"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



segunda-feira, 20 de agosto de 2012

COMO SEMPRE, UM LÍDER

 

Mantido o rito preconizado pelo ministro Joaquim Barbosa, o deputado João Paulo Cunha e o publicitário Marcos Valério serão os primeiros a ser arcabuzados no julgamento dos réus do mensalão, mas a peça principal do processo chama-se José Dirceu. Chamado de chefe da quadrilha pelo ex-procurador-geral Antônio Fernando de Souza, expressão repetida pelo atual, Roberto Gurgel, o antigo chefe da Casa Civil deve ser o terceiro na lista dos acusados a ser submetido ao voto dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal.

Como prova contra ele, não há atos de ofício, ou seja, nenhum documento com sua assinatura. Existem provas testemunhais e, acima delas, evidências de que tamanha máquina de corrupção não se movimentaria sem sua aquiescência, no mínimo, ou seu comando, no máximo.

A conclusão surge clara: se Dirceu for condenado, muitos outros mensaleiros também serão, ficando demonstrada sua liderança e participação no escândalo. Absolvido, porém, a decisão da mais alta corte nacional de justiça evidenciará que o mensalão não existiu. Terá sido, se tanto, manobra do caixa dois de campanhas eleitorais.

Contra Dirceu pesa o comentário inicial do então presidente Lula, de que foi traído por seus companheiros. Contra o Lula, a afirmação de Dirceu de que nada se passava no palácio do Planalto sem que o presidente soubesse. E sabendo, acrescenta a lógica, autorizava.

Dos onze ministros do Supremo, oito foram indicados por Lula ou por Dilma, e a pergunta que se faz é se deverão sentir-se gratos àqueles que os indicaram. Nesse caso, até onde vai a gratidão? Ricardo Lewandowski emite sinais desse seu sentimento estender-se bastante, a ponto de ter emitido longa peroração em favor do desdobramento do processo, hipótese que geraria a devolução à primeira instância do julgamento de Dirceu e de outros 35 réus.
Ficariam no Supremo apenas os três com mandato parlamentar. Para os demais, um recomeço capaz de levar dez anos, entre novas inquirições e recursos. O resultado seria a prescrição dos crimes de que são acusados. Por maioria, o plenário do Supremo rejeitou a proposta, levantada pelo ex-ministro da Justiça do Lula, Márcio Thomaz Bastos.
 
Causou espécie, porém, o fato de minutos depois da intervenção do advogado, em questão de ordem, Lewandowski haver apresentado minucioso e datilografado voto a favor, evidência de que estava preparado para apoiar o desdobramento, aliás já seis vezes rejeitado pelo tribunal.

Em suma, certeza não há do resultado do julgamento, nem mesmo se os julgadores serão onze ou dez, dada a aposentadoria próxima do ministro César Peluso. Uma coisa, no entanto, é certa: a pedra de toque, o tijolo de sustentação do processo, situa-se na pessoa de José Dirceu. Como sempre, um líder.
 
20 de agosto de 2012
Carlos Chagas

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