"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 14 de outubro de 2012

AGONIA DO STF REACENDE DIVISÃO INTERNA DO PT

ACondenação de corruptos pelo STF aumenta guerra entre facções do PT
 

Ao condenar por corrupção ativa José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, o STF riscou um fósforo que reacendeu o pavio da divisão interna do PT.
Ressurgiram na legenda as críticas à hegemonia exercida pelo diretório de São Paulo. Em privado, um petista gaúcho resumiu a cena: o PT que o Supremo Tribunal Federal acaba de condenar é o PT paulista, com seus métodos e seus vícios.

Lideranças petistas de outros Estados movem-se em segredo para tentar converter as queixas fragmentadas num movimento orgânico.
Em 2005, quando foi deslocado do Ministério da Educação para a presidência de um PT em chamas, Tarso Genro, hoje governador do Rio Grande do Sul, falava em “refundação” do PT. Agora, utilizam-se vocábulos menos drásticos: renovação e oxigenação, por exemplo.

Deixando-se de lado o ajuste de linguagem, a causa da ebulição é essencialmente a mesma: a supremacia exercida no aparelho partidário pelo antigo Campo Majoritário, rebatizado de ‘Construindo um Novo Brasil’. Uma corrente que, personificada em José Dirceu, é vista pelos críticos como responsável por dois movimentos ruinosos.

Num, dizimaram-se os grupos que davam ao PT a aparência de um partido vivo. Noutro, a pretexto de construir a política de alianças que pavimentou a primeira eleição de Lula, empurrou-se a legenda para um modelo que, na visão dos descontentes, desaguou no mensalão. Os “renovadores” enxergam no ocaso de Dirceu um horizonte favorável à desobstrução do debate.

Como que farejando o cheiro de queimado, Lula leva o pé à porta. Tenha o nome que tiver – refundação, renovação ou oxigenação — a mudança de hábitos internos teria de passar por uma autocrítica que o morubixaba do PT não parece disposto a fazer.
Na prática, significaria reconhecer que sua passagem pela Presidência desfigurou o PT.

Tomado pelo que disse nos últimos dias, Lula prefere virar a página do mensalão para trás. Realiza-se no STF, segundo ele, um julgamento político. Passado o segundo turno, pretende dizer que Dirceu e Genoíno foram condenados injustamente, sem provas. E ponto.

Represadas pela disputa eleitoral, as críticas que reabrem as trincas do PT tendem a crescer na proporção direta da aproximação do ano de 2013, quando o partido terá de renovar sua direção. Os petistas mais próximos de Lula acreditam que ele defenderá a recondução de Rui Falcão à presidência da legenda. O mesmo Rui Falcão que se refere ao mensalão como “uma farsa”.

Como não há no PT nenhuma voz capaz de se contrapor à de Lula, a almejada renovação passa pelo convencimento dele. E Lula não demonstra, por ora, a menor vontade de ser convencido. Se prevalecer na disputa de São Paulo com Fernando Haddad, sua vontade será ainda menor. Mantido o quadro, diz um dos insatisfeitos, o PT perderá uma ótima oportunidade para “se reinventar”.

Nessa versão, o partido passaria a operar com horizontes “curtos”. Bem posto para a disputa presidencial de 2014, com Dilma Rousseff, viraria na sequência uma “terra de ninguém”. Faltam-lhe nomes. Algo que, mesmo considerando-se a debilidade da oposição, abre o caminho para que um personagem como Eduardo Campos (PSB), um quase-ex-aliado, se consolide como alternativa de poder.

Os defensores da renovação realçam que, sob Lula, os nomes que ele próprio considerava como opções presidenciais – José Dirceu e Antonio Palocci — foram dissolvidos em escândalos, forçando-o a “fabricar” Dilma. Agora, enxerga-se na fixação de Lula pelo novato Haddad um reconhecimento não declarado à inevitabilidade da busca de alternativas. Daí a pregação em favor da ‘despaulistização’ do comando partidário.

Uma das vozes pró-renovação raciocina: se não estivesse rendido aos caprichos do grupo de São Paulo, o PT talvez tivesse facultado ao Jaques Wagner [governador da Bahia] ultrapassar a condição de mero líder estadual. Talvez não enxergasse o Tarso Genro como eterno presidenciável de si mesmo. Talvez não deixasse o senador Lindbergh Farias falando sozinho sobre a construção de uma candidatura ao governo do Rio. Talvez…

14 de outubro de 2012
Josias de Souza - UOL

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