"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



terça-feira, 13 de agosto de 2013

"O ÚLTIMO TANGO DE CRISTINA KIRCHNER"

 
Era quase meia-noite de domingo, quando Cristina Kirchner, a bordo de um modelo preto cintilante, esboçou um sorriso no salão do Hotel Intercontinental, no centro de Buenos Aires. Dirigindo-se aos aliados, comentou os resultados das eleições primárias para o Legislativo.

Evitou evocar a palavra maldita no presente - “derrota”. Optou por um caminho tortuoso, até atravessar o túnel do tempo e encontrar um meio de disfarçá-la com a moldura do passado: “O homem que mudou a vida da Argentina reconheceu aqui sua derrota”. Referia-se ao falecido marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, que perdera eleição similar em 2009. Do lado de fora, a contagem dos votos avançava, ao ritmo de prelúdio do último tango da viúva Kirchner.
 
Ninguém perdeu tanto quanto a presidente argentina no domingo. Há pouco mais de ano e meio, ela emergiu das urnas reeleita com 54% dos votos - um recorde nacional em eleição presidencial. Na segunda-feira, a grande eleitora saboreou o gosto amargo de uma derrota acachapante. Seu governo não conseguiu respaldo de 27% do eleitorado, metade do apoio que conquistara na reeleição de 2011.
 
Salvo um milagre (em política, eles sempre são possíveis), para Cristina o sonho acabou. Os resultados das primárias sinalizam que em outubro não haveria maioria de votos suficiente na Câmara e no Senado para sustentar a principal batalha política planejada pelo governo para os próximos dois anos: mudar a Constituição com o objetivo de levar a presidente para um terceiro mandato.
 
O que aconteceu? Faltaram votos. A realidade dos argentinos parece ter superado a propaganda, que tentava moldá-la na prioridade número um de Cristina - aumentar a eficiência da máquina eleitoral governista, para garantir a continuidade da hegemonia do seu condomínio político no poder.
 
Os eleitores, que Cristina considerava “fiéis” ao seu "modelo", perceberam. Nas urnas, eles simplesmente decidiram votar contra o governo. E nem se pode dizer que se trata de uma peculiaridade da conjuntura argentina. A última eleição presidencial na Venezuela, em abril, revelou deserção tão ampla no eleitorado chavista, que deixou um rastro de dúvidas sobre a legitimidade do presidente ungido Nicolás Maduro.
 
Como na Venezuela, a derrota de Cristina traduziu a percepção prevalecente entre os argentinos sobre a tendência ao empobrecimento do país, ao menos no médio prazo. São múltiplos os sinais. Entre os mais visíveis, a expectativa generalizada de desvalorização da moeda (o peso) por conta do acúmulo de desvarios na política.
 
No ano passado, por exemplo, Cristina emitiu tanta, mas tanta moeda (715,9 milhões de unidades de papel-moeda), que chegou perto de igualar o volume total de dinheiro impresso pelo falecido marido em quatro anos e meio de mandato. Ela emitiu, na média, dois milhões de unidade de papel-moeda por dia - a conta do repórter Jorge Oviedo inclui domingos e feriados. Néstor Kirchner mandou imprimir 789,9 milhões ao longo de 54 meses.

Para quê? Para financiar a continuidade de um "Estado solidário" na Argentina. Nele, aparentemente, Cristina se via como rainha. Com poderes absolutos. Mais até do que o modelo feminino que adotou como espelho, Eva Perón.
 
Sua imagem abatida, na festiva noite de domingo, evocava o personagem soturno do tango de Astor Piazzolla e Mario Trejo:
 
“Soy sólo un pájaro perdido
 
Que vuelve desde el más allá
 
A confundirse con un cielo
 
Que nunca más podré recuperar…”
 
Ali, no hotel, ela poderia ter começado uma volta por cima, mas recusou-se até a pronunciar a palavra que tornou maldita para a ocasião. Preferiu redobrar a aposta na polarização e no confronto político em outubro. Essa atitude talvez acentue nas próximas semanas as tendências autoritárias de seu governo. Se assim fizer, Cristina realizará uma nova proeza política: piorar a própria derrota.

13 de agosto de 2013
José Casado, O Globo

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