"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



quinta-feira, 10 de maio de 2012

LARANJA À QUILO OU EMPACOTADA? EM NEGÓCIO INUSUAL, J & F VAI GERIR DELTA SEM PAGAR NADA







Em um dos mais intrigantes negócios do ano, a construtora Delta - que ocupa papel central na CPI sobre o contraventor Carlos Cachoeira e vê um portfólio de R$ 4 bilhões em obras públicas ruir com as denúncias - terá sua gestão transferida a um novo grupo que não gastará um centavo para assumir seu controle.

A holding J&F Participações, controladora da JBS, processadora de carne bovina e neófita no setor de construção, passará a dirigir a empresa na próxima segunda-feira, sob condicionantes. A JBS tem o BNDES como um de seus maiores acionistas, com 31,4% do capital

Foi selado ontem o destino da carioca Delta Construções, empresa acusada de envolvimento nos escândalos de corrupção que têm como pivô o bicheiro Carlinhos Cachoeira, além do senador Demóstenes Torres (ex-DEM).

A holding J&F Participações, controladora da processadora de carne bovina JBS, assumirá a gestão da construtora na próxima segunda-feira e deve indicar hoje um novo presidente executivo para o seu comando.

Segundo fontes do grupo, o governo federal foi consultado sobre o negócio e "não se manifestou contra". "O governo não nos pediu nada, mas não se faz um negócio desse sem consultar Brasília", disse um executivo da J&F.

O governo é, indiretamente, sócio da J&F, uma vez que o BNDESPar, o braço de participações acionárias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), detém 31,4% das ações do JBS.

A J&F, da família Batista, com receita anual superior a R$ 55 bilhões, não desembolsou um centavo para assumir a gestão da Delta. Vai contratar nos próximos dias uma empresa de auditoria para verificar as contas e os contratos da construtora.

Ao fim desse processo ou mesmo durante, decidirá se comprará ou não a companhia. Uma fonte estima que, se comprasse a empresa hoje, portanto, antes da auditoria, a J&F pagaria pouco menos de R$ 1 bilhão pelo negócio.

Pelo acordo fechado ontem, se decidir ficar com a Delta, a J&F honrará o pagamento da companhia com dividendos da própria construtora, gerados a partir da gestão que começará na segunda-feira. De acordo com a J&F, a Delta tem R$ 900 milhões em recebíveis, um portfólio de R$ 4 bilhões em quase duas centenas de obras públicas já contratadas e patrimônio líquido de R$ 1 bilhão.

Os novos gestores não estão preocupados, segundo assegurou um integrante do grupo ao Valor, com a possibilidade de o governo federal declarar a inidoneidade da Delta, por causa de seu suposto envolvimento em irregularidades. "Uma grande construtora brasileira passou dez anos como inidônea. Foi à Justiça e, ao fim desse prazo, ganhou a causa", lembrou uma fonte.

"Na pior das hipóteses, devolve-se a empresa", disse a mesma fonte, referindo-se à possibilidade de a auditoria encontrar problemas legais na Delta. Em comunicado divulgado na tarde de ontem, a J&F informou que contratou a consultoria KPMG para conduzir um "rígido processo de auditoria".
(...)

O leque de atuação da Delta inclui obras de infraestrutura urbana, saneamento e incorporação. Segundo o último anuário da revista "O Empreiteiro", com números de 2010
, somente 1% do faturamento da Delta Construções é oriundo do setor privado.

Na lista das maiores construtoras do país, em receita, ela fica na sétima posição - atrás de Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, OAS e Galvão Engenharia.

A J&F informou que a auditoria sobre os ativos e contratos da Delta é que vai fixar o valor da empresa, servindo como base de cálculo para a opção de compra da holding.

"Caso exercida, a opção de compra prevê que os recursos provenientes da distribuição dos dividendos futuros da própria Delta serão utilizados no pagamento dos ativos da empresa", informa a nota, ressaltando que não usará recursos próprios ou de terceiros para a operação.

O grupo não divulgou quanto do capital da Delta poderá ser comprado, nem de quem são as ações a serem adquiridas. A construtora, por sua vez, não divulga qual é sua composição acionária.

Pelo acordo firmado, a J&F poderá substituir todos os atuais gestores da Delta - presidente, diretores e membros do conselho de administração -, implantando um gestão profissional na empresa.

Mas o contrato preliminar firmado ontem fica condicionado aos resultados da auditoria interna e que o mesmo exime os novos gestores de responsabilidades em relação aos contratos em vigor até a conclusão da auditoria.

"Nosso objetivo é honrar os contratos que serão auditados e preservar os mais de 30 mil empregos da Delta", disse Joesley Batista, acionista da J&F, no comunicado. A holding, além do JBS, está presente em negócios de celulose e papel (Eldorado), alimentos (Vigor),
higiene e limpeza (Flora)
e concessão de crédito ao agronegócio (Banco Original).

O novo negócio marca a entrada da J&F no setor de infraestrutura. "Consolida a presença da holding em áreas dinâmicas da economia brasileira, fundamentais para o desenvolvimento econômico do país", afirmou Henrique Meirelles, presidente do conselho consultivo da J&F, na nota.

O grupo esclareceu também que Meirelles, ex-presidente do Banco Central no governo Lula, "não terá nenhum cargo ou função na gestão da empresa de construção".


Cristiano Romero, Ivo Ribeiro e Fábio Pupo | De São Paulo Valor Econômico
10 de maio de 2012

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