"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



terça-feira, 24 de abril de 2012

NOVA CLASSE MÉDIA VERSUS VELHA CLASSE MÉDIA

A chegada de oito milhões de brasileiros à sociedade de consumo deflagra uma variação da luta por capital simbólico.

Não sou exatamente um especialista em Pierre Bourdieu. Mas me interesso pela teoria do sociólogo sobre os espaços de estilos de vida e luta simbólica, que expande a ideia de luta de classes marxista. Se para Marx as sociedades se estruturam a partir de processos econômicos, para Bourdieu a ideia é um pouco mais complicada do que isso: há também um capital cultural que define o espaço do homem na sociedade, já que os recursos culturais que ele possui como agente social têm um papel fundamental em seu status.

Os bens culturais não só definem o indivíduo dentro da sociedade, como dão a ele a ilusão de pertencer a um grupo social distinto. Criam uma espécie de mobilização das classes sociais, e fazem com que os indivíduos das classes inferiores passem a imitar as práticas culturais dos grupos dominantes.
Por exemplo, a classe dominante costuma ouvir um determinado tipo de música considerado “distinto” , ou seja, mais valorizado socialmente. Escutar este tipo de música os legitima socialmente. Para atingir o mesmo status social que eles, a classe inferior, por sua vez, tenta imitar este mesmo gosto.

Querendo lucrar com o fenômeno, as empresas popularizam a tal música “distinta”, vendendo a um número maior de pessoas a mesma ilusão de distinção. No Brasil, os governistas deslumbrados com o crescimento econômico veem aí uma “democratização da cultura e dos serviços”. Já os brasileiros que se consideram “distintos” acharam um outro nome para isso: “orkutização”. Um termo pejorativo, claro.
Porque, como lembra Bourdieu, os grupos dominantes são sensíveis a qualquer imitação. Para restaurar sua distinção simbólica e mantê-la como um privilégio para poucos, eles se esforçam em mudar suas práticas culturais, procurando outras ainda mais raras.

É difícil não pensar em Bourdieu neste momento peculiar da economia brasileira, em que uma chamada “nova classe média” surge em massa no horizonte, prometendo substituir a “velha classe média” menos numerosa. Recentemente, um episódio um tanto patético em torno da popularização do Instagram deflagrou as lutas simbólicas travadas por aqui.
Para quem não sabe, o Instagram é um aplicativo para iPhone que permite criar um filtro vintage para fotos. Parte do sucesso do aplicativo vinha do fato de que, ao serem compartilhadas na internet, tais fotos anunciavam categoricamente que o determinado usuário possuía um iPhone, incluindo-o em uma distinta esfera social. Não por acaso, os usuários se revoltaram quando este mesmo aplicativo passou a ser disponível para outros tipos de telefone, cujo capital simbólico seria supostamente menor do que o do iPhone. Era a orkutização definitiva do Instagram. O fim da dinstinção.

Mas a luta simbólica ganhou nome e rosto esta semana, na figura de um conhecido cronista e jornalista carioca. Em sua coluna no Globo, Artur Xexéo faz um verdadeiro lamento a um mundo de privilégios e distinção que desaparece diante dos seus olhos. Xexéo se diz orgulhoso do surgimento de uma nova classe média no Brasil, com seus “oito milhões de conterrâneos que chegaram à sociedade de consumo nos últimos tempos”.

Mas há um problema, afirma ele: diante dessa massa, a velha classe média, a qual faz questão de se associar, está ficando acuada, sem acesso a seus bens culturais distintos. Isto porque a indústria, segundo Xexéo, agora só pensa em suprir as necessidades de uma nova classe social, que, ao contrário do que teoriza Bourdieu, não faz a menor questão de imitar os gostos daqueles que ocupavam a mesma esfera social antes deles.

A “nova classe média”, como chama Xéxeo, quer ouvir pagode, sertanejo e axé; quer ver filmes dublados na TV a cabo (antigamente, um privilégio para poucos); e, heresia máxima para noveleiros leblonenses, exigem ver as comunidades carentes retratadas nas novelas globais. Pior ainda: em vez de pedir “sanduíche de queijo com suco de laranja” nos aviões (leia o texto, não estou inventando) contentam-se com barrinhas de cereal! Confesso que dou risadas imaginando como seria a reação de Pierre Bourdieu, morto em 2002, ao ver a luta de classes rebaixada a um embate entre suco de laranja e barras de cereal.

O texto de Xexéo se espalhou rapidamente pelas redes sociais, onde foi taxado de “reacionário”, “fascista”, “preconceituoso”, e por aí vai. É interessante perceber que as reações mais vívidas saíram do que se poderia chamar de “a jovem classe média velha”, ou seja, novas gerações oriundas da mesma velha classe média à qual Xexéo diz pertencer.
Muitas dessas pessoas não têm nenhum vínculo afetivo com as classes inferiores ou emergentes, mas mesmo assim acharam de bom tom atacar as ideias elitistas do colunista. O fato merece uma reflexão mais aprofundada, que infelizmente não cabe aqui. Afinal, o que me interessa na verdade é observar como, no Brasil atual, surgiu uma variação intrigante na teoria da luta simbólica de Bourdieu.

Ao ascender economicamente, as classes emergentes brasileiras já não sentem nenhuma necessidade de imitar as velhas classes dominantes. Os bens culturais deixaram de ser um agente forte de identificação e pertencimento.
A nova classe média emerge sem complexos, ou porque o crescimento econômico no país não veio acompanhado de uma “educação cultural” (leia-se “padronização”, no sentido pejorativo mesmo) ou porque o capital simbólico se transferiu quase que exclusivamente para os bens de consumo. No Brasil, o que daria a um indivíduo a ilusão de distinção não é um livro, um filme, uma música, mas sim um iPhone, uma TV plasma, um cruzeiro por Fernando de Noronha pago em 100 vezes no crédito (como já disse Eduardo Viveiros de Castro: “Tirar da pobreza = endividar no cartão”).

Quanto ao Xexéo… Bom, talvez seja interessante lembrar ao colunista outra ideia de Bourdieu, a de que o espaço social é relacional. As práticas sociais mudam com o tempo de acordo com a mobilidade social, na medida em que são adotadas por classes mais baixas.
Os gostos do próprio Xexéo, como novelas televisivas, musicais cafonas importados da Broadway e até mesmo o cinema hollywoodiano já foram considerados popularescos em outros tempos e substituíram, eles também, capitais culturais vistos como mais “distintos” no passado.
Afinal, quantas montagens de tragédias gregas deram lugar a musicais do Miguel Fallabella? Quantas pessoas deixaram de ler Flaubert no original para perder tempo com novela de Gilberto Braga? Xexéo pode achar muito distinto assistir Odete Roitman humilhando sua empregada, mas, num passado remoto, acompanhar novela já foi um interesse “de baixo nível” (em certos grupos sociais, aliás, ainda é). Suco de laranja, novela e filme legendado também já foram o símbolo da antiga nova classe média de uma velha classe média.
E, num futuro próximo, novas classes médias envelhecidas reclamarão de que não há mais barrinhas de cereais nos voos ultra-econômicos, e de que o agora distinto funk carioca já não toca mais nas rádios…

Aos que procuram se distinguir por fetiches culturais, vale lembrar que gostos e interesses não são vulgares por si só: eles só o são quando comparados a outros gostos e interesses distintos. O suco de laranja no avião não seria “distinto” se não houvesse a barra de cereal, assim como antigamente o champagne não poderia ser “distinto” se não houvesse o suco de laranja. Que todas as classes médias, velhas ou novas, tenham consciência: bom gosto é apenas o mau gosto com alguns anos de envelhecimento.

Bolivar Torres. Escritor e jornalista.
24 de abril de 2012

Nenhum comentário:

Postar um comentário