"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



segunda-feira, 2 de abril de 2012

O GOLPE DE 64 EM SOM E IMAGEM

Fiz um bom programa em 1 de abril. Assiti ao documentário “Top Secret — Conspiração contra o Brasil”. O filme investiga a participação do governo americano no golpe de 64. Contém boas análises políticas e coloca os episódios em seu contexto mas vai além. Apresenta fatos e provas.

Escrito pelo jornalista Flávio Tavares, testemunha e participante da resistência ao golpe, o filme apresenta 70 minutos de gravações, documentos secretos e depoimentos variados. Pronunciada por um dos primeiros líderes do golpe, o general Guedes, a frase de abertura do filme é inesquecível: “Aqueles que não amam a revolução devem pelo menos temê-la…” E por aí vai…

São diálogos contundentes e textos esclarecedores. O filme mostra o afastamento e por fim a oposição completa da Casa Branca à Goulart. As discordâncias são explicadas e analisadas, desde a postura do governo brasileiro em relação a Cuba — contra o bloqueio, pelo respeito à não-intervenção — até questões internas, relativas a lei de remessa de lucros e a concessão de serviços públicos a empresas estrangeiras. Aparecem deputados da oposição que admitem ter recebido dinheiro da CIA para se eleger e combater o governo.

No fim do documentário, não é possível dar crédito à versão de que João Goulart caiu de maduro, porque seria um estadista tão fraco, tão incompetente, tão desorientado, que a conspiração civil-militar que o derrubou nada mais fez do que apressar um desfecho inevitável. O filme deixa claro que o governo americano teve um papel decisivo, nos preparativos militares, na criação de um ambiente desfavorável a Goulart e nos dias seguintes à deposição, quando deu respaldo e legitimidade à intervenção.

Já se sabia que John Kennedy dera o sinal verde para o golpe em 1962, numa conversa com o embaixador Lincoln Gordon, na Casa Branca. Mas é diferente quando se ouve a conversa, com a voz de cada um, com as frases, as perguntas, as discussões.
Embora tenha tentado reescrever sua própria biografia, mais tarde, eximindo seu país e a si próprio de qualquer atuação relevante, Gordon está sempre ali, resoluto e decidido, empurrando Kennedy — e depois Lyndon Johnson, que o sucedeu — para a ação contra Goulart e o apoio incondicional aos golpistas. O embaixador sugere o envio de uma frota para a Costa Brasileira. Pede dinheiro da CIA para criar um ambiente desfavorável a Jango. Terá uma influencia importante na escolha de Castelo Branco como primeiro presidente do regime militar.

Através de diálogos gravados e documentos secretos, fica claro que o adido militar americano, o coronel Vernon Walthers tinha uma grande ascedência sobre Castelo Branco, a quem conhecia desde os campos de combate da Segunda Guerra, na Itália. Será influente antes e depois do golpe, quando passa a usar esta aproximação para acompanhar os bastidores do governo brasileiro. O filme mostra documentos em que, após conversar com Castelo Branco, o disciplinado Walthers vai para casa e envia um despacho em que relata o encontro.

Está tudo lá, com som e imagem.

Embora muito educativo, é constrangedor.



19 de abril de 2012
Paulo Moreira Leite

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