"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



terça-feira, 6 de novembro de 2012

NA QUEDA DE BRAÇO DA PAZ NA COLÔMBIA, PERDEM AS VÍTIMAS DAS "FART"!

    
          Internacional - América Latina 
Nessa edição do Notalatina reproduzo o artigo que escrevi para o Jornal Inconfidência de Minas Gerais, mas antes quero denunciar um fato que está ocorrendo na Colômbia, que demonstra claramente quem é e o que está fazendo Juan Manuel Santos contra seu próprio povo.
 
Os colombianos estão fartos das traições de Santos e não escondem sua insatisfação com os rumos que o país está tomando, uma vez que, enquanto o presidente afirma em seus discursos que “as FART estão acuadas e rendidas”, os ataques à Força Pública se acentuam exponencialmente. Não há dia em que não se tenha notícia de atentados terroristas, de mortes de policiais e militares, atentados contra crianças, seqüestros, explosões de minas terrestres.
 
Desde há duas semanas que os colombianos vêm sendo vítimas de censura, tendo suas contas de Facebook e Twitter bloqueadas, porque reclamam e cobram do presidente que fale a verdade, que cuide da segurança e que não desejam impunidade para os terroristas. Hoje, soube de uma combativa amiga colombiana que, além de ter suas contas bloqueadas, também está sem internet, porque criticava Santos através de suas contas de Twitter e Facebook.
 
Quero, portanto, denunciar este abuso de autoridade, esta C
ENSURA indevida do presidente Juan Manuel Santos contra seu próprio povo, um povo que o elegeu para dar continuidade ao exitoso trabalho do presidente Uribe e que desde que assumiu não faz outra coisa senão servir aos caprichos das FART e de Chávez. Não é amordaçando um povo que se lhe conquista, mas trabalhando em prol do bem-estar, da segurança e da prosperidade de toda a nação. Fiquem com Deus e até a próxima!

Na queda de braço da paz na Colombia, perdem as vítimas das FART
 
Devo, antes de tudo, explicar porque uso um “T” em vez do conhecido “C” para designar a guerrilha narcoterrorista colombiana. É que lá as pessoas de bem entenderam que é mais justo e adequado chamá-las pelo que de fato são: “Forças Armadas Revolucionárias Terroristas”, e não “da Colômbia”, pois isto é uma indignidade para com o país e suas incontáveis vítimas.
 
No dia 7 de outubro houve eleições presidenciais cujo resultado, como já estava acordado desde o último Encontro do Foro de São Paulo, deu vitória a Chávez e a oposição nada fez, embora as fraudes tenham sido tão gritantes que até no exterior foi comentado e provado. Se o fraudador fosse o candidato da oposição o mundo inteiro viria abaixo e de imediato se pediria a anulação ou, pelo menos, uma auditoria. Mas nada se fez porque disto dependiam as negociações com as FARC, da qual Chávez foi o mentor principal.
 
No dia seguinte haveria a primeira rodada de “negociações” em Oslo, onde os terroristas já se encontravam há alguns dias gozando das delícias do capitalismo - que abominam da boca para fora - mas foi adiada porque um de seus membros teve dificuldades para chegar. Foi precisamente Iván Márquez, que substituiu Raúl Reyes nas Relações Internacionais. Uma das exigências das FART é que participassem da mesa de negociações a terrorista holandesa Tanja Niemeijer e Simón Trinidad que está preso nos Estados Unidos condenado a 60 anos de prisão. Era necessário mostrar ao mundo por um lado, que até uma linda estrangeira vive feliz nas selvas e por outro, que podem dobrar até os Estados Unidos com seus caprichos.
 
Na coletiva de imprensa dada no dia 17, Iván Márquez abusou do direito que se lhe outorgou de ser tratado como gente e afrontou não só aos colombianos como a todos que conhecem o drama de suas vítimas. Em sua mensagem Márquez negou que as FART tenham em seu poder seqüestrados, que continuam cometendo seqüestros, que cultivam, processam e comercializam coca, que praticam atos de terrorismo, etc. Entretanto, desde que começaram as negociações os atos de terrorismo aumentaram consideravelmente, com destruição de redes de energia elétrica, oleodutos, carros-bomba, assassinatos de policiais e militares e seqüestros de pessoas inocentes. Há três chineses de uma empresa que desde janeiro foram seqüestrados e não se tem qualquer notícia deles.
 
Nesse discurso Márquez usou da retórica leninista de acusar os outros do que eles fazem, afirmou para o mundo inteiro que “eles” sim, são as grandes vítimas do Estado e que os colombianos é que têm uma dívida com eles. Como se insistiu em que entregassem os seqüestrados, Márquez afirmou numa carta:
“É necessário que (...) optemos por não descontextualizar e não delimitar inserindo visões pessoais do assunto. (...) Está estabelecido no Acordo a possibilidade de que outros atores da confrontação política e social possam confluir ao processo, (...) e é claro também que assunto sem importância com o das vítimas não pode deixar de lado a literalidade mesma do compromisso assumido em Cuba”.
 
Segundo cifras oficiais, 1.258 seqüestrados entre policiais, militares e civis encontram-se em poder das FART, alguns há mais de 10 anos. Entretanto, Santos disse publicamente acreditar na palavra dos terroristas. Embora a mídia internacional venha dando apoio total a essa insensatez, 90% dos colombianos estão entre revoltados e desesperados com a traição de Santos e o rechaço a seu governo é cada dia mais patente e claro.
 
No domingo 28 houve a convenção nacional do Partido da U, fundado por Álvaro Uribe, e do qual Santos se serviu sem qualquer escrúpulo para se eleger. Tive o prazer de assistir ao vivo e sou testemunha ocular disto que falo. Quando se anunciou a chegada de Uribe este foi aplaudido de pé aos gritos de “A U é de Uribe!” durante vários minutos. E ele começou o discurso dizendo exatamente isso: “Diego Piñeros foi seqüestrado no dia 17 de outubro no Meta, pelas FARC. ‘Paguem a extorsão que depois será pior’, é a ameaça das FART”, quer dizer, no mesmo dia em que Márquez anunciava para o mundo que não seqüestravam nem tinham mais ninguém em seu poder. Todo o seu discurso foi interrompido pelos aplausos, do mesmo modo de quando se retirou e que compartilho ao final do artigo com exclusividade para meus leitores brasileiros.
 
Santos só apareceu muito depois, com um discurso agressivo, rancoroso, febril de inveja. E como foi vaiado em várias oportunidades e a platéia que o ouvia era ínfima em relação à multidão que aplaudiu Uribe, não se sabe que destino tomou o vídeo de sua alocução pois nem na página da Presidência foi publicado. Todavia, ao contrário de Uribe que demonstrou seu amor e preocupação pelos rumos do país, o discurso de Santos foi raivoso, invejoso e auto-referente. Incontáveis vezes ele começa a frase com “eu”, e nessa sua ira contra o sucesso de Uribe soltou esta pérola: “É de dupla moral vir preparar uma punhalada contra a coletividade debaixo do poncho. Eu não venho a um pugilato, como um rufião de esquina, para demonstrar quem é que manda no bairro”. Não havia quem o aplaudisse, pelo contrário, foi vaiado e a platéia havia se esvaziado consideravelmente.
 
Com este desrespeito monumental, o que Santos conseguiu com toda sua baixeza moral e de caráter foi ampliar ainda mais o abismo que separa os verdadeiros uribistas daqueles oportunistas, como ele, que se elegeram com os votos e a plataforma de quem hoje ele vilmente chama de “rufião de esquina”.
Em resumo: enquanto Uribe mesmo sem um cargo público continua lutando pela liberdade e democ
racia da Colômbia, Santos só pensa em fazer algo para “deixar sua marca”, mesmo que isto signifique vender o país ao mais sanguinário e cruel bando terrorista do continente. E o povo que o elegeu, confiando que iria ver-se livre deste flagelo, vê-se agora completamente a mercê de seus algozes que são os verdadeiros mandantes do país.
 
06 de novembro de 2012
Graça Salgueiro

A MÍSTICA DO BOM SELVAGEM

    
          Artigos - Movimento Revolucionário 
comunaseindiosO trabalho feito por organizações ambientalistas e indigenistas de viés progressista – amplamente financiadas por organizações “filantrópicas” internacionais – está longe de ser a solução para esses problemas. Ao contrário: elas são justamente a causa desses problemas.

Jean-Jacques Rousseau, um dos grandes inspiradores dos ideais que culminaram na sangrenta Revolução Francesa de 1789, acreditava piamente naquilo que se chama “bom selvagem”. Rousseau defendia que o homem era naturalmente bom, e que era a sociedade que o corrompia, deformando sua essência em algo vil e perverso. Para impedir esse processo de mutilação do homem, era necessário destruir a sociedade tal como era, substituindo-a por uma sociedade que resgatasse a natureza benévola inerente ao ser humano. O processo pelo qual essa nova sociedade – e, por conseguinte, o novo homem – deveria surgir passava necessariamente pela demolição dos valores sobre os quais a velha sociedade estava alicerçada; todas as instituições que trabalhavam para a manutenção da velha sociedade – a Igreja, a família, a Coroa, o ensino, a cultura, as artes – deveriam necessariamente ruir para que o homem voltasse àquela Era de Ouro há muito perdida e ansiada.
O que motivou o surgimento do mito do “bom selvagem” foi o impacto que o contato com tribos nativas no continente americano e na região do Pacífico causou no imaginário literário europeu da época, sobretudo nos séculos XVII e XVIII. Vistos literalmente como descendentes de Adão e Eva que pareciam não terem sido atingidos pelo pecado original, os povos indígenas eram idealizados como ajuntamentos de pessoas puras, inocentes, cujo isolamento da civilização as manteve à salvo de deturpações em sua conduta e deformações em sua alma. Sua vida seria marcada por uma perfeita integração com a natureza, venerada pelos povos nativos como algo tão sagrado que qualquer interferência humana era considerada sacrílega e abominável, dependendo unicamente da prodigalidade da Mãe Terra para tirarem seu sustento.

Exatos 250 anos após a publicação de sua obra “Do Contrato Social” (1762), o pensamento revolucionário de Rousseau e a errônea concepção do índio como uma criatura pura, inocente (e, acima de tudo, indefesa) são mais fortes do que jamais foram. Quando se toca na questão indígena, sobretudo no Brasil, existem determinados traços paradigmáticos: 1) o índio deve ser protegido como um indivíduo parcialmente incapaz, que não possui faculdades mentais nem aptidões humanas suficientes para fazer suas próprias escolhas; 2) sua cultura tradicional deve ser preservada a qualquer custo, mesmo que muitos índios a abandonem espontaneamente; e 3) seus comportamentos são ontologicamente imunes a qualquer crítica que o “homem branco” possa fazer, uma vez que eles são dotados daquela sabedoria natural intrínseca à natureza humana que foi perdida por todos aqueles contaminados pela mácula da civilização. Esse estranho dueto de infantilização e sacralização tem provocado algumas bizarrices verdadeiramente assustadoras.

O assunto da vez é a situação de 140 índios guarani-kaiowá que, há cerca de um ano, invadiram parte de uma fazenda nas proximidades de Iguatemi, cidade do interior do Mato Grosso do Sul. A invasão foi batizada de comunidade Pyelito Kue. O proprietário das terras invadidas entrou com um pedido de reintegração de posse junto à Justiça Federal de Navirai, que determinou a retirada dos indígenas da região. Em reação à ordem, a comunidade Pyelito Kue
emitiu um comunicado dizendo que a decisão judicial “é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena”, e completou:
Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.
O comunicado causou uma celeuma daquelas – coisa muito comum em um país onde as pessoas efetivamente perderam sua capacidade de perceber e valorar problemas de acordo com seu real significado –, sobretudo nas redes sociais: começou a se falar em suicídio coletivo, pipocaram manifestações no Facebook e congêneres, abaixo-assinados foram iniciados, enfim, um grande circo midiático se armou em torno desse fato. A pedido do Governo Federal, a Justiça Federal de MS cassou a decisão que determinava a desocupação da área, de modo que os índios poderão ficar na região até o fim do trabalho de pesquisa que visa à demarcação das terras.
Chamar a situação dos guarani-kaiowá de genocídio é, no mínimo, um exagero sentimentalóide e despropositado. No entanto, é verdade que a situação das populações indígenas no Brasil é bastante injusta. Diversas comunidades passam por situações de risco social considerável: desnutrição, violência, desemprego, alto índice de mortalidade infantil e de doenças, falta de escolaridade, ausência de tratamento de saúde, enfim, um sem-número de problemas. No entanto, o trabalho feito por organizações ambientalistas e indigenistas de viés progressista – amplamente financiadas por organizações “filantrópicas” internacionais – está longe de ser a solução para esses problemas. Ao contrário: elas são justamente a causa desses problemas.

Um exemplo emblemático que serve de base a essa conclusão é a situação atual da reserva
Raposa-Serra do Sol, em Roraima. Com aproximadamente 17.500 km² – maior, portanto, do que Líbano (10.400 km²), Irlanda do Norte (13.843 km²) e Timor-Leste (14.874 km²) –, a reserva teve a homologação de sua demarcação contínua confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 20 de março de 2009. Produtores rurais e comerciantes que residiam e trabalhavam dentro da área da reserva foram retirados com a promessa de indenização do governo federal. As indenizações não vieram para a grande maioria deles, e outros receberam um valor irrisório por suas propriedades. Segundo reportagem da revista Veja intitulada “Uma reserva de miséria”, da edição nº 2219 (1º de junho de 2011), esse é o caso do ex-pecuarista Wilson Alves Bezerra. Sua propriedade, em que criava 1.300 cabeças de gado, possuía 5 mil hectares. Tendo o valor das edificações da propriedade sido orçado em R$ 350 mil, e levando em consideração um valor de R$ 1.000,00 por hectare – o que equivale a 1/3 do valor mínimo médio do mercado brasileiro –, o Sr. Wilson Bezerra deveria ter recebido pouco mais de R$ 5 milhões de indenização do governo. O valor total que recebeu foi de R$ 72 mil, cerca de 1,44% do valor total. Na época da reportagem da revista, ele sobrevivia vendendo churrasquinhos no centro de Boa Vista, o que lhe rendia R$ 40,00 por noite.
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Empreendimentos rurais como o do Sr. Wilson Bezerra empregavam muitos habitantes da região, sobretudo indígenas. Sem emprego, sem opção de sobrevivência e sem respaldo governamental, muitos índios se viram obrigados a também ir para Boa Vista. Muitos deles sobrevivem em condições precárias, conseguindo uma renda ínfima da cata de lixo e materiais recicláveis. Se antes havia uma perspectiva de desenvolvimento econômico e social para essas pessoas, hoje essa perspectiva não é mais do que um sonho distante e improvável. E a que se deve isso? À parceria de organizações indígenas e ambientais financiadas com recursos de fundações internacionais com órgãos do governo federal, como a Funai, e o Ministério Público Federal. São distorções como essa que levam o estado de Roraima a ter o pior PIB dentre as UFs brasileiras: cerca de 70% de seu território são compostos por reservas ambientais e indígenas, lugares em que atividades econômicas de base não podem ser conduzidas, o que gera um subdesenvolvimento generalizado no estado.

Ronald Reagan costumava dizer que o governo não é a solução para os problemas, mas o próprio problema. Nesse caso, o problema não é o governo, as ONGs e outros grupos de pressão, mas aquilo que os impregna até a medula: a mística do “bom selvagem”. Parece que 250 anos de equívocos e barbaridades não bastaram para apagar essa sandice da nossa “elite pensante”.

* * *
A ideia aparentemente inabalável de que o índio é uma criatura toda pura, naturalmente cheia de boas intenções, inocente, meio bobinha, muito mansa e dotada de uma sabedoria excelsa que provém de seu íntimo contato com a “Mãe Terra” tornou-se um verdadeiro arquétipo jungiano nos tempos hodiernos. Se antes, no contexto brasileiro, essa imagem servia muito mais à literatura do que à política – vide a Trilogia Indianista do escritor José de Alencar, composta pelas obras “O Guarani” (1857), “Iracema” (1865) e “Ubirajara” (1874) –, hoje ela serve para justificar todo tipo de infâmia.
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Reunião dos ministérios da Justiça e Direitos Humanos com representantes dos guarani-kaiowás.
Uma das falácias mais evidentes que compõem esse arquétipo está presente num texto recente de Luiz Martins da Silva, jornalista e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, publicado no portal da universidade. Em “O céu dos índios”, o prof. Luiz Martins escreve:
Contam cronistas que ao tempo dos primeiros exploradores os nativos até colaboravam na sobrecarga das naus, com madeiras e tudo o que queriam em grande quantidade, mas indagavam candidamente sobre os motivos de tanto acúmulo, se a madeira não ia acabar, se a floresta não ia desaparecer. Por que razão precisavam tanto de tudo e de uma só vez?
É possível que, “candidamente” encantado pelas historietas dos ditos cronistas, o autor do texto tenha se esquecido da altíssima carga de fantasia que embebiam a esmagadora maioria dos relatos de exploradores europeus em terras americanas. A tão alardeada consciência ecológica dos povos indígenas é, no mais das vezes, um delírio urdido por intelectuais que, incapazes de penetrar no mais essencial das culturas indígenas – ou, pior, ignorando-o de caso pensado, solenemente –, limitam suas análises ao assombro inicial causado pelo contato com o desconhecido.

A ausência das noções de propriedade e de escassez torna desenfreada a utilização de determinado recurso limitado. E, ao contrário do que a nossa elite acadêmica pisa e repisa, a tragédia dos comuns não é algo cuja observância é limitada por diferenças culturais: ela faz parte da própria natureza humana. Aquilo que facilmente se obtém, que pode ser desfrutado sem limites e que não pertence a um indivíduo concreto, mas a uma abstrata coletividade, é explorado até a exaustão sem que haja ponderação acerca da durabilidade do bem e de seu melhor uso.
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Camiseta da Holanda e câmera digital: manufaturas tradicionais?
Notem que não é necessário nem mesmo conhecer a história dos povos indígenas para intuir a falsidade dessa sacrossanta consciência ecológica nativa. Em “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, Leandro Narloch coloca as coisas de maneira bastante clara quanto a esse assunto:
As tribos que habitavam a região da mata atlântica botavam o mato abaixo com facilidade, usando uma ferramenta muito eficaz: o fogo. No fim da estação seca, praticavam a coivara, o ato de queimar o mato seco para abrir espaço para a plantação, empregado até hoje. No início, a coivara é eficiente, já que toda a biomassa da floresta vira cinzas que fertilizam o solo. Depois de alguns anos, o solo se empobrece. Pragas e ervas daninhas tomam conta. Como não havia enxadas e pesticidas e ninguém sabia adubar o solo, procuravam-se outras matas virgens para queimar e transformar em roças. O historiador americano Warren Dean estimou que a alimentação de cada habitante exigia a devastação de 2 mil metros quadrados de mata por ano. [...]

A grande vantagem ao fogo era facilitar a caça. Criando fogueiras coordenadas, um pequeno grupo de pessoas consegue controlar uma área enorme da mata sem precisar de machados, serrotes ou alguma outra ferramenta de ferro. As chamas desentocam animais escondidos na terra, no meio de arbustos e nos galhos. Aves, macacos, veados, capivaras, onças, lagartos e muitos outros animais corriam em direção ao mesmo ponto, onde os índios os esperavam para capturá-los. Não e à toa que, assim como em todo o resto do mundo, nas florestas brasileiras só havia animais de grande porte, rápidos e agressivos os mais lentos foram logo extintos pelas populações nativas. Para caçar alguns poucos animais, eles destruíam uma área enorme da floresta.

A ideia de que os índios também são criaturas ingênuas, inocentes, crédulas, bondosas por natureza, possuidoras de uma dignidade quase beatífica reservada somente aos animistas e panteístas – de alguma forma, esses credos equivalem a um inquestionável atestado de superioridade moral, lavrado com toda pompa e circunstância nos cartórios ideológicos (vulgo universidades) do Brasil –, é igualmente absurda.

Dois casos são bastante ilustrativos. O primeiro ocorreu em 2004 nas imediações de Espigão d’Oeste, município do estado de Rondônia. A reserva Roosevelt, que abriga uma das maiores jazidas de diamantes do mundo, é habitada por índios cintas-largas. No dia 7 de abril daquele ano, cerca de 60 índios capturaram um grupo de 29 garimpeiros. Os garimpeiros – que, apesar de exercerem atividade ilegalmente, não estavam armados – foram amarrados com cipós e mortos a tiros e golpes de borduna, tendo os corpos carbonizados em seguida (algumas fotos das vítimas podem ser encontradas na rede). Poder-se-ia argumentar que os índios estavam apenas protegendo sua propriedade de invasores que estavam depredando sua terra sagrada e, a partir daí, forçar alguma ideia de legitimidade para essa barbaridade. Mas quando se sabe que muitos dos próprios índios da reserva traficam pedras preciosas, isso tudo soa mais como eliminação de concorrência.

O segundo caso ocorreu em maio de 2008 na cidade de Altamira/PA. Por iniciativa da Arquidiocese de Altamira e diversas ONGS, foi realizada uma grande reunião pública para discutir o afamado projeto da usina de Belo Monte. Paulo Fernando Rezende, engenheiro da Eletrobrás, participou do evento para falar a respeito do projeto de construção da usina e defender a necessidade do empreendimento. A reação dos índios foi esta:

Comparemos, por um instante, o vídeo acima com as palavras finais do texto do prof. Luiz Martins:
Em meados dos anos 70, levantei um dado estatístico, na Funai: havia entre os índios brasileiros missões de 50 diferentes linhagens religiosas, todas, evidentemente, tentando salvar as almas dos índios e encaminhá-los para um Céu de beatitudes. Eu fico me perguntando se não teria de ser o inverso, os brancos indo aprender com os índios, como se pode viver no Paraíso, já, aqui e agora.

A depender dos caiapós que deram esse show de horrores na reunião, é de se esperar que esse Paraíso terrestre seja construído com gritos de guerra, golpes de facão e bordoadas. Pensando bem, não é muito diferente do que os jacobinos, ébrios do ópio rousseauniano, fizeram na França quando o século XVIII estava em seus estertores. Bom, no fim das contas, talvez Rousseau estivesse certo, não é?

Em tempo:
Índios são pessoas. Índios são seres humanos exatamente como nós, os “homens brancos”. Eles possuem fraquezas, qualidades, virtudes, defeitos, interesses, enfim, eles compartilham a mesma natureza humana que nós, “homens civilizados”, possuímos. E, assim como nós, eles também são capazes de atrocidades vergonhosas, como, por exemplo, a prática do infanticídio que algumas tribos mantêm. No entanto, eles também são capazes de atos verdadeiramente heróicos e virtuosos: é só serem tratados como pessoas, nem mais, nem menos. Se quisermos de fato que situações como essas não ocorram mais, está na hora de pararmos de agir como se fossem criaturas angélicas de outra dimensão ou como seres subumanos que necessitam da tutela estatal para absolutamente tudo.
 
06 de novembro de 2012
Escrito por Felipe Melo

UMA INICIATIVA DE OBAMA PARA A EXCELÊNCIA EDUCACIONAL

    
          Artigos - Educação 
Tanto faz se um estudante é negro, branco, laranja ou pintado de bolinhas e se ele é pobre ou rico, existem alguns requisitos mínimos que devem ser cumpridos para que ele se saia bem na escola.

O presidente Barack Obama expediu recentemente uma ordem executiva que estabeleceu uma iniciativa da Casa Branca visando a excelência do ensino para os negros americanos, que será adotada no Departamento de Educação. Ele propõe "identificar s melhores práticas comprovadas" para melhorar o rendimento dos negros em escolas e faculdades. Embora a educação dos negros esteja em situação desesperadora, a ordem executiva do presidente não vai conseguir absolutamente coisa alguma para melhorar a educação dos negros. A razão é que ela não aponta as raízes da podridão educacional entre os negros americanos. Não é nenhum bicho de sete cabeças; vamos olhar para elas.

A iniciativa do presidente não contém uma palavra sobre violência escolar desenfreada nas escolas de subúrbios, o que torna impossível a excelência educacional. Durante os últimos cinco anos, 268 escolas da Filadélfia tiveram 30 mil graves casos criminais, incluindo assaltos – 4 mil dos quais foram vítimas os professores - roubos e estupros. Antes de recentes demissões, o distrito escolar da Filadélfia empregava cerca de 500 policiais. Em Chicago, no ano passado, 700 jovens foram vítimas de armas de fogo e dúzias deles perderam suas vidas. Histórias semelhantes de violência de rua e escolar podem ser contadas em outras grandes cidades, predominantemente de população negra, como Baltimore, Detroit, Cleveland, Oakland e Newark.

Se o crime desenfreado na escola não for eliminado, a excelência acadêmica será inatingível. Se muito, a iniciativa do presidente vai ajudar a minar a disciplina escolar, porque defende a "promoção de um clima escolar positivo que não dependa de métodos que resultem em uso de desiguais ferramentas disciplinares". Isso significa, por exemplo, se os estudantes negros são suspensos ou expulsos a taxas maiores do que, digamos, os alunos asiáticos, é um "uso desigual de ferramentas disciplinares". Assim, mesmo que os negros estejam causando uma parte desproporcional de problemas disciplinares, eles não podem ser disciplinados de forma desproporcional.

Tanto faz se um estudante é negro, branco, laranja ou pintado de bolinhas e se ele é pobre ou rico, existem alguns requisitos mínimos que devem ser cumpridos para que ele se saia bem na escola. Alguém deve botar o aluno para fazer a lição de casa, zelar para que ele tenha o descanso de uma boa noite, providenciar um café da manhã, certificar-se que ele vá para a escola no horário e ter certeza de que ele respeita e obedece a seus professores. Aqui está a minha pergunta: quais desses requisitos podem ser obtidos por uma ordem executiva presidencial, um mandato parlamentar ou o decreto de um prefeito? Se esses requisitos mínimos não são cumpridos, o que quer que se faça é em vão.

Gastar mais dinheiro em educação não pode substituir paternidade ruim. Se pudesse, o desempenho acadêmico dos negros não seria um problema. Washington-DC, por exemplo, gasta 18.667 dólares por aluno a cada ano, mais do que qualquer estado, mas vem em último lugar em termos de desempenho estudantil. A escola secundária Paul Laurence Dunbar foi criada em 1870, em Washington, DC, como a primeira escola pública secundária para negros no país.

De 1870 a 1955, a maioria dos seus diplomados foi para a faculdade, obtendo diplomas de Harvard, Princeton, Williams, Wesleyan e outras. Já em 1899, os alunos de Dunbar pontuaram mais em testes de toda a cidade do que os alunos, em qualquer das escolas de brancos do bairro. Sua frequência e registros de atrasos foram geralmente melhores do que os de escolas de brancos. Durante esta época de grandes realizações, não havia violência escolar. Não havia integração racial. Não havia um grande orçamento. Não havia sequer um refeitório ou todas as outras coisas que o establishment educacional de hoje diz que são necessárias para o êxito escolar dos negros.

Numerosos estudos mostram que as crianças criadas em estáveis famílias biparentais se saem muito melhor no ensino do que aqueles criados em famílias monoparentais. Historicamente, as famílias negras têm sido relativamente estáveis. De 1880 a 1960, a proporção de crianças negras criados em famílias biparentais se manteve estável em cerca de 70%; em 1925 no Harlem, foi de 85%. Hoje, apenas 33% das crianças negras usufruem os benefícios da família biparental. Em 1940, a ilegitimidade negra era de 19%; hoje é 72%.

Muitos jovens negros se tornaram praticamente inúteis em uma economia cada vez mais high-tech. A única perspectiva brilhante é o filete de mais e mais pais negros percebendo isso e tirando seus filhos de escolas públicas. A iniciativa do presidente vai ajudar a enriquecer o establishment de ensino, mas não fará nada para jovens negros em situação educacional desesperadora.


 Escrito por Walter Williams

Walter Williams
é professor de Economia na Universidade George Mason.
Tradução: Daniel Antonio de Aquino Neto

ELIANE BRUM E SUAS BESTEIRAS CIENTIFICISTAS

    
          Artigos - Ciência 
Se hoje é dada uma autoridade absurda e injustificável à cientistas, Eliane, seguindo a linha de Sagan e Dawkins, é co-responsável por esta situação.

Em época de guerra cultural, vale tudo, até mentir sobre como funciona a opinião pública para capitalizar politicamente, e é isso que podemos ver no texto 'O terremoto que abalou a Ciência', escrito pela humanista Eliane Brum para a revista Época em 29 de outubro.

Ela fala do caso do tribunal italiano que condenou sete especialistas (quatro cientistas, dois engenheiros e um funcionário público) a seis anos de prisão por homicídio culposo. Agora, como não poderia deixar de ser, em uma era em que muitos tentam transformar a ciência em religião (e cientistas em novos papas, ou seja, pessoas que não podem ser questionadas), surgem protestos contra a prisão destes especialistas.

O truque, praticado inclusive por Eliane, é bastante simples. Ela confunde o método científico (em que nada é considerado como verdade absoluta) com os cientistas em si, e é aí que ela mete o pé na jaca. Se o método científico de fato não defende verdades absolutas, seres humanos (incluindo cientistas) podem tomar partido em questões e realizar afirmações.
No caso, o governo usou estas sete pessoas para afirmar textualmente para a população “Não há motivos para alarme nenhum”. Neste caso, assumiram a responsabilidade por sua declaração. Mais ainda: o governo usou esta declaração para que as pessoas não evacuassem a região.

Assim, se “não há formas de se prever ou não um terremoto” (como alega a defesa), então qualquer mensagem tranqüilizadora é um ato gravíssimo, que deve ser punido. A lógica é clara: “Se não temos como dizer se X ou Y vai ocorrer, afirmarmos (quando em uma posição de autoridade) que ninguém deve se preocupar com X, é assumir as conseqüências de X ocorrer”.

Eliane tenta jogar com o emocional do leitor ao dizer que o crime dos cientistas acusados foi “não ter previsto o terremoto que destruiu a cidade de L’Aquila” – sendo que surge a argumentação de defesa: “a Ciência, hoje, não tem meios para prever um terremoto. Logo, os cientistas não podem ser responsabilizados por algo que está além da sua capacidade”.
Mas isso é uma completa manipulação dos fatos, pois ninguém acusou os cientistas de não terem feito aquilo que não era possível fazer, mas sim de terem lançado uma mensagem tranqüilizadora, usando-se para isso ao mesmo tempo a credencial científica como o suporte do governo (ou seja, dois apelos à autoridade), para dizer: “não há motivos para se preocuparem”. Sendo verdade que é impossível prever um terremoto, a única posição aceitável seria a de não lançarem mensagem de tranquilização alguma.

Como se nota, a punição aos sete foi completamente justificada, a não ser na cabeça daqueles que entendem o cientista como alguém que não pode ser punido ou julgado pelos seus atos, por causa da seguinte lógica: “Se o método científico não aceita verdades absolutas, então cientistas não podem ser responsabilizados por quaisquer erros de julgamento”, em uma dissonância cognitiva entre o método científico e o ser humano em si. Este último, ao contrário do método, pode influenciar decisões em momentos críticos, e assumir uma postura de autoridade para fazer sua palavra ser ouvida. Se esta situação envolve vidas e constitui extremo risco, a incerteza que sustenta o seu parecer não deveria ser um atenuante, mas um agravante.
 
Claro que o draminha não poderia faltar, incluindo o tradicional apelo à conseqüência, “Se punirmos os cientistas, traremos conseqüências à ciência”, o que é tanto patético quanto mentiroso.
O fato é que a ciência não deixa de evoluir ou não com aquilo que fazemos do conhecimento científico (chegaram a usar o conhecimento de Einstein para produzir a bomba atômica e isto não diminuiu a busca pela energia nuclear, muito pelo contrário).
Se sete pessoas optaram por dar uma mensagem indevida de tranquilização quando não tinham condições de fazê-lo, isso não fará nada no sentido de interromper as pesquisas sobre terremotos.
 
Eliane tenta uma jogada interessante, ao citar uma carta de Alan Leshner, CEO da American Association for the Advancement of Science, com os principais argumentos para a não-criminalização dos cientistas. Segundo ela Leshner apresentou “colocações pertinentes e sensatas”. Será? Vamos testar com o guia de falácias em mãos?
Eis os 3 argumentos de Leshner, com as devidas refutações:
  1. Alegação: “As acusações são injustas e ingênuas, na medida em que não há método científico capaz de prever terremotos com precisão”.

    Refutação: se não há método científico capaz de prever terremotos com precisão, então a única posição possível seria um “agnosticismo” em relação ao terremoto, e não um parecer de tranquilização, principalmente por causa dos eventos que haviam ocorrido pouco antes.

  2. Alegação: “Não é razoável esperar mais do que os cientistas podem fazer com o conhecimento atualmente disponível”.

    Refutação: Sendo assim, mais um motivo para tomarem cuidado com suas declarações.

  3. Alegação: “Condenar cientistas por supostamente falharem em previsões hoje impossíveis terá efeitos perigosos para o conjunto da Ciência, na medida em que inibirá a livre troca de ideias e a circulação de conhecimento, fundamentais para o avanço de pesquisas científicas de grande interesse público.”

    Refutação: Falácia do apelo à consequência, e completamente injustificada, pois o que estava sob o julgamento eram cientistas que usaram um conhecimento específico, e não o conhecimento específico em si. Logo, um julgamento de pessoas irresponsáveis, e não o julgamento de um conhecimento robusto e poderoso.
Se os advogados dos cientistas foram por essa linha de Leshner, não surpreende que os réus tenham ido para a cadeia. Esses argumentos simplesmente não prestam.
 
Eis então que Eliane vira a questão do avesso e, ao invés de culpar os responsáveis pela tragédia, culpa a população, em uma tentativa de transferência de culpa.
Segundo ela, os culpados estão na população de L’Aquila, que ficaram na cidade mesmo após o primeiro tremor mais forte, por que deveriam assumir os conselhos dos cientistas não como um fato, mas como uma “incerteza, como diz o método científico”. Ora, bolas, mas se o governo fez uso dessas opiniões de especialistas para dizer aos habitantes “fiquem em suas casas”, então qual o sentido do uso governamental dos cientistas para o endosso à essas decisões?
Ou seja, Eliane não resolve a questão com sua prece humanista, que ela tenta abaixo:
 
A ciência e o método científico são o oposto do dogma. Esta é justamente a sua beleza. Ao contrário da religião, onde a premissa do fiel é a fé, na ciência é preciso duvidar. O processo científico não é impulsionado por certezas, mas por dúvidas. E é por causa delas que usufruímos das descobertas impressionantes que se fazem presentes em todas as áreas do nosso cotidiano. Enquanto na religião é imperativo crer, na ciência é obrigatório duvidar, testar, provar. A incerteza é, portanto, matéria primordial da ciência. É sua força – e não sua fraqueza.
 
No momento de um debate público, em que se questiona a confiabilidade da tomada de decisão de alguns cientistas, que foram irresponsáveis, ela pára a argumentação para fazer um ato solo (no formato de prece cientificista) na qual tenta “desligar” o cérebro do leitor com um parágrafo inteiro de falsas dicotomias, que não tem nenhuma outra utilidade senão fazer uma injustificável idolatria aos cientistas, como “seres repletos de dúvidas, portanto mais confiáveis”, quando o que estamos investigando é exatamente o oposto. Este não é um julgamento sobre a religião, e nem sobre a ciência, mas sim sobre um conjunto de cientistas em alinhamento com o governo italiano.
 
Quando ela pára a argumentação para o seu ato solo (que só faria sentido em livros de estratagemas como os de Sagan e Dawkins), ela sabe que o seu argumento para a não-punição dos cientistas não existe, como mostrei nas refutações a Leshner. Pelo contrário, ao apontar a ciência como um lugar onde é “imperativo duvidar, testar, provar”, e esta “é sua força”, ela nos dá mais motivos para questionarmos a irresponsabilidade destes cientistas.
 
O que ela sugere, então, é que, no momento em que tomavam a decisão, os habitantes ficassem declamando Sagan e Dawkins como se fosse uma oração? Era um momento de crise em que a questão era “deve-se tranqüilizar” ou “entrar em alarme” e não um momento para capitalização política humanista. Neste momento, ao fazer seu ato solo, Eliane abandonou o centro de sua argumentação, e nos deu mais motivos ainda para exigir a condenação dos cientistas, agora sim, diante das palavras dela, mais irresponsáveis ainda.
 
Quando ela diz, depois de seu ato solo, que “a ciência foi interpretada a partir das premissas da religião” pelos habitantes, ela impõe a culpa aos habitantes, não aos cientistas. Ela mente ao leitor, pois quando se fala em ciência, que todas as idéias “devem ser questionadas”, isso significa que todas as idéias devem ser questionadas por pessoas que se especializaram na área. O que ela sugere é que automaticamente todos os habitantes da cidade virassem especialistas em sismologia, para apresentarem papers científicos questionando os métodos existentes, ao invés de tomarem uma decisão simples como “vamos ouvir o governo, e ficar” ou “vamos ignorar o que o governo disse, e sair”?
 
Eliane está jogando com hipnose, não argumentação. Ela pega um contexto do dia-a-dia dos cientistas em qualquer área de especialização, e joga a responsabilidade de se executar o mesmo jogo para o cidadão comum. Exatamente este que paga seus impostos para que o governo faça o seu trabalho.
 
Mas, segundo ela, ficar na cidade foi um “ato de má fé” da população, não dos cientistas. Sabe por que? Resposta que cairia melhor em uma psicopata: “A Ciência demanda razão – e eles escutaram a palavra dos cientistas como crentes”. Mas esperem um pouquinho. Quando um grupo de “cientistas” (que Eliane apóia, pois senão não faria seu ato solo copiado exatamente do discurso cientificista) diz que consegue até “provar a inexistência de Deus”, como é que não consegue “provar a ocorrência ou não de um terremoto”? Como não sou discípulo de Dawkins (ao passo que Eliane é), eu sei que cientistas não podem dizer se Deus existe ou não, e também que existem incertezas a respeito da possibilidade de se prever um terremoto. Sei disso, e que isso não conspira contra a ciência. Mas é gente como Eliane que faz o oposto, ao usar pessoas que simulem representação de ciência para falar de todas as questões.
 
Portanto, quando ela acusa a população de “ver a ciência como se veria a religião”, ela sabe que está transferindo uma culpa, de forma injustificável e covarde. Quem sempre tentou colocar a ciência no lugar da religião, de forma irresponsável, são os mesmos autores que ela idolatra. Quando ela fez seu ato solo, executou o mesmo truque cientificista que tenta fazer a patuléia se rebaixar a cientistas como se fossem os novos clérigos. Se hoje o cidadão comum vê em cientistas os substitutos dos padres, isso é um equívoco,
mas ela é co-responsável pela difusão desse equívoco.
 
Em busca de capitalização política incessante, à todo momento que um humanista e/ou cientificista (embora todo humanista seja um cientificista) começa a discursar, entra com um ato solo no qual tenta “desligar” o cérebro da patuléia com falsas dicotomias entre ciência e religião. Logo, se hoje é dada uma autoridade absurda e injustificável à cientistas, Eliane, seguindo a linha de Sagan e Dawkins, é co-responsável por esta situação.
 
Se a ciência, “seus limites e seus enormes desafios são mal interpretados pela população”, é por que faltam mais refutadores que fazem um trabalho similar ao deste blog, denunciando fraudadores da ciência, que tentam impor a ciência como uma nova forma de religião. Ao colocar uma prece cientificista no meio do texto, Eliane colocou-se do lado destes que tem usado a ciência não como ela deveria ser utilizada, mas como meio de obtenção de autoridade moral.
 
Mas, quando esta autoridade moral é exercida (e a população comum confia em cientistas), basta usar distinções de emergência (como mentir dizendo que a discussão de papers científicos é obrigação dos populares, não dos especialistas) para inocentar cientistas responsáveis pelo uso indevido de sua autoridade.
Em resumo, ela tentou inocentar de forma injustificada um grupo de cientistas, e meteu o pé na m@#$# de vez. Em alguns parágrafos, ela nos mostrou por que ela é uma das causas do problema, e isso ficou ainda mais evidente quando ela colocou uma prece a la Carl Sagan no meio do texto.
 
Tudo ficou mais complicado para ela quando tentou usar uma vergonhosa distinção de emergência para enrolar o leitor, fingindo que as discussões científicas (estas sim, que não deveriam envolver certezas absolutas) deveriam ocorrer entre a população comum, e não entre os especialistas – aliás, uma pergunta, se for para o frentista do posto de gasolina ficar apresentando papers sobre sismologia para que precisamos de cientistas?
 
Quando ela diz que a ciência é “mal compreendida, abrindo espaço para novas tragédias humanas”, ela tem parte de culpa nisso. O que aquele conjunto bizarro de falsas dicotomias no ato solo dela tinha por função senão sub-comunicar para a patuléia “olhem, antes você tinha a religião, e agora eu lhe trago a ciência”, junto com um raciocínio de pêndulo executado em ritmo bate-estaca?
 
Esta fábula, a de que a ciência deve nos dar todas as respostas, é alimentada pelos autores que deram a prece que Eliane faz todo os dias. Ao tentar culpar os habitantes da cidade pelo seu destino, ela deveria olhar para si própria. Mas a previsão é que um humanista jamais olhe para suas próprias culpas.

Escrito por Luciano Ayan

ESTES BÁRBAROS

    
          Artigos - Movimento Revolucionário 
salomewbaptistheadEstes bárbaros desfrutam hoje da hegemonia cultural, que se traduz em votos. Tudo o que atacam parece fazer cada vez menos sentido na cultura que persistem em tentar remodelar. A sacralidade da vida? Não! Nas velhas eras pagãs, valia a lei do mais forte, ou o desejo dos líderes. Sexualidade saudável, dentro da família? Não! No mundo antigo, tudo se resumia a penetrador e penetrado. E gritam: “somos a vanguarda, num novo ‘momento histórico’”. Mas o que promovem mesmo é o retorno aos velhos tempos pagãos pré-cristãos.
Estes bárbaros desprezam a individualidade da pessoa, bem como seu valor intrínseco. Nivelando todos os valores, dizendo que são todos subjetivos, querem mesmo é que César diga o que é certo ou errado. O resto não passa de “constructo social”. Da suprema blasfêmia a essa paganismo segue um trecho: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens sejam criados de modo igual e providos pelo Criador de certos direitos inalienáveis; entre eles, a vida, a liberdade e busca da felicidade”.

Estes bárbaros enaltecem o poderio de César. Pela saúde, pela paz, pela educação, alegam. Sempre se frustram, mas não se permitem atentar para o real. E, para tanto, não são nada discretos em sua sanha de controlar escolas, mídia e a produção cultural, visando uma modelagem comportamental em larga escala. Subjetividade e autonomia da consciência individual é escândalo ao mundo antigo: “Estes homens, ó Nabuconosor, não te respeitaram; a teus deuses não serviram, nem adoraram a estátua de ouro que levantaste”. Os bárbaros não toleram o homem livre, senhor de suas próprias ideias e princípios.
Estes bárbaros sacralizam a natureza. Que não toquem nas árvores e nos micos-leões! E que em nome deste panteísmo não se plante, não se construa, não se aumentem as famílias e a população. “Não é ‘sustentável’”, clamam. Agora com legitimidade jurídica, o humano volta a ser uma besta servil de forças misteriosas das florestas, como nas velhas eras pagãs.
Estes bárbaros abortam. Para eles vale mais o bem estar da tribo do que a vida por si mesma. E os fetos se reduzem a assunto de saúde pública, a consequências indesejáveis da promiscuidade das militantes que, sem dó, esquartejam e expelem suas crias. Nas velhas tribos bárbaras, deidades crúeis sacralizavam o prazer. No velho mundo bárbaro, as chamas de Moloque recebiam os pequeninos, e as trombetas do deus pagão cobriam seus últimos e agonizantes choros.
Estes bárbaros, ontem, como hoje, desprezam o Deus de Israel e seus princípios. Não é à toa que abominam o Ocidente, fruto civilizacional da cosmovisão judaico-cristã, que em tudo afronta esses nostálgicos das eras pagãs. Que em tudo denuncia a barbárie decorrente da ausência daquele Espírito que, onde habita, ali há liberdade (II Co. 3:17).
Estes bárbaros mal disfarçam em ideologias suas velhas crenças pagãs. O pastor Wurmbrand bradou: “Marx era, na verdade, um satanista”. A bruxa Margot Adler fez questão de mostrar o quanto o paganismo inspirou o feminismo desde seus primeiros momentos. Eric Voegelin e outros autores perceberam o quanto as ideologias utópicas que mataram milhões no século XX se assemelham, em tantos aspectos, a antigas crenças gnósticas. Peter Gay afirmou que o Iluminismo foi o berço do paganismo moderno e outros historiadores já afirmaram que este período, para além da imagem pública, foi mesmo um festival de bruxaria e ocultismo. Dentre os inspiradores da United Religions Initiative, hoje tentáculo da ONU, não se pode excluir nomes como Madame Blavatsky e Aleister Crowley. Como Lee Penn bem denuncia em seu livro False Dawn, esta instituição está claramente determinada a obstruir a evangelização cristã, sempre em nome da promoção ecumênica da paz mundial, incriminando os cristãos conservadores como intolerantes. Buscando reduzir o cristianismo a mero ativismo social, promove uma nova espiritualidade global, uma religião de plástico que irá dar novo valor a velhas práticas ocultistas e teosóficas.
Estes bárbaros também sabem se disfarçar de cristãos. Estes bárbaros sabem se infiltrar em instituições e veículos de mídia que se afirmam como defensores e divulgadores do cristianismo. Estes bárbaros sabem que a fé cristã diz respeito a todas as áreas do conhecimento: política, arte, economia, psicologia, ciência, filosofia, etc. E por isso que em tudo atrapalham os cristãos, impedindo-os a perceber as inúmeras riquezas deste legado com o qual Deus os presenteou, tendo anteriormente concedido a eles a salvação, por meio do sacrifício do Senhor Jesus Cristo.
Estes bárbaros sabem que, no momento em que os cristãos se posicionam e contra eles se opõem, começam a ter sérios problemas.
Estes bárbaros, seguindo o deus deste século, sabem que vivem na mentira. E que “não prevalecerão no dia do juízo” (Sl 1:5).

(Imagem: ‘Salomé com a cabeça de João Batista’, Caravaggio, 1609/10.)
06 de novembro de 2012
Edson Camargo
 

EM DEFESA DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL

 

É incrível a ignorância de quem festeja a redução do índice de natalidade. Abaixo de dois filhos por casal, só por si inviabiliza primeiro o bem estar, depois a sobrevivência de qualquer nação.



A parte mais desenvolvida da humanidade vivenciou a redução da natalidade e vive agora um período de regressão social. Na zona do euro já se torna impossível manter as pensões e a assistência a idosos. A assistência à saúde entra em crise.
O mesmo ameaça acontecer nos EUA. Paradoxalmente o progresso havia gerado riquezas, proporcionando o domínio da natureza, produzindo bens em larga escala. Então como explicar essa insegurança, desde a previdência e até a escassez de comida numa época onde foi atingido o desenvolvimento maximo?

Acontece que o baixo índice de natalidade e o aumento da longevidade anunciam a tendência a termos mais aposentados idosos e doentes do que trabalhadores.
Breve será impossível manter uma assistência digna, e a longo prazo impossível qualquer tipo de assistência. Mesmo o necessário aumento da idade de aposentadoria será apenas um palia tivo.

Se a ameaça se restringisse a isto, sobreviveríamos; um povo pode viver sem seus velhos e sem seus incapazes de trabalhar. Entretanto, não poderá se defender com o paulatino desaparecimento de seus jovens.
Mesmo sem ser atacado, um país com a população continuamente decrescente desaparecerá, e isto acontecerá com a Grécia em quatro ou cinco gerações. Seu território será novamente ocupado pelos turcos e o país será lembrado apenas nos livros de História.

Devemos assinalar que, entre as causas da redução da natalidade no Mundo Ocidental avulta o desemprego dos jovens, causados pela exportação das industrias.
Os postos mais qualificados e de melhor remuneração da indústria de transformação foram destruídos pela concorrência chinesa, e a massa crescente de excluídos é de jovens altamente qualificados, que olham a emigração como a única saída, agravando o problema.
O processo é de difícil reversão, mas terá que ser enfrentado sob pena de, a prazo relativamente curto, a Europa, berço e alma da civilização ocidental, ser ocupada pelos prolíferos muçulmanos, e a seguir os EUA e o resto do Ocidente.

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EM DEFESA DO PAÍS

Quanto a redução da taxa de natalidade, temos o mesmo problema do resto do Ocidente, agravado pela necessidade de ocupar o imenso território que herdamos.
Felizmente começamos mais tarde, e teremos tempo de reverter. Uma medida acertada, sem dúvida, e o programa Brasil Carinhoso, mas muitas outras medidas de incentivo podem ainda ser tomadas, como creches, prioridade nos financiamentos de casa própria, além de prêmios e distinções ás mães de muitos filhos.

No tocante ao desemprego, ainda que a exploração de nossos recursos naturais nos dê uma certa vantagem, acende-se a luz amarela.
Os países que exportaram suas indústrias, assustados com a fagocitosidade da China, as estão levando de volta às suas pátrias.
Como da China não conseguem mais retornar, buscam de volta as que estão no Brasil e em outras nações do Terceiro Mundo.
Só um protecionismo acentuado pode nos garantir os empregos industriais. Se exportarmos matérias primas apenas para comprar manufaturas, exportaremos também os empregos e teremos os mesmos problemas que observamos no Primeiro Mundo.

QUANDO O HUMOR DESENHA A REALIDADE

 

O ISLAMISMO E A FORÇA DA PRIMAVERA ÁRABE

 

Na era do Islamismo Árabe, é possível que Israel descubra que a pressuposta intransigência do Hamás é mais flexível que a ostensiva moderação do Fatah. Israel teme o despertar islâmico. Mas o movimento nacional palestino pode ser ameaça mais imediata. O projeto de independência está sem energia; associado a políticas velhas e lideranças muito desgastadas, acabou por se autoconsumir.

Não haverá lugar no novo mundo para o Fatah e a OLP. Ninguém mais está preocupado, como primeira preocupação, com a Solução dos Dois Estados. Está em vias de expirar, não por causa da violência, das colônias israelenses ou pelo papel dos EUA atrabiliários. Morrerá de indiferença.



Uma era islamista, que retome o fim do interlúdio nacionalista (de onde o Império Otomano parou) não é coisa predeterminada.
A Fraternidade Muçulmana floresceu na oposição, em boa parte, porque se manteve secretiva, mostrou paciência, impôs e obteve disciplina interna. Ganhou influência ao longo dos anos mediante trabalho silencioso e luta.
Quando os islamistas disputaram o poder, perderam muitos de seus ativos, que se tornaram obsoletos. Têm de movimentar-se abertamente porque as políticas são mais transparentes; ajustam-se rapidamente porque as mudanças são rápidas; e lidam com a diversidade nas suas fileiras porque o sistema todo se tornou mais plural.

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TUNÍSIA

Os islamistas que governam a Tunísia devem fazer uma escolha sobre o lugar do Islã na nova Constituição; se optam por lugar mais moderado, enfurecem os salafistas, não ganham a confiança dos não islamistas e confundem legiões dos seus próprios quadros.

A Fraternidade Muçulmana do Egito enfrenta ataques de secularistas por injetar religião demais na vida pública; e dos salafistas, por não injetar a quantidade necessária. Irmãos afastam-se, para unir-se a expressões ou mais moderadas ou mais rigorosas do Islamismo.
A ênfase que a Fraternidade dá à economia de livre-mercado e às classes médias não é vista com bons olhos pelos mais pobres.

Até aqui, o novo linguajar islamista, que enfatiza liberdade, democracia, eleições e direitos humanos, recebe elogios no Ocidente, mas, dos críticos, só ceticismo. Parecem palavras, nada além de palavras, mas palavras fazem enorme diferença; podem ganhar vida própria, forçar mudanças políticas, tornar a coisa difícil de renegar.
Nesse momento, a Fraternidade pode converter-se no partido que diz que é, mas, então, o que terá restado de seu islamismo? Ou pode persistir como o movimento que foi, mas, então, o que terá restado de seu pragmatismo?

Historicamente uma organização transnacional ligada por fortes laços de coesão interna, a Fraternidade hoje já não fala voz única dentro de um país nem, tampouco, através das fronteiras.
Com o poder a tentar todos, cada ramo tem prioridades e preocupações políticas diferentes, não raras vezes opostas.

Os islamistas também enfrentam os dilemas da política exterior. A nova assertividade do Egito, a tentativa de construir diplomacia mais independente, pode levá-los a confrontos com o ocidente.
A decisão aparente de suspender as posições anti-Ocidente e anti-Israel carrega o risco de alienar a Fraternidade do próprio público. Muitos egípcios anseiam por mais que um Mubarak ornamentado com versos corânicos.

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NA OPOSIÇÃO

Os islamistas prosperaram na oposição porque sempre puderam culpar outros; talvez venham a sofrer no poder porque outros poderão culpá-los. Diluam as agendas doméstica e externa, e correm o risco de perder militantes; insistam nelas e afastarão deles os não islamistas e o ocidente.
Adiem a luta contra Israel, e sua retórica soará desconectada de sua política; avancem na luta contra Israel, e sua política parecerá ameaçadora aos novos aliados no ocidente.

Se explicam que sua moderação é tática, expõem-se demais; se calam, confundem a base. São tantas as contradições a serem simultaneamente administradas nesse movimento de equilibrismo Olímpico.

O poder do Islã político fluiu sempre, sobretudo, de não ser exercido. Os sucessos recentes talvez marquem o declínio. A vida, na oposição, é sempre mais fácil.

Apesar do caos e da incerteza, só os islamistas oferecem visão autêntica, familiar, do futuro. Podem falhar ou não corresponder, mas quem pegará o bastão? Forças liberais vêm de linhagem fraca, baixo apoio popular e nenhum peso organizativo.
Remanescentes do velho regime conhecem bem as vielas do poder, mas parecem exaustos, drenados. Se a instabilidade se alastra, se a crise econômica aprofunda-se, podem talvez beneficiar-se de uma onda de nostalgia.
Mas as dificuldades são tremendas, e não têm outro argumento senão que, se as coisas andavam mal, hoje andam pior.

Assim sendo, resta sortimento variado de nacionalistas, anti-imperialistas, esquerdistas demodés e nasseristas. Sua ideologia foi a única ideologia legítima no mundo árabe, invocada pelos que lutaram contra o colonialismo e pelos que substituíram as potências coloniais.
Ideias similares também têm sido invocadas, acidentalmente, mas inegavelmente, pelos manifestantes que se viram nos protestos e passeatas e comícios desses últimos meses: falavam de dignidade, independência e justiça social, vale dizer, repetiam o mesmo léxico ideológico dos que eles mesmos acabaram de depor.

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PROGRESSISMO

Essa visada não islamista, “progressista”, tem raízes, apelo e soldados de infantaria; não tem qualquer organização nem recursos e foi indelevelmente manchada e corrompida por gerações que governaram em seu nome. Conseguirá reinventar-se ela mesma?
Se a Fraternidade Muçulmana não der atenção aos sentimentos nacionalistas populares, se ignorar as aspirações populares por justiça social, se não conseguir governar com eficácia e efetividade, pode surgir uma abertura. Uma visada mais nacionalista, progressista, pode tentar voltar ao palco.

Um vídeo está circulando. Nasser regala a multidão com a história de seu encontro com o então líder da Fraternidade Muçulmana que lhe pede que obrigue as mulheres a usar o véu. Nasser responde: “Sua filha usa véu?” “Não.” “Se você não controla sua filha, como espera que eu controle dezenas de milhões de mulheres egípcias?” Nasser ri e a massa ri com ele.
Era começo da década dos 1950s, há mais de meio século. Hoje, já se tem saudade desse humor e dessa superficialidade. A história não anda para a frente.

O século 20 pode ter sido desvio aberrante na trajetória inerentemente islâmica do mundo árabe? O renascimento islâmico hoje é retrocesso, volta atrás anômala, na direção de passado já envelhecido há muito tempo? Qual o desvio? Qual a trilha natural?

(Transcrito do site Iran News, editado por Valter Xéu)