"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 21 de abril de 2013

O VERÍSSIMO QUE EU GOSTO


O debate (Estadão)
O apresentador entra no palco, onde estão três cadeiras.
Apresentador – Boa noite. Teremos hoje o último debate da nossa série Criacionismo ou Evolucionismo: Qual é a sua?. Afinal, fomos feitos por Deus ou descendemos dos macacos? O debate desta noite é o que todos estavam esperando, o que explica o auditório lotado e as cadeiras extras. Durante toda a semana tivemos aqui embates memoráveis entre defensores do criacionismo e defensores do evolucionismo, culminando com o debate de ontem, entre Richard Dawkins e o padre Rossi, que foi abandonado por Dawkins aos gritos de “Não. Não!” na metade, quando o padre Rossi ameaçou cantar.
E quem poderá esquecer o debate de quarta-feira sobre racionalismo empírico versus dogmatismo religioso entre Rene Descartes e Blaise Pascal, o desentendimento que começou quando Descartes confundiu “dogma” com“dogman” e perguntou se o Homem Cachorro era um novo super-herói dos quadrinhos e continuou quando Descartes reagiu a um argumento teológico de Pascal gritando“Au secours!” e Pascal ouviu mal e protestou “Olha o nível”, até se esclarecer que Descartes estava pedindo socorro.
Depois disso não houve entendimento possível e todos se lembram de como acabou a noite. Por sinal, para os que ficaram preocupados, informo que Descartes já saiu do hospital e está em repouso, em casa. Mas vamos ao grande debate desta noite. Os dois participantes não precisam de apresentações. O primeiro é... Charles Darwin em pessoa! Mr. Darwin, por favor.
Charles Darwin entra no palco e é aplaudidíssimo por parte da plateia. O resto da plateia aplaude educadamente.
Apresentador – Charles Darwin, quem não sabe, é o fundador do evolucionismo. Foram seus estudos sobre a adaptação dos genes ao meio e a seleção natural que deram origem a teoria da evolução das espécies, inclusive a espécie humana, que descenderia dos macacos. Apesar de estar morto desde 1882, Mr. Darwin concordou, gentilmente, em participar do nosso simpósio, principalmente quando soube quem seria o outro debatedor. Não é, Mr. Darwin?
Darwin – É. Será uma oportunidade para esclarecer alguns pontos.
Apresentador – E aqui está ele, senhoras e senhores. O outro debatedor desta noite. O grande, o eterno, o nunca assaz louvado... Deus Nosso Senhor!
Deus entra no palco saudando o público e é recebido com uma ovação. Parte da plateia grita “Senhor! Senhor! Senhor!”. Deus senta à direita do apresentador, Darwin à esquerda.
Darwin – Senhor, eu queria aproveitar esta oportunidade para dizer que, em momento algum a minha teoria negou a sua existência, ou desrespeitou o seu poder. Eu vivi e morri como um cristão. Só não podia esconder minha descoberta.
Deus – Eu sei, meu filho, eu sei. E você estava certo.
Darwin (surpreso) – Eu estava certo?!
Deus – Estava. Aquela história que eu criei o homem do barro, à minha imagem, e depois fiz a mulher da sua costela... Tudo literatura. Licença poética. O homem descende do macaco. Eu quis que fosse assim. E quis que você descobrisse. A sua obra é a maior prova de que eu (aliás, Eu) existo. E mando. Num mundo regido pelo acaso você dificilmente chegaria aonde chegou.
Apresentador – Então o senhor acredita num...
Deus – Evolucionismo dirigido. Um pouco como o capitalismo na China.
Darwin – Mas então por que tanta gente resiste à ideia de que o homem descende do macaco e não foi criado por Deus à sua imagem?
Deus – Ah, meu filho. A vaidade humana nem Eu controlo.

Dos chatos (O Globo)
Há chatos e chatos. Há o chato pegajoso, o chato que telefona muito, o chato que cutuca. Há o enochato, que faz questão que você saiba que ele sabe tudo sobre vinhos, e o ecochato, assim chamado porque se preocupa demais com ecologia ou porque vive se repetindo, como um eco. Há o egochato, cujo único assunto é ele mesmo, e o chato hipocondríaco, uma especialização do egochato, cujo único assunto é sua própria saúde, ou falta dela. Há o chato invasivo, que fala a centímetros do seu nariz, e o chato hiperglota, que não para de falar. Mas também há – embora seja raro – o chato que se flagra, que tem consciência de que é chato e quer se regenerar, e que diz muito “Eu estou sendo chato? Hein? Hein?”, e portanto é o pior chato de todos.
Tem o caso daquele chato com autocrítica que decidiu pedir ajuda, mas não sabia quem procurar. Chatice não se cura com remédios ou com exercícios, muito menos com cirurgia. Não existem clínicas para a recuperação de chatos. O que fazer? Nosso chato resolveu consultar um psicanalista.
– É que eu sou chato, doutor, e sei que sou chato.
– Deve ter alguma coisa a ver com sua mãe.
– Minha mãe? Por que minha mãe?
– É que na psicanálise sempre partimos da hipótese de que, seja o que for, a culpada é a mãe. Facilita o tratamento. Mas me fale da sua infância.
– Bem, na escola meu apelido era “Sarna”. Também me chamavam de “Desmancha Bolinho” porque assim que eu chegava num grupo, o grupo se desfazia.
– Sua família também o achava chato?
– Não sei. Mas desconfiei quando, nos meus dezoito anos, eles me deram as chaves da casa e em seguida mudaram todas as fechaduras.
– E sua vida amorosa?
– É normal, eu acho. Até me casei, embora minha mulher alegue que meu pedido de casamento a fez dormir e que só saiu do estado comatoso no altar, onde teve que dizer “sim” para não dar vexame. Hoje vivemos bem, em casas separadas, apesar de eu só poder visitá-la nos dia 29 de fevereiro, se ela não mandar dizer que não está. Tivemos um filho que eu ninava quando era bebê, mas ele fingia que dormia para eu parar. É o efeito que eu tenho nas pessoas, doutor.
Ser chato é uma fatalidade biológica ou a chatice é um produto do meio? É possível deixar de ser chato com algum programa de reorientação? É o meu tom de voz que chateia ou o que eu digo? Ou as duas coisas juntas? Hein, doutor? Doutor...? Doutor...? Acorde, doutor!
21 de abril de 2013

Soberania, reciprocidade: Noruega

A Noruega, conta decisão que relato abaixo, dá uma lição ao mundo, do que significa realmente soberania de uma nação, que não se vende por dinheiro algum e não se corrompe, aplicando a reciprocidade de direitos, aos povos extremistas que pretendem difundir seu radicalismo a vários países da Europa e que isto sirva de exemplo aos países emergentes que se vendem por um prato de lentilhas.
Reciprocidade é isso. Se não há igrejas cristãs na Arábia Saudita, não haverá mesquitas na Noruega. Este país proibiu o outro de financiar mesquitas em seu território, enquanto não permitirem a construção de igrejas cristãs naquele país. O governo norueguês acabou de dar um passo importante na hora de defender a liberdade de culto na Europa, frente ao totalitarismo islâmico. Jonas Gahr Stor, ministro dos negócios estrangeiros, decretou que não seriam aceitos os donativos milionários da Arábia Saudita, assim como de empresários muçulmanos para financiar a construção de mesquitas na Noruega. Segundo o referido ministro, as comunidades religiosas tem direito a receber ajuda financeira, mas o governo norueguês, excepcionalmente e por razões óbvias, não aceitarão o financiamento islâmico de milhões de Euros. O ministro argumenta que seria um paradoxo e antinatural aceitar essas fontes de financiamento de um país onde não existe liberdade religiosa. Afirma também que a aceitação desse dinheiro seria um contra-senso, recordando a proibição que existe nesse país árabe para a construção de igrejas de outras religiões. O ministro anunciou que a Noruega levará este assunto ao Conselho da Europa, onde defenderá esta decisão baseada na mais estrita reciprocidade com a Arábia Saudita.
Claro que esta notícia quase que passou despercebida em boa parte da Europa e, principalmente, em Portugal, onde, por medo de represálias, os meios de comunicação… preferem se calar!
21 de abril de 2013
Giulio Sanmartini

AS VÉSPERAS DE IR PARA A CADEIA, JOSÉ DIRCEU FAZ TOUR MILIONÁRIO PARA ENCONTRAR PETISTAS E CONTAR MENTIRAS

Apesar de não ter mais poder, o ex-ministro José Dirceu mostra que tem muito, muito dinheiro. Ele começou na última quinta-feira um roteiro que até a segunda passará por quatro capitais: Teresina, Macapá, Belém e São Luís, segundo relatou a amigos. E só ficará em hotéis 5 estrelas – em Teresina, hospedou-se no Petropolitan. Dirceu viaja em jatinho fretado em São Paulo, um Citation CJ2 prefixo PT-LLU com capacidade para seis lugares, que diz ser bancado por ele. Cada trecho não sai por menos de R$ 30 mil. Só de frete, então, gastará cerca de R$ 150 mil até voltar para casa.
 
Em palestra para militantes petistas em Teresina, na Quinta, Dirceu revelou que recorrerá às cortes internacionais para tentar anular sua condenação. Ele ficou animado com o voto no acórdão do ministro do STF Celso de Mello: que o Supremo poderá acatar o que a Corte Interamericana de Direitos Humanos decidir. O petista disse também que vai usar as viagens a convite do PT para defender o legado de Lula e o governo de Dilma.
 
Dirceu foi condenado a 10 anos e 10 meses de prisão e a pagar multa de R$ 676 mil à Justiça. Mas pelo visto, a militância perde tempo em jantares para arrecadar fundos que o ajudem. Em sua defesa, o ex-ministro se diz injustiçado, que o Mensalão é uma farsa e carrega um livro em que detona a tese dos ministros do STF que o condenaram. O ex-ministro chega amanhã à noite em São Luís. Contam no Palácio dos Leões que, para driblá-lo, a governadora Roseana Sarney (PMDB) deixará o vice petista no cargo para recebê-lo. (Da coluna Esplanada)
José Dirceu tem o desplante de dizer que dinheiro roubado no Mensalão era privado, não era público. Aí pode, né ladrão?
 
Durante esse "tour", José Dirceu afirmou que a divulgação, pelo Supremo Tribunal Federal, do acórdão do julgamento do mensalão está longe de encerrar o caso. Um resumo foi publicado nesta sexta-feira, 19, e o acórdão completo deve estar disponível na próxima segunda-feira, 22. A partir daí, começam a contar os prazos para recursos.
 
Condenado a 10 anos e 10 meses de prisão, o ex-ministro diz que ingressará com embargos declaratórios e também com os chamados embargos infringentes em que tentará anular a condenação por formação de quadrilha, já que nesse caso específico teve quatro votos favoráveis.
 
Caso não obtenha sucesso nessa fase, Dirceu deve pedir ainda revisão criminal, alegando que o Supremo errou ao considerar, públicos, recursos da Visanet, um fundo ligado ao Banco do Brasil. A Visanet abasteceu as empresas de Marcos Valério condenado como operador do mensalão. “Há um erro jurídico grave. O Supremo foi induzido a erro pela perícia. Recursos da Visanet não são públicos. Não são do Banco do Brasil e não foram desviados. Os serviços foram pagos e prestados e nós vamos provar”, disse.
 
O último passo, segundo Dirceu, será um recurso ao Tribunal Penal Internacional, onde vai argumentar que não teve direito ao duplo grau de jurisdição, uma vez que foi julgado pelo Supremo, última instância da Justiça brasileira. “Todo cidadão tem o direito de, ao ser processado, poder recorrer para uma segunda instância. A Constituição é clara. Eu não tenho foro privilegiado. Eu não era ministro, não era deputado, quando da denúncia em agosto de 2007”. Dirceu contou que está em contato com juristas internacionais que já estudam o assunto. “Estamos levantando casos em que a corte decidiu a favor da demanda de dupla jurisdição”,explicou. “A acusação é de que sou chefe da quadrilha e de que sou corruptor, mas vamos ler o acórdão e ver onde está a prova. Nesses quase oito anos, eu sofri uma devassa na minha vida. Não há nada que me relacione com os fatos que são denunciados na ação penal 470”.
 
Indagado se a movimentação dele pelo Brasil não criaria embaraços ao governo da presidente Dilma Rousseff, afirmou que é uma ilusão achar o assunto morreria se ele ficasse quieto. “E eu estou buscando justiça. Quem não busca justiça está se enterrando vivo. Eu sou de luta”. (Estadão)
Mentiroso! De luta coisa nenhuma! Sempre foi um medroso, desde os tempos das passeatas, quando era sempre o primeiro a fugir e deixar seus bois de piranha apanhando da polícia!
 
21 de abril de 2013
 

QUANDO O HUMOR DESENHA A REALIDADE





21 de abril de 2013

SANATÓRIO DA "POLÍTICA" BRASILEIRA

Chanceler de bolso

“Tenho confiança nas Instituições Venezuelanas”.

Antonio Patriota, ministro das Relações Exteriores, candidatando-se a substituir Celso Amorim no cargo de chanceler de bolso da comunidade bolivariana.

Neurônio meteorológico

“Eu chamei os governadores todos do Nordeste. Eu chamei os governadores e falei: olha, alguns governadores, como o do Ceará, também tinham essa mesma informação, por causa do serviço deles, ele também tem um bom serviço meteorológico, o Cid Gomes”.

Dilma Rousseff, diretamente do Portal do Planalto, informando que Cid é o melhor serviço meteorológico do Nordeste.

Organização é isso aí

“A operação foi organizada. Foi necessária”.

Ronaldo Ribeiro dos Santos, capitão que participou do massacre do Carandiru, ao explicar por que 111 presos foram assassinados na invasão do presídio.

Relações perigosas

“Não tenho certeza de que esse avião era do Olívio”.

Cândido Vaccarezza, deputado federal do PT de São Paulo, depois que o ministério público estadual descobriu que sua assessora pediu um avião emprestado ao empreiteiro Olívio Scamatti, preso sob a acusação de chefiar uma quadrilha que fraudava licitações municipais com verbas de emendas parlamentares, confirmando que acha que todo mundo é imbecil, menos ele.

Tremenda sacada

“Os moradores estão tendo dor de barriga, mas não sei se é por causa dos carros-pipa”.

Maria de Fátima Mourão, prefeita de Hidrolândia (CE), ao explicar que, embora a água dos carros-pipa esteja contaminada com coliformes fecais e níveis de resíduos acima do normal, a dor de cabeça dos moradores pode ter origem psicológica.

Descoberta da década

“São Paulo vive uma epidemia de insegurança. Precisamos de um plano de intolerância zero ao crime”.

Guilherme Afif Domingos, vice-governador de São Paulo, confessando que só depois da tentativa de assalto sofrida por sua filha descobriu o que os outros paulistanos sabem desde o dia do nascimento.

Em busca do troféu

“A inflação está sob controle e tende a cair”.

Guido Mantega, ministro da Fazenda, decidido a garantir já na largada da campanha o troféu de Homem sem Visão de Abril.
 

Doutora em geografia

“No ano passado, se não me engano no final do ano, teve uma baita enchente no Rio Amazonas, alagou o mercado inteiro de Manaus”.

Dilma Rousseff, diratamente do Portal do Planalto, ensinando que uma baita enchente no Rio Amazonas alaga a cidade que fica às margens do Rio Negro.

21 de abril de 2013
in Augusto Nunes

CELSO ARNALDO: O ESTADÃO DESCOBRIU O DILMÊS

 

Entrou para o folclore da grande imprensa brasileira a patética pretensão de um solene editorialista de O Estado de S. Paulo dos anos 60 que, depois de tentar ensinar o Padre Nosso ao vigário — no caso, o Papa Paulo VI — através de seguidos editoriais criticando determinada posição do Vaticano, assim começa um texto aplaudindo tomada de posição do Sumo Pontífice que coincidia com a mudança de rumos defendida pelo jornal: “Conforme alertáramos Sua Santidade…”

Diante do editorial deste domingo no Estadão intitulado “Dilmês castiço”, é o caso de dizer: “Conforme alertáramos…”. Não tenhamos a pretensão de imaginar que o grande periódico dos Mesquita andou bebendo na coluna de Augusto Nunes – embora cite, entre os desastres linguísticos que justificam o editorial, ipsis literis, dois sanatórios localizados, enquadrados e aqui internados esta semana.

Mas esse editorial, na verdade, poderia ter sido escrito por qualquer ser pensante que se dispusesse a ouvir atentamente um improviso de Dilma sobre virtualmente qualquer assunto – nos últimos três anos, esta coluna facilitou as coisas para eventuais interessados, divulgando e arquivando pelo menos duas mil amostras do trôpego dialeto falado por uma única pessoa na face da Terra. Conforme alertáramos….

De qualquer forma, modéstia à parte, mas às favas, a edição de O Estado de S. Paulo deste domingo é histórica também para esta coluna — enfim, ali se revela uma Dilma que, embora constrangedoramente exposta quase todos os dias diante de um microfone, ainda era tão clandestina quanto a Estela dos anos de chumbo: a Dilma cuja real capacidade de presidir o país é gravemente questionada sempre que ela abre a boca.

O editorial do Estadão, que usa como título um neologismo criado neste espaço e que ainda era um jargão só usado por nossos leitores e comentaristas, é a tardia, mas muito bem-vinda, chancela da grande mídia à descoberta pioneira da coluna de Augusto Nunes: já dura três anos, somando-se o período de campanha, não interrompidos por uma única, solitária frase de três palavras com algum sentido ou lampejo, a mais explícita demonstração pública de despreparo de um chefe de estado na história deste país. Despreparo incomum até em pessoas comuns.

Da saudação à despedida, qualquer agrupamento de palavras pinçado do palavrório sem forma e conteúdo de Dilma, seja diante de ex-miseráveis do Bolsa Família ou de governadores e pesos-pesados do empresariado, impediria qualquer pessoa de exercer um cargo de quinto escalão num governo sério, se houvesse no processo de seleção alguma meritocracia. Numa empresa de porte médio, um candidato a emprego que falasse como Dilma não resistiria 30 segundos de pé na sala do RH.

O mais importante: em “Dilmês castiço”, o editorialista do Estadão não apenas destaca a “dificuldade que a presidente Dilma Rousseff tem de concatenar ideias, vírgulas e concordâncias quando discursa de improviso” como vincula essa miséria vernacular – outra posição antiga e solitária da coluna – à própria incapacidade de governar, haja vista seu grotesco ato falho sobre a “conquista” da inflação:

“Se a presidente não consegue se expressar com um mínimo de clareza em relação a um assunto tão importante, se ela é capaz de cometer deslizes tão primários, se ela quer dizer algo expressando seu exato oposto, como esperar que tenha capacidade para conduzir o governo de modo a debelar a escalada dos preços e a fazer o País voltar a crescer? Se o distinto público não consegue entender o que Dilma fala, como acreditar que seus muitos ministros consigam?”.

Aqui, um singelo reparo ao questionamento do jornal: ao citar o Ministério de Dilma como uma espécie de “referência nobre” para esse dilema, o editorial gasta boa vela com péssimo defunto. Dilma não tem um Ministério, mas um minestrone estragado – uma sopa de letras supostamente partidárias que ali se amalgamam para operar no fundo do prato.
Nenhum ministro reclama clareza nas ordens de Dilma. Nenhum questiona a lógica infantil das 6 mil creches, a viabilidade completamente aérea dos 800 aeroportos, a sandice expressa do Trem-Bala. Nada sairá como ela ordenou – e não importa a forma como ordenou.

E também não adianta especular se Dilma só fala tão mal em público e seria cristalina na zona de conforto dos gabinetes, seu habitat natural. Se fosse o caso, por que a caríssima Secretaria de Comunicação Social da Presidência ainda não lhe arrumou um midia trainer decente?
Será porque a quase doutora que diz ser voraz consumidora de livros e de artes múltiplas nunca assimilou nada do que podia ter aprendido nas escolas que frequentou, nas reuniões que comandou, nos seminários a que assistiu? Estamos lidando com um fenômeno?
Ou você conhece mais alguém que diria isto?

“A Rede Cegonha é um tratamento da mãe antes do parto, durante a gravidez, no parto e depois no pós-parto, o tratamento da mãe e da criança. Em todas as fases, a gente olha duas pessoas que são essenciais para a saúde do povo brasileiro: a mãe a criança”.
Alguma chance de a Rede Cegonha decolar?

Mas, ministros e cegonhas à parte, o simples reconhecimento do Estadão de que há algo profundamente errado numa presidente incapaz de iniciar, concatenar ou terminar um raciocínio ao se expressar sobre virtualmente qualquer tema, sinalizando provavelmente um erro de pessoa, pode ser o começo de um novo nível de percepção da opinião pública em relação ao governo Dilma,cuja sintaxe é representada por obras que não começam, não terminam ou se desfazem no meio.
Como os pensamentos em dilmês castiço.

21 de abril de 2013
in Augusto Nunes

"HÁ SINCERIDADE NISSO"

 



Numa cerimônia oficial, dia 16, em Minas Gerais, disse a presidente Dilma Rousseff: “A inflação foi uma conquista desses dez últimos anos do presidente Lula e do meu governo.” Esta reveladora frase está gravada em vídeo.

Quando o ex-presidente Fernando Henrique fez 80 anos, em junho de 2011, disse a presidente Dilma Rousseff, por escrito, sobre ele e sua obra: “(…) o ministro-arquiteto de um plano duradouro de saída da hiperinflação e o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica”.

Faz sentido: para quem condena severamente, e há tantos anos, a “herança maldita” de Fernando Henrique, nada mais justo do que se orgulhar da luta de dez anos do ex-presidente Lula e dela própria pelo retorno triunfal da inflação.
É uma questão de coragem – que começa pela ousadia de nomear e manter um ministro como Guido Mantega num posto-chave, o Ministério da Fazenda.
Dilma Rousseff tem uma qualidade rara entre os políticos: fala aquilo em que acredita, não se preocupando em agradar quem quer que seja, nem em ser politicamente correta.
Na Conferência Internacional sobre Mudanças Climáticas, em Copenhague, Dinamarca, disse: “O meio-ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável e isso significa que é uma ameaça para o futuro do nosso planeta e do nosso país”. Sim, é bobagem; mas é opinião dela.
Dilma Rousseff é sincera. E quem fala o que pensa não merece castigo.

Alckmin, o que não sabia

Quem comanda corre dois riscos graves:
1- Decidir errado;
2 - Não saber o que seus subordinados andam fazendo.
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, PSDB, não faz concessões: às vezes diz que não sabe, às vezes toma as decisões erradas (e, como bom tucano, antes de errar ainda passa um tempão decidindo que não é hora de decidir).

1 - Três de seus secretários traíram o acordo, do qual participou o próprio Alckmin, pelo qual Andrea Matarazzo, o vereador mais votado, seria presidente do Diretório Municipal do PSDB. Alckmin diz que não soube de nada – mas os três secretários foram mantidos. Se os secretários desobedecem o governador e nada sofrem, de duas uma: ou ele sabia, e finge que não sabia, ou quem recebe suas ordens dá risada.

2 - Na esteira do assassínio cometido por um menor que completaria 18 anos dois dias depois, pede que a Justiça possa mantê-los internados por até oito anos, em vez dos três atuais, quando cometerem crimes hediondos. E por que está errado? Primeiro, porque o prazo de oito anos pode ser muito e pode ser pouco, conforme o caso. Os três anos hoje permitidos para internação de menores, de acordo com a lei, podem ser mudados pela Justiça (o estuprador e assassino Champinha, por exemplo, está internado desde 2003).

E está errado também porque a insegurança em São Paulo não se deve apenas a menores infratores: deve-se muito mais a maiores de idade e o Governo não consegue lidar com eles.

Dimenor e dimaior

Este colunista não é a favor da redução da maioridade para responsabilidade criminal. Hoje, reclama-se do caso do assassino de 17 anos, 11 meses e 28 dias, que já avisa os policiais que é “dimenor”. Se a maioridade for aos 16 anos, haverá casos de “dimenores” com 15 anos, 11 meses e 28 dias – e assim por diante.

Este colunista defende uma lei como a inglesa: o juiz decide, com assessoria especializada, se o infrator tem discernimento, e em que nível, e decide o que fazer. Há casos em que, mesmo não entendendo o que fazem, as pessoas, maiores ou menores, oferecem perigo. Os dois meninos de pouco mais de dez anos que amarraram um bebê nos trilhos da ferrovia estão presos há anos. São perigosos.

Este colunista vai mais longe: a maioridade deve ser ampliada, para 21 anos ou mais. E os adultos que levarem menores consigo para cometer crimes devem ter a pena pesadamente agravada, com a progressão penal muito reduzida. Vai funcionar? Depende – depende de ação policial que os leve à Justiça.

Mensalão, enfim

O acórdão do Mensalão deve ser publicado amanhã e, a partir de terça, conta-se o prazo de dez dias para embargos. O prazo foi duplicado, a pedido dos advogados de defesa. Depois vêm as outras etapas, que podem estender-se longamente. Mas este colunista não entende por que advogados de primeiro time, renomados, experientes e bem formados, precisaram pedir mais prazo para analisar o acórdão.

Jornalistas sem qualquer experiência na área jurídica escreveram artigos, reportagens, até livros provando que os réus do Mensalão são mais inocentes que crianças recém-nascidas.
E, para isso, nem precisaram ler o processo.

Corra, corra

A presidente Dilma Rousseff assinou no dia 17 o decreto nº 7.988, que regulamenta e legaliza doações para o programa de combate ao câncer. Ótimo – mas o prazo para entrega da declaração de renda termina no dia 30. O Governo teve sete meses para regulamentar a Lei 12.715, de setembro de 2012, mas deixou só duas semanas para o contribuinte enquadrar-se no decreto e usar as isenções.

21 de abril de 2013
CARLOS BRICKMANN

"OFICINA DE REMENDOS"

 



Essa discussão sobre a ofensiva governista no Congresso para dificultar a vida de novos partidos a rigor nem deveria existir. Só existe porque se criou um festival de casuísmos em que um erro passou a justificar o outro, a ponto de o Poder Judiciário aderir à lógica de que há leis que pegam e outras que não pegam.

O caso da vez é a ideia de vedar aos novos partidos o acesso aos recursos do Fundo Partidário e ao horário eleitoral no rádio e na televisão. A tese enuncia a necessidade de impedir a criação de mais legendas de aluguel e, assim, moralizar o processo.

Seus porta-vozes fazem papel de santos em ambiente de devassidão; apresentam-se para organizar uma bagunça da qual são sócios proprietários.

O objetivo imediato de um lado é dificultar apoios a prováveis oponentes da presidente Dilma Rousseff em 2014 e preservar uma fatia do mercado. De outro, entrar no rateio do Fundo Partidário (R$ 294 milhões em 2013) e do tempo de propaganda.

Um casuísmo? Escandaloso: no ano passado gente que está hoje contra o projeto era a favor, e vice-versa. Na hora de ajudar o então prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o PSB que hoje se sente prejudicado estava junto com outros aliados na sustentação dos pilares sobre os quais foi erguido o PSD.

O PMDB que agora apoia a barreira aos novatos, no ano passado estava junto com o DEM, o PSDB, o PPS e outros signatários da ação no Supremo questionando o direito do PSD ao Fundo Partidário e ao tempo e televisão na proporção do tamanho da bancada, àquela altura com cerca de 50 deputados. Nenhum eleito pela legenda criada em 2011.

Casuísmo explícito, mas não o único nessa série de remendos em série decorrentes, ao que tudo indica, de um pecado de origem: o desleixo em relação à lei vigente.

Duas delas dizem expressa e claramente que os partidos terão direito à distribuição dos recursos e ao tempo no horário eleitoral “proporcionalmente à representação na Câmara dos Deputados”. E como se faz esse cálculo? Segundo as leis, “de acordo com os votos obtidos na eleição anterior”.

Segundo a lei eleitoral, uma terça parte do horário em rádio e TV é distribuída entre todas as legendas com registro e dois terços repartidos pelo critério do tamanho das bancadas. A lei que rege os partidos reserva 5% do fundo para todos e manda que 95% sejam repartidos conforme a representação resultante da eleição antecedente.

Pois bem, o PSD tinha um ano de vida, não havia passado por nenhuma eleição e, portanto, não atendia ao critério. Ainda assim, obteve do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal o benefício que a lei negava.

E por que isso aconteceu? Resultou da interpretação de uma questão anterior, da fidelidade partidária, examinada em 2008 pelo TSE e o STF. Ficou determinado que os mandatos pertenciam aos partidos; perderiam os mandatos os eleitos que trocassem de legenda. Exceção aberta aos migrantes para novas legendas ou quando o político fosse vítima de perseguição em sua agremiação.

Para as siglas resultantes de fusão a norma é diferente: não perde o mandato quem sai, mas perde quem entra porque a justiça não entende como novo o partido produto de união com outro.

De qualquer forma, brecha aberta, a maioria entendeu nos tribunais que “a realidade” se sobrepunha à letra fria da regra e que não teria cabimento impedir que um partido já com bancada expressiva não recebesse recursos e tempo proporcionais à representação. Por menos que não tivesse passado por uma eleição, como legalmente exigido.

E assim, de exceção em exceção, nenhuma regra se consolida e, à falta de disposição para reforma digna do nome, a política se transforma numa oficina de remendos. Mal feitos.

21 de abril de 2013
Dora Kramer

E NÃO É QUE OS HOMENS MAUS ESTAVAM CERTOS, ENQUANTO OS BONZINHOS GERAVAM FOME, POBREZA E PROSTITUIÇÃO?

 

Em janeiro de 2009, Marcelo Coelho, colunista da Folha, escreveu um artigo para denunciar — o verbo é esse mesmo — quatro colunistas da imprensa brasileira: Luiz Felipe Pondé e João Pereira Coutinho (da própria Folha), Demétrio Magnoli (Estadão e Globo) e Reinaldo Azevedo, eu mesmo.
 
Ele nos acusava de destruidores da esperança alheia, de pessimistas, de sombrios. Sugeria até que éramos (seremos ainda?) coniventes com o massacre de criancinhas. Escreveu ainda:
 
“Mas é um time e tanto, e minha experiência pessoal com a violência do ser humano, adquirida nos pátios de recreio do ginásio, é suficiente para não querer polemizar com alguns deles”.
 
Não sei se os outros responderam. Acho que não. Eu respondi. E notei, então, que nem daria um tapão na sua orelha nem puxaria o elástico da sua cueca, algumas das brincadeiras imbecis e violentas que moleques fazem no recreio com aqueles que escolhem para vítimas. Mas essa lembrança vem a propósito de quê?
 
Em 2009, um dos debates que se travavam no Brasil tinha como objeto a reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. Eu estava entre aqueles poucos na imprensa (ignoro a posição, nesse caso, dos outros três homens maus citados por Coelho), como sabem os leitores mais antigos (e poderão constatar no arquivo os mais recentes), que alertavam para o desastre que implicaria a eventual expulsão dos arrozeiros da região. Lembrei em dezenas de artigos que:

 – o “homem branco” já estava naquela área havia quase 200 anos;

 – a expulsão dos não índios implicaria a decadência econômica da área, uma vez que eram eles que administravam as fazendas de arroz;

 – essas fazendas ocupavam menos de 1% da reserva e empregavam farta mão de obra indígena;

 – os indígenas já não viviam como seus antepassados;

 – a expulsão dos não índios era uma reivindicação de uma minoria de índios, mobilizados por ONGs financiadas por entidades estrangeiras, como a Fundação Ford, e por radicais do Conselho Indigenista Missionário;

 – haveria uma debandada de índios, uma vez que não viviam nem da caça nem da pesca, como no idílio inventado pelas ONGs e pelo ministro Ayres Britto, relator do caso no Supremo — é um bom homem, mas se equivocou estupidamente nesse caso por excesso de (má) poesia…
 
Tudo inútil! Venceu a tese da expulsão dos não índios da região. O STF ainda criou 19 condicionantes para aquela demarcação e para as futuras (que a Funai e seus associados tentam hoje derrubar), mas atendeu à reivindicação essencial de uma minoria de índios. Se bem se lembram, a Polícia Federal baixou na região e algemou fazendeiros.
 
De volta a Coelho

 Naquele texto em que Coelho identificou a gangue dos quatro homens maus da imprensa, ele nos censurou também por causa de Raposa Serra do Sol, deixando claro que estávamos do lado errado. Fazendo troça do que seria a nossa opinião, ele ironizou, como se capturasse o nossa fala ou, narrador onisciente, adivinhasse o nosso pensamento:

 “Você quer que se preservem as reservas indígenas da Amazônia? Mais um risinho: os militares brasileiros entendem mais do problema que você, que pensa ser bonzinho, mas é tão malvado como todos nós.”
 
Notem que Coelho nos acusa de ter um registro, digamos, meio apalhaçado da realidade. Ele está tão convencido da impossibilidade de se pensar algo distinto do que ele pensa e de tal sorte se considera dono do bom senso que chega a supor que, como diz a meninada hoje em dia, os quatro malvados escrevem apenas para… causar!!! “Causar”, leitor, nessa construção, é verbo intransitivo.
 
De volta a Raposa Serra do Sol

 Em maio de 2011, VEJA publicou uma reportagem demonstrando que todas aquelas antevisões deste escriba mau e reacionário estavam se cumprindo. Índios aos montes já moravam em favelas na periferia de Boa Vista. Haviam abandonado a reserva.
 
Dois anos depois, chegou a vez de a Folha fazer a sua reportagem sobre as consequências daquela decisão do Supremo. A situação só fez piorar. Mais índios estão morando em favelas e lixões. Índias viraram prostitutas. Sílvio da Silva, líder de uma das etnias, acusa a Funai: “Eles [A Funai] querem que o índio volte a viver no passado, como viveram os nossos, que tinham raiz e usavam capemba de buritis [adereço] no pé, a bunda aparecendo. Hoje não, não quero fazer isso.” Leiam a reportagem de Erich Decat, publicada ontem na Folha. Volto em seguida.

 *

 Quatro anos após o Supremo Tribunal Federal determinar que a área de Raposa Serra do Sol era uma reserva indígena e que os “brancos” teriam de ir embora, a energia elétrica finalmente chegou ao barraco de madeira de dois quartos do líder da etnia macuxi Avelino Pereira. Ele mora com a mulher, filha e neta lá. Mas seu barraco, contudo, está a cerca de 180 km da comunidade da Raposa Serra do Sol em que residiu boa parte de sua vida. Hoje Pereira vive em Nova Esperança, uma invasão na periferia da capital de Roraima, Boa Vista, situação que ilustra o que ocorreu com parte da comunidade indígena após a demarcação.
 
“Hoje a realidade [em Raposa Serra do Sol] está ai, não tem uma agricultura melhor, não tem estrada boa, saúde boa. Se alguém disser que está boa, é mentira”, diz Pereira, 50 anos, acostumado com a vida próxima a cerca de 340 famílias de produtores rurais que tiveram que deixar as terras para cerca de 20 mil índios após a decisão do STF.
 
No município de Cantá à 38 km de Boa Vista, outro líder indígena, Sílvio da Silva, faz coro e fala sobre uma “maldição da Raposa”. “Hoje temos vários indígenas ‘saídos’ [da reserva] para procurar melhora de vida”, diz Silva, ex-presidente da Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte de Roraima. Entre os principais alvos das queixas está a própria Funai (Fundação Nacional do Índio). “Eles querem que o índio volte a viver no passado, como viveram os nossos, que tinham raiz e usavam capemba de buritis [adereço] no pé, a bunda aparecendo. Hoje não, não quero fazer isso.”
 
No percurso de carro de Cantá a Boa Vista, o indígena comenta: “Pena que estamos com pouco tempo, queria ir lá no lixão para te mostrar”. Ao longo da BR-174 está Venâncio, um macuxi de fala mansa. Ele trabalha num lixão à beira da estrada, cercado por urubus, tratores e o mau cheiro. Consegue de R$ 20 a R$ 30 por dia. “Essa realidade do lixão ela começa hoje em Roraima em escala pequena, mas a tendência é que se não fizermos nada vai crescer”, diz o governador de Roraima, José de Anchieta (PSDB).
 
Com a chegada da noite em Boa Vista, surge outra face da busca por sobrevivência de indígenas nas periferias: a prostituição. No bairro Asa Branca, algumas mulheres conversam com vestidos curtos e maquiagens carregadas, vozes abafadas pela música alta do grupo Calcinha Preta.
 
Entre elas, Menezes, 26, que há seis meses começou a trabalhar no estabelecimento como garçonete. Agora, virou prostituta e diz ganhar R$ 300 por dia. Segundo o IBGE, a renda média mensal na região, na faixa etária de Menezes, é de R$ 954. “Estou aqui porque preciso pagar minhas contas”, diz ela, que morava em Uiramutã, comunidade em que ela nasceu na reserva. A Funai não se pronunciou sobre a situação da reserva.
 
Os produtores rurais, por sua vez, migraram para outros Estados e para a Guiana. Dono de duas fazendas na área, Paulo Cesar Quartiero (DEM-RR), hoje tem fazenda na ilha de Marajó, no Pará. O deputado, que chegou a ser preso durante o processo de retirada de produtores, faz parte da Comissão de Integração Nacional da Câmara que se reuniu em Boa Vista com agricultores e índios para discutir a situação da região. Pequenos produtores também vivem dificuldades. “O governo prometeu que ia dar uma casa, um poço artesiano e não deu nada”, diz Wilson Alves Galego, 72.
 
Voltei

 Coelho me achava um “pessimista sombrio” em relação a Raposa Serra do Sol e, muito provavelmente, um reacionário, a favor da destruição da natureza. Eu, ora vejam!, só pensava coisas óbvias como: “Os arrozeiros ocupam 1% da reserva apenas e empregam muitos índios, oferecendo-lhes condições dignas de vida. Se saírem de lá, a área que volta para o controle da reserva é irrelevante, mas o custo social será gigantesco”. Não me parecia, assim, algo muito reacionário, né?
 
Ao contrário, eu me considerava até bastante humanista ao me preocupar com a equação econômica.
Pois é… O fatal aconteceu. As ONGs que lutaram para expulsar os arrozeiros não estão nem aí; a Fundação Ford, que as financia, não está nem aí; a Funai não está nem aí; Ayres Britto não está nem aí; o STF não está nem aí; Marcelo Coelho não está nem aí…
 
“E você, Reinaldo?” Eu? Não escrevi o que escrevi com o intuito de parecer bom ou mau. Nunca penso nisso quando exponho uma opinião. Achei que a saída dos arrozeiros geraria desemprego, fome e pobreza. E a saída dos arrozeiros gerou desemprego, fome, pobreza e prostituição.
 
Coelho não me deve desculpas, claro! Talvez as deva a seus leitores e certamente àqueles pobres desgraçados. Não que ele tenha tido qualquer responsabilidade objetiva na decisão. Fez parte da plateia que aplaudiu e tentou demonizar as poucas vozes divergentes — demonização, no caso, de minoria, o que é uma coisa muito feia quando essa minoria está apenas participando do debate democrático.
 
21 de abril de 2013
Por Reinaldo Azevedo

UM CANALHA INTELECTUAL


Enganosas, infames, mas acima de tudo profundamente hipócritas foram as expressões vertidas na quarta-feira passada pelo ministro de Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, em torno das evidentes graves irregularidades que rodearam todo o concernente ao turvo processo eleitoral venezuelano e o questionado resultado que lançou, com o hipotético “triunfo” do novo manda-chuva da Venezuela, Nicolás Maduro.

O chanceler brasileiro afirmou que seu país “reconhece” o triunfo do controvertido sucessor de Chávez e que os resultados do Conselho Nacional Eleitoral devem ser “respeitados”.
 
Evidentemente, esta primeira manifestação desconhece uma realidade bem profunda: na Venezuela se produziu praticamente um empate entre o candidato oficialista e o opositor, e existem fundadas suspeitas de que o regime chavista recorreu à fraude para impor sua discutida “vitoria”.
 
Depois, ao ser consultado sobre a necessidade de auditar o processo eleitoral realizado no domingo passado, para eventualmente eliminar qualquer suspeita de ilicitudes, Patriota disse que uma decisão em tal sentido cabe somente às autoridades eleitorais venezuelanas. “Respeitamos a soberania” da Venezuela e essa seria “uma decisão interna”, manifestou.
 
Parece mentira que quem se expressa em tão condescendentes termos para com o neodespotismo bolivariano seja o mesmo tipo que em junho do ano passado encabeçou uma gangue de chanceleres da UNASUR que invadiu o Palácio do Governo do Paraguay para impedir por todos os meios possíveis que aqui se realizasse o julgamento político do então presidente Fernando Lugo; julgamento esse embasado claramente no que estabelece o artigo 225 da nossa Constituição Nacional.
 
Naquela ocasião, Patriota afirmava em sua descarada intervenção nos assuntos internos do nosso país que tal ato – o julgamento constitucional do exbispo – constituía uma “ruptura da ordem democrática”. Claro, a “ruptura”, para ele e seus amigos, estava fundamentada no fato de que, com o deslocamento de Lugo do poder, eles perdiam uma ficha importante no tabuleiro bolivariano que o Brasil, com o concurso de seus cafetões e alcoviteiros Hugo Chávez e os Castro, vem criando e consolidando desde há aproximadamente uma década nos países da região.
 
Sem dúvidas, agora se trata de um “sócio”, um cupincha a quem é preciso salvar e resgatar a qualquer preço, incluso o altíssimo custo de pisotear os mandatos da Constituição da Venezuela e ser vistos ante a opinião pública mundial como os hipócritas que são já sem nenhuma dissimulação. Nem isso os preocupa.
 
Como estão desesperados atrás do ouro negro venezuelano, agora sequer lhes interessa salvar as aparências, e se prestam a legitimar – como sempre fizeram – as tramoias do totalitarismo chavista.
 
O que está claro é que com sua atitude obstinada poderão encobrir as miseráveis tramoias de seu amigote Maduro, porém nunca vão conseguir que Venezuela reencontre o caminho da paz interna, a estabilidade e a reconciliação, que sem dúvidas foram profundamente quebradas desde que o chavismo capturou o poder.
 
Desgraçadamente, a hipocrisia é um elemento indissolúvel da política exterior brasileira. Parte daí o padrão permanente de duas caras aplicado quando se trata, por exemplo, de seus amigos endinheirados - como é o caso, agora, do péssimo Nicolás Maduro - e absoluta intransigência a que recorre no caso do Paraguai, não só em termos políticos, mas também econômicos.
 
Este é o repugnante neocolonialismo imperialista a que o Brasil nos vem impingindo desde há tantas décadas. Séculos talvez. E que deseja seguir impondo miseravelmente para conseguir perpetuar-se com nossos recursos naturais.
 
Certamente, as declarações de quarta-feira passada de Patriota demonstram e desmascaram o baixo nível desse canalha intelectual, esse mercenário que pretende, a força de enganos e enredos retóricos, fazer crer ao mundo que é um grande defensor da democracia e promotor dos direitos humanos, quando na realidade não é mais que um farsante, um sujeito sem princípios nem dignidade de nenhum tipo.
 
É importante, pois, conhecer a natureza e a verdadeira dimensão da falsidade dos indivíduos como Patriota, sobretudo agora, quando teremos que escutar todas as mentiras que tem preparadas para tentar que - uma vez passadas as eleições nacionais do próximo domingo - nós paraguayos aceitemos todas as agressões a nossa dignidade que por ordem sua e de sua chefa nos tem infligido no Mercosur, e as novas autoridades eleitas continuem consentindo o vil despojo de nossas riquezas naturais que desde décadas vem o Brasil cometendo em nosso prejuízo.
 
Fonte: tradução livre do Jornal ABC Color
 
COMENTO: certamente, um Editorial desse calibre não é uma opinião isolada de um jornalista qualquer. Para publicar essa crítica tão contundente, a direção do jornal deve contar com o apoio de boa parcela da população, não só paraguaia mas de toda a América Latina de língua espanhola, leitora do diário em questão.
Podemos dizer que essa é a opinião de nossos vizinhos que não se enquadram no Foro de São Paulo, não só dos paraguaios. É o resultado da diplomacia comandada pelo sujeito aquele dos dentes podres. Rio Branco deve estar chorando em seu túmulo!

20 de abril de 2013
Editorial

A REPRESSÃO NA VENEZUELA EM VÍDEOS E ÁUDIO

    
          Notícias Faltantes - Foro de São Paulo

Maduro era o “ungido” dos Castro desde a década dos 80, conforme divulguei em edições anteriores, mas os Castro não podiam assumir o comando do país através de seu agente porque Chávez lhes servia bem, estava sempre com a carteira aberta e vinha tocando a “revolução socialista”.


Alguns leitores têm insistido para que eu apresente “provas” de que a violência que está ocorrendo na Venezuela, desde o anúncio no domingo 14 da fraudulenta vitória de Nicolás Maduro, parte do governo e seus paus mandados. A mim me parecia que os relatos, fotos e vídeos que tenho apresentado seriam suficientes mas vejo que não. Certamente algum iludido pela lavagem cerebral da mídia e universidades brasileiras quer ver o sangue espirrando da página do Notalatina e ver o assassino com a arma na mão ainda fumegando, para crer no que tenho denunciado.
Pois bem, está edição de hoje é quase que totalmente ilustrada por vídeos e um áudio, e é dedicada aos incrédulos ingênuos e aos espíritos de porco que teimam em jogar a culpa desta desordem na contabilidade da oposição. Cabe salientar que os cidadãos de bem da Venezuela também não têm direito a ter armas para se defender, pois se assim fosse, teria havido um banho de sangue de proporções inimagináveis nesses confrontos havidos nos últimos dias.
 
Para que se possa compreender a inconformidade dos venezuelanos com estas eleições, faço um rápido resumo dos fatos. Nas eleições para a presidência em 7 de outubro do ano passado, o CNE deu Chávez como vencedor, embora até as pedras tinham provas de que essa vitória ocorreu baseada em fraudes.
Entretanto, naquela ocasião o opositor Henrique Capriles - não se sabe por quê - aceitou sem pestanejar que Chávez lhe roubasse a vitória e sequer pediu uma auditoria nas urnas. Morto Chávez, novamente Capriles é indicado pela MUD (Mesa de Unidade Nacional) como candidato da oposição contra Nicolás Maduro.
Ocorre que, conforme apresentei na edição passada, as fraudes foram demasiadamente grandes e desta vez Capriles resolveu não aceitar mais que se lhe usurpasse o cargo e desrespeitasse os eleitores, e convocou a população para uma manifestação pacífica em frente às sedes do CNE em todo o país, para exigir que se fizesse uma auditoria em 100% dos votos.
Foi dado entrada no pedido oficialmente na segunda-feira 15, mas a presidente do órgão, Tibisay Lucena, demorou a acatar a solicitação e somente ontem disse que faria a re-contagem de 46% dos votos. Não sei se para não perder tudo, Capriles aceitou. Ocorre que os Castro tinham urgência em oficializar a investidura do cargo e ontem a UNASUR reuniu-se em caráter extraordinário em Lima, alegando uma avaliação do comportamento dos Estados Unidos de não aceitar essa vitória como válida até que se faça uma auditoria isenta. Aproveitaram, nesta ocasião, para anunciar a “intenção de um golpe de Estado” por parte da oposição, antecipando-se aos fatos.
Não resta dúvida de que a pressa em dar posse a Maduro partiu de quem de fato governa a Venezuela, desde dezembro passado, que é Cuba, porque depois de juramentado e empossado, todo e qualquer movimento que a oposição faça será visto como um golpe real, uma vez que Maduro agora está legal e constitucionalmente no cargo. Se, entretanto, houvesse na Venezuela respeito pelas leis e a Constituição, nada disto estaria acontecendo, pois Maduro usurpou o cargo desde que Chávez não apareceu para tomar posse em 10 de janeiro e, uma vez acatada a solicitação da auditoria, esta seria realizada num prazo de 30 dias - como regem as leis do CNE - e só depois se daria posse ao que de fato houvesse vencido com maioria de votos. Esta antecipação da posse é ilegal e inconstitucional, mas é sabido que entre comunistas as leis servem para ser aplicadas apenas aos inimigos.
Chegou às minhas mãos hoje à tarde uma informação que não posso deixar de compartilhar, nem que seja para futura averiguação. O site Dolar Today publicou uma matéria onde informava que as contas de correio de Diosdado Cabello, presidente da Assembléia Nacional (AN) haviam sido hackeadas, e dentre os correios estava um que lhe fora enviado por “Victor A. Marcial-Vega,MD”, desde Porto Rico, cujo título era: “O Vice-presidente Nicolás Maduro deixou o Presidente Chávez morrer”. Esse correio foi enviado no dia 5 de março, data em que foi anunciada a morte de Chávez, às 10:46 PM. As mensagens trocadas entre Cabello e várias outras pessoas podem ser vistas neste link, clicando no primeiro item da coluna ao lado esquerdo em azul, que indica haver um link.
Bem, disso muita gente suspeitava e tenho uma hipótese que pode não corresponder à realidade mas faz sentido. Maduro era o “ungido” dos Castro desde a década dos 80, conforme divulguei em edições anteriores, mas os Castro não podiam assumir o comando do país através de seu agente porque Chávez lhes servia bem, estava sempre com a carteira aberta e vinha tocando a “revolução socialista”. Quando lhe foi diagnosticado um câncer, Fidel insistiu para que ele fosse se tratar em Havana porque lá ele poderia ser eliminado sob o disfarce de uma “fatalidade”. O próprio Dr Rafael Marquina afirmou mais de uma vez que, se Chávez tivesse se tratado em outro país, muito provavelmente teria ficado curado. Mas não era isso que os Castro desejavam, pois estão velhos e sabem que lhes resta pouco tempo vida, daí a urgência em empossar Maduro, seu agente dócil às ordens superiores, fará TUDO o que o senhor rei mandar, como vem de fato fazendo.
Bem, mas para finalizar esta edição, deixo-os com um áudio onde o Diretor de Esportes do estado Zulia, Leonet Cabezas, anuncia a demissão de todos os funcionários que votaram em Capriles e ameaça até seus filhos. Neste áudio ele afirma que tem como saber em quem cada funcionário votou, mostrando um autoritarismo que marca bem este novo governo e que denuncia, sem saber, que o voto não é secreto.
  
E em seguida a este áudio, vários vídeos feitos por pessoas escondidas em seus apartamentos, nas ruas, nas praças, em vários estados do país e na capital. Há um vídeo em que Diosdado Cabello diz na AN que os deputados opositores não mais terão direito à palavras. Serão parlamentares de pedra, com a palavra cassada! Mais provas de que são os bandos chavistas e a própria Guarda Nacional que estão provocando desordem, agressões e mortes, só indo lá pessoalmente para verificar. Fiquem com Deus e até a próxima
19 de abril de 2013
Graça Salgueiro
 

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“O Sonho Britânico” falha. Mas poderia ser um livro muito pior se tivesse obtido sucesso (Reprodução/Getty)
Imigração no Reino Unido

Livro anti-imigração falha por ser muito bem pesquisado

David Goodhart não gosta de imigração. Ele acha que a Grã-Bretanha cometeu um enorme erro em ser tão aberta a estrangeiros ao longo dos anos. E ele tem muitos motivos.
Novos desembarques tornam a vida mais difícil para os trabalhadores nativos, afirma Goodhart no seu novo livro The British Dream: Successes and Failures of Post-War Immigration (O Sonho Britânico: Sucessos e Falhas na Imigração Pós-guerra, não-lançado no Brasil). Eles competem por serviços públicos. Seus guetos são uma afronta à decência comum. Tornando a Grã-Bretanha mais diversa, reduz o sentimento de fraternidade da população. Quando um país tem muitos imigrantes, seus residentes se voltam contra o estado de bem-estar social: as pessoas são menos propensas a contribuir financeiramente para um sistema que parece beneficiar as pessoas que não gostam deles. O fluxo de novos desembarques também torna difícil a integração de gerações anteriores de imigrantes.
Assim se desenvolve a argumentação de Goodhart. Sua posição não é original. Mas, por trás de seu argumento insistente, ocasionalmente destemperado, sobre os efeitos malignos da imigração, há algo mais interessante: uma análise sobre como os imigrantes se espalharam pela Grã-Bretanha, e sobre como eles mudaram o país. Esta parte do livro (quase as 250 páginas centrais) é bem imparcial, bem pesquisada e perspicaz – tanto que faz com que as conclusões de Goodhart pareçam bem contraditórias.
Goodhart tenta focar nos grupos de imigrantes que não se integraram muito, e em lugares nos quais a segregação é mais patente. Mas o seu olhar frequentemente vaga por lugares com histórias mais felizes e mais interessantes. Mesmo quando ele se concentra nos locais mais problemáticos é honesto o suficiente para admitir que as cidades estão se tornando menos segregadas.
A admissão honesta de evidências escorregadias repetidamente mina o seu argumento. O resultado é um livro que não atinge realmente o resultado ao qual se propõe. Goodhart não convence o leitor – às vezes ele nem mesmo parece convencer a si mesmo – de que a imigração é uma coisa assim tão terrível. "O Sonho Britânico" falha. Mas poderia ser um livro muito pior se tivesse obtido sucesso.
21 de abril de 2013
Fontes:The Economist - You're not Welcome