"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 5 de maio de 2013

CÍNICO, LULA, CHEFE DOS MENSALEIROS, AGORA DEFENDE POLÍTICA SEM PROMISCUIDADE

Em entrevista a livro sobre a era petista no poder, Lula reconhece os erros do partido e diz que a tarefa do PT é voltar a acreditar em valores banalizados pela disputa eleitoral


chamada.jpg

O ex-presidente Lula atravessou as turbulências políticas dos últimos oito meses esquivando-se das polêmicas. Antes, durante e depois do julgamento de cabeças coroadas do PT no STF, período em que tanto ele quanto o seu governo foram questionados ética, moralmente e por práticas de corrupção, Lula limitou-se às articulações políticas e a proferir discursos para plateias específicas ao lado da presidenta Dilma Rousseff. Na única vez em que falou com a imprensa, ele preferiu não discorrer sobre temas espinhosos envolvendo o PT e sua gestão.

O silêncio foi quebrado em entrevista de 20 páginas para o livro “Lula e Dilma, 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil”, da Editora Boitempo. Ao fazer um balanço sobre a era petista no poder, Lula referiu-se ao momento seguinte à denúncia do mensalão como o mais delicado do governo e voltou a reconhecer os erros cometidos pelo PT, reeditando postura adotada durante a eclosão do escândalo em 2005.

“O PT cometeu os mesmos desvios que criticava. O PT precisa voltar a acreditar em valores banalizados por conta da disputa eleitoral. É provar que é possível fazer política com seriedade. Pode fazer o jogo político, mas não precisa estabelecer uma relação promíscua para fazer política”, disse Lula.

Na avaliação do ex-presidente, o PT deveria “reagir” e empunhar a bandeira da reforma política para aprovar o financiamento público de campanha, caso contrário “a política vai virar mais pervertida do que já foi em qualquer outro momento”. “Às vezes eu tenho a impressão de que partido político é um negócio”, emendou.

01.jpgO PAÍS SOB LULA E DILMA
Livro com 384 páginas e tiragem de três mil exemplares traz 21 artigos
de especialistas com reflexão sobre o período pós- neoliberal a partir da ótica progressista

A entrevista foi concedida no dia 14 de fevereiro ao sociólogo Emir Sader, organizador da publicação, e ao professor e pesquisador argentino especialista em educação, Pablo Gentili, no Instituto Lula, em São Paulo. Ao passar em revista os anos do PT no poder, Lula também falou sobre a ansiedade e as dúvidas do início do mandato e das pressões que sofreu até de amigos próximos para não lançar Dilma candidata à sua sucessão. Demonstrou ainda seu ressentimento com a mídia, a quem acusou de se transformar num partido político de oposição, e lançou uma aposta: “o Brasil será a quinta economia do mundo em 2016”.

O livro de 384 páginas e tiragem de três mil exemplares será lançado no dia 13 de maio. A publicação reúne reflexões de especialistas em 21 áreas, entre eles Luiz Pinguelli Rosa, Luiz Gonzaga Belluzzo e José Luis Fiori, com o objetivo de aprofundar as discussões sobre os governos Lula e Dilma a partir da ótica progressista. Em artigos, os especialistas analisam as tensões em meio às quais se desenvolveu a política econômica do governo e discorrem sobre como foram implementadas as políticas sociais, seus sucessos e obstáculos até hoje não superados. Seguem trechos da entrevista de Lula:

Qual o balanço que o sr. faz dos anos de governo do PT e aliados?

Lula – Esses anos, se não foram os melhores, fazem parte do melhor período que este país viveu em muitos e muitos anos. Se formos analisar as carências que ainda existem, as necessidades vitais de um povo na maioria das vezes esquecido pelos governantes, vamos perceber que ainda falta muito a fazer para garantir a esse povo a total conquista da cidadania. Mas, se analisarmos o que foi feito, vamos perceber que outros países não conseguiram, em 30 anos, fazer o que nós conseguimos fazer em dez anos.
Qual foi o grande legado dos dez anos de seu governo?

Lula – (...) As pessoas sabem que este país tem governo, que este país tem política, que este país passou a ser tratado até às vezes como referência para muitas coisas que foram decididas no mundo. Esse é um legado que vai marcar esses dez anos. E eu tenho convicção de que, com a continuidade da companheira Dilma no governo, isso vai ser definitivamente consagrado. Parto do pressuposto de que chegaremos a 2016 como a quinta economia do mundo.
Quando começou o governo, o sr. devia ter uma ideia do que ele seria. O que mudou daquela ideia inicial, o que se realizou e o que não se realizou, e por quê?

Lula – Tínhamos um programa e parecia que ele não estava andando. (...) Eu lembro que o ministro Luiz Furlan, cada vez que tinha audiência, dizia: “Já estamos no governo há tantos dias, faltam só tantos dias para acabar e nós precisamos definir o que nós queremos que tenha acontecido no final do mandato. Qual é a fotografia que nós queremos.” E eu falava: “Furlan, a fotografia está sendo tirada” (...). Tem que ter paciência. Eu acho que fui o presidente que mais pronunciou a palavra “paciência”. Senão você fica louco.
04.jpg
Quando o sr. perdeu a paciência?

Lula – (...) No começo tinha muita ansiedade. “Será que nós vamos dar conta de fazer isso? Será que vai ser possível?”, eu me perguntava. Tivemos tropeços, é lógico. O ano de 2005 foi muito complicado. Quando saiu a denúncia (do mensalão) foi uma situação muito delicada. Se não tivéssemos cuidado, não iríamos discutir mais nada do futuro, só aquilo que a imprensa queria que a gente discutisse. Um dia, eu cheguei em casa e disse: “Marisa, a partir de hoje, se a gente quiser governar este país, a gente não vai ver televisão, a gente não vai ver revista, a gente não vai ler jornal.” Eu tinha uma equipe e criamos uma sala de situação, da qual participavam Dilma, Ciro (Gomes), Gilberto (Carvalho) e Márcio (Thomaz Bastos). E era muito engraçado: eu chegava ao Palácio e eles estavam todos nervosos. E eu estava tranquilo e falava: “Vocês estão vendo? Vocês leem jornal... Vocês estão nervosos por quê?”
Por que seu governo provocou tanta reação da elite e da mídia? A reação das oposições aos governos do PT não é desproporcional, tendo em vista os resultados que foram apresentados?

Lula –
(...) Eles achavam que nós não passaríamos de uma coisa pequenininha, bonita e radical. E nós não nascemos para sermos bonitos, nem radicais. Nós nascemos para ganhar o poder.
Mas vocês nasceram radicais...

Lula –
O PT era muito rígido, e foi essa rigidez que lhe permitiu chegar aonde chegou. (...) Eu era um indesejado que chegou lá. Sabe aquele cara que é convidado para uma festa, e o anfitrião nem tinha convidado direito? (...) E depois, tentaram usar o episódio do mensalão para acabar com o PT e, obviamente, acabar com o meu governo. Na época, tinha gente que dizia: “O PT morreu, o PT acabou.” Passaram-se seis anos e quem acabou foram eles. O DEM nem sei se existe mais. O PSDB está tentando ressuscitar o jovem Fernando Henrique Cardoso porque não criou lideranças.
A negociação é a pré-condição para a solidez do governo?

Lula –
(...) Nós aprendemos a construir as alianças necessárias. Se não for assim, a gente não governa (...). O meu medo é que se passe a menosprezar o exercício da democracia e se comece a aplicar a ditadura de um partido sobre os demais. Não gosto muito da palavra hegemonia, sabe. O exercício da hegemonia na política é muito ruim. Mesmo quando você tem numericamente a maioria, é importante que, humildemente, você exerça a democracia. É isso que consolida as instituições de um país e foi isso que eu exercitei durante o meu mandato, e que a Dilma está exercitando agora com muita competência.
Os tabus foram quebrados à direita e à esquerda? Como se sentia com isso?

Lula –
(...) Foram oito anos que permitiram que a gente, ao concluir, pudesse dar de presente ao Brasil a eleição da primeira mulher presidenta. Essa foi outra coisa muito difícil de fazer. Eu sei o que aguentei de amigos meus, amigos mesmo, não eram adversários, dizendo: “Lula, mas não dá. Ela não tem experiência, ela não é do ramo. Lula, pelo amor de Deus.” E eu: “Companheiros, é preciso surpreender a nação com uma novidade.”
O Brasil mudou nesses dez anos.
03.jpg
E o sr., também mudou?

Lula –
(...) Mudei porque eu aprendi muito, a vida me ensinou demais, mas continuo com os mesmos ideais. Só tem sentido governar se você conseguir fazer com que as pessoas mais necessitadas consigam evoluir de vida.
E o PT mudou?

Lula –
(...) Hoje, ou nós fazemos uma reforma política e mudamos a lógica da política, ou a política vai virar mais pervertida do que já foi em qualquer outro momento. É preciso que as pessoas compreendam que não só a gente deveria ter financiamento público de campanha, como deveria ser crime inafiançável ter dinheiro privado nas campanhas; que você precisa fazer o voto por lista, para que a briga se dê internamente no partido. Você pode fazer um modelo misto – um voto pode ser para a lista, o outro para o candidato. O que não dá é para continuar do jeito que está.
Por quê?

Lula –
Às vezes tenho a impressão de que partido político é um negócio, quando, na verdade, deveria ser um item extremamente importante para a sociedade.
O PT não mudou necessariamente para melhor?



Lula –

O PT mudou porque aprendeu a convivência democrática da diversidade; mas, em muitos momentos, o PT cometeu os mesmos desvios que criticava como coisas totalmente equivocadas nos outros partidos políticos. (...) Você começa a ser questionado quando vira alternativa de poder. Então, o PT precisa saber disso. O PT, quanto mais forte ele for, mais sério ele tem que ser. Eu não quero ter nenhum preconceito contra ninguém, mas acho que o PT precisa voltar a acreditar em valores que a gente acreditava e que foram banalizados por conta da disputa eleitoral. É o tipo de legado que a gente tem que deixar para nossos filhos, nossos netos.
É provar que é possível fazer política com seriedade. Você pode fazer o jogo político, pode fazer aliança política, pode fazer coalizão política, mas não precisa estabelecer uma relação promíscua para fazer política. O PT precisa voltar urgentemente a ter isso como uma tarefa dele.


 
05 de maio de 2013
Sérgio Pardellas - IstoE

NOTA AO PÉ DO TEXTO

Qual a importância desta entrevista, ainda que com perguntinhas previamente estabelecidas para o entrevistado, que poderá respondê-las comodamente, como numa historinha em quadrinhos? Mas nem assim fica oculto o objetivo primordial: a redenção da corrupção.
Creio que equivale a demonstração acabada, não apenas do cinismo, mas da inesgotável ambição de poder. Inerente ao seu jogo político, a mentira e a desfaçatez que se engendra a cada palavra, a cada afirmação, é transparente. Com sua perversa intuição, já anteve os ares mudancistas que se anunciam, com o fracasso anunciado, em que nem mais a demagogia e o carisma de "homem do povo", com sua fala propositadamente acentuada na péssima gramática - um instrumento para engambelar a ingenuidade popular - anuncia a redenção da corrupção que dominou seus dois mandatos, com novas promessas de "seriedade", o que equivale a admissão de que governou praticando a esbórnia irresponsável, mantendo a cara de redentor da pobreza com a "bolsa família", único trunfo, entre tantos fracassos, que continua a enganar a miséria do povo. Um trunfo relativo, se analisado seriamente.
"(...) o PT precisa voltar a acreditar em valores que a gente acreditava (...)."
Que valores foram esses? O radicalismo com que negou e combateu tantos projetos - inclusive o plano real - em nome de uma república comunosindicalista? O mentiroso projeto ético que enganou toda uma sociedade?
E novamente acena com a bandeira da ética e da seriedade, numa evidente confissão de que não vale mais o passado dos dois mandatos, que inaugurou o maior escândalo que este país viveu em sua história republicana. E que mesmo diante deste passado, ainda insiste em semear a discórdia entre os poderes Legislativo e Judiciário, para continuar com o avanço destrutivo da democracia e da liberdade, alimentando os tentáculos do Forum de São Paulo.
Tenha paciência, senhor Lula. Reconheça que o seu tempo começa a ser reconhecido como um dos maiores desastres políticos do país.
Reconheça que o único projeto do seu partido é um projeto que não diz respeito as instituições democráticas. O único projeto do seu partido é o projeto de poder, o projeto da dominação, o projeto de um neobolivarismo ensandecido. A eterna utopia de um marxismo de hospício.
O país não se curvará ao seu sonho autoritário. Que a sua gangue, brevemente bem instalada nos presídios, reconheça que o Brasil não cairá novamente no engodo do lulopetismo. Não venha histórias da carochinha, contadas no pretencioso livreco "de que a verdade está aqui."
Página virada. Terminou o teatro. C'est fini.
m.americo

PRISÕES POR CRIME CONTRA GESTÃO PÚBLICA CRESCEM 133% NO BRASIL EM QUATRO ANOS

Dados do Ministério da Justiça apontam para o crescimento de 133%, em quatro anos, do número de detentos por delitos como corrupção ativa e passiva e peculato

O número de detentos no sistema penitenciário brasileiro por crimes contra a administração pública, como corrupção e peculato, cresceu 133% entre dezembro de 2008 e dezembro de 2012 - sete vezes mais que o aumento da população carcerária total. Atualmente, 2.703 pessoas cumprem pena no Brasil por esses motivos, entre funcionários públicos e particulares sem ligação com o governo. Ainda assim, ocupam menos de 1% das celas do País.

Os dados são do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), órgão do Ministério da Justiça que compila dados prisionais das 27 unidades federativas. Entre todos os crimes contra a administração pública, o que registrou maior crescimento foi o peculato - cometido por servidor que se apropria de bem público no exercício do cargo. O aumento de prisões por esse crime foi de 220% desde 2008.

Segundo o Depen, os números levam em conta apenas condenações, e não prisões temporárias. A série histórica começa em 2005, mas foi só em 2008 que os registros começaram a ser informados com detalhes pelo órgão. Antes disso, o número só havia ultrapassado a barreira dos 2 mil presos em 2007.

No ano seguinte, as prisões desabaram, mas voltaram a crescer constantemente até chegar aos atuais valores.

"É nítido que houve um aumento no número de condenações por esse tipo de crime", afirma o professor de Direito Público da Universidade de São Paulo (USP) Floriano de Azevedo Marques. Para ele, houve um aprimoramento nas técnicas de investigação e uma mudança na postura do Judiciário. "Você tem identificado mais as condutas criminosas contra a administração pública. Além disso, o Judiciário passou a ser mais rigoroso contra esses delitos."

Cerco. Dados de outros órgãos federais reforçam a tese de aumento nas punições de funcionários públicos. A Controladoria-Geral da União (CGU) expulsou 564 servidores acusados de irregularidades em 2011, mais que o dobro que no início da década passada. E as prisões de servidores feitas pela Polícia Federal atingiram o auge entre 2006 e 2008, quando quase 400 pessoas por ano foram presas nas operações do órgão.

"Vários desses processos podem estar chegando agora aos tribunais superiores e rendendo condenações. O próprio Judiciário está se cobrando para que os processos não fiquem estacionados sem julgamento", afirma a coordenadora do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Corrupção da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Rita de Cássia Biason.

Entre as mudanças apontadas por especialistas como responsáveis pelo aumento nas punições, estão a criação de novos órgãos de controle, como a própria CGU (nascida em 2001), além de aprovação de leis mais rígidas, como a da Ficha Limpa e a da compra de votos. Além disso, há novas técnicas para descobrir crimes, como o monitoramento do patrimônio dos servidores para detectar enriquecimentos incompatíveis com a renda, adotado na cidade de São Paulo.

Para Rita, porém, o mais importante foi a criação do Conselho Nacional de Justiça, em 2004. "Uma das principais metas do CNJ determina que todos os processos de crimes contra a administração pública distribuídos antes de 2011 sejam julgados até o fim deste ano", diz. Em 2012, metade das 27 mil ações que esperavam decisões foram julgadas. "A tendência é que o número de presos aumente."

Se há avanços, também existem desafios para combater a corrupção endêmica no Brasil. "Ainda temos muito o que fazer na área das licitações, no financiamento das campanhas e no funcionamento de órgãos de controle, principalmente os Tribunais de Contas", afirma ela.

05 de maio de 2013
José Roberto de Toledo e Rodrigo Burgarelli - O Estado de S.Paulo

A CRUELDADE POR TRÁS DE CRIMES QUE ASSUSTAM O PAÍS

A barbárie empregada por bandidos contra vítimas indefesas tem chocado até policiais experientes. E as leis precisam ser aplicadas de forma mais firme

 
Consultório onde a dentista Cinthya Magaly Moutinho morreu queimada, em São Bernardo do Campo
O ato bárbaro contra a dentista Cinthya Magaly Moutinho ficou marcado no seu consultório (Daniel Sobral/Futura Press)

Nos últimos 30 anos, a taxa de homicídios no Brasil cresceu 124%.

Nesse período, mais de um milhão de pessoas foram assassinadas, de acordo com dados do Mapa da Violência, do Instituto Sangari.
São crimes que ocorrem todos os dias, das mais variadas formas, e que atingem 26 pessoas a cada 100.000 habitantes atualmente. Porém, até para um país com dimensões continentais e acostumado a taxas alarmantes de criminalidade, alguns casos têm efeito estarrecedor. Em comum, essas histórias têm um mesmo componente: a crueldade.

Foi o que ocorreu na semana passada com a dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza, de 47 anos, cuja morte assustou a sociedade pela barbárie.
Assaltada em sua clínica, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, ela foi queimada viva por criminosos que invadiram o local.
Segundo relato de uma testemunha, a dentista implorou insistentemente - em vão - para que os monstros não ateassem fogo contra o seu corpo, encharcado de álcool. O motivo da crueldade: ela só tinha 30 reais em sua conta bancária – dinheiro que frustrou os assaltantes. Mas o que leva um assaltante a atear fogo em uma vítima indefesa?

“A sociedade fica angustiada diante de crimes assim, exige uma resposta, quer entender, mas não há uma resposta simples. É difícil encarar que exige gente boa e má”, diz o psiquiatra Daniel Martins de Barros, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. “Muitos desses criminosos que não parecem dar valor à vida alheia também não valorizam a própria vida. A criminalidade criou uma cultura ética que não valoriza a vida em si. Para eles, não é um bem valioso”, afirma Martins.

O britânico Simon Baron-Cohen, professor de Psicopatologia do Desenvolvimento da Universidade de Cambridge e autor de um livro sobre crueldade (The Science of Evil: On Empathy and The Origins of Cruelty), prefere substituir a palavra “mal” por “erosão da empatia”: a falta de compreensão dos sinais emocionais de outra pessoa ou a incapacidade colocar-se no lugar do outro.
Por esse método, os criminosos que queimaram a dentista não a enxergaram como um ser humano, mas como algo que poderia lhes fornecer dinheiro.

No mês passado, três homens estupraram em série uma turista americana durante seis horas dentro de uma van no Rio de Janeiro.
Os depoimentos da vítima e de um menor que acompanhava o grupo descrevem que os acusados riram, debocharam e ofenderam a vítima enquanto ela era abusada.
Até mesmo os investigadores ficaram assombrados. Os criminosos ignoraram o apelo de vítimas indefesas e transformaram o que parecia ser um assalto comum – embora essa situação por si só seja grave – em um crime de sadismo com proporções aterradoras.

"Em grupo, o comportamento é diferente, a pessoa tende a ser menos ela mesmo e passa a agir por outra lógica. E normalmente esse ato é resultado de uma escalada de violência", diz Daniel Martins, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

O especialista em segurança pública Guracy Mingardi, ligado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que esse caraterística da crueldade surge como uma consequência da banalização do crime em geral.

“Nenhuma sociedade da História conseguiu atingir um padrão zero de criminalidade. Não existe um controle específico para casos assim, o combate é sempre o mesmo, seja roubo ou estupro. O problema é que, com a sensação de impunidade, de que não vão ser pegos, os criminosos se sentem mais à vontade para cometer ainda mais crimes na sua área. Nisso, alguns se sentem à vontade para cometer barbaridades”, afirma Guracy Mingardi.

Reprodução

"Os quatro estágios da crueldade"
"Os quatro estágios da crueldade", de William Hogarth

Como na série de gravuras do século XVIII “Os quatro estágios da crueldade”, do pintor inglês William Hogarth, os criminosos envolvidos nesses casos parecem, de acordo com o resultado das investigações, terem galgado uma escalada de brutalidade até cometerem um ato extremo.
Em suas gravuras, Hogarth apresentava um personagem ficcional, chamado Tom Nero, que começava torturando animais, entre eles um gato e um cachorro, até finalmente matar uma pessoa.
A última gravura, de tom moralista, mostra que o castigo viria: Nero é enforcado e depois dissecado por um grupo de cientistas e cirurgiões interessados em estudá-lo.

Durante as investigações em São Bernardo do Campo, os policiais descobriram que ameaças de atear fogo nas vítimas já foram relatadas em assaltos anteriores do bando. A exemplo do grupo que agia na região metropolitana de São Paulo, o trio de estupradores do Rio é suspeito de ter estuprado pelo menos outras quatro mulheres antes da turista americana.

Embora a característica dos crimes cometidos nas últimas semanas passe a impressão de que os criminosos estão mais cruéis do que nunca, o Brasil já vivenciou outras ondas semelhantes.
Em 2007, um ônibus foi incendiado com 28 passageiros – oito morreram – no Rio. Em seguida, o menino João Hélio, de seis anos, foi morto ao ser arrastado por quilômetros, preso pelo cinto de segurança do carro de sua mãe que acabara de ser roubado - ela não conseguiu retirar a criança do veículo, mas os bandidos arrancaram.

Leis - As leis brasileiras preveem sanções para situações de crueldade. Foi o caso da manicure Suzana do Carmo de Oliveira Figueiredo, de 22 anos, acusada de sequestrar e depois asfixiar um menino de seis anos em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro.
O crime ocorreu em março. Ao longo das investigações, a polícia apontou diferentes razões para o crime, como vingança – contra o pai ou a mãe da criança – ou até mesmo a intenção de pedir resgate pela criança.

Pelo crime, Suzana Figueiredo foi indiciada por homicídio doloso (com intenção de matar) triplamente qualificado.
Nos qualificadores, apareceram o motivo torpe, o emprego de meio cruel e a impossibilidade da defesa da vítima. A Justiça aceitou a tipificação dos crimes. Para qualificar o motivo torpe, a Justiça entendeu que ela foi movida por ódio e vingança.
"Torpe é aquele motivo abjeto, repugnante e aversão na sociedade", diz o professor de direito penal da Universidade de São Paulo Alamiro Velludo Salvador Netto. A Justiça lista alguns exemplos além de ódio e vingança, entre eles os casos de maridos que matam suas esposas porque elas negaram a reconciliação.

Já o meio cruel é definido pelo emprego de métodos que aumentem o sofrimento da vítima ou revelem brutalidade fora do comum. Nesse grupo, enquadram-se asfixia, tortura e o emprego de fogo – como no caso da dentista.
Por causa desse artigo, a pena para um crime de homicídio,pode ser substancialmente aumentada. Uma pena prevista de seis a vinte anos pode subir para doze a 30 anos em casos assim. Apesar de ser considerada adequada por criminalistas ouvidos pelo site de VEJA, as penas, parecem não intimidar os criminosos.

No caso do grupo que queimou e matou a dentista Cinthya, o crime foi tipificado como latrocínio (roubo seguido de morte), que prevê de 20 a 30 anos de prisão e é considerado hediondo – a progressão, que permite que o preso deixe a prisão antes do fim da pena, é mais rígida para os condenados por esse crime.
Essa modalidade não engloba as qualificadoras, já que sua pena é considerada alta e o crime suficientemente grave, mas o juiz pode levar em conta o meio com que a vítima foi morta e seu sofrimento no momento da fixação da pena.


Crimes que assustaram o país

Caso Yoki: ciúmes e morte



Na noite do dia 20 de maio, o empresário Marcos Kitano Matsunaga, de 42 anos, foi vítima de um crime que chamou a atenção de todo o Brasil.
Diretor executivo da Yoki, uma gigante do setor de alimentos, ele foi morto e esquartejado pela própria mulher, a bacharel em direto Elize Kitano Matsunaga, 38, no apartamento onde moravam em São Paulo.

A viúva confessou o assassinato e disse que vinha sendo traída, agredida e humilhada por Marcos. O casal se conheceu quando Elize trabalhava como garota de programa. Juntos, tiveram aulas de tiro e mantinham em casa um arsenal de armas.
Com uma delas Elize deu um tiro em Marcos e depois o esquartejou. Colocou o corpo do marido em três malas e as espalhou pela cidade.
Elize, que afirma ter agido sozinha, está presa. Em janeiro, a Justiça decide se ela vai a júri popular pelo crime.


05 de maio de 2013
Jean-Philip Struck - Veja

NAS FAVELAS RURAIS DO MST, "SEM TERRAS" VIRAM "SEM FUTURO"


O ex-militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Ilmo Ivo Braun, um catarinense de 64 anos, mal consegue caminhar. O pé inchado não o deixa andar pela lavoura de milho, plantada em seu pequeno lote de seis hectares, recebido a título de reforma agrária. Ele mora sozinho, sem filhos, na casinha sem reboco, construída com os R$ 15 mil recebidos do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), há 11 anos.
Esse foi o único subsídio recebido desde que ele obteve a terra, depois de passar um ano acampado numa barraca de lona à espera do tão sonhado quinhão de terras. Sem apoio para plantar, Ilmo arrenda o lote para grandes fazendeiros da região. Dinheiro que complementa os R$ 678 que ganha de aposentadoria. O arrendamento é ilegal. Mas foi a alternativa que encontrou para não cometer o mesmo crime de vizinhos, que aceitaram a tentadora oferta de R$ 150 mil para vender a propriedade.
Veja também

05 de maio de 2013
in coroneLeaks

OPOSIÇÃO QUER AFASTAMENTO DE MINISTRO APÓS TENTATIVA DE BLINDAGEM A ROSEMARY

PSDB e Mobilização Democrática (MD) vão exigir explicações do ministro da Secretaria-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, sobre ação paralela para sabotar investigação contra

O petista Gilberto Carvalho, integrante dos governos Lula e Dilma
O petista Gilberto Carvalho, integrante dos governos Lula e Dilma (Beto Barata/Agência Estado)

Os partidos oposicionistas PSDB e Mobilização Democrática (MD) anunciaram neste sábado que vão exigir na próxima semana explicações formais do ministro da Secretaria-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e da Casa Civil sobre a instauração de um processo paralelo para investigar a ex-chefe de gabinete do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, revelado por VEJA desta semana. O líder tucano na Câmara dos Deputados, Carlos Sampaio (PSDB-SP), chegou a defender o afastamento do ministro após a tentativa de blindagem da ex-servidora.

Outros destaques de VEJA desta semana

Como mostrou a reportagem de VEJA, sob o pretexto de “acompanhar e orientar” as investigações sobre as traficâncias de Rosemary, Carvalho articulou para inviabilizar a apuração que estava sendo feita contra a ex-funcionária. Na verdade, a apuração paralela coordenada pela pasta de Carvalho serviria depois como munição para que a defesa de Rosemary Noronha questionasse a competência da Comissão de Sindicância da Casa Civil e tentasse anular no futuro os trabalhos do colegiado.

A partir de segunda-feira, PSDB e MD vão protocolar na Câmara dos Deputados requerimentos de convocação do ministro Gilberto Carvalho. Os oposicionistas pretendem também acionar o Ministério Público para que seja investigado se o ministro Gilberto Carvalho cometeu o crime de improbidade administrativa. “É inadmissível que a presidente Dilma mantenha em seu governo um ministro que atua para atrapalhar a apuração em favor de uma ex-servidora denunciada pela Polícia Federal por tráfico de influência”, afirmou o tucano Carlos Sampaio neste sábado.

Diante das novas revelações de VEJA, o líder da Mobilização Democrática na Câmara, deputado Rubens Bueno (MD-PR), se comprometeu a intensificar as articulações para a instalação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) sobre as atividades criminosas de Rosemary e dos demais integrantes do governo pegos na operação Porto Seguro, da Polícia Federal. São necessárias 171 assinaturas para se criar o grupo de investigação.

“Para provar que não está protegendo uma indiciada pela operação Porto Seguro, Dilma precisa ordenar a seus aliados que assinem a CPI”, disse Bueno.


05 de maio de 2013
Laryssa Borges, de Brasília

UMA PROPOSTA PARA A MAIORIDADE PENAL

 

Vinte e seis estados americanos têm leis conhecidas pelo nome de “Três Chances e Você Está Fora” (“Three Strikes and You Are Out”).
De uma maneira geral, funcionam assim: o delinquente tem direito a dois crimes, quase sempre pequenos. No terceiro, vai para a cadeia com penas que variam de 25 anos de prisão a uma cana perpétua.

Se o primeiro crime valeu dez anos, a sociedade não espera pelo segundo. O sistema vale para criminosos que, na dosimetria judiciária, pegariam dois anos no primeiro, mais dois no segundo e, eventualmente, seis meses no terceiro.

Essa versatilidade poderia ser usada no Brasil para quebrar o cadeado em que está presa a sociedade na questão da maioridade penal. Uma pesquisa do Datafolha mostrou que 93% dos paulistanos defendem a redução da maioridade para 16 anos. De outro lado, alguns dos melhores juristas do país condenam a mudança.


É verdade que a população reage emocionalmente depois de crimes chocantes, como o do jovem que, três dias antes de completar 18 anos, matou um estudante, mas essa percentagem nunca ficou abaixo de 80%.

Seria o caso de se criar o mecanismo da “segunda chance”. A maioridade penal continuaria nos 18 anos. No primeiro crime, o menor seria tratado como menor. No segundo, receberia a pena dos adultos. Considerando-se que raramente os menores envolvidos em crimes medonhos são estreantes, os casos de moleza seriam poucos.

O jovem que matou o estudante Victor Hugo Dappmann depois de tomar-lhe o celular já tinha passado pela Fundação Casa por roubo. O menor que queimou viva a dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza também era freguês da polícia.
Estaria pronto para a maioridade penal.

05 de maio de 2013
Elio Gaspari, O Globo

O PODER EM TEMPO DE FACEBOOK


Eu já estava me preparando para apelar aos brasileiros e às brasileiras a fim de assinarmos um texto enérgico, exigindo ação do Conselho de Segurança na Ásia, punição exemplar para o terrorismo islâmico e até um armistício na guerra dos poderes entre nós.

Vendo e ouvindo o noticiário da semana que passou, entretanto, tive a impressão (ou a ilusão) de que o risco da guerra atômica que a Coreia do Norte iria desencadear está afastado. O atentado em Boston foi coisa de americano naturalizado e não de terrorista da al Qaeda. E o choque inevitável entre o Congresso e o STF terminou em abraços.

Dei marcha atrás. Pude ler calmamente dois livros interessantes. O primeiro foi o de Manuel Castells “Redes de indignación y esperanza”. Com precisão, vivacidade e enorme quantidade de informações, Castells passa em revista o que aconteceu na Islândia, em Túnis, no Egito, na Espanha (o movimento dos “Indignados”) e nos Estados Unidos, onde o movimento pela ocupação de espaços públicos (“Occupy”) teve certo vulto.

Por trás desses protestos está o cidadão comum informado e conectado pelas redes sociais e por toda sorte de modernas tecnologias de informação. Havendo um clima psicossocial que as leve à ação e algum fator desencadeante, as pessoas podem sair do isolamento para se manifestar.

Dependendo do fator desencadeante (desemprego, autocracia e imolação de alguém como forma de protesto, em certos casos, ou perda de emprego e de esperança, noutros), as pessoas se mobilizam, juntam-se em grupos ou multidões e contestam o poder.
Como e por que o fazem? Para que as ações ocorram, não bastam as tecnologias. É preciso uma chispa de indignação a partir de um ato concreto de alguém (ou de alguns).

Mais importante do que a origem do protesto, entretanto, é a forma como ele se manifesta e se propaga. A imagem é central para permitir um contágio rápido, por sites como o YouTube ou Facebook.
A chispa, entretanto, só ateia fogo e produz reações quando se junta profunda desconfiança das instituições políticas com deterioração das condições materiais de vida.

A isso se soma frequentemente o sentimento de injustiça (com a desigualdade social, por exemplo, ou com a corrupção diante do descaso dos que mandam), que provoca um sentimento de ira, de indignação, geralmente proveniente de uma situação de medo que dá lugar a seu oposto, à ousadia. Passa-se, assim, do medo à esperança.

Esses protestos têm em comum dispensar líderes, manifestar-se pela ocupação de um espaço público e enfatizar a unidade do movimento e a autonomia dos atores. Costumam ser autorreflexivos e pouco programáticos. “Portanto são movimentos sociais com o objetivo de mudar os valores da sociedade”; podem ter consequências eleitorais, mas não pretendem “mudar o Estado, nem se apoderar dele”.

Eles propõem uma nova utopia, a da autonomia das pessoas diante das instituições. Nem por isso, entretanto, diz Castells, são opostos à democracia representativa. Apenas, denunciam suas práticas tal como se dão hoje, com perda de legitimidade.
A influência desses movimentos sobre a política é limitada (depende da abertura das instituições às negociações com os movimentos), mas eles expressam a “negação à legitimidade da classe política e a denúncia de sua submissão às elites financeiras.

O outro livro que li, “The end of power”, escrito por Moisés Naim, também trata do poder contemporâneo e das formas de sua contestação. Naim ressalta o gigantismo do poder — o big state, as grandes organizações econômicas internacionais etc. — e, simultaneamente, mostra que surgiram formas de micropoder capazes de minar as estruturas tradicionais de poder, as grandes organizações do Estado (Congressos, partidos, forças armadas).
Uns vetam os outros, e, ademais, a autonomia dos indivíduos e sua constante busca por espaço enfraquecem a capacidade do poder de se efetivar.

Assim como Castells, Naim reconhece a importância dos movimentos contestatórios contemporâneos e sabe que a perda de legitimidade dos que mandam está na origem das revoltas contra as democracias representativas. Com uma diferença: Naim aposta no reencontro entre o protesto explosivo — “apolítico”, no sentido de ser indiferente à reconstrução do Estado e das instituições — com a renovação dos partidos e das instituições.
Não perdeu a esperança no restabelecimento de elos entre a autonomia do indivíduo e a representação política nas instituições, inclusive nos partidos.

Castells tampouco menospreza o diálogo dos movimentos sociais com os líderes e movimentos institucionais reformistas. Contudo, tem maiores esperanças na mudança dos valores da sociedade pela pressão dos movimentos do que em uma mudança institucional forçada por eles.
A mudança cultural torna-se, para Castells, condição para as mudanças políticas, enquanto Naim, em uma abordagem mais afim com a tradição clássica, crê na possibilidade da relegitimação das instituições políticas.

As consequências dessas análises para o nosso dia a dia são óbvias. Enquanto houver uma condição material razoável e um fluxo de informações que reflita mais o ânimo dos “grandes atores” (os Estados, os partidos, a briga institucional), será ilusório esperar que as pessoas passem da indignação (ou mesmo que haja tal sentimento) para a esperança.

Seria cegueira, contudo, imaginar que a roda da História parou e que nos faltará sempre indignação. Se os ganhos sociais propiciados pela estabilização forem erodidos pela inflação (ainda estamos distantes disso), o panorama pode mudar. Isso não ocorrerá sem um gesto político de recusa do jogo habitual de enganos.

Melhor do que esperar por ele, contudo, será criar condições para evitar que os erros se repitam e diminuam mais ainda a legitimidade do poder.

05 de maio de 2013
Fernando Henrique Cardoso é ex-presidente da República.

FRASE DO DIA


"Eu não quero ter nenhum preconceito contra ninguém, mas eu acho que o PT precisa voltar a acreditar em valores que a gente acreditava e que foram banalizados por conta da disputa eleitoral. E provar que é possível fazer política com seriedade."


05 de maio de 2013
Lula

NOTA AO PÉ DO TEXTO

Não é lindo?  Acho lindo ver um ex-presidente arrependido, confessando, depois que ficou muito rico, milhas e milhas de Garanhuns, que precisa voltar a acreditar nos "valores" em que cria antes, quando enganava os metalúrgicos do ABC, vendendo-lhes uma república sindicalista em que todos seriam muito felizes e ricos, trocando de lugar com a 'burguesia'.
Hoje, declarando uma nova mentirinha, de que a corrupção deslavada que grassou e grassa nessa desditada 'res pública', muito mais para 'res privada' - vale a ambiguidade da palavra - foi apenas fruto da disputa eleitoral. Não sei se o Fernandinho Beiramar concordaria com tal afirmação.
Uma coisa certamente podemos concluir, por suas próprias palavras, que foram  dois mandatos em que não se praticou política com seriedade. Até aí é desculpável, considerando-se que o compromisso com a elite partidária do petismo, era enriquecer... E claro, com as demais elites: banqueiros, empresários e outras personas...
Imagino que hoje, lá no assento em que reside, o General Golbery, a sombra parda da ditadura, criador da macabra figura que anarquizou de vez com esse Brasil, esteja rindo à socapa de si mesmo, por não ter jamais imaginado que tal figura enganaria uma nação inteira. Como diz o velho ditado latino, "asinus asinum fricat" - 'um asno coça o outro'.
m.americo

CINEMINHA DE FIM DE SEMANA... PODE RIR... RIA MUITO, RIA À VONTADE! E RIA MAIS, SE VOCÊ TAMBÉM PERTENCE A NOVA CLASSE "C"...

UMA IMAGEM PARA A POSTERIDADE...



05 de maio de 2013

DE QUE TEM MEDO, SENHORA?




 
O destino, comparsa de primeira linha, escancarou-lhe as portas da indecorosa política dos conchavos. Pôs-lhe o poder nas mãos; entregou-lhe a chave do cofre para aliciamento dos que agem na sorrateira sombra, tão a gosto da senhora. Fez-lhe presente de uma caneta viciada em medidas provisórias, mas, apesar de favorecê-la com tantas vantagens, sensatamente recusou-se em lhe conceder a autoridade do cargo; em dotá-la de inteligência; em fazê-la íntima das palavras, em outorgar-lhe o dom do raciocínio. Isso também seria privilégio demais, parcialidade excessiva, tal como ocorre na Comissão Unilateral da Verdade.

Ciente de sua falta de escrúpulos com o dinheiro público, esse destino, seu aliado, levou-a a hospedar-se nos hotéis mais caros das cidades por onde vagueia em turismo oficial. Pôs um caminhão-baú à disposição, para resguardar os caros presentes, mimos que concedeu a si mesma. Um verdadeiro consumo de luxo!

Proveu-lhe essas facilidades esse amigo destino, por saber que a fanática esquerdista, no íntimo, permanece uma provinciana deslumbrada com o primeiro mundo, tal uma“burguesa alienada”, como em outros tempos, era desdenhada pela senhora e seus parceiros a mulher de classe média, que virava as costas à ladainha vermelha. Época de vacas magras, quando ainda não se hospedava em suítes presidenciais de muitos reais, mas se amontoava em ‘células’ ou‘aparelhos’. Lembra-se? Uma conquista de canguru, já que o salto do antes para o depois foi espetacular.

Destemida, outrora, pôs as mãos no recheio de um cofre conquistado à força com seus companheiros de luta armada. Agora, que tem o dinheiro do contribuinte à disposição, está com medo de quê, senhora? Quem tem setenta e cinco por cento de aprovação, apesar de as consultas nunca terem chegado a mim, nem aos amigos e conhecidos, não pode ter medo de triviais solenidades do calendário militar. Ou pode?

Por que temer rotineiras comemorações militares, senhora? Solenidades sempre as mesmas: calcanhares batendo, continências fazendo, bandeira hasteando, banda tocando, hino cantando, nomes das vítimas que seu bando abateu, relembrando, tudo bobagem, tudo pura vibração de militar. Medo de quê, senhora?

Medo de que o ”ritual da solene repetição” possa transformar nostalgia em ação e dar o que fazer, não é verdade? Lembrar as datas em que a senhora e os seus quixotes foram derrotados, realmente não é coisa que se faça a uma gabaritada chefe de estado. Chefe de estado! Que sina a do Brasil!

Segundo Mircea Eliade (“O Mito do Eterno Retorno”), as comemorações de qualquer data significam um retorno à ação primordial do fato. A senhora em questão não sabe nada disso, mas, inconscientemente, tem um grande medo do ritual das Forças.

No entanto, senhora, as comemorações ritualísticas permaneceram, sim, independentes de sua irada vontade. Quantos artigos sobre esta data cívica, detestável para a senhora e suafamiglia, foram espalhados pela via da democrática internet?

Isto também é comemoração, e das boas! Reduzido é o número de presentes nas solenidades, mas quantas e quantas pessoas não leram os artigos comemorativos que correram céleres pelo extraordinário espaço virtual?

Será que terá ímpetos ditatoriais contra essa participação cívica em que se restaura pela lembrança o momento em que o Brasil pôs um basta! na anarquia dos desequilibrados predecessores seus?

Em homenagem ao início de um tempo em que o Brasil largamente cresceu e a palavra“mensalão” não existia nos dicionários, desconhecida que era pela sociedade, então alfabetizada e inteligente, e não compactuava, como hoje, com a sangria nos cofres da Nação. Será?

Se isso acontecer, senhora, se a sua Mont Blanc funcionar decretando a mordaça nos internautas independentes, incólumes à sua porca ideologia, aí, seu desgoverno, já cambaleante, em decomposição, pela sua total incompetência, aí, sim, a“democracia socialista” de fachada, mostrará a sua real cara, tão feia quanto a sua, quanto a dos seus comparsas que infestam o congresso e os ministérios desta Nação, corroída, dia a dia, pelos vorazes cupins petistas.

Muito boa essa nova modalidade de comemoração, quando os artigos, como Ordens do Dia, correram por esse Brasil afora, registrando a fidelidade aos antigos e vitoriosos chefes; louvando a liberdade que defenderam e da qual ainda usufruímos; a simpatia dos civis à causa democrática que uniu, há quarenta e nove anos, a sociedade e os militares.

Excelente esse espaço indefinível por onde se espalha até o mais longínquo rincão do país, o conhecimento de sua arbitrária medida de amputar as Forças que continuam firmes, apesar de a senhora, que está presidente, manifestar o seu despeito em relação a elas.

No entanto, como sacerdotisa do caos, costuma ser inquilina das instalações militares, locais onde descansa os costados e os de sua radiosa família, no recesso natalino. A disciplina, a organização, a higiene ambiental, a ética, embora não estando habituada a elas, são bem-vindas, não é senhora? É o único momento em que se livra dos companheiros de cambalachos.

Até o próximo dia 31 de Março — O Cinquentenário!

05 de maio de 2013
Aileda de Mattos Oliveira é Doutora em Língua Portuguesa, membro da Academia Brasileira de Defesa.

DISCURSO DE UM SUPER PRESIDENTE?


 

O Super Barbosa volta a provocar faniquitos na petralhada. Não porque o presidente do STF tenha advertido que os embargos de declaração não podem reverter as condenações no Mensalão. O medinho dos petralhas é que a versão pós-moderna e mais light do “Homem da Capa Preta”, sem a metralhadora Lurdinha a tiracolo, acabe saindo candidato a Presidente da República contra Dilma Rousseff.

Barbosa já cansou de avisar que não tem pretensões políticas. Mas a petralhada, sempre a beira de um ataque de nervos com ele, teme que tal aviso seja uma mera pretensão. O pavor petralha aumentou ainda mais ontem, depois do discurso anti-político e anti-corrupção do Super Barbosa, em um congresso da Unesco sobre liberdade de imprensa, em São José, na Costa Rica.

Inegavelmente, mesmo que não tenha tal intenção, o discurso de Joaquim Barbosa é o de um super-candidato a Presidente. Só um outro herói em nosso imaginário popular, o Coronel Nascimento (em Tropa de Elite II), conseguiria tocar em assuntos que a maioria da opinião pública deseja escutar e aplaudir.

O Super Barbosa criticou o tratamento privilegiado que a Justiça dá aos políticos corruptos. Também reclamou do excesso de recursos judiciais para quem desrespeita a lei. Condenou a falta de transparência no processo judicial brasileiro. E constatou que o Brasil é um País que pune muito os pobres, os negros e pessoas sem conexões. Foi uma retórica justa e perfeita para um candidato a lutar contra a petralhada na eleição de 2014.

O jornal O Globo pinçou algumas das contundentes pregações do Super Barbosa. A maioria delas faz parte do senso comum daquilo que o cidadão-eleitor-contribuinte deseja ouvir. Vale repeti-las aqui para uma análise posterior: Abramos aspas para o Super Barbosa:

“O Brasil, como a maior parte da América Latina, tem problemas culturais para resolver que impactam no Judiciário. Por exemplo, a concepção equivocada de igualdade. As pessoas são tratadas de forma diferente de acordo com seu status, sua cor de pele e o dinheiro que têm. Tudo isso tem um papel enorme no sistema judicial e, especialmente, na impunidade”.

“Um dos principais problemas que vejo no Brasil é a falta de transparência no processo judicial, algo anti ético e forte que existe em todo o sistema. Uma pessoa poderosa pode contratar um advogado poderoso, com conexões no Judiciário. Ele pode ter contatos com juízes sem nenhum controle do Ministério Público ou da sociedade. Depois vêm as decisões surpreendentes: uma pessoa acusada de cometer um crime é deixada em liberdade. E não é deixada em liberdade por argumentos legais, mais por essa falta de transparência das comunicações”.

“Há uma razão para explicar a impunidade no nosso país. No Brasil, tem algo chamado foro privilegiado. Se um prefeito é acusado de um crime, ele não terá o caso dele julgado por um juiz comum. O caso dele será decidido por um tribunal de apelação. Se o acusado é um membro do Congresso, o caso será decidido pela Suprema Corte, que tem 60 mil casos aguardando julgamento, casos que afetam a sociedade, e não tem tempo algum para decidir processos criminais. Um caso envolvendo duas ou três pessoas não é concluído no Brasil em menos de cinco, sete, às vezes dez anos, dependendo do status social da pessoa”.

Barbosa apenas disse o que a maioria anti-petralha deseja ouvir. Daí cabe a pergunta de sempre: Barbosa faz tal discurso sem nenhuma segunda intenção política? Claro que não! Sua mensagem tem endereço certo: a petralhada e seus comparsas no Governo do Crime Organizado.

Eles já estão condenados à substituição pelo Poder Real Mundial que manda no Brasil. Já foram descartados e fingem não saber que, em breve, farão parte do lixo da história. Logicamente, no atual sistema, a lógica é que os petralhas sejam substituídos por marionetes mais lights – que pareçam ser menos incompetentes e menos corruptos.

Então, diante de tal constatação, façamos outra perguntinha: O super discurso do Barbosa é para forjá-lo como potencial candidato a Presidente da República, fortalecendo a imagem pública de coragem, honestidade e determinação no combate às coisas erradas, principalmente a corrupção? Nesse caso, a resposta é mais mineira que o Barbosa: pode ser que sim e pode ser que não...

Não resta dúvidas de que o discurso político para 2014 seguirá a linha de combate às injustiças e aos privilégios – fatores que geram impunidade e ajudam a “justificar”, no imaginário popular, as desigualdades.

A retórica da campanha de 2014 também terá de garantir a manutenção de uma estabilidade econômica (praticamente perdida), junto com a promessa de mais oportunidades de consumo e alavancagem social das classes economicamente mais baixas, como ocorreu na gestão Lula-Dilma.

Voltando a responder a perguntinha anterior: Barbosa não faz campanha para si mesmo. Barbosa parece o “super-herói” especialmente escalado para fazer metade do discurso político necessário para derrotar o PT. A outra metade, a promessa econômica, não cabe ao Super Barbosa – pelo menos neste primeiro momento.

Se Barbosa começar a falar de economia, pode escrever: ele é candidato. Do contrário, Barbosa fará apenas como o João da Bíblia. Não é ele a luz, mas vem para dar testemunho da luz, iluminar o caminho e, como ele já fez até agora, mandar uns petralhas para o simbólico buraco preto das trevas.

Em política, no entanto, tudo é possível. Em tese, Barbosa cai no gosto popular para ser candidato – se quiser realmente ser, o que sempre fez questão de negar.
O problema é que, no atual sistema, Barbosa não teria condições políticas de ser candidato. Exatamente porque ele hoje representa, simbolicamente, a antítese da classe política – tida como “corrupta” no imaginário do eleitor.

Não resta dúvida: o discurso de Barbosa é o de um Super Presidente – nem que seja do Supremo Tribunal Federal, que ficou bem na fita com a condenação dos mensaleiros – mesmo que, até agora, ninguém tenha ido para a cadeia (ou acabe nem indo...). Mas entre o discurso e a viabilidade política de uma candidatura, nas condições atuais, a distância é de um milhão de léguas mineiras...

Uma outra coisa é muito certa: o comportamento institucional do STF, na fase pós-mensalão, será decisivo para a definição dos rumos políticos. Se o Supremo, por um imperdoável equívoco, desandar com decisões para o lado do governismo corrupto, o pirão de nossa república imperial tende a desandar...

Se tal desastre ocorrer, torna-se enorme o risco de um vácuo institucional. Sendo assim, a pergunta é: quem tem hoje mais condições de ocupar um vazio de poder que for aberto pela falência múltipla dos três poderes? A farda? A toga? O terno? Quem?

O detentor da resposta mais correta ganha, inteiramente grátis, o direito a sentar na janela do ônibus...

Vida que segue... Ave atque Vale! Fiquem com Deus.

05 de maio de 2013
Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor.