"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



quarta-feira, 31 de julho de 2013

O PROVÁVEL COLAPSO DO ISLAMISMO


          Artigos - Globalismo        

As rivalidades, minimizadas quando os islamistas penavam na oposição, aparecem quando detêm o poder. 
Ali Khamene'i e Mahmoud Ahmedinejad nos bons tempos.
Em 2012, parecia que os islamistas poderiam superar suas diferenças internas, que não são poucas, como as sectárias (sunitas, xiitas), políticas (monárquicas, republicanas), táticas (política, violência) ou atitudes em relação à modernidade (Salafi, Irmandade Muçulmana) e cooperarem.

Por exemplo, na Tunísia, os salafistas e a Irmandade Muçulmana (IM) encontraram um denominador comum.
As diferenças entre todos esses grupos eram verdadeiras, porém secundárias, conforme expus naquela época, porque "todos os islamistas têm o mesmo objetivo, a aplicação rígida e total da lei islâmica (a Shari'a)".

Esse tipo de cooperação ainda continua, mas pouco, conforme evidenciado por uma reunião entre um membro do partido da situação na Turquia e o chefe de uma organização salafista na Alemanha. Mas nos últimos meses os islamistas, abrupta e assombrosamente, passaram a se enfrentar com extrema violência.
Não obstante, os islamistas ainda compõem um movimento único, compartilhando objetivos utópicos semelhantes de supremacia, mas também têm pessoas, afiliações étnicas, métodos e filosofias diferentes.

Terríveis hostilidades islamistas irromperam em vários países de maioria muçulmana. Tensões entre sunitas e xiitas podem ser vistas na Turquia x Irã, também devido a diferentes abordagens em relação ao islamismo, no Líbano, são entre islamistas sunitas x islamistas xiitas e islamistas sunitas x forças armadas, islamistas sunitas x xiitas na Síria, islamistas sunitas x xiitas no Iraque, islamistas sunitas x xiitas no Egito e Houthis x salafistas no Iêmen.
 
Recep Tayyip Erdoğan e Fethullah Gülen, aliados de outrora.
Entretanto o que ocorre, com mais frequência, é o enfrentamento de membros da mesma seita: Khamenei x Ahmedinejad no Irã; AKP Gülenistas na Turquia, Asa'ib Ahl al-Haq Muqtada al-Sadr no Iraque, monarquia x IM na Arábia Saudita, Frente de Liberação Islâmica x Frente Nusra na Síria, IM do Egito x Hamas em relação às hostilidades contra Israel, IM salafistas no Egito e o conflito de dois respeitáveis ideólogos e políticos, Omar al-Bashir x Hassan al-Turabi, no Sudão. Na Tunísia, salafistas (chamados de Ansar al-Sharia) combatem uma organização estilo IM (chamada Ennahda).

Aparentemente pequenas diferenças podem assumir uma dimensão complexa. Tente acompanhar a misteriosa narrativa de eventos de um diário de Beirute quanto às hostilidades emTrípoli no norte do Líbano:
Estão em ascensão os confrontos entre os diversos grupos islamistas em Trípoli, divididos entre os movimentos políticos 8 de Março e 14 de Março. Desde o assassinato do ilustre chefe de inteligência do grupo 14 de Março, Brig. Gen. Wissam al-Hasan em outubro, as controvérsias entre grupos islamistas e Trípoli têm caminhado para uma grande conflagração, particularmente após o assassinato do Xeque Abdel-Razzaq Asmar, autoridade do Movimento Islâmico Tawhid, ocorrida apenas horas depois da morte de Hasan.
O xeque foi morto a tiros, durante um confronto armado desencadeado quando partidários de Kanaan Naji, personalidade islamista independente associada com a União Nacional Islâmica, tentaram tomar a sede do Movimento Islâmico Tawhid.
 
Essa norma de causar rupturas faz lembrar as divisões dos nacionalistas pan-árabes dos anos de 1950. Eles almejavam unificar todos os povos de língua árabe, conforme a expressão de então, "Do oceano [Atlântico] ao golfo [Pérsico]". Por mais atraente que esse sonho possa parecer, seus líderes debandaram à medida que o movimento ficava mais forte, condenando o nacionalismo pan-árabe ao ponto dele finalmente desmoronar sob opeso de confrontos caleidoscópicos, cada vez mais triviais. Senão vejamos:
  • Gamal Abdul Nasser do Egito x partidos Ba'th (ou Baath) no poder na Síria e no Iraque.
  • Partido sírio Baath x Partido iraquiano Baath.
  • Baathistas Sunitas Sírios x Baathistas Alawitas Sírios
  • Baathistas Jadidistas Alawitas Sírios x Baathistas Assadistas Alawitas Sírios.
Omar al-Bashir e Hassan al-Turabi, também aliados de outrora.
E assim por diante. Na realidade, cada esforço em formar uma união árabe fracassou, sobretudo a República Árabe Unida entre o Egito e a Síria (1958-61), além de tentativas mais frágeis como a Federação Árabe (1958), Estados Árabes Unidos (1958-61), Federação das Repúblicas Árabes (1972-77), o domínio sírio sobre o Líbano (1976-2005) e a anexação do Kuwait pelo Iraque (1990-91).

Refletindo profundos padrões e tendências do oriente médio, a dissensão entre islamistas evitou, da mesma forma, que se unissem. À medida que o movimento decola, que seus membros se aproximam do poder e efetivamente governam, as diferenças se tornam cada vez mais desagregadoras. As rivalidades, minimizadas quando os islamistas penavam na oposição, aparecem quando detêm o poder.
 
Continuando a tendência facciosa, o movimento islamista estará condenado, como o fascismo e o comunismo, não passando de uma ameaça à civilização perpetrando enormes danos, mas nunca obtendo êxito.
Essa limitação potencial sobre o poder islamista, que só ficou evidente em 2013, proporciona uma base para otimismo mas não para complacência. Ainda que as coisas possam parecer melhores do que no ano passado, elas podem rapidamente mudar de direção. A longa e árdua tarefa de derrotar o islamismo continua de pé.
 
Adendo: 

As subdivisões dos nacionalistas pan-árabes nos anos de 1950 lembram um sketch do comediante americano 
Emo Philips (ligeiramente adaptado para leitura):
Certa vez vi um cara prestes a pular de uma ponte.

Eu disse, "Não faça isso"! "Ninguém me ama", respondeu ele.

"Deus te ama. Você acredita em Deus"? "Acredito", respondeu ele.

"Eu também! Você é cristão ou judeu"? "Cristão" respondeu ele.

"Eu também! Protestante ou católico"? "Protestante" respondeu ele.

"Eu também! De que doutrina"? "Batista", respondeu ele.

"Eu também! Batista do norte ou Batista do sul"? "Batista do norte", respondeu ele.

"Eu também! Batista Conservador do Norte ou Batista Conservador do Sul"? "Batista Conservador do Norte", respondeu ele.

"Eu também! Batista Conservador Do Norte da Região dos Grandes Lagos ou Batista Conservador Do Norte da Região Leste"? "Batista Conservador Do Norte da Região dos Grandes Lagos", respondeu ele.

"Eu também! Conselho Batista Conservador Do Norte da Região dos Grandes Lagos de 1879 ou Conselho Batista Conservador Do Norte da Região dos Grandes Lagos de 1912"? "Conselho Batista Conservador Do Norte da Região dos Grandes Lagos de 1912, respondeu ele.

Eu disse, "Morra, herege"! E o empurrei.


31 de julho de 2013
Daniel Pipes
Publicado no The Washington Times.

Original em inglês:
 Islamism's Likely Doom

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