueirando com suas bandejas carregadas lá no alto, “gostosas”, “porras-loucas”, traficantes…
O povo do costume nesses eventos misturava-se e confraternizava daquele jeito de que só brasileiro é capaz.

No centro exato desse grande terraço, cercado dos puxa-sacos do costume, o governador da Bahia em pessoa e sua primeira-dama presidiam a esbórnia.
Para qualquer momento, corria o zum-zum pelo camarote, esperava-se a chegada do rei da Suécia e sua rainha brasileira.

E bebida. Muita bebida em cima…
De repente, o burburinho foi subindo, junto com uma agitação que empurrava a boiada toda para o fundo em direção à escada que desembocava no salão principal do camarote:

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_ O rei chegou, o rei chegou…
Um desavisado ao meu lado, forte sotaque baiano, pergunta:
_ Que rei, ACM?
_ Não, um outro aí; um mané… retruco-lhe, divertido.
Alarme falso.
E as caipirinhas rolando…

O som do trio elétrico vai subindo. É o de Gilberto Gil que se aproxima.
O camarote trepida. Lá embaixo é um frenesi dos blocos dos abadás, que compram o direito de pular junto aos carros.

O monstrengo, despejando seus milhões de decibéis, já está alinhado com o canto final do camarote e o mundo parece estar vindo abaixo. Ele avança mais um pouco e o governador e sua entourage soltam a franga.
Estão frente a frente; o camarote ferve e …

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De repente a música estanca!
Surpreso, começo a procurar. É briga? É pane?
Gilberto Gil resolve a minha dúvida.
Cara-a-cara com o governador, ele se desfaz numa mesura…
_ Eu queria aqui saudar o nosso governador que tão gentilmente, etc, etc, etc…

O povo lá embaixo parado, esperando. A festa nacional foi interrompida mas não há nenhuma reação dos foliões.
Nem uma vaia. Nem mesmo um “Óóóhh!
Mais uns tantos rapapés e o dilúvio de som recomeça. Segue a festa como se não tivesse havido nada.
Aquilo foi um choque!
Afinal, eu sou de Sampa, de onde não se vê quem sobe ou desce a rampa!

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Dei parte do meu escândalo aos meus anfitriões, mas vá lá. Abafa o caso…
Vai daqui, vai dali, mais umas tantas caipirinhas pra dentro e lá vem outro trio elétrico.

Não me lembro se era o dele ou se ele vinha lá em cima de convidado, mas este carregava ninguém menos que Caetano Veloso, o revolucionário das palavras e dos sons do português de minha tamanha admiração.

Caí das nuvens! Não é que ele repete o ritual de Gil!
_ Boa noite, excelência. Eu queria comprimentar aqui o senhor governador que tanto tem feito pela Bahia… (e lero, lero, lero…)

Não me segurei mais. As caipirinhas “bateram” todas de uma vez.
Com gestos de estadista em palanque e pra lá de “torto“, abri o verbo, carregando no sotaque baiano.
_ E estes, senhoras e senhores, são os révolucionarios! Imaginem os adesistas!

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Não parei mais. Indignação e álcol são uma mistura perigosa. Estava de uma inconveniência tal que meus constrangidos anfitriões tiveram de me levar de lá para fora, enquanto eu seguia gesticulando para trás e vociferando para sua excelência ouvir.

E assim segui torturando os meus queridos amigos baianos durante toda a travessia até Mar Grande, onde fui curtir a minha ressaca e, no dia seguinte, a minha vergonha monstro.

Hoje de manhã, quando vi a foto de Guilherme Afif Domingos, o nosso sôfrego vice-governador e ministro, beijando as mãos de Dilma Roussef na capa dos jornais, tão sóbrio quanto no dia em que nasci, foi essa a história que veio-me à cabeça.

_ Esta, senhoras e senhores, é a oposição! Imaginem os adesistas! E segui com o meu indignado discurso imaginário: Dos flagelados do Bolsa Família ao Jorge Gerdau todo mundo se vende neste país! O que varia é só o preço…

Deixa pra lá. Abafa o caso.

Resolvi que esta noite vou tomar umas, à saúde dos poucos de nós, coitados, que não temos preço.

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11 de maio de 2013
vespeiro

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