"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O FUNDO DO POÇO DE LULA E DE DELFIM NETTO


Petistas recorrem até a signatário do AI-5 e último dignitário da ditadura para ameaçar a imprensa

Que coisa! Eles pertencem a gerações distintas. Um já foi o antípoda do outro. Um já achou, com sua compulsão para a simplificação tosca, que o outro era o representante de tudo o que existia de ruim no país. O outro já considerou que um era uma espécie de representante das hordas bárbaras.
 
Hoje — e já há bastante tempo — estão juntos, do mesmo lado. Refiro-me a Luiz Inácio Lula da Silva e a Delfim Netto. Quando Tancredo Neves estava prestes a vencer a disputa no Colégio Eleitoral, chegou a afirmar que o líder da oposição a seu governo seria Delfim. Afinal, ele era o último, vá lá, intelectual do antigo regime.
 
Quis o destino — e isto fala muito tanto de Delfim como de Lula — que os dois estejam irmanados, agora, numa campanha contra um dos fundamentos do regime democrático. Faz sentido: cada um a seu modo, ambos são admiradores de regimes de força.
 
O signatário alegre e saltitante do AI-5 escreveu ontem um artigo na Folha em que, sem meias palavras, faz ameaças à imprensa. E expõe o motivo: a suposta tentativa de destruir a imagem de Lula.
Resta-me o quê? Responder ao artigo de Delfim parágrafo a parágrafo, evocando alguns fatos. Ele segue em vermelho; eu em azul.
Lula

O título é esse mesmo, leitor, composto dessas quatro letras, como se qualquer outra palavra diminuísse a importância da personagem. Devemos tomá-las por quatro outras: DEUS!
 
Desde a Constituição de 1988, as instituições vêm se fortalecendo e o poder incumbente tem, com maior ou menor disposição, obedecido aos objetivos nela implícitos: primeiro, a construção de uma República onde todos, inclusive ele, são sujeitos à mesma lei sob o controle do Supremo Tribunal Federal; segundo, a construção de uma sociedade democrática com eleições livres e à prova de fraudes; terceiro, a construção de uma sociedade em que a igualdade de oportunidades deve ser crescente, por meio de um acesso universal e não oneroso de todo cidadão à educação e à saúde, independentemente de sua origem, cor, credo ou renda.


Muito bem! Já que Delfim começa pelas questões, digamos, de fundo, cumpre-me fazer o mesmo. Em primeiro lugar, lembro que aquele que já foi o czar da economia o foi num tempo em que se podia agir assim sem muita dificuldade. Com o AI-5 na mão e algumas ideias na cabeça, exerceu seu ofício sem ter de enfrentar a democracia que agora ele exalta.
Uma exaltação certamente tardia, já que esteve entre aqueles que lutaram bravamente contra as eleições diretas para a Presidência da República e que depois se juntaram a Paulo Maluf no Colégio Eleitoral. Tivesse vencido o seu candidato, talvez não tivéssemos a Constituinte, não é?
 
Mas isso ainda não diz tudo. Lembro que o Plano Real, que refundou as bases da economia brasileira, foi implementado sob as mais severas críticas de… Delfim Netto! Todas as suas antevisões, então, sobre o futuro do plano e seus desdobramentos falharam de forma cabal.
Em São Paulo, juntou-se a Paulo Maluf e com ele seguiu até quando vislumbrou naquele que já foi chamado pelo petismo de “pessoa nefasta” algum futuro. Aí se bandeou para o PMDB. Ressentido porque a geração do Real não lhe deu a menor bola — não o quis nem mesmo como oráculo —, aproximou-se de Lula e passou a ser um de seus conselheiros tão logo o Apedeuta chegou ao poder.
É até possível que tenha colaborado para evitar que o petismo dos dois primeiros anos fizesse alguma bobagem — e, por isso, por que não?, podemos lhe dar algum crédito. Mas vir, agora, ameaçar a imprensa? Ora, feche a sua boca, meu senhor, que demonstra estar ainda torta pelo uso do cachimbo em outra era.
 
Vivemos um momento em que se acirram as legítimas disputas para estabelecer a distribuição do poder entre as várias organizações partidárias e que é propício aos excessos verbais, às promessas irresponsáveis e à agressão selvagem.
Afrouxam-se e liquefazem-se os compromissos com a moralidade pública, revelados no universo da “mídia”. Esta também, legitimamente, assume o partido que melhor reflete sua “visão do mundo”.

Huuummm… Baixou um Conselheiro Acácio no velho Delfim! Política é assim mesmo, né? Acirram-se as disputas etc e tal. Em seguida, é visível, ele trata com um certo nojinho a política — daí que tenha vivido de modo muito confortável sob o AI-5. Quando ao “afrouxamento e liquefação dos compromissos com a moralidade”, dizer o quê? Quem segurou a vela para Maluf até outro dia sabe muito bem do que fala.
 
Quanto ao mais, meu senhor, as lambanças noticiadas estão no UNIVERSO DOS FATOS, NÃO NO UNIVERSO DA MÍDIA. Mas eu entendo: os autoritários de hoje e de ontem, os admiradores da ditadura de hoje e de ontem, os que odeiam o regime de liberdades hoje e ontem, essa gente tende a achar que o mal está na imprensa que noticia, não nos fatos noticiados.
Daí que a ditadura militar, de que Delfim foi o último dignitário, tenha recorrido à censura. Daí que os petistas, no poder, tenham tentando implementar métodos de censura — e vão tentar de novo, já anunciou aquele deputado cujo assessor usava a cueca como casa de câmbio: José Guimarães.
 
A situação é, agora, mais crítica porque a campanha eleitoral se processa ao mesmo tempo em que o Supremo Tribunal Federal julga um intrincado processo que envolve o PT e, em breve, vai fazê-lo em outro, da mesma natureza, que envolve o PSDB.

É próprio de alguém que ainda não entendeu como a democracia funciona sugerir que a Justiça tem de se deixar levar pelo calendário eleitoral. Não tem! Pouco importa o partido que esteja em questão.
 
O que alguma mídia parece ignorar é que o uso abusivo do seu poder é corrosivo e ameaçador à necessária e fundamental liberdade de opinião assegurada no artigo 220 da Constituição, onde se afirma que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”.
 
De que “alguma mídia” fala este senhor? Por que não dá nome aos bois? Mais: por que não aponta em que caso a imprensa fez “uso abusivo do seu poder”? Eis aí Delfim Netto, um sobrevivente da ditadura, recorrendo ao que ele chama “mídia” para ameaçar a… própria mídia!
Como não lembrar que este senhor é colunista da “Carta Capital”, aquela revista que só existe porque existem o estado e as estatais? O que macula — não chega a ameaçar — a democracia é a existência de veículos que são, direta ou indiretamente, financiados pelo dinheiro público para satanizar os adversários do governo e a própria imprensa livre.
 
Primeiro, porque o parágrafo 5º do mesmo dispositivo previne que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”. E, segundo, porque no art. 224 a Constituição fecha o ciclo: “Para os efeitos do disposto nesse capítulo, o Congresso Nacional instituirá, como seu órgão auxiliar, o Conselho de Comunicação Social, na forma da lei”. Dois dispositivos suficientemente vagos que podem acabar criando problemas muito delicados no futuro.


Huuummm… Delfim é um tolo ao supor que tolos são os outros. Aí onde parece haver uma advertência de boa-fé à imprensa, alertando-a para os “dispositivos suficientemente vagos que podem acabar criando problemas muito delicados no futuro”, há, na verdade, uma ameaça nada velada.
O signatário do AI-5 deve andar meio encantado com a Beiçuda de Buenos Aires, esperando, como esperam alguns de seus amigos na Carta Capital e coisas ainda piores, que Dilma imponha no Brasil algo como a “ley de medios” chavista.
 
No que me diz respeito, agradeço o conselho de Delfim, mas repudio. Ele que continue lá a puxar o saco de Lula. Já cheguei a achá-lo até divertido, mas jamais o tomaria como um guia em questões que dizem respeito à liberdade de expressão. Isso é coisa séria demais para ser deixada sob os cuidados de sua pena. Eu sempre o tive como um doutor em ditadura — um doutor inteligente —, mas jamais como um doutor em democracia.
 
Um exemplo daquele abuso é a procura maliciosa de alguns deles de, no calor da disputa eleitoral, tentar destruir, com aleivosias genéricas, a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ignorando o grande avanço social e econômico por ele produzido com a inserção social, o fortalecimento das instituições, a redução das desigualdades e a superação dos constrangimentos externos que sempre prejudicaram o nosso desenvolvimento.


Maliciosa é a ameaça desse leão desdentado. “Aleivosias genéricas” são aqueles que Delfim vivia e vive fazendo de seus adversários intelectuais, em conversinhas ao pé do ouvido.
Ainda que todas as questões que ele evoca fossem mesmo conquistas do governo Lula — como se não tivesse havido antes um Plano Real, AO QUAL DELFIM NETTO SE OPÔS, REITERO!!! —, o ex-presidente deveria, por isso, ser poupado dos fatos e de sua biografia. Não é um dos réus do mensalão petista, mas e se fosse? A democracia correria riscos por isso?
 
Segundo Delfim, como os dispositivos da Constituição são vagos, qualquer coisa pode acontecer. Tudo dependeria, a gente fica sabendo, de como Lula será tratado pela imprensa. Se ela for boazinha e comportada e tratá-la como DEUS, então tudo bem!
Se não for, aí a coisa pode ficar feia. Vale dizer: para o signatário do AI-5 e hoje dignitário desta particular ditadura petista, quem garante a imprensa livre não é a Constituição, mas os humores de Lula — que, como se nota, resiste em admitir a decadência mais do que o próprio Delfim Netto.
 
Despeço-me de Delfim com uma citação a que volta e meia recorro porque o Brasil me obriga. O jovem poeta português Antero de Quental (1842-1891), expressão do movimento realista, passou uma descompostura no velho poeta Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875), um vulto do romantismo. Escreveu assim — e é o que digo a Delfim, o amante de ditaduras:

“Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele, confesso, não me merecem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V.Exa. precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão. É por estes motivos todos que lamento do fundo da alma não me poder confessar, como desejava, de V.Exa. nem admirador nem respeitador”.
 
A única coisa que não bate aí são os cabelos brancos. Delfim os mantém mais negros do que os de Iracema, que já eram mais negros do que as asas da graúna… Mas as ideias que vão debaixo dele continuam a não merecer nem estima nem consideração…
 
27 de setembro de 2012

Por Reinaldo Azevedo


OBAMA É RECORDISTA ABSOLUTO NA DISTRIBUIÇÃO DE DINHEIRO PÚBLICO

 

Nos últimos anos, a economia americana caiu do primeiro lugar para o sétimo na escala de competitividade do Fórum Econômico Mundial. O desemprego, que em 2008 não passava muito de quatro por cento, já está acima de oito, e a criação de novos empregos é cada vez mais lenta.


Não está com essa bola toda…

Comparando números, o colunista Donald Lambro, do Washington Times, conclui que o desempenho do presente governo americano na área trabalhista é o pior desde a II Guerra Mundial .

Em compensação, Obama foi o recordista absoluto na distribuição de dinheiro do governo não só aos pobres como também aos ricos – incluindo um vistoso leque de empresas falidas por má administração e fraudes, em geral pertencentes a seus contribuintes de campanha.

Para isso, sobrecarregou o Estado de mais dívidas do que todos os seus antecessores somados, desde George Washington. É um fracasso colossal, dizem os analistas econômicos.
Este é o Obama, perfeito.

27 de setembro de 2012
Horácio Melo

FILME TED GANHA ATENÇÃO APÓS CRÍTICA DE DEPUTADO

 


NOTAS POLÍTICAS DO JORNALISTA CARLOS CHAGAS

Previsões pessimistas

Virtualmente afastada a hipótese de o novo ministro do Supremo, Teori Zavascki, vir a pedir vistas do processo do mensalão, como deixou claro no meio-depoimento prestado à Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a pergunta que se faz refere-se às consequências da possível condenação à prisão de figuras exponenciais do PT.

Como reagirá o partido, por exemplo, no caso de José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, João Paulo Cunha e outros se verem sentenciados a reclusão em regime fechado?


Zavascki de fora

Demonstram a experiência e o modo de ser do partido sua obstinação em não voltar atrás nem reconhecer erros passados. Assim, os companheiros insistirão em que o mensalão não existiu e que seus antigos líderes terão sido injustiçados.

Que a mais alta corte nacional de justiça deixou-se enganar pela conspiração de setores conservadores e da imprensa empenhada em desfazer a obra do ex-presidente Lula. Mesmo irreais, essas acusações vão inaugurar o próximo biênio, onde se desenvolverão as preliminares e os finalmente da próxima sucessão presidencial.

O acirramento dos ânimos será uma constante a partir de 2013, por certo que também alimentado pelas oposições.
A temperatura vai subir, cada vez que fotografados de perto ou de longe os singulares presidiários de um suposto futuro.
Aliás, os petistas e os outros, com Valdemar Costa Neto, Roberto Jefferson e bem mais gente.

Admitirá o Supremo Tribunal Federal recolher a luva que lhe será lançada no rosto? Provavelmente, não, mas mesmo assim ocupará um dos pólos do confronto. Em especial se o Procurador Geral da República der seguimento ao processo, formulando novas denúncias contra novos mensaleiros. Imagine-se a inclusão do Lula no rol dos denunciados, como tendo tido conhecimento e até estimulado a lambança.

No meio do tiroteio estará a presidente Dilma, fidelíssima ao antecessor mas em momento algum vinculada ao julgamento da ação penal 470 e seguintes. Haverá prejuízo para sua administração e seus planos de governo. Jamais, no entanto, para sua tentativa de reeleição.

PSDB e penduricalhos não poderão ficar de braços cruzados. Buscando retornar ao poder, os tucanos deverão bater firme no PT, no Lula e em sua candidata. Pode não ser da natureza de Aécio Neves deitar gasolina no fogo, mas sabe que o papel de bombeiro será fatal às suas pretensões. É provável que reme com a maré.

Nessa hora quem sabe se repetirá o fenômeno Russomanno, em pleno desenvolvimento, ou seja, aparecerá uma terceira via de dimensões nacionais, na qual a maioria da opinião publica apostará seus cacifes.

Afinal, a contenda centralizada entre companheiros, de um lado, e tucanos, de outro, poderá não ter nada a ver com as forças em choque. Pelo contrário, a população costuma dar mostras de não seguir a ortodoxia partidária.

Será sempre bom lembrar que o país rejeitou tanto Ulysses Guimarães quanto Paulo Maluf, decidindo-se por Fernando Collor, nas eleições de 1989, deixando aberta a janela por onde mais tarde o Lula passaria.

Quanto a especular quem poderia ocupar essa faixa entre Dilma e Aécio, nem com bola de cristal. Até porque as variáveis ainda favorecem a presidente e o senador. Mas é bom tomarem cuidado…

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DELFIM EM SOCORRO DE LULA

Em seu artigo das quartas-feiras, Delfim Netto chegou de espada desembainhada. Denunciou aleivosias genéricas para destruir a imagem do Lula, ignorando os avanços sociais e econômicos registrados em seu governo.

É bom prospectar as causas, quando o ex-ministro envereda pela política, momentaneamente arquivando a economia. Fala, ou escreve, por ele e por razoável segmento das forças produtivas.

Não dá ponto sem nó, como diziam nossos avós. Exprime o sentimento das elites que em maior ou menor grau satisfizeram-se com a administração do ex-presidente.

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CONTRA A OPERAÇÃO CONDOR

Decidiu a Comissão da Verdade investigar a fundo a participação do Brasil na Operação Condor, que durante os anos de chumbo uniu os serviços de informação, segurança e repressão das então ditaduras sul-americanas. Cooperaram o extinto Serviço Nacional de Informações e seus sucedâneos na Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.

O importante a saber é se limitavam seu entendimento à troca de denúncias sobre os naturais de um país atuando nos outros ou se realizavam operações conjuntas de perseguição aos grupos que se opunham aos regimes de força.

Mais grave ainda será perscrutar a participação dos Estados Unidos na deletéria orquestração, através da CIA e congêneres. Muita coisa poderá vir à tona em matéria de tortura, sequestros, assassinatos e similares, se houver cooperação por parte dos governos dos países referidos, hoje todos aferrados à democracia.

HISTÓRIAS DO JORNALISTA SEBASTIÃO NERY

O SÁBIO REBELDE

O senador Mem de Sá, do PL e Arena do Rio Grande do Sul, foi à recepção do Itamaraty quando o presidente de Portugal, Americo Tomás, já bem velhinho e com arteriosclerose, veio ao Brasil, em 72, acompanhando os restos mortais de Dom Pedro I, nos 150 anos da Independência.

Mem de Sá foi apresentado ao presidente português, a quem já conhecia dos tempos em que foi ministro da Justiça de Castelo Branco. Américo Tomás não o reconheceu. Cumprimentou e foi em frente.
Minutos depois, voltou:
– O senhor é filho do grande Mem de Sá, governador geral do Brasil?
– Sobrinho, presidente. Ele era irmão de minha mãe.
– Ah, eu estava lhe reconhecendo. Seu nome não me era estranho.
Esse era um português que já não sabia mais nada de nada.

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ACADEMIA

Em 2006, Portugal e Brasil estão comemorando o centenário de nascimento (13.2.1906) de um português que sabia tudo do Brasil, de Portugal e do mundo. E teve participação fundamental na abertura da cultura e da universidade brasileira.

George Agostinho Baptista da Silva, o sábio Agostinho da Silva, que se livrou de duas ditaduras, viveu, trabalhou, ensinou e iluminou seis Estados brasileiros, durante 22 anos, de 1947 a 1969: Rio, Paraíba, Pernambuco, Santa Catarina, Bahia e Brasília. Uma vida generosa, criadora e fulgurante.

A Academia Brasileira de Letras, cumprindo o oportuno programa do então presidente Marcos Vilaça, de abrir cada vez mais suas portas e seu prestígio à juventude, à universidade, à população, para o debate nacional da cultura, instalou uma bela exposição fotobiográfica, passou um filme primoroso de João Rodrigo Mattos e realizou uma mesa-redonda, presidida por Vilaça e coordenada pelo jornalista e acadêmico Cícero Sandroni, com seis depoimentos de pessoas que trabalharam ou conviveram com Agostinho da Silva.
O embaixador e acadêmico Alberto da Costa e Silva, o ex-conselheiro cultural da embaixada de Portugal Amandio Silva, o presidente da Casa de Rui Barbosa José Almino de Alencar, o escritor Salim Miguel e eu.

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AGOSTINHO DA SILVA

Ele foi um furacão cultural. Mario Soares, seu aluno, o retratou bem:

– Foi uma das figuras máximas da vida cultural portuguesa da século 20. Escritor, intelectual, universitário, pedagogo, visionário, deixou uma obra imensa dispersa por inúmeras publicações, livros, revistas, cartas. Produziu, ao longo de sua longa vida, imenso labor intelectual que o País oficial quase sempre ignorou. Iconoclasta, na acepção mais nobre da palavra um marginal.
Desde Sócrates e Jesus Cristo, esses marginais é que constroem a história.

Estudou Filologia Clássica na Universidade do Porto, fez bolsa de pós-graduação na Sorbonne e no College de France, entrou para o ensino público em 1931. Em 32, a ditadura de Salazar exigiu de cada servidor público que assinasse a Lei Cabral: dizer se pertencia a alguma organização secreta ou subversiva. Três se negaram a assinar: Fernando Pessoa, Norton de Matos e ele.

– Não pertenço, mas não sei se um dia vou querer pertencer. A força que me anima e mais desejaria transmitir é a de não se conformarem.

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PRESO E EXCOMUNGADO

Demitido, passou a escrever na histórica revista de resistência Seara Nova, de Antônio Sérgio e Jayme Cortesão, dar aulas particulares de Filosofia, Cultura, Direito, Línguas (chegou a falar 15 idiomas e dois dialetos africanos) e fazer conferências pelo País todo. Salazar não agüentou. Prendeu.
A Igreja também não. Era um cristão, mas rebelde, como Teilhard de Chardin, Frei Beto, Leonardo Boff.

Seus livros e Cadernos Culturais, hoje clássicos (Sentido Histórico das Civilizações, A Religião Grega, Moisés e Outras Páginas Bíblicas, Sete Cartas a um Jovem Filósofo, Biografia de Miguel Ângelo, São Francisco de Assis, O Cristianismo, Doutrina Cristã), perturbaram a conservadora Igreja de Portugal. Foi excomungado.

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NO BRASIL

E se livrou da ditadura de Salazar. Veio para o Rio, em 47. Criou um centro cultural e de ensino em Itaipava, trabalhou no Instituto Oswaldo Cruz, Manguinhos (com entolomogia, insetos), ensinou na Faculdade de Filosofia.

Em 52, José Américo, governador, levou-o para ajudar a fundar a Universidade da Paraíba. Ficou lá dois anos, deixou um trabalho modelo.
Em 54, ensinou na Universidade de Pernambuco.
Em 55, fundador da Universidade de Santa Catarina e primeiro secretário de Cultura do Estado.
Em 57, chega à Bahia e revoluciona a Filosofia, o Teatro, as Artes da Universidade comandada por Edgar Santos.

Por aqui, Agostinho da Silva só deixou saudades.

QUANDO O HUMOR DESENHA A REALIDADE

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O TRIUNFO DE "HOMELAND" NO EMMY É UMA BOA NOTÍCIA PARA TODOS NÓS

 

Homeland foi o grande vencedor do Emmy, o Oscar da tevê americana. Melhor ator (Damian Lewis), melhos atriz (Claire Danes), melhor drama.

O triunfo de Homeland no Emmy é uma boa notícia para todos nós
Claire e Damian

Boa notícia. Homeland é um corpo estranho no mundo do cinema e da televisão americana. Enquanto Spielberg faz tolices como Tintim e James Cameron o iguala em entorpecentes como Avatar, Homeland mostra a vida como ela é.

Um soldado americano volta da “Guerra ao Terror”. Lutara lá e acabara preso. Finalmente solto, depois de anos, retorna com status de herói aos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, uma agente da CIA, em missão no teatro da guerra no mundo islâmico, recebe uma informação segundo a qual um soldado americano aderiu aos inimigos. Será o herói?
Esta a trama básica. Vi a primeira temporada e verei a segunda. Recomendo fortemente.

Homeland vira coisa de gente séria quando mostra o seguinte: o impacto que tem sobre um pai de família árabe a morte de seu filhinho por uma bomba americana. Desesperado, enraivecido, ele adere ao terrorismo.

Este o mérito maior de Homeland: dar espaço para o outro lado. O americano médio, enquanto alimenta sua obesidade física e mental comendo no sofá pipocas large size acompanhadas de Coca também large size, acredita na fantasia de que os árabes são ingratos por não retribuir com amor a generosidade de Washington ao levar-lhes democracia e civilização.

Homeland é a negação disso. Faz pensar. Que se multipliquem séries como esta. Porque boa parte dos horrores praticados por sucessivos governos americanos na cena internacional (e doméstica) deriva de uma sociedade alienada que acredita no mito do “campeão do mundo livre” – e vai engordando enquanto uma minoria predadora vai concentrando cada vez mais dinheiro e jogando cada vez mais bombas.

FORA DA LEI: ESCRITÓRIO DE BRINDEIRO NÃO ASSINA CARTEIRA DE SEUSFUNCIONÁRIOS

 

 Esta é de estarrecer. Recebemos a denúncia de que o Escritório de Advocacia do ex-procurador-geral da República, Geraldo Antônio Brindeiro, que entre outros clientes, dá assistência à operadora de serviços telefônicos VIVO, não assina a Carteira de Trabalho de seus funcionários.

Quando aparece algum fiscal da Secretaria ou do Ministério do Trabalho na sede do escritório, os funcionários em situação irregular são “convenientemente” removidos para um local fora do alcance da fiscalização e só voltam ao trabalho após o fim da inspeção.

Uma vergonha que requer uma fiscalização imediata por parte da Delegacia Regional do Trabalho do Distrito Federal e uma nota de reprovação da Ordem dos Advogados do Brasil, tão ciosa em denunciar irregularidades em setores que nem lhe dizem respeito.
Como se sabe, Geraldo Antônio Brindeiro ficou famoso no governo FHC como “engavetador” da República.

SEPÚLVEDA PERTENCE VOLTA A ELOGIAR OS CONSELHEIROS AFASTADOS DO CONSELHO DE ÉTICA DO PLANALTO

 

Sepúlveda Pertence, que deixou segunda-feira a presidência da Comissão de Ética da Presidência, disse ao repórter Chico de Góis, do Globo, que foi avisado há alguns meses, por um auxiliar da presidente Dilma Rousseff, de que ela não reconduziria os conselheiros Marília Muricy e Fábio Coutinho a mais um mandato de três anos.
 
Ele esperou até segunda-feira para anunciar sua decisão de se retirar da presidência do órgão para não parecer que se opunha aos três novos conselheiros escolhidos por Dilma.

Mesmo evitando comentários sobre os motivos da presidente, lamentou o fato, lembrando que é uma tradição o segundo mandato dos conselheiros, e declarou que ouviu murmúrios de que a não recondução de seus dois apadrinhados ocorreu por conta da atuação deles na comissão, que não tem mordomias nem remuneração.

Ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), disse Sepúlveda: Lamentei a não recondução porque se trata não apenas de duas pessoas que aceitaram participar da comissão por indicação minha, como são dois valores excepcionais, seja do ponto de vista moral, seja da perspectiva intelectual.


Pimentel está encrencado

NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG

Detalhe importante: no caso do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, o processo ainda está em andamento. Foram pedidos novos esclarecimentos, alargando-lhe a possibilidade de defesa. Mas o problema do Planalto é que não adianta ampliar a possibilidade de defesa, porque Pimentel não tem como explicar ter recebido R$ 1 milhão da Federação das Indústrias do Estado de Minas Geral para pronunciar palestras em cidades do interior, e não ter feito uma só delas.

27 de setembro de 2012

O INVENTOR DA CLASSE MÉDIA MISERÁVEL, OU A CLASSE 291

Depois de inventar a classe média miserável, o economista Marcelo Neri já começa a fazer milagres no Ipea


Mal assumiu a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o economista Marcelo Neri, aquele que inventou uma nova classe média com renda de míseros R$ 291por mês, começa agora a fazer novos milagres econômicos.
O primeiro deles é anunciar que os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE confirmam que a primeira década do século 21 no Brasil foi “inclusiva” do ponto de vista social, com “robusta diminuição da desigualdade e redução da pobreza”.


“O PIB não é importante…”

“O Brasil está hoje no menor nível de desigualdade da história documentada”, disse Neri, entusiasmado, ao jornalista Gilberto Costa, da Agência Brasil.
Segundo ele, o índice de Gini (indicador que mede a desigualdade) foi 0,527 em 2011 – o menor desde 1960 (0,535), o que demonstraria uma redução da desigualdade social.

Acontece que a análise do Ipea mostra que a renda está crescendo nos setores econômicos que contratam mão de obra de forma precária e agregam pouco valor à economia, como a agricultura (86%) e as atividades domésticas (62,4%). Mas isso não interessa a Neri.

Outro dado preocupante é que cerca de 35% da diminuição da desigualdade se devem aos repasses feitos pelo governo (além do Bolsa Família, aposentadorias, pensões e benefícios de prestação continuada, que são transferências sujeitas à política fiscal e podem sofrer restrições para que as contas públicas tenham superávit). E isso também não interessa a Neri.

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PROFESSOR PANGLOSS

Na verdade, Marcelo Neri se comporta como uma espécie de Professor Pangloss (personagem otimista de Voltaire, que julgava “viver no melhor dos mundos”). Ele diz que a redução da desigualdade tem a ver com o crescimento da renda per capita. E alega que, entre 2001 e 2011, “o aumento real da renda dos 10% mais pobres foi 91,2%, enquanto os 10% mais ricos, tiveram crescimento de 16,6%”, esquecido de que um grande aumento sobre quase nada continua sendo quase nada, enquanto um pequeno aumento sobre muito acaba significando muito.

A teoria panglossiana desenvolvida pelo criativo economista traz uma grande novidade em termos mundiais, porque ele não vê maior importância no desempenho das contas nacionais, medidas pelo Produto Interno Bruto – PIB. Na opinião de Neri, é muito mais importante levar em conta a melhoria da renda na base da pirâmide. E alega que, desde 2003, a Pnad aponta que a economia brasileira cresceu 40,7% (acumulado), enquanto a taxa do PIB foi 27,7% (acumulado).

O primeiro dado mede a situação dos domicílios, sem levar em consideração o endividamento recorde e a crescente inadimplência, enquanto o segundo indicador faz o somatório da riqueza produzida no país, pelo PIB.

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MAIS IMPORTANTE

“O que é mais importante?”, pergunta Neri, ao avaliar que apesar dos “colegas macroeconomistas não estarem muito satisfeitos, mas quando a gente olha para o bolso das pessoas nota-se um crescimento chinês na base”.

Conclusão: é genial! Ou melhor, é bestial! – como dizem os portugueses. Esse economista merece o Prêmio Nobel. Não é possível que suas revolucionárias teorias não estejam despertando pelo menos a curiosidade da Academia Real das Ciências da Suécia.

Filme Ted ganha atenção após crítica de deputado

Previsões pessimistas


Virtualmente afastada a hipótese de o novo ministro do Supremo, Teori Zavascki, vir a pedir vistas do processo do mensalão, como deixou claro no meio-depoimento prestado à Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a pergunta que se faz refere-se às consequências da possível condenação à prisão de figuras exponenciais do PT. Como reagirá o partido, por exemplo, no caso de José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, João Paulo Cunha e outros se verem sentenciados a reclusão em regime fechado?


Zavascki de fora

Demonstram a experiência e o modo de ser do partido sua obstinação em não voltar atrás nem reconhecer erros passados.
Assim, os companheiros insistirão em que o mensalão não existiu e que seus antigos líderes terão sido injustiçados.

Que a mais alta corte nacional de justiça deixou-se enganar pela conspiração de setores conservadores e da imprensa empenhada em desfazer a obra do ex-presidente Lula. Mesmo irreais, essas acusações vão inaugurar o próximo biênio, onde se desenvolverão as preliminares e os finalmente da próxima sucessão presidencial. O acirramento dos ânimos será uma constante a partir de 2013, por certo que também alimentado pelas oposições.

A temperatura vai subir, cada vez que fotografados de perto ou de longe os singulares presidiários de um suposto futuro. Aliás, os petistas e os outros, com Valdemar Costa Neto, Roberto Jefferson e bem mais gente.

Admitirá o Supremo Tribunal Federal recolher a luva que lhe será lançada no rosto? Provavelmente, não, mas mesmo assim ocupará um dos pólos do confronto. Em especial se o Procurador Geral da República der seguimento ao processo, formulando novas denúncias contra novos mensaleiros. Imagine-se a inclusão do Lula no rol dos denunciados, como tendo tido conhecimento e até estimulado a lambança.

No meio do tiroteio estará a presidente Dilma, fidelíssima ao antecessor mas em momento algum vinculada ao julgamento da ação penal 470 e seguintes. Haverá prejuízo para sua administração e seus planos de governo. Jamais, no entanto, para sua tentativa de reeleição.

PSDB e penduricalhos não poderão ficar de braços cruzados. Buscando retornar ao poder, os tucanos deverão bater firme no PT, no Lula e em sua candidata. Pode não ser da natureza de Aécio Neves deitar gasolina no fogo, mas sabe que o papel de bombeiro será fatal às suas pretensões. É provável que reme com a maré.

Nessa hora quem sabe se repetirá o fenômeno Russomanno, em pleno desenvolvimento, ou seja, aparecerá uma terceira via de dimensões nacionais, na qual a maioria da opinião publica apostará seus cacifes. Afinal, a contenda centralizada entre companheiros, de um lado, e tucanos, de outro, poderá não ter nada a ver com as forças em choque.
Pelo contrário, a população costuma dar mostras de não seguir a ortodoxia partidária. Será sempre bom lembrar que o país rejeitou tanto Ulysses Guimarães quanto Paulo Maluf, decidindo-se por Fernando Collor, nas eleições de 1989, deixando aberta a janela por onde mais tarde o Lula passaria.

Quanto a especular quem poderia ocupar essa faixa entre Dilma e Aécio, nem com bola de cristal. Até porque as variáveis ainda favorecem a presidente e o senador. Mas é bom tomarem cuidado…
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DELFIM EM SOCORRO DE LULA

Em seu artigo das quartas-feiras, Delfim Netto chegou de espada desembainhada. Denunciou aleivosias genéricas para destruir a imagem do Lula, ignorando os avanços sociais e econômicos registrados em seu governo.
É bom prospectar as causas, quando o ex-ministro envereda pela política, momentaneamente arquivando a economia. Fala, ou escreve, por ele e por razoável segmento das forças produtivas.
Não dá ponto sem nó, como diziam nossos avós. Exprime o sentimento das elites que em maior ou menor grau satisfizeram-se com a administração do ex-presidente.

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CONTRA A OPERAÇÃO CONDOR

Decidiu a Comissão da Verdade investigar a fundo a participação do Brasil na Operação Condor, que durante os anos de chumbo uniu os serviços de informação, segurança e repressão das então ditaduras sul-americanas. Cooperaram o extinto Serviço Nacional de Informações e seus sucedâneos na Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai. O importante a saber é se limitavam seu entendimento à troca de denúncias sobre os naturais de um país atuando nos outros ou se realizavam operações conjuntas de perseguição aos grupos que se opunham aos regimes de força.

Mais grave ainda será perscrutar a participação dos Estados Unidos na deletéria orquestração, através da CIA e congêneres. Muita coisa poderá vir à tona em matéria de tortura, sequestros, assassinatos e similares, se houver cooperação por parte dos governos dos países referidos, hoje todos aferrados à democracia.

O sábio rebelde


O senador Mem de Sá, do PL e Arena do Rio Grande do Sul, foi à recepção do Itamaraty quando o presidente de Portugal, Americo Tomás, já bem velhinho e com arteriosclerose, veio ao Brasil, em 72, acompanhando os restos mortais de Dom Pedro I, nos 150 anos da Independência.

Mem de Sá foi apresentado ao presidente português, a quem já conhecia dos tempos em que foi ministro da Justiça de Castelo Branco. Américo Tomás não o reconheceu. Cumprimentou e foi em frente. Minutos depois, voltou: – O senhor é filho do grande Mem de Sá, governador geral do Brasil?
– Sobrinho, presidente. Ele era irmão de minha mãe.
– Ah, eu estava lhe reconhecendo. Seu nome não me era estranho.
Esse era um português que já não sabia mais nada de nada.

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ACADEMIA

Em 2006, Portugal e Brasil estão comemorando o centenário de nascimento (13.2.1906) de um português que sabia tudo do Brasil, de Portugal e do mundo. E teve participação fundamental na abertura da cultura e da universidade brasileira.

George Agostinho Baptista da Silva, o sábio Agostinho da Silva, que se livrou de duas ditaduras, viveu, trabalhou, ensinou e iluminou seis Estados brasileiros, durante 22 anos, de 1947 a 1969: Rio, Paraíba, Pernambuco, Santa Catarina, Bahia e Brasília. Uma vida generosa, criadora e fulgurante.

A Academia Brasileira de Letras, cumprindo o oportuno programa do então presidente Marcos Vilaça, de abrir cada vez mais suas portas e seu prestígio à juventude, à universidade, à população, para o debate nacional da cultura, instalou uma bela exposição fotobiográfica, passou um filme primoroso de João Rodrigo Mattos e realizou uma mesa-redonda, presidida por Vilaça e coordenada pelo jornalista e acadêmico Cícero Sandroni, com seis depoimentos de pessoas que trabalharam ou conviveram com Agostinho da Silva.
O embaixador e acadêmico Alberto da Costa e Silva, o ex-conselheiro cultural da embaixada de Portugal Amandio Silva, o presidente da Casa de Rui Barbosa José Almino de Alencar, o escritor Salim Miguel e eu.

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AGOSTINHO DA SILVA

Ele foi um furacão cultural. Mario Soares, seu aluno, o retratou bem:

– Foi uma das figuras máximas da vida cultural portuguesa da século 20. Escritor, intelectual, universitário, pedagogo, visionário, deixou uma obra imensa dispersa por inúmeras publicações, livros, revistas, cartas. Produziu, ao longo de sua longa vida, imenso labor intelectual que o País oficial quase sempre ignorou. Iconoclasta, na acepção mais nobre da palavra um marginal.
Desde Sócrates e Jesus Cristo, esses marginais é que constroem a história.

Estudou Filologia Clássica na Universidade do Porto, fez bolsa de pós-graduação na Sorbonne e no College de France, entrou para o ensino público em 1931. Em 32, a ditadura de Salazar exigiu de cada servidor público que assinasse a Lei Cabral: dizer se pertencia a alguma organização secreta ou subversiva. Três se negaram a assinar: Fernando Pessoa, Norton de Matos e ele.

– Não pertenço, mas não sei se um dia vou querer pertencer. A força que me anima e mais desejaria transmitir é a de não se conformarem.

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PRESO E EXCOMUNGADO

Demitido, passou a escrever na histórica revista de resistência Seara Nova, de Antônio Sérgio e Jayme Cortesão, dar aulas particulares de Filosofia, Cultura, Direito, Línguas (chegou a falar 15 idiomas e dois dialetos africanos) e fazer conferências pelo País todo. Salazar não agüentou. Prendeu.
A Igreja também não. Era um cristão, mas rebelde, como Teilhard de Chardin, Frei Beto, Leonardo Boff.

Seus livros e Cadernos Culturais, hoje clássicos (Sentido Histórico das Civilizações, A Religião Grega, Moisés e Outras Páginas Bíblicas, Sete Cartas a um Jovem Filósofo, Biografia de Miguel Ângelo, São Francisco de Assis, O Cristianismo, Doutrina Cristã), perturbaram a conservadora Igreja de Portugal. Foi excomungado.

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NO BRASIL

E se livrou da ditadura de Salazar. Veio para o Rio, em 47. Criou um centro cultural e de ensino em Itaipava, trabalhou no Instituto Oswaldo Cruz, Manguinhos (com entolomogia, insetos), ensinou na Faculdade de Filosofia.

Em 52, José Américo, governador, levou-o para ajudar a fundar a Universidade da Paraíba. Ficou lá dois anos, deixou um trabalho modelo.
Em 54, ensinou na Universidade de Pernambuco.

Em 55, fundador da Universidade de Santa Catarina e primeiro secretário de Cultura do Estado.
Em 57, chega à Bahia e revoluciona a Filosofia, o Teatro, as Artes da Universidade comandada por Edgar Santos.
Por aqui, Agostinho da Silva só deixou saudades.

Charge do Sponholz

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O triunfo de 'Homeland' no Emmy é uma boa notícia para todos nós


Homeland foi o grande vencedor do Emmy, o Oscar da tevê americana. Melhor ator (Damian Lewis), melhos atriz (Claire Danes), melhor drama.

O triunfo de Homeland no Emmy é uma boa notícia para todos nós
Claire e Damian

Boa notícia. Homeland é um corpo estranho no mundo do cinema e da televisão americana. Enquanto Spielberg faz tolices como Tintim e James Cameron o iguala em entorpecentes como Avatar, Homeland mostra a vida como ela é.

Um soldado americano volta da “Guerra ao Terror”. Lutara lá e acabara preso. Finalmente solto, depois de anos, retorna com status de herói aos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, uma agente da CIA, em missão no teatro da guerra no mundo islâmico, recebe uma informação segundo a qual um soldado americano aderiu aos inimigos. Será o herói?
Esta a trama básica. Vi a primeira temporada e verei a segunda. Recomendo fortemente.

Homeland vira coisa de gente séria quando mostra o seguinte: o impacto que tem sobre um pai de família árabe a morte de seu filhinho por uma bomba americana. Desesperado, enraivecido, ele adere ao terrorismo.

Este o mérito maior de Homeland: dar espaço para o outro lado. O americano médio, enquanto alimenta sua obesidade física e mental comendo no sofá pipocas large size acompanhadas de Coca também large size, acredita na fantasia de que os árabes são ingratos por não retribuir com amor a generosidade de Washington ao levar-lhes democracia e civilização.

Homeland é a negação disso. Faz pensar. Que se multipliquem séries como esta. Porque boa parte dos horrores praticados por sucessivos governos americanos na cena internacional (e doméstica) deriva de uma sociedade alienada que acredita no mito do “campeão do mundo livre” – e vai engordando enquanto uma minoria predadora vai concentrando cada vez mais dinheiro e jogando cada vez mais bombas.

Fora da lei: escritório de Brindeiro não assina carteira de seus funcionários


Esta é de estarrecer. Recebemos a denúncia de que o Escritório de Advocacia do ex-procurador-geral da República, Geraldo Antônio Brindeiro, que entre outros clientes, dá assistência à operadora de serviços telefônicos VIVO, não assina a Carteira de Trabalho de seus funcionários.

Quando aparece algum fiscal da Secretaria ou do Ministério do Trabalho na sede do escritório, os funcionários em situação irregular são “convenientemente” removidos para um local fora do alcance da fiscalização e só voltam ao trabalho após o fim da inspeção.

Uma vergonha que requer uma fiscalização imediata por parte da Delegacia Regional do Trabalho do Distrito Federal e uma nota de reprovação da Ordem dos Advogados do Brasil, tão ciosa em denunciar irregularidades em setores que nem lhe dizem respeito.
Como se sabe, Geraldo Antônio Brindeiro ficou famoso no governo FHC como “engavetador” da República.

Sepulveda Pertence volta a elogiar os conselheiros afastados do Conselho de Ética do Planalto


Sepúlveda Pertence, que deixou segunda-feira a presidência da Comissão de Ética da Presidência, disse ao repórter Chico de Góis, do Globo, que foi avisado há alguns meses, por um auxiliar da presidente Dilma Rousseff, de que ela não reconduziria os conselheiros Marília Muricy e Fábio Coutinho a mais um mandato de três anos.

Ele esperou até segunda-feira para anunciar sua decisão de se retirar da presidência do órgão para não parecer que se opunha aos três novos conselheiros escolhidos por Dilma.

Mesmo evitando comentários sobre os motivos da presidente, lamentou o fato, lembrando que é uma tradição o segundo mandato dos conselheiros, e declarou que ouviu murmúrios de que a não recondução de seus dois apadrinhados ocorreu por conta da atuação deles na comissão, que não tem mordomias nem remuneração.

Ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), disse Sepúlveda: Lamentei a não recondução porque se trata não apenas de duas pessoas que aceitaram participar da comissão por indicação minha, como são dois valores excepcionais, seja do ponto de vista moral, seja da perspectiva intelectual.


Pimentel está encrencado

NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG

Detalhe importante: no caso do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, o processo ainda está em andamento. Foram pedidos novos esclarecimentos, alargando-lhe a possibilidade de defesa. Mas o problema do Planalto é que não adianta ampliar a possibilidade de defesa, porque Pimentel não tem como explicar ter recebido R$ 1 milhão da Federação das Indústrias do Estado de Minas Geral para pronunciar palestras em cidades do interior, e não ter feito uma só delas.

27 de setembro de 2012
 

BONS COMPANHEIROS

 

 
A Justiça declarou a indisponibilidade dos bens do secretário-geral do PT, Elói Pietá (na foto com Lula e Haddad). A juíza Louise Vilela Leite Filgueiras Borer, titular da 6ª Vara Federal em Guarulhos, determinou o bloqueio por meio de liminar (decisão provisória) devido a irregularidades ocorridas na construção de um complexo viário na cidade da Grande São Paulo no tempo em que o petista era prefeito. O seu antecessor, Jovino Cândido (PV), também teve os bens indisponibilizados.

De acordo com o Ministério Público Federal, autor da ação, modificações realizadas sem justificativa no contrato da obra provocaram prejuízos de cerca de R$ 47 milhões. A juíza destaca na decisão que houve houve omissão dos ex-prefeitos "ao autorizarem pagamentos de serviços executados sem autorização contratual, o que é dizer, de forma ilegal, assumiram o risco de propiciar o locupletamento ilícito de particulares em detrimento da administração.”

Jovino teve os bens indisponibilizados no valor de R$ 3.284.050. Já o bloqueio de bens de Pietá foi de R$ 1.407.450. Outras seis agentes públicos e de um funcionário da empresa contratada, a OAS, para obra também são responsabilizados na ação. A OAS teve os bens bloqueados em R$ 37.532.000.(O Globo)
 
27 de setembro de 2012
in coroneLeaks

BRASIL APARELHADO:TCU INVESTIGA CUT POR CONV"ENIO FRAUDULENTO COM A PETROBRAS EM PROGRAMA DO MEC DE HADDAD


A turma alfabetizada em convênios: Marinho, Lula e Haddad. Haja TCU!

De um lado, Luiz Marinho, que presidia a CUT. De outro, José Gabrielli, que presidia a Petrobras. No meio, um convênio fraudulento com o MEC de Haddad, onde uma central sindical iria alfabetizar 200.000 alunos. Agora o TCU abre mais uma caixa-preta da gestão Lula, que deixa um rombo de R$ 26 milhões nos cofres públicos.

O Tribunal de Contas da União (TCU) determinou nesta quarta-feira, 26, a abertura de tomadas de contas especiais para calcular prejuízos e identificar eventuais responsáveis por irregularidades em convênios da Petrobrás com a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Braço sindical do PT, a entidade recebeu R$ 26 milhões da estatal para alfabetizar mais de 200 mil alunos, mas, de acordo com a corte, não provou ter aplicado o dinheiro na realização dos cursos.

Comandada pelo partido desde o início do governo Lula, a empresa não fiscalizou a execução do projeto e aprovou as contas sem exigir provas do cumprimento, diz o relatório técnico do tribunal. O TCU auditou convênios e patrocínios da Petrobrás, identificando em 2009 falhas em diversas parcerias de entidades supostamente ligadas ao PT e outras legendas. As constatações foram apreciadas na terça-feira em plenário.

Além da CUT, serão alvo de processos para apuração de danos o Instituto Nacional de Formação e Assessoria Sindical da Agricultura Familiar Sebastião Rosa da Paz, que recebeu R$ 1,6 milhão; a Cooperativa de Profissionais em Planejamento e Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental (Colméia), contemplada com R$ 1,7 milhão; e a Cooperativa Central de Crédito e Economia Solidária (Ecosol), cujo patrocínio foi de R$ 350 mil.
A área técnica havia sugerido a aplicação de multas a dirigentes da estatal, o que foi aceito pelo relator do processo, ministro Aroldo Cedraz. Mas, após voto revisor de José Múcio, o tribunal decidiu avaliar a aplicação de penalidades somente no julgamento das TCEs.

As parcerias com a CUT foram firmadas entre 2004 e 2006 para ações do Programa Brasil Alfabetizado. Na época, a Petrobrás era dirigida pelo petista José Sérgio Gabrielli, que deixou o cargo este ano. Duas foram assinadas diretamente com a central e uma terceira com uma de suas entidades de apoio, a Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS). Após a inspeção, o TCU apurou que os gestores da estatal aprovaram as medições de serviços, dando as atividades como regulares, sem que fosse demonstrado se os investimentos foram, de fato, feitos e quais os resultados obtidos.

Na documentação analisada pelos auditores, não havia fichas de acompanhamento individual dos alunos, listas de presença nas supostas aulas, acompanhamento das ações dos alfabetizadores, número de estudantes envolvidos e documentos que atestassem que os materiais didáticos foram realmente entregues.

Em nota, a Petrobrás sustentou ontem que "não há irregularidades ou beneficiamento político-partidário nos convênios, o que será comprovado no andamento do processo".
A CUT alega ter cumprido integralmente todas as etapas das parcerias com a estatal e que foram apresentadas comprovações dos serviços executados, com base em regras do Brasil Alfabetizado.
 
O Programa Brasil Alfabetizado, comandado por Haddad, foi uma grande picaretagem. Vejam a noticia abaixo, publicada pelo Globo na saída do ex-ministro para ser candidato do PT em São Paulo.
 
Um balanço das ações do Ministério da Educação (MEC) divulgado na despedida do ex-ministro Fernando Haddad, na última terça-feira, diz que a pasta alfabetizou 13 milhões de jovens e adultos, desde 2003. A informação é incorreta. Se fosse verdadeira, teria levado o país a dar um salto na redução do analfabetismo, o que não ocorreu. De 2000 a 2010, a redução do número de iletrados foi de apenas 2,3 milhões - deixando o Brasil ainda com 13,9 milhões de analfabetos, conforme o censo do IBGE.
 
Procurado pelo GLOBO, o MEC admitiu o erro, publicado na página 40 de uma edição caprichada, com páginas coloridas, tiragem de mil exemplares, com o título: "PDE em 10 capítulos - ações que estão mudando a história da educação brasileira." O balanço trata do Plano de Desenvolvimento da Educação, lançado por Haddad e pelo então presidente Lula, em abril de 2007.
 
O livreto foi distribuído na terça-feira, quando Haddad, que é pré-candidato do PT à prefeitura de São Paulo, deixou o governo. Ele reproduz texto de uma outra publicação do ministério, divulgada em setembro de 2011, mas com redação diferente.
Na versão do ano passado, o texto falava que aproximadamente 13 milhões de jovens, adultos e idosos tinham sido “beneficiados” pelo programa Brasil Alfabetizado - o que significa que houve matrícula, mas não que aprenderam a ler e escrever. No novo formato, consta que todos foram “alfabetizados”.
 
Luiz Marinho, depois desta trampolinagem na CUT, virou ministro da Previdência, ministro do Trabalho, prefeito de São Bernardo do Campo, candidato à reeleição, big boss do município que recebeu as maiores verbas de Lula.
Está sendo preparado para ser candidato ao Governo de São Paulo, em 2014. Dinheiro não vai faltar para a campanha. Afinal de contas, ele é o amigão de Lula.
 
27 de setembro de 2012
in coroneLeaks

O QUE HÁ DE ERRADO COM A BLASFÊMIA?


Muçulmanos paquistaneses protestam contra os Estados Unidos após vídeo de insultos (Reprodução/Internet)
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Fúria Muçulmana

O que há de tão perturbador em insultos ou mentiras sobre coisas que os outros consideram sagradas, sejam elas textos, profetas humanos ou objetos físicos?


Sugestão do Leitor

Caro leitor, neste espaço, você pode participar da produção de conteúdo em conjunto com a equipe do Opinião e Notícia. Sugira temas para pautas preenchendo os campos abaixo. Participe!


Suponha que não tivesse havido um único motim em resposta ao vídeo A Inocência dos muçulmanos. Nem um único carro queimado, nenhuma embaixada violada, nenhum ser humano fisicamente ferido. Nesse caso, será que quem produziu este vídeo risível teria feito algo de errado? Se assim for, a quem, e por quê?

Estas perguntas estão agora no centro de um debate internacional. O próprio presidente dos EUA Barack Obama tocou no assunto em seu discurso à Assembleia Geral da ONU na terça-feira, 25. Ele se dirigiu diretamente à reação violenta do mundo muçulmano ao "vídeo bruto e grotesco". Mas será que a filosofia tem algo a dizer sobre essa visão que muitas pessoas têm de que há algo nesse tipo de insulto – e não apenas o seu dano à ordem pública – que não deve ser pronunciado ou produzido?

O que há de tão perturbador em insultos ou mentiras sobre coisas que os outros consideram sagradas, sejam elas textos, profetas humanos ou objetos físicos? Que razões temos para censurar este tipo de discurso?

A maioria das abordagens sobre a moralidade de discursos envolvendo "o sagrado" vai começar com três pontos de partida:

1 -
O ser humano tem interesses muito fortes em ser livre para se expressar.

2 – O "sagrado" é um objeto da construção humana e, portanto, o fato de que alguma coisa é chamada de "sagrada" é insuficiente em si para explicar porque todos os seres humanos devem respeitá-la.

3 – O respeito é devido às pessoas, mas não a tudo o que elas dão valor ou veneram.
Estas três premissas tornam mais difíceis alguns argumentos comuns que defendem a censura a este tipo de ofensa ao "sagrado". Aqui estão alguns destes argumentos mais comuns:

1. A blasfêmia transgride limites e viola o "sagrado".
A partir da perspectiva religiosa, este é o maior mal da blasfêmia. Na lei islâmica, por exemplo, Deus e o profeta Maomé têm, além de muito valor para os crentes, interesses e direitos também. Mas qual a razão para que os outros não violem o sagrado se eles não concordam que x ou y é sagrado ou tem um valor incrível? Nenhuma razão.

2. Devemos respeitar o que as pessoas consideram como "sagrado", ou tratam como religioso.
Eu não tenho nenhuma objeção a isso como um princípio moral do discurso. Certamente, o fato de que X é chamado de "sagrado" por alguém deveria me dar algum motivo para repensar o que eu estou dizendo. Mas há dois problemas óbvios aqui: (a) isso dá ampla liberdade para outras pessoas reivindicarem poder de veto sobre o meu discurso, chamando de "sagrado" coisas que não o são, como: a bandeira norte-americana, a política, a Coca-Cola; (b) é fácil pensar em exemplos em que a fala de alguém é tão importante que se sobrepõe à eventual dor que ela pode causar a alguém, como consequência não-intencional.

3. As pessoas ficam profundamente magoadas e feridas por violações do "sagrado" ou objetos de amor.
Isso é importante. A dor dos outros sempre importa. Mas a dor por si só não pode explicar a totalidade de nossas relações morais. As pessoas sentem dor por todos os tipos de coisas. As pessoas se ligam a todos os tipos de histórias, símbolos e instituições. A dor às vezes é merecida. Pelo menos às vezes, o discurso é tão importante que a dor é um custo razoável. Pessoas religiosas sabem disso melhor do que a maioria de nós.

4. A blasfêmia é perigosa.
O grande filósofo Thomas Hobbes foi tão longe a ponto de declarar que os insultos são uma violação da lei natural, mesmo antes de entrarmos no contrato social. Ele não teria sido surpreendido com a reação às caricaturas dinamarquesas, ao filme Inocência dos muçulmanos, ou qualquer briga de bar:

"Qualquer sinal de ódio e de desprezo é mais provocador de brigas e lutas do que qualquer outra coisa, de modo que a maioria dos homens prefere perder a sua paz a sofrer insulto".

Então, sim, o fato de que uma palavra ofensiva irá contribuir para um surto de violência é uma razão muito boa para não proferi-la e, muitas vezes, a razão decisiva e suficiente. O problema é: que tipo de razão? Se pensarmos que as nossas palavras são razoáveis e que não pretendiam provocar ninguém, e ainda assim nos auto-censuramos, estamos agindo com prudência ou medo, e de certa maneira, tratando o outro como um ser irracional. Não são os seres humanos capazes de ter mais vontade de dialogar do que o medo mútuo?

O que este artigo tenta argumentar é que nenhum destes argumentos comuns sozinhos nos dá razão suficiente para nos abster de um discurso simplesmente porque é uma blasfêmia. É importante olhar para além dos clichês reciclados que surgem de todos os lados cada vez que alguma expressão nova cria uma crise internacional.

27 de setembro de 2012
Fontes:The New York Times

EMPRESAS FANTASMAS

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Lavadores de Dinheiro Associados

Um estudo expõe a facilidade de criar empresas de fachada Empresas fantasma – as quais existem apenas no papel, sem escritórios ou funcionários reais – têm alguns usos legítimos. Mas esta estrutura inescrutável também é o veículo preferencial de lavadores de dinheiro, aqueles que dão e aqueles que recebem subornos, sonegadores de impostos e agentes financeiros do terrorismo. Em muitas investigações criminais, tornou-se impossível resolver o caso devido à inabilidade dos policiais de conseguirem enxergar através do véu corporativo das empresas fantasma.

O protocolo internacional que dispõe a respeito das empresas fantasma, criado pela Força Tarefa de Ação Financeira intergovernamental (FATF, na sigla em inglês) é bastante claro.
Este afirma que os países tem que tomar todas as medidas necessárias para impedir o uso abusivo do instrumento, tal como certificar-se de que informações procedentes a respeito do verdadeiro proprietário (ou beneficiário) esteja disponível para as "autoridades competentes".
Mais de 180 países se comprometeram com o protocolo. Um estudo investigou o nível de adequação ao redor do mundo. Os resultados são deprimentes.

Passando-se por consultores, os autores do estudo pediram a 3.700 agentes societários em 182 países que abrissem empresas para eles.
Em geral, 48% dos agentes que responderam não requisitaram a documentação apropriada; quase metade desses não pediram por documento algum.

Ao contrário do senso comum, fornecedores baseados em paraísos fiscais, tal como as ilhas Jersey e Cayman, adequavam-se com muito mais frequência aos padrões do que aqueles da OECD, um grupo de países em sua maioria ricos.
Até mesmo países pobres tiveram uma taxa de cumprimento mais altas, o que sugere que o problema do mundo rico não é de custo, mas sim uma indisposição a seguir as regras. Apenas dez dos1.722 fornecedores americanos pediram por documentos registrados em cartório, conforme estipula o padrão do FATF.

Amiúde, os fornecedores se destacaram por sua insensibilidade até mesmo em relação a riscos criminais claros. Os autores enviaram três tipos principais de e-mails: o primeiro vinha de um país de baixo risco tal como Noruega ou Austrália; o segundo era de um indivíduo com alto risco de corrupção que alegava trabalhar com concessões governamentais em lugares como Quirguistão e Guiné Equatorial; o terceiro continha um risco de financiamento ao terrorismo devido ao fato de ser ligado a uma organização filantrópica islâmica da Arábia Saudita.

A probabilidade de resposta dos fornecedores era menor em relação à categoria de corrupção do que em relação à categoria de baixo risco, mas também havia uma menor probabilidade de que os fornecedores pediriam documentos deidentificação caso respondessem. Encontrar agentes para o agente financeiro do terrorismo foi mais difícil, mas não impossível: um em cada 17 fornecedor esestavam dispostos a criar uma empresa fantasma anônima para ele.

Esse estudo, certamente o mais completo da categoria, pode ser chocante para aqueles que se preocupam com o elo entre crime financeiro e confidencialidade corporativa. Os países da OECD não mostraram muito disposição para enfrentar suas próprias fraquezas e acabar com sua hipocrisia.

27 de setembro de 2012
Fontes:The Economist - Launderers Anonymous