"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 11 de novembro de 2012

CORRUPÇÃO E POLÍTICA


A luta contra a corrupção foi um tema comum nos últimos dias em várias dimensões, especialmente sua relação com a atividade política.
Pelo inusitado da situação, chamou a atenção do mundo a advertência do presidente chinês Hu Jintao , no discurso de abertura do XVIII congresso do Partido Comunista da China (PCC), de que a corrupção que afeta a sociedade chinesa, classificada de endêmica, “pode provocar a derrubada do Partido e do Estado”.

A solução para o problema, segundo ele, passa pelo aperfeiçoamento do sistema democrático chinês, “com o objetivo de garantir que o povo possa ter eleições e decisões democráticas”.
Embora a democracia de que fala Hu Jintao tenha pouco a ver com a que se conhece no Ocidente, é interessante notar que ele identifica na ampliação das “decisões democráticas” uma das formas de derrotar a corrupção no país.

Na vida real, a China enfrenta denúncias de escândalos de corrupção na política que são divulgadas seletivamente. O líder Bo Xilai, que deveria estar tendo um papel de destaque no atual Congresso, foi expulso do partido e está preso sob acusações diversas, inclusive de assassinato.

Já as informações da imprensa internacional, especialmente do New York Times, sobre enriquecimento de parentes do futuro presidente Xi Jinping e do primeiro-ministro Wen Jiabao são censuradas no país.

Também a presidente Dilma Rousseff encontrou no discurso de abertura da conferência internacional anticorrupção, que o Brasil sedia pela primeira vez, um momento ideal para falar indiretamente dos efeitos do processo de mensalão na política brasileira, especialmente depois que as eleições municipais revelaram um número acima da média histórica de votos brancos, nulos e abstenções:

"O combate ao malfeito não pode ser usado para atacar a credibilidade da ação política tão importante nas sociedades modernas, complexas e desafiadoras. O discurso anticorrupção não deve se confundir com o discurso antipolítica, ou antiestado, que serve a outros interesses. Deve, ao contrário, valorizar a política, a esfera pública, a ética, o conflito democrático entre projetos que nela tem de ter lugar. Deve reconhecer o papel do Estado como instrumento importante para o desenvolvimento, a transparência e a participação política.".

Um pronunciamento perfeito, que separa as questões de Estado das partidárias e dá uma dimensão valorizada da atividade política, muito além do toma-lá-dá-cá a que a própria presidente cede na rotina diária de seu governo.

 Recentemente, em uma entrevista ao Prosa e Verso do Globo por ocasião de seus 80 anos, o intelectual público Eduardo Portella já repudiava a associação automática entre política e corrupção:

— Há um desinteresse político do intelectual. Não que ele deva ser político, mas deve estar o tempo todo assistido por uma consciência política e deve tomar decisões de repercussão política. Isso é fundamental. Alguns são alienados por natureza, interessados apenas em fazer seu sonetinho. Outros são céticos estruturais, é a turma do voto em branco. E há quem seja desconfiado porque confunde política com mensalão. O mensalão é um absurdo da vida política, mas o exercício da política é uma necessidade da democracia — afirmou.


O publicitário Jorge Maranhão, dedicado à causa da cidadania e coordenador da ONG Voz do Cidadão, acha que a presidente Dilma tem sido mais feliz como chefe de Estado do que de governo. “A impressão que se tem é a de que, se entrincheira na função de chefe de Estado para evitar o embate duro e nem sempre limpo e leal da política cotidiana”.

Mesmo na barganha de cargos em campanhas eleitorais, Maranhão ressalta que “ela não cede além dos cargos do poder Executivo, de resto direito seu, mas evitando o jogo para os cargos das demais instituições de estado”.

Para ele, sua consciência funcional é inequívoca “quando não submete a políticas de governo de interesse partidário as políticas de Estado de interesse público, como quando se relaciona com instituições como as Forças Armadas, os Tribunais de Justiça, o Ministério Público, a Receita Federal, o Banco Central e a Polícia Federal, por exemplo”.

Mais recentemente, Maranhão lembra que a presidente tem feito prevalecer uma política de Estado também com as instituições de controle e gestão, “e aí, é que tem feito toda a diferença reconhecida inclusive por organismos multilaterais da área”.

11 de novembro de 2012
Merval Pereira

O BODE DE PLANTÃO

 

Não falha nunca. Ao final de cada eleição, a reforma eleitoral volta à baila como essencial, inadiável. Passam-se alguns meses e ninguém mais fala disso. No máximo se faz uma maquiagem aqui, outra acolá, nas regras para o pleito seguinte, e pronto.

Em 2010, mal as urnas deram a vitória a Dilma Rousseff, Lula anunciou que se dedicaria de corpo e alma para provar que o mensalão era uma farsa e aprovar a reforma política, a mãe de todas. Só se dedicou à primeira empreitada. E sem sucesso. De reforma política nada mais falou.

Desta vez, coube a José Dirceu reavivar o tema. Réu condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha, o ex-ministro saiu na defesa do financiamento público das campanhas e da inclusão da regulamentação da mídia na pauta do PT de 2013.

Assim como Lula, é pouco provável que Dirceu esteja interessado na reforma política. Quer mesmo a regulamentação da mídia, nome pomposo para controle e, consequentemente, limitações à imprensa que tanto incomoda o PT, a si e aos seus. Sem meias palavras, censura.

Aliás, chega a ser cômico um partido que considera caixa 2 crime menor, a ponto de admiti-lo diante da Corte Suprema, propor financiamento público de campanhas. E ainda fazê-lo em nome da moralização do pleito, sob o argumento de que as doações privadas são portas para a corrupção.

Em suma, candidamente, o PT culpa o sistema e não o ladrão. É como dizer: só roubei o carro do vizinho porque ele deixou a garagem aberta.

Mas partido algum tem interesse real na reforma política. Todos fingem dar importância a ela, mas tergiversam na hora do vamos ver. Na Câmara dos Deputados e no Senado, há anos o assunto passa de urgência urgentíssima para gaveta engavetadíssima.

O Parlamento deixa crescer vácuos nas regras eleitorais, obriga a Justiça a tampá-los emergencialmente em cada pleito, e depois reclama que a Justiça está ocupando os espaços legislativos.

Enquanto isso, questões como voto facultativo - já praticado e não legalizado, como se viu na ausência de 30% dos eleitores nas eleições municipais -, sistema eleitoral, voto distrital puro ou misto, regulamentação das lacunas da Ficha Limpa e outras tantas ficam no limbo. E a quem isso apoquenta? A ninguém.

Conclui-se, então, que a reforma política tem relevância menor do que a ela se atribui. Tornou-se um bom encosto para enfeitar discursos. Um bode de plantão para se tirar da sala.

Foi o que Lula fez. É o que Dirceu repete agora.

11 de novembro de 2012
Mary Zaidan é jornalista, trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília.

ALERTA PARA 2016

Se a metodologia não for modernizada e unificada em um mesmo padrão nacional, a confiabilidade da contagem de votos no país que se gaba de exportar democracia ficará cada vez mais capenga

 
Desta vez, até os americanos parecem ter constatado o óbvio: o sistema eleitoral do país está falido. Não na sua essência, visto que a escolha do presidente por um colégio de delegados eleitorais ainda representa um dos alicerces federativos e constitucionais mais caros à nação.

A eventualidade de esse sistema vir a ser substituído pelo voto direto, se é que algum dia isso ocorrerá, envolve um debate bem mais profundo, complexo e difícil do que a eterna reforma política prometida no Brasil. Pode esperar mais uma geração.

É a forma neurastênica, insatisfatória, incompreensível e inviável na qual se transformou o ato de votar nos Estados Unidos que exige uma reforma imediata.

No início da madrugada de quarta-feira, quando Barack Obama emergiu em Chicago para seu primeiro pronunciamento como presidente reeleito, eleitores da Flórida ainda faziam fila de muitas horas para depositar uma cédula já desprovida de peso.

Quase dois séculos atrás, ao ser instituído, o dia de votação para presidente dos Estados Unidos seguiu um critério. A nação de então comungava de uma mesma fé cristã e a ideia de um compromisso não religioso aos domingos era imprópria.

Votar numa segunda-feira, logo no início da semana, seria perfeito não fossem as distâncias e dificuldades de locomoção da época. Reservou-se então a segunda-feira para chegar até uma urna, e a data oficial de exercer o direito ao voto passou a ser uma terça-feira. A primeira terça-feira de novembro.
Isso não faz mais sentido. O voto não sendo obrigatório, nenhum empregador dispensa os funcionários que queiram votar. As filas começam a se formar de madrugada, à espera da abertura dos postos eleitorais às 6 da manhã, e terminam noite adentro, com eleitores que encerraram sua jornada de trabalho.

Na Flórida, as cédulas tinham 10 páginas, para comportar escolhas para presidente, deputado, senador e referendos locais.

Em vários estados, decisões judiciais conflitantes sobre a obrigatoriedade ou não da apresentação de documentos com foto levaram eleitores e mesários à beira de ataques de nervos. Manobras para tentativas de fraude não faltaram.

A seção eleitoral 04 de Nova York foi exemplar dessa barafunda. Ela estava instalada num dos prédios da City University, nas esquinas da Rua 80 com East End Avenue.

No abastado Upper East Side, portanto. Neste naco da cidade, que vai do Central Park até o Rio East e da Rua 59 até a 96, residem 200 mil pessoas. É a única zona de Manhattan onde os republicanos constituem mais de 20% do eleitorado e é tida como a de maior concentração de fortuna pessoal.
No passado, ali se instalaram dinastias como os Carnegie, os Frick, os Vanderbilt, os Kennedy, os Whitney e seu corolário de museus.

Afixados nas paredes da 04 e espalhados por toda parte da sala havia folhetos explicativos dos Direitos do Eleitor. Além do texto em inglês, uma versão em espanhol, é claro.

Mas havia também, do mesmo tamanho e com destaque igual, uma versão em chinês, outra em coreano e uma última em bengalês, a sexta língua mais falada do mundo porém oficial só em Bangladesh e parte da Índia.

Só que os residentes do Upper East Side são 88% brancos. Asiáticos, apenas 6,1%; hispânicos 5,6%; e a população negra não passa de 2,3%. Desperdício de falso multiculturalismo, portanto.

Até porque, à medida que chegavam para votar, os eleitores iam sendo informados da situação real apenas em curto e bom inglês: “All the machines are down.” Equivalente ao nosso “o sistema está fora do ar”, o aviso se referia a duas scanners plantadas no fundo da sala e essenciais para a votação.

O ato de votar, ali, se dava em várias etapas. A primeira fila desembocava num mesário, a quem o eleitor enunciava o nome sem precisar mostrar qualquer documento de identidade. Uma segunda fila para receber a cédula, do tamanho de uma folha de papel A4. Nova fila de espera até vagar uma das cabines para preencher manualmente a cédula.

Feito isso, com todas as filas se enroscando na mesma saleta, última fila para inserir a cédula preenchida na scanner, para o registro oficial do voto.

Dado que as scanners ficaram fora do ar das 6 às dez da manhã, a alternativa foi dobrar a cédula, colocá-la num envelope, fechá-lo passando saliva na dobra e entregá-lo a um dos mesários. Ou então insurgir-se contra tudo aquilo e bater em retirada sem votar.

“É uma indignidade. Sequer posso ter certeza de que meu voto será efetivamente computado. Parece eleição de 70 anos atrás”, irritou-se Emma Firtsch, de 86 anos, que se locomovia de andador. Os idosos eram os mais decididos a não desistir.

John Mete, o inspetor da seção 04, se declarou desolado. “Montamos um esquema que ao invés de simplificar problemas parece estar criando outros tantos”, desabafou durante uma pausa para fumar na rua.

O próprio Barack Obama, ao fazer o discurso da vitória para seu público em júbilo na madrugada de quarta-feira, fez referência à crescente paralisia do sistema atual. “Precisamos consertar isso, e rápido”, prometeu.

Ele sabe que, se a metodologia não for modernizada e unificada em um mesmo padrão nacional, a confiabilidade da contagem de votos no país que se gaba de exportar democracia ficará cada vez mais capenga. E 2016 está logo ali.

Pelo menos esse problema ele não tem desculpa para não consertar. Já o abismo fiscal, o crescimento econômico, a muralha do antagonismo ultraconservador...

Em tempo: a notícia boa é que perdeu quem apostou na vitória do dinheiro sobre o voto.
Os bilhões investidos na campanha de Mitt Romney foram para o ralo.

11 de novembro de 2012
Dorrit Harazim é jornalista, O Globo

MUNDO VELHO SEM FRONTEIRA

 

O Supremo Tribunal Federal determinou a apreensão do passaporte dos condenados no processo do Mensalão. A Polícia Federal foi informada de que os condenados só podem deixar o país com conhecimento e autorização da Justiça.

Então, tá. O Brasil não produz fuzis AR-15, as bazucas e metralhadoras antiaéreas encontradas com bandidos são fabricadas no Exterior, a maior parte da cocaína aqui consumida vem de outros países. Nada disso, reafirme-se, é importado legalmente: entra numa boa, e em fartas quantidades, apesar das proibições.

Um único avião sem piloto comprado para patrulhar a fronteira seca do Brasil foi apresentado à imprensa e em seguida alojado num confortável hangar, onde passa sua vida útil sem ter dado, em mais de um ano, um simples e singelo voo. Por que? Não se sabe; mas tudo que não devia continua cruzando a fronteira.

Se cruza para dentro, por que não para fora? O médico Roger Abdelmassih, condenado a muitos e muitos anos de prisão, está desaparecido. Pode estar fora do país, conforme se especula; talvez esteja em algum lugar desse nosso imenso território, livre, leve, solto e bem protegido. Fora ou dentro, é a mesma coisa: nossa Polícia não tem a menor ideia de onde esteja, com ou sem passaporte.

Como disse o médico de Carlos Lacerda para convencê-lo a suspender uma greve de fome, tenta-se representar Shakespeare no país de Dercy Gonçalves. Baixam-se normas como se por aqui tudo funcionasse. Mas aqui é Brasil.

Se não querem que os condenados fujam, não são proibições que vão impedi-los.

11 de novembro de 2012
Carlos Brickmann, Brickmann & Associados

CHARGE DO DIA




11 de novembro de 2012

QUEREM DOMESTICAR A INTERNET

 

Com mão de gato, puseram pelo menos dois cascalhos no projeto do marco regulatório da internet que permitirão a censura da rede. Coisa de mágicos. Veja-se o parágrafo 3º do artigo 9º:

“Na provisão de conexão à internet, onerosa ou gratuita, bem como na transmissão, comutação ou roteamento, é vedado bloquear, monitorar, filtrar, analisar ou fiscalizar o conteúdo dos pacotes de dados, ressalvadas as hipóteses admitidas na legislação.”

É o arcabouço do qual saiu o modelo chinês. A internet é livre, desde que cumpra as normas de serviço, portarias e regulamentos do governo. Felizmente o deputado Miro Teixeira apresentou uma emenda supressiva ao texto do comissariado, cortando-o a partir de “ressalvadas as hipóteses”.

Outro dispositivo diz que, para “assegurar a liberdade de expressão”, o provedor poderá ser responsabilizado civilmente se não cumprir uma ordem judicial que manda bloquear uma conexão.

A coisa fica assim. O soldado Bradley Manning rouba 750 mil documentos secretos do governo americano, transmite-os para o site WikiLeaks por meio de um sistema impossível de ser rastreado (ele só foi descoberto porque contou sua proeza), e um juiz de Mato Grosso manda o Google esterilizar o link. Se não o fizer, pagará uma multa, e seu gerente poderá ser preso.

O projeto, que poderá ser votado terça-feira, fala na defesa da liberdade de expressão e de acesso à informação para aspergir limitações. É a técnica da reunião que baixou o AI-5, na qual se falou 19 vezes em democracia e criou-se a ditadura

11 de novembro de 2012
Elio Gaspari, O Globo

FRASE DO DIA



"O governo isenta automóveis de impostos e não isenta remédios. Isso é a corrupção das prioridades."


 José Antonio Reguffe, deputado federal (PDT-DF)

11 de novembro de 2012

A CLASSE MÉDIA VAI AO PARAÍSO

 

Os bancos passaram meses atordoados com o inesperado aumento da inadimplência no crédito às pessoas físicas. Tudo se passou como se coisas novas estivessem acontecendo nesse mercado. E, de fato, aconteceram.

Os relatórios oficiais do governo da presidente Dilma Rousseff falam com entusiasmo dos cerca de 40 milhões de pessoas incorporadas às classes médias de consumo no Brasil nos últimos dez anos. É gente que passou a se alimentar mais adequadamente, a estudar mais, a ter acesso a uma conta bancária, a um plano de saúde. E tem agora automóvel, geladeira, celular, cartão de crédito e começa a viajar de avião.

Para o bem e para o mal, tudo isso muda muita coisa na vida e, principalmente, muda muita coisa no orçamento doméstico. Essas pessoas começam a entender que ser classe média também custa mais caro e planta armadilhas econômicas na vida diária.

Comprovaram no próprio bolso, por exemplo, que comprar um carro é mais do que levantar um financiamento e pagar as prestações mensais. Implica mudanças de padrões de consumo que, mal administradas, podem derrubar o consumidor em buraco difícil de sair. O novo dono de um carro logo vê que é empurrado a novas despesas e novas tentações. É IPVA, licenciamento, seguro, taxa de inspeção veicular, despesa com combustíveis, lubrificantes, estacionamento, lavagem, mecânica, pedágio, flanelinha, fim de semana na Praia Grande e esticadas com as crianças no Simba Safári.
O sujeito vai, é claro, exibir seu carrão para a parentada e para os amigos, como sugerem os anúncios.

E isso também custa mais dinheiro. Levar a namorada ao shopping, por exemplo, acarreta despesas inesperadas. E esse é só o começo de uma lista interminável de novas demandas, como ocorre também com quem passa a pilotar um celular, a internet ou a TV por assinatura. Todas essas situações contribuem para que o salário acabe antes do final do mês, sina de qualquer pobretão.

Não é somente o consumidor que vem tendo de aprender com situações novas. Os bancos também vêm apanhando. Aparentemente, ao fazerem a avaliação de risco de um empréstimo para esses seus relativamente novos clientes, os bancos não consideraram o impacto de sua nova condição de consumidor de classe média sobre a renda familiar.

Tudo isso não desembocou meramente na elevação da inadimplência (mostrada no gráfico). Também mudou algo na administração das garantias. Expandiu a diferença entre os preços do carro usado e do carro zero. É uma realidade que sepultou de uma vez um conceito estranho, que teve tanta força nos tempos de inflação: o de que automóvel é "investimento". Outro impacto foi certa deterioração da principal garantia em vigor no empréstimo bancário de um veículo: a reserva de domínio. Em grande número de casos, a retomada do veículo nas inadimplências deixou de cobrir o saldo devedor.

Enfim, o crescimento dos segmentos de classe média no Brasil está mudando hábitos de consumo, traços de comportamento e práticas de administração financeira. Ainda está para ser avaliado o impacto dessas mudanças na própria cultura brasileira e na administração da política econômica.

11 de novembro de 2012
CELSO MING - O Estado de S.Paulo

MÃO NA MASSA

 

O senador Aécio Neves não se declara candidato à Presidência da República em 2014, mas é assim que se vê. É dessa perspectiva que analisa o panorama e é para se consolidar como "candidato natural" da oposição que se movimenta.

A estrada é longa - há o ano que vem todo para atravessar, um discurso a construir e muitos cacos a juntar no PSDB -, mas o alento do tucano é que o caminho não é tão deserto quanto ele mesmo supunha nem o lobo mau anda tão perto a ponto de representar um obstáculo intransponível.

"O resultado da eleição municipal mostrou que não há cidadelas inexpugnáveis, que a popularidade de Dilma e Lula não é garantia de vitória e que a oposição não está morta", diz, afastando a hipótese de estar sendo artificialmente otimista, já que a mais o PT derrotou o PSDB em São Paulo, a mais importante das cidadelas.

Prejuízo grande? "Enorme. Em boa parte devido à ação deletéria de Gilberto Kassab, que conseguiu projeção nacional no espaço aberto para o PSDB, dizimou o DEM, construiu suas pontes com o governo e agora é nosso adversário."

Dano irrecuperável? "Nem de longe. Continuamos com os governos de São Paulo e Minas. Ganhamos as três últimas presidenciais no Sul e Centro-Oeste e agora conquistamos inserção importante no Norte e no Nordeste, de onde havíamos sido praticamente varridos."

Uma surpresa. Meses antes da eleição os tucanos achavam que no Nordeste a oposição só ganharia em Aracaju, com o veteraníssimo João Alves, do DEM.

Por isso, o saldo de vitórias na parte do País onde o governo federal fincara sólidas bandeiras é visto com festejo: Salvador, Teresina, Maceió, Manaus, Belém e Aracaju. Inclui Fortaleza e Recife, conquistas do PSB em confronto com o PT, para dizer que a invencibilidade de Lula é um mito e a boa avaliação de Dilma não resulta necessariamente em influência de voto.

"A presidente se empenhou pessoalmente em cinco cidades, (Belo Horizonte, Campinas, São Paulo, Manaus, Salvador) e perdeu em quatro."

Mas só isso não faz do PSDB uma opção competitiva nem é suficiente nem para abalar a aliança em torno da reeleição de Dilma Rousseff.

Aécio concorda e acha indispensável pôr a mão na massa e o pé na estrada. Montar um "novo time" quando da mudança da executiva nacional do PSDB em maio, abrindo espaço para a nova geração de prefeitos e parlamentares.

"Depois disso, tenho uns seis meses para viajar pelo País." A ideia é falar nas Assembleias Legislativas, nas universidades, nas emissoras locais, aproveitando todo tipo de oportunidade para levar ao eleitorado temas como saúde, segurança, penúria dos municípios, aparelhamento do Estado, eficácia de gestão, ética na política e mais quais forem os temas escolhidos pelo partido.
E o tom desse discurso, será ameno ou de embate com o Palácio do Planalto?

O senador é criticado dentro e fora do PSDB por ter tido uma atuação frustrante diante da expectativa de que seria o grande líder da oposição depois de deixar o governo de Minas.

"Sei disso. Às vezes penso que talvez tivesse sido melhor não ter ido para o Senado, onde a oposição não tem destaque e o ambiente é de subserviência absoluta."

Daí o plano de atuar mais fora do Parlamento em 2013. Candidatura para valer - "se for o caso", acrescenta a título de precaução - só na virada do ano eleitoral.

Anuncia que assumirá gradualmente posições mais contundentes, embora dentro de um limite: "Não acho que vá ganhar a eleição quem se dedique exclusivamente a dar pancada no governo. Se eu tivesse feito isso, teria sido pior, estaria mais desgastado".

Preservando-se para pescar nas águas governistas?

"Tenho trânsito em todos os partidos, mas no momento a preocupação é outra: cumprir uma agenda que faça do PSDB uma expectativa viável de poder, porque sem esse ativo não vamos atrair ninguém."

11 de novembro de 2012
DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo

IMAGENS DO DIA

 
Argentinos tomam as ruas de Buenos Aires para protestar contra o governo de Cristina Kirchner
Argentinos tomam as ruas de Buenos Aires para protestar contra o governo de Cristina Kirchner - Leo la Valle / EFE


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  • Vista aérea de enorme manifestação contra o governo em Córdoba, na Argentina
    Vista aérea de enorme manifestação contra o governo em Córdoba, na Argentina - AFP
     
    11 de novembro de 2012
     

    PAJELANÇA

    Celso Arnaldo arrasador: Para acabar de novo com o drama da seca, a presidenta não promete fazer chover, mas radicaliza no dilmês de pajelança:

    “Nós queremos usá a água pra aumentá o chamado di comer”


    Dilma Rousseff não tem dado muita sorte na Bahia: há duas semanas, seu já lendário “Comício de Cazajeiras” consagrou a derrota da candidatura de Nelson Pelegrino à prefeitura de Salvador.
    Mas este é um momento mágico na relação entre o homem e o meio ambiente: em Malhada, a 900 quilômetros da capital, no castigadíssimo sertão baiano, a presidenta vai transformar um discurso pífio em água abundante, na cerimônia de inauguração da primeira etapa do sistema adutor da região de Guanambi – na verdade, mais uma inauguração da promessa de acabar com a seca no nordeste.

    O truque é velho, mas ainda funciona. Encharcados pelos perdigotos errantes da discurseira presidencial, os baianos ali presentes, e em seguida todos os nordestinos, já começaram a se imaginar mergulhando em suas novas jacuzzis naturais.

    E o milagre parece ainda maior quando se ouve com boa vontade – e o espanto de sempre — este vídeo de 5min37s com o Discurso de Malhada: a estiagem do pensamento de Dilma chega a ser bíblica, apocalíptica. Nenhum sertanejo sem água e letras jamais escutou uma fala tão primitiva, arcaica e árida – e incompatível com as altas funções da animada senhora que traz consigo uma enchente de prenúncios de vida farta e fértil.

    Sem tempo sequer para se abrir um guarda-chuva, começa o dilúvio de sandices:
    “Eu queria dar bom dia pra todas as mulheres aqui. E também pros homens. Afinal de contas, afinal de contas, as mulheres são mães de todos os homens. Então tá todo mundo em casa”.


    Weslian Roriz disse isso? Ângela Bismarchi? Não, foi a presidente da República – que, desde a campanha de 2010, encasquetou com essa imagem tosca da transcendência feminina através da maternidade masculina e a vem piorando de discurso em discurso: as mulheres, maravilha-se ela, são as mães de todos os homens — como o são, aliás, de todos os seres humanos. Ou seja: como nunca antes neste país, somos filhos de nossas mães. Uma grande vitória da mulher: na herança maldita e machista de FHC, nós, os homens, é que éramos pais de todas as mulheres.

    É, mas esse negócio de DNA não é tão simples. A presidente, meio mineira, meio gaúcha, nas proporções que lhe convêm, é um cadinho de torrões natais:

    – Porque eu tenho um pedaço de mim que é baiano.

    Sobre essa estranha baianidade, mais não disse nem lhe foi perguntado, mesmo porque o assunto em pauta vai além de regionalismos: as vidas secas, neste país, estão com os dias contados, como insistiu o retirante Lula, também conhecido como Dom Predo III, durante oito anos.
    – Pra nós agora, chegou a hora, junto com o Jaques Wagner, da gente (sic) resolver o problema da água de uma forma a garanti que as mulheres e os homens, as crianças, possam tomá café de manhã, tomá banho, tê uma água saudável.


    No nordeste, o chamado “problema” da água continua sendo sua inexistência. Mas isso agora será consertado, começando por esta adutora baiana. E com um governo que se orgulha de suas secretarias de promoção da igualdade racial, das mulheres e dos direitos humanos em geral, é um alento saber que a nova água não fará discriminação de gênero e faixa etária – conservadas, é claro, suas características organolépticas clássicas: incolor, insípida e inodora. Melhor ainda: degustada no café da manhã, também poderá ser usada para a higiene pessoal. Outra grande ideia do governo Dilma.
    Mas, espere, não é só:

    –E também nós queremos, e por isso que nós vamos lançar terça-feira o programa de irrigação, nós queremos usá a água pra aumentá o chamado “di comer”. Nós queremo aumentá a produção de alimentos.

    Claro: depois do “di beber”, o “di comer” – ou o “chamado di comer”. Mas quem chama? É como se diz comida por aquelas bandas? Ok, não importa. Sim, em se plantando, tudo dá – mas vá fazer isso sem água: o governo Dilma descobriu, em boa hora, mais uma aplicação vital do “precioso líquido”. E, oba, vem aí mais um programa com a marca do governo Dilma. Na terça-feira, tem discurso de inauguração de mais uma promessa.

    Parece que, antes mesmo de achar água, Dilma está se achando, de novo com essa velha história de acabar com a seca no nordeste, enquanto os sertanejos e suas criações minguam e fritam como torresmo, mortos de sede, numa escala como nunca antes neste país. Humilde, nossa moça do tempo se rende à força da natureza:

    – A gente sabe, dentro da nossa condição de seres humanos, que nós num controlamos o clima. Nós não controlamos o dia que chove, quando não chove, porque um ano chove mais do que o outro. Mas nós podemos garantir que a gente tenha instrumentos para que quando não chovê a gente tenha água istocada, que a gente tenha um açude, que a gente tenha uma adutora pra captá água de um rio volumoso, como é o São Francisco, e levá água pra população, de forma garantida, chova ou faça sol.
    Um dia, alguém que hoje tem grande credibilidade transformou água em vinho. De palanque em palanque, de promessa em promessa, a presidente anuncia, em conta-gotas, um milagre muito mais difícil: transformar papel em água.

    Daí a evocação de São Francisco? Por falar nele, e a transposição? A enxurrada de desvios já foi transposta para a polícia? As obras, abandonadas pelas empreiteiras conchavadas, serão retomadas, sem caudalosos aditivos, chova ou faça sol?


    CATEDRAIS E DUBLAGENS


    Prezado Janer,

    sou teu conterrâneo de estado, e leitor assíduo do teu blog, e estou escrevendo para te confirmar que para quem conhece as catedrais que tu citou, das quais eu compartilho conhecimento da basílica de São Marcos, além também de conhecer, a basílica de São Pedro, o duomo de Milão e a catedral de Florença, só para citar as grandes. Não perdeste nada em não conhecer aquelas pequenas igrejas do interior de Minas, (eu as conheci). Quem viu estas grandes catedrais européias não se impressiona mais com os entalhes dos santos feitos pelos mestres brasileiros. Nestas catedrais européias as peças foram entalhadas no mármore por Miquelangelo e outros mestres europeus, não tem nível de comparação. Qualquer defesa em contrário seria mero bairrismo.

    No teu artigo sobre as dublagens nos programas de televisão, quando tu dizes que a maior parte das pessoas não tem a capacidade de ler as legendas e por isso a TV está sendo dublada, concordo plenamente. Em um país onde o estudo e a cultura está sendo nivelado por baixo, as pessoas que sabem "ler e interpretar um texto" são vistos como arrogantes e elitistas, para ilustrar o estado das coisas vou citar um parágrafo do livro "Il nuovo stato industriale" (p.213), de John Kenneth Galbraith, onde ele escreve o seguinte:

    "A suspeita ou o rancor não se dirigem mais para o capitalista ou simplesmente o rico. São os intelectuais que recebem olhares de suspeita e desconfiança, o que não surpreende ninguém; nem deveria surprender o fato de que milionários de pouca cultura se ponham a dirigir ou a financiar os ignorantes na luta contra os intelectualmente (e portanto socialmente) privilegiados, porque nisto se manifesta qual é a distinção de classe que conta hoje em dia".

    Este parágrafo cai como uma luva no teu artigo, as programações em todos os tipos de mídias estão baixando o nível para incluir esta massa de pessoas incultas e dominadas, e não é só no Brasil, isto está acontecendo em caráter global. Ao invés de melhorar a qualidade do que se mostra, para tentar melhorar o nível de cultura do povo, baixa-se o nível para tornar as mídias "acessíveis" aos dominados. No início da década de 80 eu tive um professor que dizia que daquela época em diante o Brasil iria se nivelar por baixo, "quem viveu viu".

    Tu és um dos poucos que diz o que eu quero ouvir. Estou cansado de colunas e blogues "politicamente corretos e concordinos do governo" Pessoas levantam bandeiras de causas das quais nem sabem do que se trata. Janer continue como um bastião das pessoas que tem opinião, coisa rara neste país.


    Um fraternal abraço,
    Jorge Brum
    Porto Alegre RS

    PS - "Dominados" é o termo usado por alguns escritores para designar as massas (antigo proletariado) na sociedade pós industrial.

    VALÉRIO, O HOMEM-BOMBA

    HOMEM-BOMBA DO MENSALÃO VOLTA A ASSOMBRAR O PT: PROMOTOR ACREDITA QUE VALÉRIO PODE AJUDAR A ESCLARECER CASO CELSO DANIEL.
     
    Mais de uma década após o brutal assassinato do prefeito petista Celso Daniel em um episódio nebuloso, que até hoje assombra o PT, investigações relacionadas ao caso podem receber um "empurrão" graças ao empresário Marcos Valério, o operador do mensalão que foi condenado a 40 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

    Essa é a opinião do promotor Roberto Wider, responsável pela promotoria criminal de Santo André, para quem um novo depoimento de Valério pode ajudar a ligar "pontas soltas", reforçar provas e responder perguntas em diversas investigações que foram conduzidas pelo Ministério Público na esteira da morte de Celso Daniel.
    Edição de VEJA da semana passada mostra que Valério revelou em depoimento à Procuradoria-Geral da República que Ronan Maria Pinto, um empresário ligado ao antigo prefeito, estava chantageando o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, para não envolver seu nome e o do ex-presidente Lula na morte de Celso Daniel. O teor exato da ameaça permanece uma incógnita.
    Empresário com diversos negócios na região do ABC paulista, Ronan é apontado pelo Ministério Público como um dos participantes do esquema de corrupção instalado em Santo André durante a administração de Celso Daniel. Já Carvalho ocupou, à época da administração de Celso Daniel, as secretarias de Comunicação e de Governo da prefeitura. De acordo com a reportagem, Valério disse que a cúpula petista pediu sua ajuda no episódio para ajudar a liquidar a fatura, mas ele não quis se envolver. O operador, no entanto, afirma que a chantagem foi paga. Agora, a promotoria quer entender melhor essa história.
    “Não tenho preconceito em ouvir o Valério. Ele pode ter sido condenado a 40 anos de prisão, pode estar desesperado, mas só vamos saber se o que ele disse ou pode dizer vale alguma coisa se formos ouvi-lo. Se chegarmos a Minas Gerais e ele não quiser falar, paciência. Pelo menos tentamos”, disse ao site de VEJA.
    Wider propôs as duas ações relacionadas ao caso que correm na Justiça. Uma delas é na esfera criminal, contra o bando que sequestrou e executou o prefeito e, Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, apontado como mandante - e até hoje nunca julgado. A outra é uma ação de improbidade administrativa que corre paralelamente, proposta após as investigações do assassinato revelarem que um esquema de desvio de verbas havia sido instalado na administração de Celso Daniel.

    A promotoria afirma que Valério pode ajudar a reforçar esses processos e até mesmo sustentar a abertura de novas ações. Os resultados de um eventual depoimento de Valério no caso Celso Daniel só podem ser especulados, mas, segundo a promotoria, podem implicar ainda mais o PT e Gilberto Carvalho.
     
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    11 de novembro de 2012
    in aluizio amorim

    "MANOBRA PRIMÁRIA"

    Não é fazendo mágicas com números que o governo conseguirá equilibrar gastos com receitas e recompor a capacidade de investir
    Improvisos e imprevidências vão fazer o governo federal deixar de cumprir sua meta de superavit primário, a parcela das receitas que deixa de gastar. E ela pode não ser cumprida mesmo que o Planalto recorra a um remendo contábil, ao desconsiderar como despesa os investimentos do PAC.

    É improviso admitir que a meta não será cumprida depois de conhecidos os dados de receita e despesa de três quartos do ano. Não seria esse o caso se, como argumenta o governo, o descumprimento da meta se devesse a uma súbita e forte queda na arrecadação -tal fato, afinal, não ocorreu.

    Desde o primeiro trimestre do ano era notório que a economia cresceria pouco em 2012, muito menos que a extravagante previsão oficial. Menos crescimento, em geral, implica menos receitas.

    E é imprevidência comprometer-se a gastar tanto nos anos de bom como nos de mau crescimento.

    O governo acorrentou-se à norma de que o salário mínimo deve ser reajustado de acordo com a inflação e o crescimento de anos passados. Como resultado, o reajuste condicionado pela cifra de 2010, um ano de crescimento excepcional e insustentável, sobrecarrega as contas do fraco 2012.

    Quase dois terços do aumento de despesas neste ano se devem a dispêndios relacionados ao salário mínimo. Gasta-se mais também com os subsídios do programa Minha Casa, Minha Vida e o custeio da máquina. Ao menos reduziu-se a despesa com salários do funcionalismo como proporção do PIB.

    O investimento em obras, porém, permanece empacado. As despesas com o programa habitacional também são investimento e têm interesse social, mas não tornam a economia mais eficiente.

    É certo que parte da queda na arrecadação se deve a desonerações. Porém, dados o custo ainda elevado da dívida pública, o tamanho da carga tributária e o estado ruinoso da infraestrutura, a programação de gastos do governo continua preocupante.

    Apesar de cadente em relação ao tamanho da economia, a dívida pública ainda é cara: custa mais de 5% do PIB em juros por ano (a despesa da União, afora juros, é de cerca de 17% do PIB).

    O governo deveria poupar parte de suas receitas a fim de reduzir a dívida ou cortar impostos. Caso fosse capaz de aumentar seus investimentos produtivos de forma eficiente, e não é, talvez pudesse justificar o descumprimento da meta orçamentária.

    Porém o único argumento ao qual o governo vai recorrer é o da contabilidade criativa. A prestidigitação não vai ocultar o fato de que o gasto cresce, a dívida não se reduz de modo relevante, a carga de impostos segue alta, a infraestrutura piora e a inflação sobe.

    11 de novembro de 2012
    Editorial da Folha

    "MAIS EMPREGO PARA OS ALIADOS"

    Não é possível identificar nenhuma serventia que a criação da Secretaria de Micro e Pequena Empresa possa ter para a iniciativa privada, pois tudo o que ela vier a fazer já vem sendo feito por órgãos existentes, sem a imposição de novos encargos aos já escorchados contribuintes. Mas sua criação com status de Ministério - que acaba de ser aprovada pela Câmara e certamente passará no Senado - decerto tem muita utilidade para o governo Dilma, que propôs a medida. É mais um Ministério, o 39.º, no qual poderá abrigar mais um político que, por sua vez, nomeará 66 pessoas de sua livre escolha.


    Não se quer, com essa observação, reduzir a importância das empresas de pequeno porte para a economia brasileira. São, segundo registros da Secretaria da Receita Federal, 6,8 milhões as micro e pequenas empresas em operação no País, o que constitui 95% do universo empresarial. Grandes empregadoras, empresas desse porte têm contribuído com mais da metade dos postos de trabalho com registro em carteira abertos nos últimos anos.

    Mudanças recentes na legislação têm permitido a legalização de centenas de milhares de empresas anualmente, propiciando a seus proprietários a possibilidade de fornecer para o Poder Público, inscrever-se no sistema de previdência social, habilitar-se a financiamentos bancários e contratar funcionários legalmente, assegurando-lhes a proteção das legislações trabalhista e previdenciária, entre outras.

    Elas enfrentam, porém, problemas sérios de crescimento, muitos deles decorrentes do acirramento da concorrência com produtores externos. Continuam a carecer de competitividade, pois as políticas públicas nessa área, ainda insuficientes para as necessidades da economia brasileira, raramente as alcançam. Apesar do regime tributário que as beneficia, o sistema de impostos e tributos continua pesado e complicado demais.

    Entraves ao crescimento como esses exigem visão política e ação articulada do governo. A criação de uma secretaria, ainda que possa ser interpretada, de maneira condescendente para o governo, como o reconhecimento da importância da questão, em nada contribuirá para resolvê-la, sem que haja um esforço conjunto do Poder Público para resolvê-la.

    A criação da nova secretaria era promessa de campanha da então candidata Dilma Rousseff, que por alguma razão se encantara com a competência e a capacidade criativa da empresária Luiza Trajano, proprietária da rede de lojas Magazine Luiza - que, a propósito, está muito longe de ser uma micro ou pequena empresa. Mesmo assim, Dilma queria porque queria trazer Luiza Trajano para sua equipe de governo, justamente para cuidar das questões das micro e pequenas empresas, embora nunca a tenha convencido a aceitar seu convite.

    Agora, a criação do Ministério - pois se trata efetivamente de um novo Ministério - chega no momento politicamente adequado para o governo. A pasta se prestará às barganhas do Planalto para acomodar os interesses da base aliada, fortalecidos pelos resultados das eleições municipais ou a ela incorporados. Entre os que estão sendo citados para o cargo estão o prefeito paulistano Gilberto Kassab - que nunca escondeu seu ardente desejo de bandear-se para os lados do governo do PT - ou alguém de seu partido, o PSD.

    Quando isso ocorrer, o contribuinte talvez dê razão aos poucos deputados da oposição que votaram contra a criação do novo Ministério - foram 300 votos a favor e 45 contrários -, pois a medida, na sua interpretação, não se destina a beneficiar as micro e pequenas empresas, mas apenas a acomodar novos aliados do Planalto. "O projeto nada mais é do que arrumar emprego para os indicados da base aliada", criticou o líder do PSDB na Câmara, Bruno Araújo.

    Dane-se o contribuinte, que, ao custo adicional de R$ 7,9 milhões por ano, segundo cálculos do governo, terá de sustentar mais essa estrutura que só ampliará o poder de barganha política ao Palácio do Planalto e tornará ainda mais pesado e caro o Estado brasileiro.

    11 de novembro de 2012
    Editorial do Estadão