"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sábado, 27 de abril de 2013

CONSELHEIRO DE AÉCIO QUER CAMPANHA "BOSSA NOVA" CONTRA DILMA "CARRANCUDA"

Marcus Pestana, presidente do PSDB mineiro, diz que o senador tem duas missões: amarrar palanques regionais e se tornar mais conhecido do eleitor

 
Deputado Marcus Pestana PSDB/MG
Deputado Marcus Pestana PSDB/MG (Leonardo Prado/Agência Câmara)

O deputado federal Marcus Pestana, presidente do PSDB mineiro, costuma dizer aquilo que Aécio Neves muitas vezes se esquiva. Formado em economia, Pestana é um dos principais conselheiros do pré-candidato do PSDB à Presidência nas eleições do próximo ano: boa parte dos planos traçados até aqui para tentar chegar ao Palácio do Planalto passa pelas mãos do deputado.

O tucano afirma que a pré-candidatura ganhará corpo a partir do dia 18 de maio, quando Aécio assumirá o comando do partido, e defende estilo de opositor moderado, criticado pelos próprios aliados. "É um jogo de xadrez, não é rugby. Não é luta de UFC, é esgrima. Você ganha no erro do adversário", diz. Pestana também nega que a proposta de acabar com a reeleição, bandeira que o senador sacou da manga nesta semana, seja extemporânea. "Isso mostra que ele não está agindo em função de interesses próprios. É uma visão que o Aécio já tem há muito tempo, não é de agora."

Leia trechos da entrevista ao site de VEJA.

Qual é o roteiro traçado pelo senador Aécio para tentar uma campanha competitiva em 2014?

O PSDB e o Aécio têm um cronograma e um plano estratégico muito claros. E não vamos medir a nossa estratégia com o compasso e a régua dos adversários. O Aécio tem uma larga experiência, acompanhou a construção da candidatura do Tancredo, a saga no colégio eleitoral, a montagem do governo, as negociações. Foi duas vezes governador de Minas, líder do PSDB na Câmara, presidente da Câmara, é senador. A primeira etapa se esgota agora em 18 de maio, com a convenção nacional.


A presidência do partido é mesmo importante para a eleição do ano que vem?

Não seria absolutamente necessário ele assumir a presidência do partido. mas se tornou, no contexto concreto. Qual é o objetivo? Em primeiro lugar, nós enfrentamos o poder do governo, que é muito grande, inclusive o poder de produzir ataques especulativos aos adversários. E o PSDB tem essa névoa da divisão, das divergências, então era preciso dar um sinal forte de unidade de comando, de direção.
O PSDB tem rumo e norte para 2014, e esse rumo e esse norte têm cara e nome. A primeira necessidade era sepultar qualquer ambiguidade. Isso era necessário para a sociedade e para a negociação com os aliados. Eu participei de algumas conversas com atores externos ao PSDB e a primeira pergunta era essa: 'Mas vocês nem se unificaram lá dentro? Fulano está apoiando o Aécio?'.
Agora isso clareia definitivamente em 18 de maio e ele vai começar a interlocução com o mais próximos, os da oposição, com MD [Mobilização Democrática, fusão de PPS e PMN] e DEM, além de começar a montagem dos palanques regionais.


E o passo seguinte?

Logo depois da convenção de 18 de maio, dia 21, teremos o horário político na televisão em rede nacional. Será um programa de dez minutos e, durante quatro dias, dez inserções diárias. O PSDB sempre padeceu da fragmentação excessiva da sua comunicação. A opinião pública tem um raciocÍnio simplificado. As pessoas têm uma noção intuitiva, epidérmica e monotemática; são poucos os temas que estão na agenda delas.
É uma compreensão binária, meio maniqueísta. Quando você põe muitas caras desconhecidas, dá uma confusão na cabeça do povo, classe C e D. Você olha o PT e vincula com o Lula.
No PSDB era isso: põe o Serra, põe o Aécio, aí põe o Alckmin, põe o Fernando Henirque, o líder no Senado, o líder na Câmara... O grau de conhecimento do Aécio e do Eduardo Campos é baixo. A pessoa tem que conhecer, ter empatia, gostar, respeitar, admirar. A partir daí ela vai prestar atenção nas opiniões.


Aécio vai viajar mais?

Ele vai intensificar as viagens ao interior, falar com a mídia regional. Tudo soma. Mas o tiro de canhão mesmo é a televisão em cadeia nacional. E a democratização dos espaços só se dará na própria campanha. Cerca de 40% do eleitorado só consolidam o voto nos últimos quinze dias [antes da eleição]. O eleitor só estabelece a comparação quando o quadro se completa na cabeça dele. Ele vai por admiração, afinidade, mas por rejeição também. E é um jogo de xadrez, não é rugby. Não é luta de UFC, é esgrima. Você ganha no erro do adversário.


E a última etapa?

Ele vai gastar 2013 todo com essas movimentações, começando a montar os palanques regionais - mas sem fechar - e se expondo mais à mídia. Sobre os partidos da base da Dilma, o raciocínio do Aécio é de que não adianta, que esses partidos não vão se movimentar agora. Você não pode virar para alguém da base da Dilma e dizer assim: 'Saia do governo e venha para cá'.
Você não tem o que oferecer em compensação. Em março, abril do ano que vem é que surge a expectativa de poder, que é um capital fortíssimo. Nesse momento de transição é que o poder futuro passa a valer mais do que o poder presente. Mas para isso tem que ter cheiro de vitória.
O Aécio é um exímio articulador de bastidor. É nessa hora que ele vai se movimentar em direção aos partidos que hoje compõem a base mas têm muito pouca afinidade com a Dilma e com o PT.


Mesmo se ficarem ao lado dos tucanos, DEM e MD não são suficientes para garantir bom tempo de TV. Quais outros partidos são vistos como aliados em potencial?

São esses que nós vamos abordar lá em abril. Não é bom ficar anunciando porque aí o governo cerca. O Aécio está se movimentando muito, mais do que muitos pensam, nos bastidores, em encontros empresariais e com líderes políticos, mas não publica a agenda no Facebook porque vem retaliação do governo.
Lá em Minas, todos os partidos - exceto PT,PCdoB e metade do PMDB - são da nossa base de apoio. Nós temos interlocução com PP, PTB, PDT, PR, PSC. Mas só vamos jogar nossa tarrafa em março do ano que vem.


As primeiras pesquisas, que mostram Aécio na casa dos 10%, preocupam?

Ele já esta bem nas pesquisas porque nunca disputou eleição nacional. Nessa etapa, 10% já é para lá de bom. O governador Anastasia, em março do ano da eleição, tinha 5%. Ganhou a eleição por 60% a 30%. Por isso essa leitura superficial de pesquisa é risível.


O senador vai apresentar um projeto que acaba com a reeleição e estabelece um mandato de cinco anos. Tratar disso agora não é um sinal de falta de propostas concretas?

O Aécio quer dar o exemplo e deixar claro que está disposto a se submeter a essa nova regra, se vencer a eleição para presidente. Isso dá uma autoridade, mostra que ele não está agindo em função de interesses próprios. Se ele fala que vai apresentar isso quando for presidente da República, aí o pessoal vai desconfiar.
Ele quer mostrar o seguinte: 'Se eu for o presidente da República, quero fazer o melhor para o país por cinco anos e não quero contaminar esse esforço com preocupações de cunho eleitoral'. É uma visão que o Aécio já tem há muito tempo, e não é de agora.


A imagem que será trabalhada é a do opositor moderado?
 
Primeiro ele vai mostrar diferenças programáticas. Nós temos uma candidatura alternativa porque nós queremos um país diferente, regido por outros valores e propostas. Há vários pontos: por exemplo, a defesa da liberdade e da democracia, contra essa coisa de confrontação com o Supremo, ameaça à liberdade de imprensa.
A intervenção do estado gerando instabilidade, como foi feito no marco do petróleo, marco da energia, a falta de clareza sobre câmbio, as manobras contábeis no campo fiscal. Vamos mostrar que isso está destruindo o horizonte de médio e longo prazo do país, desorganizando o sistema.
Ele vai buscar recuperar o velho e bom pragmatismo do Itamaraty em vez desses arroubos bolivarianos que nos isolam. Sobre os programas sociais, enaltecer os efeitos e disputar a paternidade, mas apontar a porta de saída para o cidadão não ser cidadão pela metade, se afirmar e poder caminhar com as próprias pernas tendo a renda do seu trabalho.


E quais são os pontos negativos de Dilma para explorar?
 
Ela é uma presidente que não tem história política, que tem índole autoritária e governa sem diálogo. Ela veio da pior tradição marxista: o marxismo-leninismo foquista, que era meia-dúzia de jovens achando que iam mudar o mundo na ponta de um fuzil. Isso não sai, fica na essência da pessoa.
E além de tudo ela tem esse negócio de gritar com assessor e ministro. Nós queremos dar essa ideia: ela carrancuda, nervosa; e queremos reeditar a imagem do presidente bossa-nova, do Juscelino, dos anos dourados, da coisa alegre como o povo brasileiro é. Não é essa coisa artificial, dar bronca.
Nós queremos um presidente que não dê bronca, que converse com a sociedade. Vamos ancorar muito o lado de gestão, tentar projetar para o Brasil as referências dos programas transformadores que nós fizemos em Minas.


A fama de boêmio pode atrapalhar?
 
Isso é um mito. Ele mesmo diz que é um cara do seu tempo. Ele não artificializa; é bastante autêntico e transparente. O povo brasileiro tem uma coisa atávica - não é a caricatura do samba e futebol, mas o espírito brasileiro de ser um país de alto astral, apesar das desigualdades, das iniquidades, das violências cotidianas.
O que estamos falando é isso: autoridade não é autoritarismo, firmeza não é grosseria. Na eleição, não é uma coisa formal, planejada. O eleitor é assim; começa a comparar quando todos estão na tela.


Esse espírito apaziguador não pode parecer fraqueza?
 
Não. Haverá um duro confronto. Mas em alto nível, em torno de temas nacionais. A ultima sucessão foi bastante despolitizada. Às vezes acontece isso, foge ao controle temas nos quais a população não tem interesse. É como o caso do aborto.


Mas este é um tema que mobiliza boa parte da população. Não é uma questão de governo.
 
O aborto é uma questão filosófica, comportamental, de saúde pública, e que mexe com sentimentos profundos, valores religiosos. Não é uma decisão unilateral do governo. É muito mais uma escolha da sociedade, como a descriminalização de drogas; como são temas comportamentais e não políticas de governo, são questões vocacionadas para plebiscito. Não é o presidente que vai decidir isso. Não é o Congresso isolado. A união civil de homossexuais ele já disse que apoia.
Mas casamento quem tem que decidir é cada igreja. Casamento diz respeito a sacramento, a valores religiosos e filosóficos. A união civil diz respeito a direitos, à herança; questões objetivas. Democracia é tornar cada vez mais público o que é público e privado o que é privado. De qualquer forma, os temas centrais são política econômica, social, gestão pública com eficiência, sempre na perspectiva do cidadão.


Aécio foi criticado por fazer uma oposição tímida. Essa mudança de perfil não pode parecer artificial?
 
Ele não vai artificializar. O Aécio tem uma característica forte: é um construtor de pontes, uma pessoa muito habilidosa. Ele tem convicção de que adversário não é inimigo, que ninguém tem monopólio da verdade, das boas intenções e das conquistas.
Quando ele tiver que fazer um reconhecimento aos avanços do governo Lula, fará.
E nós vamos discutir o futuro. Fernando Henrique deu uma ótima contribuição, fantástica, foi um estadista. Lula teve um papel importante na continuidade da distribuição de renda, que começou no governo anterior, mas isso é passado. O que se trata na eleição de 2014 é de avaliar o governo Dilma e o futuro.


O PSDB conta com os maus sinais da economia para chegar com uma candidatura mais forte em 2014?
 
Claro que a economia predomina na formação da opinião das pessoas. Nove entre dez economistas que têm alguma qualdiade sabem que a coisa está mal a médio e longo prazo. Vem uma crise por aí. Nós não agimos com base no quanto pior melhor, mas nós vamos discutir que o Brasil está perdendo oportunidades.
A média do eleitor presta atenção nas variáveis que têm a ver com o quotidiano dele: preço, inflação, emprego e consumo. Por isso a sensação ainda é de bem estar.
O problema é que nós estamos construindo um país com empregos de baixa qualidade, baixa renda, desindustrialização, baixa produtiviade e baixa capacidade de inovação. E esse o país que nós queremos? Será que as comodities vão estar sempre em alta? A história do capitalismo mosta que não.
 
A presença de Eduardo Campos na disputa atrapalha ou ajuda?

 
Nós queremos um quadro plural: primeiro porque é bom para a democracia. Nós queremos uma semente contra o totalitarismo, que é a visão que predomina no PT do Rui Falcão, do José Dirceu, da turma majoritária.
O Lula tem uma intuição de grande líder político e não deixa desandar, mas existe uma alma chavista guardada no íntimo do PT.
Nós gostariámos que viessem Dilma, Aécio, Eduardo, Marina, Randolfe, Cristovam, Gabeira. Uns sete. Isso tem um efeito profundo em termos de pedagogia política. O cidadão compreende que não há um jeito só de ver o Brasil.
Nós queremos segundo turno; achamos que o Aécio chega na frente. Acho que a Dilma vai sofrer muito com o Eduardo e o Aécio soltos na praça. Ela é uma invenção do Lula, vamos dizer claramente.
Os candidatos do PT seriam Palocci e José Dirceu. Dilma é fruto do acaso, do destino, e da invenção do Lula. E, como ela não é do ramo, tende a cometer erros. Nós queremos dois turnos, para que ela fique muito exposta.Quanto maior a exposição, melhor.

Gabriel Castro, Veja
Gabriel Castro, Veja

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