"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 7 de julho de 2013

FÁBULA: OS ESPERTOS, OS PANACAS E A ECLOSÃO DOS BABACAS

    
Os espertos tangendo os panacas (Ilustração: O Flautista de Hamelein)
O Flautista de Hamelein conduzindo os ratos para o rio.

Era uma vez um reino de panacas com um governo muito esperto.
Os espertos, desde que o primeiro deles se instalou no lugar, pintavam e bordavam. Porque o povo era panaca.

Assim, os governantes primeiro distribuíram miçangas, depois espelhinhos, radinhos de pilha para os panacas ouvirem a Copa de 70. E aí vieram as bolsas.

Estatizou-se algo que os próprias espertos coloniais não suportavam mais ao tempo da proclamação de Independência, da República, do Estado Novo, da República Nova, depois da Nova República.
Estatizaram o coronelismo.

Foi quando apareceram uns sujeitos mais espertos ainda dizendo que iriam tirar o povo da condição de panacas.

Os espertos reinventaram a história do País. Prometeram redimir os miseráveis, mitigar a violência, educar os panacas, fornecer-lhes iogurte e caviar.

Os espertos ficaram bem populares.  E os panacas pareciam estar bem contentes com os espertos populares.

Um belo dia, passados dez anos e meio do advento dessa nova casta de espertos, ouviu-se um ruído de mar revolto. Uma pequena tormenta, anunciada por relâmpagos  e trovões que soavam como o espocar de bombas e tiros de escopetas que disparam balas de borracha.

Os panacas ficaram inquietos. Não gostaram de ver seus filhos apanhar no meio da rua como se fossem cachorros sem dono.

Resolveram sair de casa. Todos ao mesmo tempo. Veio o tsunami.
As ruas, praças e avenidas ficaram repletas de panacas. Eles gritavam hinos de estádio de futebol. Não sabiam fazer discursos e por isso não discursaram.

Nunca haviam frequentado convescotes sindicais, nunca tinham ido a uma reunião de partido.  Nem a uma assembleia de condomínio.

Eram panacas destreinados, mas determinados a ponto de entender que bombas de efeito (i)moral e balas de borracha machucam, mas não matam. Alguns foram tacar pedra na política.
O eco dos trovões que acompanharam o tsunami correu o mundo.

Os espertos, acuados pela gritaria, começaram a se coçar. Reduziram o preço do transporte, criaram novas leis, mostraram que não estavam aí para brincadeira.

A chefe dos espertos disse que estava ouvindo o rugido dos panacas enfurecidos. Mas eles disseram “chega de pensar que somos panacas”. E ela entendeu “agora nós queremos ser tratados como babacas”.

Serviu-lhes uma consulta popular que ninguém pediu e, na sobremesa, uma constituinte exclusiva.
Os panacas voltaram para casa. E os espertos, achando que agora eles  todos eram babacas, voltaram a usar jatões e jatinhos dos panacas para seus regabofes particulares.
O reino ficou dividido, pensaram.
 
Quando tudo ficou quieto e calmo, os espertos passaram a achar que metade dos súditos era panaca, metade era babaca.
 
Só quem não mudou foram os espertos, que continuaram sendo os mesmos de sempre.

07 de julho de 2013
in blog do orlando tambosi

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