"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O HUMOR NA POESIA DE OSWALD DE ANDRADE

 

O advogado, escritor, ensaísta, dramaturgo e poeta paulista José Oswald de Souza Andrade (1890-1954) foi um dos principais articuladores do movimento modernista literário e da célebre Semana de Arte Moderna, espécie de marco divisório na história das artes brasileiras, realizada em São Paulo, em 1922.

A rebeldia de Oswald o levava a querer muito mais do que simplesmente revolucionar forma e conteúdo da criação artística. O que ele queria mesmo era uma revolução que transformasse a vida social dos brasileiros, suas instituições e costumes.

O poema “brasil”, com letra minúscula, forma de satirizar até o nome do país, faz parte da primeira fase do Modernismo. Este período é o mais radical, pois os escritores dessa época ainda buscam definições, destroem paradigmas, enfim, é um a época de construção, onde notamos a busca ao passado, do quinhentismo brasileiro, porém, sem aquele ufanismo dos românticos.
Aqui, na literatura de Oswald de Andrade há uma crítica ao ufanismo exagerado e, assim, ele busca o passado, mas de forma crítica, irônica, com isso, surgem os poemas piadas, a paródia.

É notório o humor nesse poema, o “eu-lírico” retrata a construção da etnia brasileira, com o português, o índio e o negro: “O Zé Pereira chegou de caravela, guarani de mata virgem e o negro zonzo saído da fornalha”.
Ao mesmo tempo, que faz a junção dessas três etnias na construção do Brasil, o “eu-lírico” afirma que essa mistura retrata o carnaval, uma vez que a mistura das raças, dos costumes, da cultura, da religião, é a formação do povo brasileiro e, consequentemente o surgimento do carnaval.

Vale salientar que a valorização do falar do povo da terra, a linguagem coloquial, como “preguntou, pro”, era valorizada pelos Modernistas que colocavam esse falar na literatura.

Outrossim, nos versos “Não, Sou bravo, sou forte sou filho da morte/O negro zonzo saído da fornalha/E fizeram o carnaval”, Oswald de Andrade troca “Norte por Morte”, para questionar o genocídio com os povos indígenas, porque quando os portugueses “descobriam” o Brasil, os índios entraram em contato com o homem branco, em consequência surgiram várias doenças, assassinatos, ou seja, aconteceram muitas mortes.


Oswald, pintado por Tarsila

brasil
Oswald de Andrade

O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani de mata virgem
-Sois cristão?
-Não, Sou bravo, sou forte sou filho da morte
Tetetê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá de longe a onça resmungava Uu! Ua! Uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
-Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o carnaval.
(Colaboração enviada pelo poeta Paulo Peres – site Poemas & Canções)

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