"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 9 de dezembro de 2012

LEMBRANÇAS DE BAIANOS E NÃO-BAIANOS

 

Têm merecido destaque as manifestações do intelectual, residente em Andaraí, região diamantina da Bahia, Zudgard José de Barros Paes Coelho. Foi ainda radicado em Andaraí, seu berço natal, que Herberto Sales, no verdor dos 21 anos, escreveu o romance “Cascalho”.
Dando expansão ao romantismo de sonhos, pleno de esperanças de jovem interiorano daqueles idos, mandou cópia do livro, pelo correio, para o escritor Marques Rebelo, no Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Letras.


Herberto Sales teve apoio de Marques Rebelo

Lendo-o e outorgando atenção à carta com que Herberto lhe encaminhara o livro, Marques Rebelo, admirado da portentosa produção do novel romancista, dirigira-lhe afetuosa correspondência, referta de generosidade e justiça, sugerindo-lhe ir, sem demora, para o Rio de Janeiro. Franqueou-lhe hospedagem na própria residência.

Eram ainda tempos de fraternidade. Tempos que se foram e não mais voltarão! Herberto, logo ao conseguir os recursos indispensáveis à viagem, empreende-a, chega à capital da República e se torna hóspede de Marques Rebelo, que morava num edifício, na Praia do Flamengo, em cujo local também residiam outros três ou quatro imortais da ABL.

Herberto passou a desfrutar do calor humano, da hospitalidade e da proteção do consagrado escritor — de temas predominantes da urbe carioca — durante período equivalente a um ano! Herberto Sales voltou a estar em Andaraí, várias décadas decorridas, uma única vez por um só dia, quando atendera convite de honra para abrilhantar a inauguração de uma agência bancária naquela cidade.

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HERMES LIMA

O ministro Hermes Lima, formado na Bahia, colega de turma, entre outros, de Nestor Duarte e do também ministro Adalício Nogueira. Pouco tempo depois da colação de grau, por volta dos 30 anos, adquirira Hermes Lima destaque nacional, ao vencer seis candidatos no concurso para a docência de Introdução à Ciência do Direito, na faculdade do Rio de Janeiro, entre eles, Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, e o já consagrado mestre Leônidas de Rezende, este apoiado por numerosa claque de universitários esquerdistas.

A tese de Hermes Lima, transformada em livro-texto dos cursos jurídicos, fruto de aprimorada pesquisa, até hoje é lida e consultada com real proveito. Hermes Lima era sertanejo, nascido no atual município de Livramento de Nossa Senhora. No seu livro de memórias — Travessia — há o registro de que jamais voltara àqueles pagos.

Adalício Nogueira abraçou a magistratura. Catedrático de Direito Romano na respectiva faculdade da Bahia. Fui seu aluno no primeiro ano jurídico e me encantava com suas aulas permeadas de oratória. Foi desembargador-presidente do tribunal de Justiça do Estado de origem. Adalício Nogueira chegou a ministro do Supremo Federal à época em que também pontificava na suprema corte Aliomar Baleeiro, catedrático de Ciências das Finanças na Bahia.

Disputou a cátedra com Antônio Balbino de Carvalho Filho. Ao ensejo do concurso, Aliomar Baleeiro já era mestre consagrado da disciplina. Nessa pugna intelectual, Antônio Balbino, que se improvisara de financista, quase vence o certame, superando o antagonista na exposição oral a que imprimira raro brilho.

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EDUARDO PRADO

Foi em Livramento de Nossa Senhora, antigo Livramento do Brumado, que, logo após a proclamação da República, buscara refúgio —de perseguições políticas — o monarquista Eduardo Prado, personagem de Eça de Queiroz, em “A Cidade e as Serras” e autor de “A Ilusão Americana”, filho da famosa matriarca paulista dona Veridiana Prado.

Na busca de esconderijo, Eduardo Prado obteve carta de apresentação, subscrita pelo baiano Teodoro Sampaio, amigo da família, dirigida ao coronel Laranjeiras, que desfrutava de domínio político naquela distante região da Bahia.

O famoso escritor, em demanda a Livramento à busca de refrigério d’alma, cumpriu a penosa jornada de trem, no longo percurso de Cachoeira até Machado Portela em pleno sertão, onde já encontrara os condutores e as alimárias que o levaram ao destino.

Eduardo Prado viveu aqueles dias em Livramento cercado de cuidados e mergulhado em leituras. Obtida que fora a almejada proteção, logo que amainados os ódios persecutórios dos adversários, chegou o dia da despedida do coronel Laranjeiras. Emocionou-se.

A maneira encontrada por Eduardo Prado de expressar-lhe gratidão foi abdicar-se do relógio de ouro, tirando-o do pulso e entregando-o àquele homem que tanto se dedicara em dar-lhe proteção e amenizar-lhe as agruras.

09 de dezembro de 2012
Hugo Gomes de Almeida

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