"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



terça-feira, 22 de maio de 2012

LUIZ INÁCIO, O APEDELTA

Volta a negar a existência do mensalão, a acusar o golpismo da oposição e da mídia e a atacar a Dona Zelite! Ainda haveremos de criar uma Comissão da Verdade para combater suas mentiras

Neste texto, demonstro que o bem que Lula pode ter feito ao Brasil foi sem querer — a institucionalidade que herdou o fez em seu lugar. Já o mal que faz é deliberado, consciente, por querer. Sabem por quê? O Lula que governou não pôde ser plenamente petista. Já o ex-presidente o é em sua plenitude. Se gostarem, passem adiante.

Luis Inácio ApeDELTA da Silva recebeu ontem à noite, na Câmara Municipal de São Paulo, o título de “Cidadão Paulistano”. O combinado é que seria a primeira de uma série de solenidades para alavancar o nome de Fernando Haddad, o candidato à Prefeitura que ele impôs na base do dedaço. Parece que a coisa não saiu como o esperado. No discurso, o ex-presidente se referiu uma única vez a Haddad, que estava na plateia (”o maior ministro da Educação que este país já teve”, claro, claro…), e preferiu usar seu tempo para atacar as elites… A cascata de sempre. Presente, a senadora Marta Suplicy (PT-SP), que teve a sua pré-candidatura cassada por Lula, discursou. Disse que o novo pelo novo (leia-se: Haddad), por si, não significa nada; o importante é um “programa novo”. Para o ungido do Babalorixá, foi um anticlímax…
E não se tinha ali o melhor… quero dizer, o pior da noite.
Lula voltou a se referir ao mensalão e ressuscitou a tese vigarista, obviamente falsa, de que aquilo tudo não passou de uma mancomunação da oposição com a imprensa para derrubá-lo. Uma tentativa de “golpe”, disse de novo. Deve-se entender, assim, que tanto a Procuradoria-Geral da República, que apresentou a denúncia, como o Supremo Tribunal Federal, que a recebeu, são partícipes dessa conspirata. Relembrando as próprias palavras, o ApeDELTA afirmou que a oposição só não deu prosseguimento ao impeachment — nunca houve movimentação efetiva nesse sentido; é mentira! — porque ficou com medo da mobilização popular. Isso também é falso. A aprovação de Lula, naqueles dias, estava pouco acima dos 50%. Ademais, entre aprovar e sair às ruas fazendo barricadas, há uma grande diferença.

Mas o recado é claro! Lula acredita dever a manutenção de seu mandato apenas ao “povo”, entendido, na sua visão perturbada, como o outro lado das “instituições”. Afinal, se oposição, imprensa, Ministério Público e Supremo participaram de uma conspiração, só restou mesmo uma instância de verdade no país: o PT — e, obviamente, os que se aliaram ao partido.
O ex-presidente comanda, de maneira nem tão clandestina e com pressões nada sutis, o esforço para cassar moralmente o direito de o Supremo julgar com isenção os mensaleiros. A fala de ontem, repetindo boçalidade antiga sobre um golpismo que nunca existiu, é parte da pressão. Até o seu discurso de agradecimento, que volta a fazer a velha clivagem vigarista entre “povo” e “elite”, é fração desse esforço. Lula quer que o país acredite que condenar José Dirceu por “formação de quadrilha” é um atentado aos interesses populares…

Incrível este senhor! Contrariando mais uma promessa solene que fez — e ele é o rei do descumprimento de promessas (já me estendo a respeito) —, está sendo muito pior como ex-presidente do que foi como presidente. Explico-me: na Presidência, mesmo tentando coisas novas e ruins, acabou, felizmente, limitado pelas coisas antigas e boas. Não encontrou o país como seus amigos Hugo Chávez, Rafael Correa, Evo Morales e o casal Kirchner encontraram, respectivamente, a Venezuela, o Equador, a Bolívia e a Argentina — com a institucionalidade em frangalhos. Ao contrário: em razão da conjuntura internacional, a nossa economia não ia muito bem, mas havia plena governabilidade. Na verdade, os oito anos do governo FHC haviam sido um período de institucionalização de procedimentos. Em muitos aspectos, O TUCANO INVIABILIZOU O QUE SERIA UM GOVERNO TIPICAMENTE PETISTA. Lula teve de seguir o modelo.

Tentou inovar na área das liberdades democráticas? Tentou, sim! Esforçou-se para diminuí-las, propondo ou endossando, por exemplo, mecanismos de controle da imprensa — esta mesma que ele continua a atacar ainda hoje — e demonizando os órgãos que vigiam o governo. Mas acabou sendo malsucedido nesses intentos. Os marcos legais que encontrou ao chegar ao poder o obrigaram a uma gestão dentro das regras — e essa foi, obviamente, a sua sorte. Não foi um Chávez não porque não tivesse disposição e caráter para tanto — lembre-se de que ele é o autor de uma frase fabulosa: “Nunca houve tanta democracia na Venezuela como agora”; não foi um Chávez porque as leis brasileiras não lhe permitiram ser e porque a sociedade, mesmo aprovando sua gestão, recusa expedientes autoritários.

Sem regras

Se teve de ser um presidente segundo as regras — o que o obrigou a jogar no lixo o programa do PT, para sua glória e nossa sorte! —, pode agora ser um ex-presidente sem limites. Há dois meses, comanda um esforço brutal para tentar impedir que se investigue a fundo o esquema Delta — de que Carlinhos Cachoeira era só um operador local, do Centro-Oeste. Há dois meses, lidera a palavra de ordem para levar a imprensa para o banco dos réus, esforço malogrado porque se percebeu a tempo a pilantragem, esta sim, golpista: junto com o jornalismo, Lula queria desmoralizar o Ministério Público Federal e uma parte do Supremo.

Ontem, realizou-se uma reunião da casa do deputado Maurício Quintela (PR-AL), sob o comando dos petistas, com um único propósito: impedir que a CPI investigue a Delta nacionalmente, mantendo o foco só no Centro-Oeste e nas relações da empresa com Carlinhos Cachoeira. O Lula que quer fraudar o passado é o mesmo que frauda o presente para impedir que o país se livre de alguns larápios que têm tudo para infelicitar o seu futuro. O contraventor e suas franjas no Congresso e em governos têm, sim, de ser investigados e, estabelecidas as culpas, punidos. MAS JÁ NÃO HÁ DÚVIDA NENHUMA DE QUE O NOME QUE DESPERTA PÂNICO NO PT E NA BASE GOVERNISTA É UM SÓ: DELTA!!!

Tenho escrito alguns textos sobre a tal “Comissão da Verdade” e sua vocação natural, desde o nome, para a mentira. Não é impressionante que se tenha instalado algo assim em dias como esses? Não é impressionante que uma comissão que pretende estabelecer a “verdade oficial” sobre fatos ocorridos há quase 50 anos seja contemporânea e cria de um líder político que nega a existência de um crime escancaradamente provado? Não é impressionante que atue firmemente para impedir a apuração de outros tantos crimes?

O bem que Lula pode ter feito ao Brasil foi sem querer — a institucionalidade que herdou o fez em seu lugar. Já o mal que faz é deliberado, consciente, por querer. Sabem por quê? O Lula que governou não pôde ser plenamente petista. Já o ex-presidente o é em sua plenitude.

22 de maio de 2012
Por Reinaldo Azevedo

Nenhum comentário:

Postar um comentário