"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 14 de outubro de 2012

O MITO DA TELEOCRACIA DE LULA


Helio Bicudo afirma que só existe o poder e o não-poder. Esquerda e direita não existem mais. Isso é logicamente uma tese absurda mas que na cabeça de um intelectual ganha um fôlego: nos faz pensar.
Existem várias coisas assim que nos fazem pensar. Mais tarde descobrimos que o que nos faz pensar nos faz distrair também. É quando caímos na conversa dos intelectuais de esquerda. Helio Bicudo reclama dos caminhos tomados por Lula e sua quadrilha. Mas Bicudo participou da caminhada comunista anterior ao poder.
 
Nessa caminhada havia uma finalidade que no estágio de poder ou governamental deveria desaparecer para dar livre curso à sociedade, a verdadeira dona do seu destino, sem tutelas, como ele disse, especialmente dos pobres, e sem o sentido finalístico dos governos ditatoriais.
No texto abaixo ficamos sabendo como é deletério e perigoso um governo que constrange a sociedade para que ela obedeça a finalidades que não são suas e que condiciona destinos aprioristicamente escolhidos, direcionados e finalísticos. Isso é ditadura e totalitarismo.
Reproduzo abaixo duas páginas do livro organizado por José Antônio Giusti Tavares e outros onde se lê uma síntese do pensamento político de Michael Oakeshott. Lendo essas páginas podemos avaliar bem o que Bicudo poderia ter dito. Ele, como esquerdista, trotskista, crente na "ditadura do proletariado", talvez não conheça bem o pensamento desse brilhante filósofo político inglês. Leiam.

Governar é uma atividade específica e limitada, a saber, a provisão e a guarda de regras gerais de conduta (...) A função do governo não consiste em impor outras crenças e atividades aos seus súditos, nem em tutorá-los, ou educá-los, torná-los melhores e mais felizes de modo diferente, dirigi-los, galvanizá-los para a ação, liderá-los ou coordenar sua atividades de modo que o conflito não possa ocorrer (...) A função do governo é resolver algumas colisões geradas pela variedade de crenças e de atividades e preservar a paz, não interditando a escolha e a diversidade que decorrem do exercício da preferência, nem impondo uma uniformidade substantiva, mas apenas sancionando regras gerais de procedimento iguais para todos o súditos (...) Em suma, a evidência de governo deve ser encontrada no ritual, não na religião ou na filosofia; no gozo do comportamento ordenado e pacífico, não na busca da verdade ou da perfeição.” (OAKESHOTT, p. 424-428)
Governar (...) não concerne a pessoas concretas, mas a atividades, e apenas à sua propensão de colidirem umas com as outras. Não se preocupa com o bem ou o mal morais; não é concebido para fazer os homens bons ou mesmo melhores.”
Diz TAVARES (in O TOTALITARISMO TARDIO: O CASO DO PT, Ed. Mercado Aberto, Porto Alegre, 2000):
Neste caso, a pedra de toque da sociedade e da política é a diversidade de interesses, que se converte em pluralismo de fins. Os indivíduos, os grupos e os partidos movem-se não apenas por interesses particulares, mas por concepções particulares, alternativas, acerca do interesse público. E o tema da política é a regulação e a negociação do conflito entre interesses parciais e entre diferentes versões do interesse público, que competem entre si pela direção do Estado, bem como a produção do consenso acerca das regras, dos procedimentos, dos mecanismo e das instituições que viabilizam a ordem pública”.
Não é possível e, se possível, não seria legítimo exigir que os homens concordem sobre fins; mas é possível, necessário, e legítimo que indivíduos comuns acordem entre si acerca das regras do convívio político".
"O domínio da política não é a revelação e a realização de uma verdade teleocrática (finalística) única e unívoca, mas simplesmente o estabelecimento de regras processuais que, consensualmente acordadas, permitem a convivência ordenada entre os súditos, individuais e coletivos, que se movem na direção de interesses e de finalidades particulares diferentes, ou mesmo conflitivas, mas igualmente legítimas. Nos termos de Oakeshott, a tarefa da política consiste em instituir “uma regra que assegure a ordem sem dirigir o empreendimento”.
 
Digo eu, assim a nomocracia (o governo das leis) é o governo ideal, muito diferente da teleocracia (o governo que dita e exige fins últimos).
TAVARES adverte: “Ao contrário, a concepção teleocrática reinvidica, para uma elite ou para uma organização política, o monopólio do acesso à consciência antecipada de uma ordem social latente, única e unívoca – que deverá ser trazida do reino da virtualidade ao reino da atualidade como resultado final e inevitável da história humana – do processo também único e unívoco, que conduzirá a sociedade à realização dessa ordem. E aos portadores desse saber privilegiado, convertidos em elite governante, reserva a tarefa de dirigir a humanidade comum, mergulhada na falsa consciência, à consecução de fins últimos que, embora não se encontrem quer na vontade quer mesmo na sua percepção, realizam estranhamente os seus interesses reais. (...) Nesta perspectiva não há lugar quer para a pluralidade de fins, quer para a diversidade de meios. Não há mesmo indiferença ou neutralidade admissível. Versões alternativas, quer quanto a fins, quer quanto a meios, constituem equívoco ou delito. O líder, o partido ou o Estado converte-se no critério último de verdade e de ética, bem como no educador último das consciências e das vontades (...)”.
Finalizo eu: Na normalidade democrática e nomocrática o governo deveria se comportar como um guarda de trânsito que controla o tráfego social sem impor uma direção ou outra aos diversos indivíduos em movimento. Socialistas ou comunistas não conseguem fazer isso; sua obscessão é do controle, do domínio, da vontade vertical. Para satisfazer essa ambição egoística e perversa não temem as leis, mergulhando na corrupção gerando criminalidade social. Helio Bicudo percebeu isso e caiu fora. Espero a hora em que o povo brasileiro caia fora do lulo-petismo corruptor da alma e das consciências.
 
14 de outubro de 2012
charles london

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