"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



segunda-feira, 5 de março de 2012

OLAVO DE CARVALHO E ALEKSANDR DUGIN: FIM DE QUE NÃO HOUVE

Artigos - Cultura

Os estudos de Olavo de Carvalho em geopolítica e sobre a história da expansão eslava (e agora eurasiana) fecharam sua série de textos numa aula de como se apresentar às batalhas intelectuais.

Pode ser qualificado de debate a troca de textos entre um estudioso que leu ao que parece todos os estudos do oponente e um ideólogo que tenta desqualificar seu oponente com base em leitura ligeira de um e outro de seus artigos? Qualquer pessoa razoável dirá que não houve debate algum, pois o desnível é acintoso entre os dois debatedores.

Olavo de Carvalho vem alertando seu público há pelo menos três anos sobre Dugin em dias em que não se encontrava na internet um único texto em português (exceto os de Olavo) sobre o mentor de Putin, e ideólogo da corrente de pensamento que se denomina de “eurasiana”. Entre os dias em que o filósofo era o único a recriminar o silêncio por ignorância dos jornalistas sobre Dugin e o dito debate,Olavo leu o que havia para ler de Dugin e seus colaboradores, estudos inseridos em longo estudo sobre as vertentes do “pensamento revolucionário”. Leu e refletiu, produzindo artigos expondo o que os “tradicionalistas eurasianos” pensam e planejam, indo à raiz ideológica desta nova fábrica de ilusões.

Armado de sua capacidade expositiva e munido de conhecimentos estocados e processados em aulas, artigos, conferências, Olavo aceitou debate sugerido por “tradicionalistas” do Brasil e do exterior, a ser publicado em sites diversos, incluindo o seu. Quem não esperava acontecimento cultural memorável entre duas figuras poderosas, que são mesmo referenciais em seus campos de estudo? Todos tinham o direito de esperar embates do nível Sartre/Camus ou Sartre/Aron (na verdade, polêmicas que não aspiravam à denominação de debate, mas que polarizaram opiniões entre intelectuais nos anos 60).

O primeiro texto de Olavo de Carvalho prometia debate à altura das expectativas, embora Olavo já avisasse que debate não haveria ali, dada a falta de simetria entre os dois: um pesquisador solitário honesto em suas dúvidas e um autodenominado “tradicionalista” envolto em certezas ,dispondo de meios milionários e da máquina governamental russa(da qual ele é líder espiritual). No texto inicial da contenda, Olavo expunha dados históricos da história russa e da marcha revolucionária pela história, expondo ao leitor o que separa fatos de fantasias.

A réplica de Dugin também constatava a inexistência de debates, mas por outra razão: ele encarnava o ideal de justiça coletiva de uma sociedade depurada do materialismo mesquinho contra um servidor da ideologia individualista ocidental (norte-americana). Texto amparado em noções de geopolítica (posteriormente desmoralizadas por Olavo como generalizações grosseiras) e citações truncadas de trechos de Olavo colhidos aleatoriamente, numa paródia de estudo acadêmico sobre autor que ele (Dugin) visivelmente desconhecia.

Os textos seguintes não foram mais animadores da parte de Dugin, pois ele adotou o método de desqualificar o oponente, no clássico: “Não vou me rebaixar” ante as palavras duras de Olavo sobre as ficções que ele tenta vender. Olavo continuou expondo a verdade histórica comprovada e fundamentos elementares de lógica ,mostrando como Dugin, pretenso “intelectual de peso”, não difere em nada de um secundarista brasileiro recitando clichês de Diretório Acadêmico , nas vociferações contra o “reacionário” e “pró americano”Olavo de Carvalho, que se divertia em dar exemplos de raciocínios contidos em livros do professor Dugin rechaçados pelo... professor Dugin.

Os estudos de Olavo de Carvalho em geopolítica e sobre a história da expansão eslava (e agora eurasiana) fecharam sua série de textos numa aula de como se apresentar às batalhas intelectuais, portando conhecimento e honestidade, não se escondendo atrás de insultos e apelos à passionalidade ignorante de seguidores que renunciaram à qualquer veleidade de ascensão intelectual,como o fez o professor que tentava jogar nacionalistas brasileiros contra Olavo, qualificando-o como “americanófilo” - truque que só funciona para nacionalistas primários que já julgam Olavo por esta deformação da idéia de nacionalismo, servindo para os demais leitores como strip tease da esqualidez argumentativa de Dugin.

Leitores como eu se decepcionaram com o que a série de réplicas e tréplicas mostrou do “mentor de Putin”: sub-intelectual mantido à base de leituras ligeiras sem digestão, exteriorizando esboços de pensamento coalhados de passionalismo e adjetivações.

Olavo de Carvalho se confirmou como adversário rude, íngreme, porém honesto e generoso (podendo destroçar Dugin, foi respeitoso), esmerando-se na prática do combate de idéias com o que este tem de mais exigente: o apego ao respeito ao combatente.

Pensar que tal ensaio de intelectual seja hoje autor dos mais respeitados e poderosos por sua influência, causa pessimismo fundamentado sobre os dias por chegar.

Fernando Pawlow, 04 Março 2012

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