Brasil supera Reino Unido e já é a 6ª economia. (Esta noticia tem o mesmo cheiro daquela frase do Obama para o Lula -"Este é o Cara." e ele acreditou ).
Um painel político do momento histórico em que vivem o país e o mundo. Pretende ser um observatório dos principais acontecimentos que dominam o cenário político nacional e internacional, e um canal de denúncias da corrupção e da violência, que afrontam a cidadania. Este não é um blog partidário, visto que partidos não representam idéias, mas interesses de grupos, e servem apenas para encobrir o oportunismo político de bandidos. Não obstante, seguimos o caminho da direita. Semitam rectam.
"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)
"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
MISCELÂNEA
Euforia demais é um perigo
É preciso tomar cuidado com essa história de que o Brasil ultrapassou o Reino Unido e agora passou à sexta economia do planeta. Euforia demais é um perigo. Ninguém esquece os tempos do “milagre brasileiro”, do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Deu no que deu, até na Comissão da Verdade. Ainda bem que o governo e o Congresso estão de recesso, senão já teria começado a maratona de discursos e pronunciamentos celebrando o anúncio.
Começa que devemos desconfiar de quem anuncia. São eles mesmo, as empresas e institutos americanos que de vez em quando entram em parafuso, até em falência, acostumados a dar notas para todo mundo, menos para eles. Depois, porque a produção não é tudo. Indústrias, comércio, agricultura e serviços vão bem, mas nem tanto a ponto de evitar que o crescimento do PIB congelasse no último trimestre. A explicação é de que outros cresceram menos, ou não cresceram.
Claro que a notícia surge positiva, nos enche de orgulho, mas seria bom atentar para nossos índices de pobreza e até de miséria. Na palavra da própria presidente Dilma, o Brasil tem 16 milhões de miseráveis. Festejar o sexto lugar será prematuro enquanto a distribuição da renda nacional não chegar a patamares muito mais justos. Os potentados de nariz em pé deveriam olhar para o fim da fila.
A propósito, continua sempre oportuno buscar no passado lições capazes de nortear nosso futuro. Voltaire, no imperdível “Ensaio Sobre a Moral e o Espírito das Nações”, puxou as orelhas da França ao escrever que nenhum país possuía o tal “destino manifesto” de que se vangloriavam as elites francesas. Muito pelo contrário, ridicularizou o Estado, a nobreza, o clero e negou o direito divino dos reis ao prever sérias dificuldades para o país envolto na ilusão. Felizmente para ele, morreu antes da Queda da Bastilha.
Poderia até clamar pela Revolução, mas jamais concordaria com o terror, a ditadura e o império de Napoleão. Ignoramos o que acontecerá caso o mundo continue mergulhado na crise, mesmo se nós permanecermos crescendo. Boa coisa não será.
***
SEM CREDENCIAIS
Por falar em Voltaire, não dá para resistir à tentação de contar mais uma de suas ironias. Depois de passar a vida criticando a Igreja, seu comportamento e seus privilégios, com o refrão de “écrasez l’infame” (esmagai a infame), com mais de 80 anos, às portas da morte, o velho filósofo recebeu um padre que tentou prepará-lo para a outra vida. Indagou do visitante: “Quem o enviou?” Como resposta, ouviu: “Deus em pessoa!” E a réplica: “Então vejamos suas credenciais!”
Guardadas as proporções, tem muita gente falando em nome da presidente Dilma Rousseff, em especial sobre a reforma do ministério. Mas credenciais, mesmo, andam em falta…
***
OS CAVALOS E OS ASNOS
Para registrar que a verve de Voltaire não foi característica de sua longa experiência, vai uma de sua juventude. Recém-chegado a Paris, com vinte anos, surpreendeu a capital francesa com seus artigos e comentários ferinos. O Regente, Felipe de Orleáns, que governava em nome do jovem Luís XV, resolveu fazer economia e mandou cortar pela metade a despesa com as cavalariças reais. Vendeu mais de 500 corcéis. Voltaire não perdeu a oportunidade e escreveu que em vez dos cavalos, o Regente deveria livrar-se dos muitos asnos que evoluíam em torno do trono. Irritado, Felipe encontrou-se com o jovem no Bois de Boulogne, onde a nata da sociedade costumava passear. E falou: “Monsieur Arouet, vou proporcionar-lhe uma visão de Paris que o senhor jamais viu.” No dia seguinte Voltaire estava preso na fortaleza da Bastilha, onde ficou por onze meses.
Arrependido, o Regente mandou soltá-lo e ainda concedeu-lhe a pensão anual de algumas centenas de francos. O incorrigível gênio escreveu de volta: “Agradeço a Vossa Majestade preocupar-se com minha alimentação diária, que aceito, mas quanto às minhas acomodações, pode deixar que eu mesmo cuido.” Perdeu a dotação e precisou refugiar-se em Londres, para não ter que voltar à Bastilha…
***
A VEZ DE RICHELIEU
Vamos ficar na França imortal e retroceder um século. O Cardeal Richelieu governava com mão de ferro, como primeiro-ministro do rei Luís XIII, fraco e hesitante. Tinha como princípio que, em qualquer circunstância, o interesse público deveria prevalecer sobre o interesse privado. Um dia, no entanto, desabafou: “Muitas vezes tenho mais dificuldade em governar o rei do que o reino.”
De novo guardadas as proporções e com todo o respeito, vamos colocar a presidente Dilma no papel do Cardeal e imaginar se ela, de quando em quando, não encontra mais dificuldades em controlar o Congresso do que em gerir o país…
Carlos Chagas
É preciso tomar cuidado com essa história de que o Brasil ultrapassou o Reino Unido e agora passou à sexta economia do planeta. Euforia demais é um perigo. Ninguém esquece os tempos do “milagre brasileiro”, do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Deu no que deu, até na Comissão da Verdade. Ainda bem que o governo e o Congresso estão de recesso, senão já teria começado a maratona de discursos e pronunciamentos celebrando o anúncio.
Começa que devemos desconfiar de quem anuncia. São eles mesmo, as empresas e institutos americanos que de vez em quando entram em parafuso, até em falência, acostumados a dar notas para todo mundo, menos para eles. Depois, porque a produção não é tudo. Indústrias, comércio, agricultura e serviços vão bem, mas nem tanto a ponto de evitar que o crescimento do PIB congelasse no último trimestre. A explicação é de que outros cresceram menos, ou não cresceram.
Claro que a notícia surge positiva, nos enche de orgulho, mas seria bom atentar para nossos índices de pobreza e até de miséria. Na palavra da própria presidente Dilma, o Brasil tem 16 milhões de miseráveis. Festejar o sexto lugar será prematuro enquanto a distribuição da renda nacional não chegar a patamares muito mais justos. Os potentados de nariz em pé deveriam olhar para o fim da fila.
A propósito, continua sempre oportuno buscar no passado lições capazes de nortear nosso futuro. Voltaire, no imperdível “Ensaio Sobre a Moral e o Espírito das Nações”, puxou as orelhas da França ao escrever que nenhum país possuía o tal “destino manifesto” de que se vangloriavam as elites francesas. Muito pelo contrário, ridicularizou o Estado, a nobreza, o clero e negou o direito divino dos reis ao prever sérias dificuldades para o país envolto na ilusão. Felizmente para ele, morreu antes da Queda da Bastilha.
Poderia até clamar pela Revolução, mas jamais concordaria com o terror, a ditadura e o império de Napoleão. Ignoramos o que acontecerá caso o mundo continue mergulhado na crise, mesmo se nós permanecermos crescendo. Boa coisa não será.
***
SEM CREDENCIAIS
Por falar em Voltaire, não dá para resistir à tentação de contar mais uma de suas ironias. Depois de passar a vida criticando a Igreja, seu comportamento e seus privilégios, com o refrão de “écrasez l’infame” (esmagai a infame), com mais de 80 anos, às portas da morte, o velho filósofo recebeu um padre que tentou prepará-lo para a outra vida. Indagou do visitante: “Quem o enviou?” Como resposta, ouviu: “Deus em pessoa!” E a réplica: “Então vejamos suas credenciais!”
Guardadas as proporções, tem muita gente falando em nome da presidente Dilma Rousseff, em especial sobre a reforma do ministério. Mas credenciais, mesmo, andam em falta…
***
OS CAVALOS E OS ASNOS
Para registrar que a verve de Voltaire não foi característica de sua longa experiência, vai uma de sua juventude. Recém-chegado a Paris, com vinte anos, surpreendeu a capital francesa com seus artigos e comentários ferinos. O Regente, Felipe de Orleáns, que governava em nome do jovem Luís XV, resolveu fazer economia e mandou cortar pela metade a despesa com as cavalariças reais. Vendeu mais de 500 corcéis. Voltaire não perdeu a oportunidade e escreveu que em vez dos cavalos, o Regente deveria livrar-se dos muitos asnos que evoluíam em torno do trono. Irritado, Felipe encontrou-se com o jovem no Bois de Boulogne, onde a nata da sociedade costumava passear. E falou: “Monsieur Arouet, vou proporcionar-lhe uma visão de Paris que o senhor jamais viu.” No dia seguinte Voltaire estava preso na fortaleza da Bastilha, onde ficou por onze meses.
Arrependido, o Regente mandou soltá-lo e ainda concedeu-lhe a pensão anual de algumas centenas de francos. O incorrigível gênio escreveu de volta: “Agradeço a Vossa Majestade preocupar-se com minha alimentação diária, que aceito, mas quanto às minhas acomodações, pode deixar que eu mesmo cuido.” Perdeu a dotação e precisou refugiar-se em Londres, para não ter que voltar à Bastilha…
***
A VEZ DE RICHELIEU
Vamos ficar na França imortal e retroceder um século. O Cardeal Richelieu governava com mão de ferro, como primeiro-ministro do rei Luís XIII, fraco e hesitante. Tinha como princípio que, em qualquer circunstância, o interesse público deveria prevalecer sobre o interesse privado. Um dia, no entanto, desabafou: “Muitas vezes tenho mais dificuldade em governar o rei do que o reino.”
De novo guardadas as proporções e com todo o respeito, vamos colocar a presidente Dilma no papel do Cardeal e imaginar se ela, de quando em quando, não encontra mais dificuldades em controlar o Congresso do que em gerir o país…
Carlos Chagas
ANEDOTA EXEMPLAR
“Petista é igual a lagosta:
é vermelho, tem casca dura, merda na cabeça
e vive nas costas do Brasil".
é vermelho, tem casca dura, merda na cabeça
e vive nas costas do Brasil".
AGORA VIROU COMEDIANTE.
E por falar em macacos...
O mico da Merdezuela, Tio Chico Chavez, agora deu para contar piadas.
Em rede nacional de rádio e TV, declarou que são muito estranhos os diagnósticos de cancer em vários esquerdiotas esquerdofrênicos mandatários da Amérdica Latrina.
Com a descoberta de um câncer na Tireóide da Barbie da Terceira idade na ARGHentina, sobe para 5 o número de "políticos" cucarachas que sofrem da doença.
O boçalzão Merdezuelano em uma visível demonstração de que a doença está atacando seus parcos e atrofiados neurônios, disse que uzistaduzunidus podem ter desenvolvido uma nova tecnologia que possa induzir ao câncer.
E eu que pensava que o câncer desse feladeumapota era no rabo?
Será que em breve veremos esse beócio fazendo stand up comedy?
o mascate
O mico da Merdezuela, Tio Chico Chavez, agora deu para contar piadas.
Em rede nacional de rádio e TV, declarou que são muito estranhos os diagnósticos de cancer em vários esquerdiotas esquerdofrênicos mandatários da Amérdica Latrina.
Com a descoberta de um câncer na Tireóide da Barbie da Terceira idade na ARGHentina, sobe para 5 o número de "políticos" cucarachas que sofrem da doença.
O boçalzão Merdezuelano em uma visível demonstração de que a doença está atacando seus parcos e atrofiados neurônios, disse que uzistaduzunidus podem ter desenvolvido uma nova tecnologia que possa induzir ao câncer.
E eu que pensava que o câncer desse feladeumapota era no rabo?
Será que em breve veremos esse beócio fazendo stand up comedy?
o mascate
O ANO EM FRASES 2011
AULA DE BANDIDAGEM
"O político tem que ter casco duro. Porque se cada político tremer a cada vez que alguém disser uma coisa errada dele, se ele não enfrentar a briga para provar que está certo, as pessoas vão saindo mesmo”.
Lula, ao receber o título de Doutor Honoris Causa na Bahia, ensinando que, para manter o emprego, todo ministro gatuno pilhado em flagrante deve acusar de ladroagem os brasileiros honestos.
SETEMBRO
NINGUÉM MERECE
“Somos o Trio Ternura. É tudo ternurinha aqui.”
Ideli Salvatti, ministra das Relações Institucionais, informando que montou um trio com Gleisi Hoffmann, chefe da Casa Civil, e Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, com cara de quem dança conforme a música escolhida por Dilma Rousseff, apreciadora de heavy metal e funk porrada.
AGOSTO
TERROR DOS ESTUDANTES
“O que estou dizendo é que tivemos a melhor década da educação do ponto de vista do avanço na qualidade”.
Fernando Haddad, ministro da Educação, lembrando que ninguém conseguiu em tão pouco tempo comandar dois naufrágios do Enem e lançar livros didáticos que ensinam que falar errado está certo ou que 10 menos 7 é igual a 4.
AGOSTO
HORA DO PESADELO
“O barbudo tem de voltar”.
Alfredo Nascimento, ex-ministro dos Transportes, ansioso pela volta do ex-presidente Lula, o Padroeiro dos Companheiros Bandidos, confirmando que a turma com culpa no cartório não dorme direito desde que começaram a sonhar com pulsos algemados e fotos de parceiros de topless.
AGOSTO
“Vou trazer um Biotônico Fontoura para a Ideli, que está fraquinha, e um GPS para a Gleisi, para ela se localizar”.
Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, tentando desanuviar o clima no Planalto, antes que Dilma Rousseff resolva acrescentar algumas palmadas ao pito que aplica, todo santo dia, no carregador de malas.
"O político tem que ter casco duro. Porque se cada político tremer a cada vez que alguém disser uma coisa errada dele, se ele não enfrentar a briga para provar que está certo, as pessoas vão saindo mesmo”.
Lula, ao receber o título de Doutor Honoris Causa na Bahia, ensinando que, para manter o emprego, todo ministro gatuno pilhado em flagrante deve acusar de ladroagem os brasileiros honestos.
SETEMBRO
NINGUÉM MERECE
“Somos o Trio Ternura. É tudo ternurinha aqui.”
Ideli Salvatti, ministra das Relações Institucionais, informando que montou um trio com Gleisi Hoffmann, chefe da Casa Civil, e Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, com cara de quem dança conforme a música escolhida por Dilma Rousseff, apreciadora de heavy metal e funk porrada.
AGOSTO
TERROR DOS ESTUDANTES
“O que estou dizendo é que tivemos a melhor década da educação do ponto de vista do avanço na qualidade”.
Fernando Haddad, ministro da Educação, lembrando que ninguém conseguiu em tão pouco tempo comandar dois naufrágios do Enem e lançar livros didáticos que ensinam que falar errado está certo ou que 10 menos 7 é igual a 4.
AGOSTO
HORA DO PESADELO
“O barbudo tem de voltar”.
Alfredo Nascimento, ex-ministro dos Transportes, ansioso pela volta do ex-presidente Lula, o Padroeiro dos Companheiros Bandidos, confirmando que a turma com culpa no cartório não dorme direito desde que começaram a sonhar com pulsos algemados e fotos de parceiros de topless.
AGOSTO
“Vou trazer um Biotônico Fontoura para a Ideli, que está fraquinha, e um GPS para a Gleisi, para ela se localizar”.
Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, tentando desanuviar o clima no Planalto, antes que Dilma Rousseff resolva acrescentar algumas palmadas ao pito que aplica, todo santo dia, no carregador de malas.
UMA REFLEXÃO NECESSÁRIA
O artigo a seguir vale uma profunda reflexão e mais ainda, que seja compartilhado com outras pessoas, para que outros tenham a oportunidade de rever seus conceitos.
Minha querida filha:
Todo Natal eu passo pelo mesmo problema de ter de escolher que presente dar a você. Sei que há várias coisas das quais você certamente iria gostar, como livros, jogos, roupas etc. Porém eu sou muito egoísta. Sempre quis dar a você algo que iria durar mais do que alguns meses ou anos. Sempre quis dar pra você um presente que lhe faria se lembrar de mim a cada Natal, para sempre.
Se eu pudesse lhe dar apenas um presente, o qual você pudesse carregar consigo para sempre, esse presente seria algo aparentemente muito trivial, mas que me tomou vários anos para que eu finalmente o entendesse. Esse presente seria uma verdade aparentemente simples, porém libertadora. E se você aprendê-la agora, essa simples verdade poderá enriquecer sua vida de incontáveis maneiras. Mais ainda: ela poderá lhe poupar de ter de enfrentar vários problemas que já machucaram muitas pessoas que simplesmente nunca a aprenderam.
Essa verdade aparentemente simples, porém libertadora, é a seguinte:
Ninguém deve nada a você.
Importância
Como pode uma afirmação tão simples ser importante? Pode não parecer, mas entendê-la realmente pode ser uma benção para toda a sua vida.
Ninguém deve nada a você.
Isso significa que nenhuma outra pessoa está vivendo para você, minha filha. Ninguém está nesse mundo para satisfazer suas reivindicações. Ninguém está vivendo em função de você. Simplesmente porque nenhuma outra pessoa é você. Cada pessoa vive por si própria; a felicidade de cada pessoa é tudo que ela pode sentir de forma singular e particular.
Minha filha, quando você entender que ninguém tem a obrigação de dar a você a felicidade ou qualquer outra coisa, você será libertada e nunca mais terá expectativas em relação a coisas que provavelmente nunca serão como você quer.
Isso significa, por exemplo, que ninguém é obrigado a amar você. Se alguém a ama, é porque existe algo de especial em você que dá felicidade a essa pessoa. Descubra o que é essa coisa de especial que você tem e se esforce para amplificá-la. Assim você será ainda mais amada.
Quando as pessoas fazem algo por você, é simplesmente porque elas querem — porque você, de alguma forma, propicia a elas algo de significativo que faz com que elas queiram agradar você. Elas não agem assim apenas porque devem algo a você.
Ninguém deve nada a você.
Da mesma forma, ninguém tem de gostar de você. Se seus amigos querem estar perto de você, não é porque eles se sentem nessa obrigação; é simplesmente porque eles se sentem bem estando com você. Descubra o que os deixa felizes e os faz se sentirem bem, e eles sempre irão querer estar perto de você, sem pedir nada em troca.
Ninguém tem a obrigação de respeitar você. Algumas pessoas podem até mesmo ser cruéis com você. Porém, tão logo você entenda que as pessoas não têm a obrigação de ser bondosas com você — e que, consequentemente, elas de fato podem ser más com você —, você irá aprender a evitar aquelas pessoas que podem lhe ser nocivas. Lembre-se que você também não deve nada a elas.
Vivendo a sua vida
Ninguém deve nada a você.
Você deve apenas a você mesma a obrigação de ser a melhor pessoa possível. Porque apenas se você for assim é que as outras pessoas irão querer estar com você e irão querer dar a você as coisas que você quer em troca daquilo que você está dando a elas. Essa é a única maneira moralmente correta de se obter as coisas que você quer. Nunca exija nada de ninguém. Apenas faça por merecer.
Algumas pessoas irão optar por ficar longe de você por motivos que nada têm a ver com você. Quando isso acontecer, procure em outro lugar as relações que você quer. Não faça com que os problemas de outras pessoas sejam também o seu problema.
Assim que você aprender que precisa fazer por merecer o amor e o respeito dos outros, você jamais irá esperar coisas impossíveis; e, por conseguinte, jamais terá decepções. Da mesma forma que as outras pessoas não têm a obrigação de compartilhar a propriedade delas com você, elas também não têm a obrigação de lhe devotar sentimentos e pensamentos.
Se elas o fizerem, é porque você fez por merecer essas coisas. E aí você terá todos os motivos para se sentir orgulhosa do amor que você recebe, do respeito dos seus amigos, da propriedade que você adquiriu. Porém, jamais pressuponha que tais coisas são fatos consumados. Se agir assim, você irá perdê-las facilmente. Essas coisas não são suas por direito. Não existe algo como "ter direito" a essas coisas. Você sempre terá de fazer por merecê-las.
Minha experiência
Um grande fardo foi retirado dos meus ombros no dia em que finalmente entendi que o mundo não devia nada a mim. Por muitos anos acreditei que havia coisas a que eu tinha direito pelo simples fato de ter nascido. E isso fez com que eu passasse por grandes desgastes — físicos e emocionais — em minha tentativa de coletar esses "direitos".
Ninguém deve a mim respeito, amizade, amor, cortesia, conduta moral ou inteligência. O mundo não me deve nada. E tão logo eu passei a reconhecer isso, todas as minhas relações imediatamente se tornaram muito mais gratificantes. Concentrei-me apenas em estar com aquelas pessoas que queriam fazer as coisas que eu queria que elas fizessem.
Essa compreensão de mundo permitiu que eu me desse bem com amigos, sócios comerciais, clientes, amores e estranhos. Sou constantemente relembrado de que só irei conseguir o que quero se puder entrar no mundo da outra pessoa. Eu tenho de entender como ela pensa, o que ela crê ser importante e o que ela quer. Somente assim eu poderei ser útil para ela e, com isso, conseguir as coisas que eu quero.
E somente então eu serei capaz de discernir se eu realmente quero estar envolvido com tal pessoa. Isso me permite selecionar bem as minhas relações, poupando-me de dissabores; e me permite também direcionar minhas energias apenas para aquelas pessoas com as quais eu realmente tenho mais coisas em comum.
Não é fácil resumir em poucas palavras aquilo que levei anos para aprender. Porém, talvez se você reler esse presente a cada Natal, seu significado ficará mais claro a cada ano.
Eu realmente espero que isso aconteça. Sendo seu pai, quero acima de tudo que você entenda essa simples verdade, a qual pode libertá-la para sempre.
*** *** ***
Harry Browne , o falecido autor de Por que o Governo Não Funciona e de vários outros livros, foi candidato à presidência dos EUA pelo Partido Libertário nas eleições de 1996 e 2000.
FONTE: Instituto Ludwig von Mises
ESPIRITISMO, CAPITALISMO E LIBERDADE
As idéias liberais no Brasil estão confinadas a um gueto de empedernidos homens de elevados ideais e aguçado senso histórico, que anunciam que o perigo – não um mero sentimento de perigo, uma simples ameaça potencial – mas um perigo real que ameaça a vida e a liberdade das pessoas está à espreita, seja pela desordem econômica, seja pelo estímulo ao conflito social, seja porque pessoas despreparadas para o poder e dispostas a implantar seus preconceitos destrutivos como ação de governo estão na iminência de assumirem a presidência da República. São tempos de grandes perigos, de fato, os que estamos a viver.
Apresentamos aqui uma entrevista que sugiro seja divulgada e vista e revista muitas vezes, e depois vou postar também o livro capitalismo e liberdade।
A FALÁCIA DE QUE É VIÁVEL E POSSIVEL FAZER O BEM COM O DINHEIRO DOS OUTROS.
SE EU QUERO FAZER O BEM COM O DINHEIRO DOS OUTROS, EU PRIMEIRO TENHO QUE TIRÁ-LO DE VOCÊ।
"Ninguém gasta o dinheiro dos outros com o mesmo cuidado com que gasta o seu próprio".
Pensador econômico mais influente dos últimos sessenta anos, Friedman, filho de imigrantes do Leste Europeu nascido no bairro do Brooklyn, em Nova York, foi campeão das liberdades individuais em um período em que o centralismo, o estatismo e as razões de Estado eram endeusados.
Para Friedman, a liberdade econômica, a liberdade política e a liberdade pessoal eram manifestações de um mesmo princípio, o invencível poder do indivíduo e suas escolhas.
Friedman pregava apaixonadamente, desde a juventude, que as pessoas deveriam ser livres para fazer o que quisessem com seu suado dinheiro e com sua vida. Essas idéias parecem hoje apenas o senso comum. Foram revolucionárias em um tempo em que o comunismo era tido como uma alternativa viável ao capitalismo.
Foram um jorro de luz sobre a concepção obscurantista de que só governos fortes podiam resolver os problemas econômicos e sociais das nações. Seus ensinamentos começaram a ser valorizados no fim dos anos 50, quando as políticas intervencionistas e gastadoras começaram a se esgotar nos países centrais do capitalismo, resultando mais tarde em surtos inflacionários e até estagflação (preços em alta com crescimento em baixa). Friedman apontou a saída.
Suas receitas passaram a ser adotadas, enquanto se aposentavam as do inglês John Maynard Keynes (1883-1946). Friedman foi inspirador de algumas políticas econômicas do presidente americano Ronald Reagan e conselheiro pessoal da ex-primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher.
Reagan foi um discípulo rebelde. Thatcher, uma aluna exemplar. Juntos, com a bandeira do individualismo e da eficiência econômica dos mercados, eles infligiram o nocaute moral e econômico que derrubou a União Soviética. O punho invisível de Friedman pode ser sentido em todo o processo.
Iconoclasta e incansável opositor do modelo econômico predominante no pós-II Guerra Mundial, Friedman teve o raro privilégio de ver os fatos confirmar suas teses. "O keynesianismo não tinha uma teoria para a inflação, não trazia uma explicação para o aumento de preços", afirma o economista José Júlio Senna, que prepara atualmente um livro sobre a história da política monetária.
Completa ele: "Keynes foi o grande revolucionário do século passado, mas Friedman foi o grande contra-revolucionário". Para combater a inflação, dizia Friedman, os governantes deveriam em primeiro lugar controlar a emissão de dinheiro, algo desprezado até então. Surgiu daí a chamada corrente monetarista, predominante hoje nos bancos centrais de todo o planeta. Essa escola ficou associada à Universidade de Chicago, na qual Friedman lecionou de 1946 a 1976 e onde deixou discípulos.
Em 1957, publicou Teoria da Função Consumo, um de seus trabalhos mais citados.
Nele demostrou que o consumo não cresce de maneira duradoura e sustentável a partir de estímulos pontuais, como imaginava Keynes, mas somente se houver um ganho permanente na renda das pessoas.
Seu trabalho mais influente foi História Monetária dos Estados Unidos, de 1963, escrito em parceria com Anna Schwartz. Foi nesse estudo que ele estabeleceu as bases do monetarismo.
A reação à morte de Friedman é termômetro de sua estatura intelectual. Thatcher o saudou como o economista que reatou o vínculo entre a economia e a liberdade quando ele havia sido quebrado: "Ele foi um guerreiro intelectual da liberdade".
O ex-presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) Alan Greenspan afirmou ter sido influenciado diretamente por Friedman durante cinco décadas: "Meu mundo não seria o mesmo sem ele".
Henrique Meirelles, presidente do Banco Central brasileiro, lembra que todos correram para os ensinamentos de Friedman quando a inflação mundial saiu de controle e começou a devorar riquezas.
Em uma entrevista concedida durante a crise cambial brasileira de 1999, Friedman disse: "O Brasil tem de pôr sua casa fiscal em ordem: ou corta fortemente os gastos governamentais, ou aumentar fortemente a receita.
Não há outro caminho. Tem outra saída: imprimir dinheiro. Mas isso leva inevitavelmente à inflação". Só a parte que fala em aumento de receita foi seguida.
República dos Espiritos
Apresentamos aqui uma entrevista que sugiro seja divulgada e vista e revista muitas vezes, e depois vou postar também o livro capitalismo e liberdade।
A FALÁCIA DE QUE É VIÁVEL E POSSIVEL FAZER O BEM COM O DINHEIRO DOS OUTROS.
SE EU QUERO FAZER O BEM COM O DINHEIRO DOS OUTROS, EU PRIMEIRO TENHO QUE TIRÁ-LO DE VOCÊ।
"Ninguém gasta o dinheiro dos outros com o mesmo cuidado com que gasta o seu próprio".
Pensador econômico mais influente dos últimos sessenta anos, Friedman, filho de imigrantes do Leste Europeu nascido no bairro do Brooklyn, em Nova York, foi campeão das liberdades individuais em um período em que o centralismo, o estatismo e as razões de Estado eram endeusados.
Para Friedman, a liberdade econômica, a liberdade política e a liberdade pessoal eram manifestações de um mesmo princípio, o invencível poder do indivíduo e suas escolhas.
Friedman pregava apaixonadamente, desde a juventude, que as pessoas deveriam ser livres para fazer o que quisessem com seu suado dinheiro e com sua vida. Essas idéias parecem hoje apenas o senso comum. Foram revolucionárias em um tempo em que o comunismo era tido como uma alternativa viável ao capitalismo.
Foram um jorro de luz sobre a concepção obscurantista de que só governos fortes podiam resolver os problemas econômicos e sociais das nações. Seus ensinamentos começaram a ser valorizados no fim dos anos 50, quando as políticas intervencionistas e gastadoras começaram a se esgotar nos países centrais do capitalismo, resultando mais tarde em surtos inflacionários e até estagflação (preços em alta com crescimento em baixa). Friedman apontou a saída.
Suas receitas passaram a ser adotadas, enquanto se aposentavam as do inglês John Maynard Keynes (1883-1946). Friedman foi inspirador de algumas políticas econômicas do presidente americano Ronald Reagan e conselheiro pessoal da ex-primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher.
Reagan foi um discípulo rebelde. Thatcher, uma aluna exemplar. Juntos, com a bandeira do individualismo e da eficiência econômica dos mercados, eles infligiram o nocaute moral e econômico que derrubou a União Soviética. O punho invisível de Friedman pode ser sentido em todo o processo.
Iconoclasta e incansável opositor do modelo econômico predominante no pós-II Guerra Mundial, Friedman teve o raro privilégio de ver os fatos confirmar suas teses. "O keynesianismo não tinha uma teoria para a inflação, não trazia uma explicação para o aumento de preços", afirma o economista José Júlio Senna, que prepara atualmente um livro sobre a história da política monetária.
Completa ele: "Keynes foi o grande revolucionário do século passado, mas Friedman foi o grande contra-revolucionário". Para combater a inflação, dizia Friedman, os governantes deveriam em primeiro lugar controlar a emissão de dinheiro, algo desprezado até então. Surgiu daí a chamada corrente monetarista, predominante hoje nos bancos centrais de todo o planeta. Essa escola ficou associada à Universidade de Chicago, na qual Friedman lecionou de 1946 a 1976 e onde deixou discípulos.
Em 1957, publicou Teoria da Função Consumo, um de seus trabalhos mais citados.
Nele demostrou que o consumo não cresce de maneira duradoura e sustentável a partir de estímulos pontuais, como imaginava Keynes, mas somente se houver um ganho permanente na renda das pessoas.
Seu trabalho mais influente foi História Monetária dos Estados Unidos, de 1963, escrito em parceria com Anna Schwartz. Foi nesse estudo que ele estabeleceu as bases do monetarismo.
A reação à morte de Friedman é termômetro de sua estatura intelectual. Thatcher o saudou como o economista que reatou o vínculo entre a economia e a liberdade quando ele havia sido quebrado: "Ele foi um guerreiro intelectual da liberdade".
O ex-presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) Alan Greenspan afirmou ter sido influenciado diretamente por Friedman durante cinco décadas: "Meu mundo não seria o mesmo sem ele".
Henrique Meirelles, presidente do Banco Central brasileiro, lembra que todos correram para os ensinamentos de Friedman quando a inflação mundial saiu de controle e começou a devorar riquezas.
Em uma entrevista concedida durante a crise cambial brasileira de 1999, Friedman disse: "O Brasil tem de pôr sua casa fiscal em ordem: ou corta fortemente os gastos governamentais, ou aumentar fortemente a receita.
Não há outro caminho. Tem outra saída: imprimir dinheiro. Mas isso leva inevitavelmente à inflação". Só a parte que fala em aumento de receita foi seguida.
República dos Espiritos
NOTAS SOBRE UM LIVRO
Não há nenhum motivo para que a imprensa não noticie e não comente o lançamento do livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Júnior, como não havia para que não noticiasse ou comentasse o livro O Chefe, de Ivo Patarra. Não há motivo, portanto, para que só a publicação de notícia sobre um deles seja exigida, enquanto o outro continua ignorado.
1. Uma das informações de maior impacto do livro é a acusação de que Ricardo Sérgio de Oliveira, homem forte das privatizações, ex-tesoureiro da campanha de FHC e ligado a José Serra, teria recebido propina de 15 milhões de dólares de Benjamin Steinbruch para facilitar a vitória de seu consórcio no leilão da Vale. A acusação foi publicada em maio de 2002 pela revista Veja, paradoxalmente a mesma que é acusada hoje de falta de credibilidade pelas acusações contra ex-ministros demitidos pelo atual governo. A informação sobre suposta propina que teria sido paga por Carlos Jereissatti na formação do consórcio das teles que arrematou a Telemar também foi publicada pela Veja e por vários jornais e revistas. O que comprova que a imprensa sempre cumpriu o seu papel e só passou a ser contestada e chamada de “golpista” quando o protagonista da notícia era alguém do partido errado.
2. As considerações do autor do livro sobre todo o processo de privatização representam as razões de um dos lados do debate ideológico que contrapõe em todo o mundo o dirigismo estatal ao modelo liberal de Estado mínimo. O próprio uso da palavra “privataria” reflete uma opção ideológica. Não há no livro referência à sentença do juiz da 17a Vara Federal sobre a licitude do processo de privatização da Telebrás no caso da denúncia do Ministério Público Federal contra Luiz Carlos Mendonça de Barros e outros no famoso episódio do “limite da irresponsabilidade”. O juiz absolveu os acusados, dizendo que eles defenderam o interesse do Estado (estimulando a criação de um consórcio que aumentaria o preço mínimo do leilão) e não se locupletaram ou beneficiaram pessoalmente de suas ações.
Mais calor do que luz
3. O emaranhado de documentos copiados dos arquivos públicos da Junta Comercial, mostrando inextrincáveis criações, extinções e multiplicações de empresas, mudanças de razão social, saídas e entradas de sócios, mudanças de cargos, movimentações enigmáticas em paraísos fiscais, dão ao livro a solene impressão de uma farta “documentação”, mas faltou um editor ou um especialista em finanças para explicar o que significa cada uma dessas coisas e qual é a relação entre elas. Ficamos sabendo que José Serra tem uma filha que era sócia de Veronica Dantas, irmã do famigerado Daniel (o que em si não chega a constituir crime) e que tem um “primo político” (casado com uma prima) e um genro aparentemente muito ativos em tenebrosas transações. Todos eles, supostamente, abriam, fechavam e multiplicavam empresas para lavar dinheiro e internalizá-lo legalmente no país. Mas de onde vinha esse dinheiro? Há uma vasta coleção de divagações, suposições, insinuações, ilações, que levam a uma conclusão que quer parecer óbvia porém não é comprovada: seria dinheiro desviado das privatizações.
Não há prova nem indício do chamado “crime antecedente”, que a lei exige para a tipificação do delito da lavagem de dinheiro. O livro virou uma peça da guerrilha política que ocorre em algumas rotas do bas fond das redes sociais e, até prova em contrário, está destinado a provocar mais calor do que luz.
Sandro Vaia em 27/12/2011
Reproduzido do Blog do Noblat
***
[Sandro Vaia é jornalista]
1. Uma das informações de maior impacto do livro é a acusação de que Ricardo Sérgio de Oliveira, homem forte das privatizações, ex-tesoureiro da campanha de FHC e ligado a José Serra, teria recebido propina de 15 milhões de dólares de Benjamin Steinbruch para facilitar a vitória de seu consórcio no leilão da Vale. A acusação foi publicada em maio de 2002 pela revista Veja, paradoxalmente a mesma que é acusada hoje de falta de credibilidade pelas acusações contra ex-ministros demitidos pelo atual governo. A informação sobre suposta propina que teria sido paga por Carlos Jereissatti na formação do consórcio das teles que arrematou a Telemar também foi publicada pela Veja e por vários jornais e revistas. O que comprova que a imprensa sempre cumpriu o seu papel e só passou a ser contestada e chamada de “golpista” quando o protagonista da notícia era alguém do partido errado.
2. As considerações do autor do livro sobre todo o processo de privatização representam as razões de um dos lados do debate ideológico que contrapõe em todo o mundo o dirigismo estatal ao modelo liberal de Estado mínimo. O próprio uso da palavra “privataria” reflete uma opção ideológica. Não há no livro referência à sentença do juiz da 17a Vara Federal sobre a licitude do processo de privatização da Telebrás no caso da denúncia do Ministério Público Federal contra Luiz Carlos Mendonça de Barros e outros no famoso episódio do “limite da irresponsabilidade”. O juiz absolveu os acusados, dizendo que eles defenderam o interesse do Estado (estimulando a criação de um consórcio que aumentaria o preço mínimo do leilão) e não se locupletaram ou beneficiaram pessoalmente de suas ações.
Mais calor do que luz
3. O emaranhado de documentos copiados dos arquivos públicos da Junta Comercial, mostrando inextrincáveis criações, extinções e multiplicações de empresas, mudanças de razão social, saídas e entradas de sócios, mudanças de cargos, movimentações enigmáticas em paraísos fiscais, dão ao livro a solene impressão de uma farta “documentação”, mas faltou um editor ou um especialista em finanças para explicar o que significa cada uma dessas coisas e qual é a relação entre elas. Ficamos sabendo que José Serra tem uma filha que era sócia de Veronica Dantas, irmã do famigerado Daniel (o que em si não chega a constituir crime) e que tem um “primo político” (casado com uma prima) e um genro aparentemente muito ativos em tenebrosas transações. Todos eles, supostamente, abriam, fechavam e multiplicavam empresas para lavar dinheiro e internalizá-lo legalmente no país. Mas de onde vinha esse dinheiro? Há uma vasta coleção de divagações, suposições, insinuações, ilações, que levam a uma conclusão que quer parecer óbvia porém não é comprovada: seria dinheiro desviado das privatizações.
Não há prova nem indício do chamado “crime antecedente”, que a lei exige para a tipificação do delito da lavagem de dinheiro. O livro virou uma peça da guerrilha política que ocorre em algumas rotas do bas fond das redes sociais e, até prova em contrário, está destinado a provocar mais calor do que luz.
Sandro Vaia em 27/12/2011
Reproduzido do Blog do Noblat
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[Sandro Vaia é jornalista]
OPINIÃO PARA ALUGAR E VENDER
José do Patrocínio, diretor e proprietário do jornal A Cidade do Rio, para ajudar ao pintor e escritor francês Emílio Rouède, que morava no Brasil, encomendou-lhe a tradução de um romance-folhetim. Ofereceu um tostão (cem réis) por linha. Rouède fez a tradução durante alguns dias, mas se cansou e passou a encomenda a Guimarães Passos, dando-lhe 80 réis e ficando com 20. Este também ficou com preguiça e repassou a tradução a Coelho Neto, a 60 réis por linha, embolsando 20. O romancista, naquele tempo pouco dado ao trabalho, acertou a tradução com Olavo Bilac – pagava 40 réis por linha e guardava seu vintém.
Quando Bilac soube desses acertos, decidiu vingar-se. Não dos três que se aproveitavam de seu trabalho, mas do velho barão de Paranapiacaba, poeta bissexto, antigo conselheiro do Império, sua bête noire e alvo de suas brincadeiras, a quem chamava “o barão de Nunca-mais-se-acaba” e que era amigo de Patrocínio, o dono do jornal. Numa cena do romance-folhetim que estava traduzindo, um homem entra pela janela do quarto de uma mocinha “para fazer-lhe mal”. De repente, um raio de luz mostra o rosto do sedutor – e Bilac acrescentou no texto: “Era o barão de Paranapiacaba!”
Essa história, contada em suas memórias pelo jornalista Medeiros e Albuquerque, amigo de todos eles, revela, além da esperteza dos envolvidos e da maliciosa imaginação de Olavo Bilac, a generosidade ocasional de Patrocínio e sua capacidade para atrair escritores de talento para seu jornal.
Demissão em protesto
A Cidade do Riofoi um diário influente; brilhante e caótico, como seu dono, e de vida curta, ceifada pela intransigência do militarismo dos primeiros anos da República e, principalmente, por uma orientação errática e uma gestão desordenada. Houve poucos jornais tão identificados como este com a personalidade de seu dono.
Patrocínio era filho do cônego de Campos dos Goitacazes (RJ), brilhante orador da Capela Imperial, com uma escrava de 15 anos – “uma pobre preta quitandeira de Campos”, segundo diria ele mais tarde -, que lhe tinha sido cedida para ajudá-lo. Estudou farmácia e casou com a filha do capitão Emiliano Rosa Serra. Começou no jornalismo em 1877, na Gazeta de Notícias, de Ferreira de Araújo, onde escreveu “A Semana Parlamentar” e “A Semana Política”, com o pseudônimo de “Proudhomme”. Em 1878, foi enviado para informar sobre a grande seca do Ceará e no ano seguinte deu início, em sua coluna, à campanha abolicionista, junto com Joaquim Nabuco, Ferreira de Menezes, dono da Gazeta da Tarde, Ubaldino do Amaral e Francisco Paula Ney, que lhe deu fama em todo o país. Nabuco dizia que Patrocínio era um negro de gênio, “uma mistura de Espártaco e Camille Desmoulins”, numa referência ao líder da revolta dos escravos no Império Romano e ao revolucionário francês amigo de Robespierre.
Quando Ferreira de Menezes morreu, em 1881, Patrocínio, com ajuda do sogro, comprou a Gazeta da Tarde, praticamente falida e com uma circulação de apenas 1.900 exemplares, na qual continuou a pregação antiescravagista. Um contemporâneo, o alemão Carl von Koseritz, monarquista que viajou do Rio Grande do Sul à Corte pela primeira vez em 1883, ficou chocado com a desinibição do jornal. Para ele, “a Gazeta da Tarde, que trabalhava em denegrir a tudo e a todos, conquistou uma situação tão alta que roça pelo fabuloso. O senhor Patrocínio está agora se metendo pessoalmente com o Imperador e da mais insolente maneira que se possa imaginar”.
Em 1887, Patrocínio fundou A Cidade do Rio. O novo jornal, vespertino que circulava pontualmente às duas e meia da tarde – às duas horas saíam os resultados do jogo do bicho –, competindo com A Notícia. Era de corte moderno, paginação leve e clara, com títulos discretos e texto bem cuidado, cujo modelo editorial e empresarial esteve inspirado, segundo Juarez Bahia, no diário americano New York Herald. Tinha quatro páginas e custava 40 réis.
Com seu prestígio, Patrocínio conseguiu aliciar alguns dos melhores jornalistas da época. Como escreveu Pedro Calmon, A Cidade do Rio hospedava a literatura boêmia, com escritores como Olavo Bilac, Pardal Mallet, Raul Pompeia, Coelho Neto, Aluísio Azevedo, Guimarães Passos, Medeiros e Albuquerque, a maioria deles da equipe da Gazeta de Notícias. O jornal tornou-se alvo da imprensa conservadora, cresceu rapidamente em tiragem e foi líder de vendas no Rio durante um tempo. Mas não demorou muito para que a personalidade caótica de seu proprietário se refletisse no jornal.
Paulo Barreto, que trabalhou na Cidade de Patrocínio, seu contraparente, escreveu que ele “era irreprimível, era impetuoso (...) como certos fenômenos da natureza. (...) Preto, musculoso, bocarra aberta e pulso grosso, só teve na vida uma atitude: a de portador de raios, a de fulminante (...) ora achando-nos de gênio, ora achando-nos piores que a poeira”. E a Cidade “nada mais é do que uma simples gazeta de boêmios que se faz, um pouco pelas mesas da Pascoal e da Cailteau [duas confeitarias famosas], entre copos de cerveja e cálices de cognac, grandes frases de espírito, grandes gestos”. Acrescentou Barreto: “Os grandes escritores escreviam à luz de velas fincadas em garrafas vazias. Havia também muitas garrafas de cerveja cheias, que no fim podiam servir de castiçais”. Barreto fazia a “Crítica Literária”, sob o pseudônimo de “Claude”. Assim como outros jornalistas, desentendeu-se com a mulher e com um filho de Patrocínio e foi trabalhar na Gazeta de Notícias, onde tornou famoso o pseudônimo de João do Rio.
A situação no jornal mudou a partir de maio de 1888, com o fim da escravidão. Patrocínio, que tinha defendido a República, transformou-se em monarquista ferrenho, em gratidão à princesa Isabel, autora do decreto que libertou os escravos. Rompeu com seus antigos companheiros republicanos. A Cidade do Rio, aliando-se aos conservadores, defendeu o início de um terceiro reinado no Brasil, encabeçado pela princesa. A brusca mudança de orientação chocou a opinião pública e os leitores. Patrocínio foi chamado “o último negro vendido” no Brasil. Inconformados com a nova orientação política, vários jornalistas deixaram o diário. Olavo Bilac, Pardal Mallet, que era o redator-chefe, Luiz Murat e Raul Pompeia saíram para lançar um jornal a favor da República, o semanário A Rua, de vida curta.
Frase ferina
Segundo escreveu o redator-chefe do Jornal do Commercio, A Cidade do Rio era “escandalosamente subvencionada”, mas não disse por quem. O jornal conservava vigor e energia. No dia 15 de novembro publicou três edições informando de maneira direta e por vezes confusa, mas refletindo o calor e contradições do momento, a queda da monarquia e a proclamação da República. Patrocínio, realista, aceitou a situação e apoiou o novo regime, pelo que novamente foi acusado de inconsistente politicamente e de “vira-casaca”.
Olavo Bilac decidiu voltar para A Cidade do Rio, onde passou a ocupar o cargo de secretário do jornal. Inconformado, Pardal Mallet, que dirigia A Rua, acusou seu amigo de traidor e o desafiou para um duelo a espada, no qual ficou levemente ferido na barriga. Pouco depois, o próprio Mallet estava trabalhando de novo no jornal de Patrocínio. Bilac seria mais tarde, em 1890, correspondente da Cidade em Paris, a convite de Patrocínio. Conta que vivia “modestamente, mas com conforto” com o ordenado pago pelo jornal, pois “já era jornalista profissional”, que lhe permitia comprar alimentação, hospedagem, teatro e carro de aluguel.
A Cidadeapoiou o regime republicano, mas criticou seu primeiro presidente, o marechal Deodoro da Fonseca, e principalmente Rui Barbosa, ministro da Fazenda, e sua política econômica de expansão monetária conhecida como “encilhamento”. Fez também oposição a Floriano Peixoto.
Dois anos depois de proclamada a República, Patrocínio, acusado de conspirar para depor Floriano, foi preso junto com Mallet e Bilac, e confinado em Cacuí, no alto rio Negro, no Amazonas. Mallet foi enviado a Tabatinga, também no Amazonas, e Bilac ficou preso sete meses na fortaleza da Laje, no Rio, onde reclamou do tédio e da comida; solto, teve que se esconder em Minas Gerais, durante dois anos, enquanto durou o estado de sítio na capital federal. Guimarães Passos e Luis Murat se exilaram em Buenos Aires. O jornal foi fechado durante alguns meses.
Quando, depois de anistiado, voltou ao Rio em agosto de 1892, Patrocínio, doente, reabriu A Cidade, e continuou com as críticas a Floriano. Nesse ano, Bilac se desentendeu com Raul Pompeia, intransigente seguidor do presidente. Pompeia sentiu-se ofendido por um artigo de chocante grosseria publicado numa revista dirigida por Bilac, e o desafiou para um duelo a espada, que não chegou a acontecer. Três anos depois, Pompeia se suicidava. A Cidade entrou numa fase de decadência. Fez oposição a Campos Salles e à política de austeridade do ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho, e sofreu com isso, perdendo vários dos melhores colaboradores. No fim do mandato de Campos Salles, Patrocínio voltou a apoiar o governo. É atribuída a Murtinho a frase: “Este preto não se vende, aluga-se”. O escritor Vivaldo Coaracy disse que a frase não era original. Tinha sido usada por um estadista do Império em relação a outro mestiço. Patrocínio apoiou o governo de Prudente de Morais.
Morte em serviço
A Cidade do Rioteve uma vida irregular. Era um jornal cada vez mais improvisado, com uma gestão desordenada. Mas ainda era lido. O principal atrativo eram os “artigos de fundo” do seu diretor. “O artigo de Patrocínio tinha essencial importância. (...) Era através dele que Patrocínio exercia a advocacia da causa, qualquer que fosse, a que, na ocasião, tivesse alugado a sua pena de mestre. O artigo sustentava a folha, a casa de Patrocínio e as suas extravagâncias. (...) E era sempre uma preciosa lição de estilo ou de jornalismo, de técnica de imprensa e até mesmo de português que nos dava.” A Cidade continuava sendo uma escola. Dizia-se que o prazer de trabalhar para Patrocínio compensava a exiguidade dos salários e a irregularidade dos pagamentos.
Uma das fontes de receita foi o jogo do bicho. Todos os diários, menos o Jornal do Commercio, publicavam os resultados da loteria. Mas A Cidade, além de dar os números sorteados, divulgava um serviço adicional de tabelas e estatísticas das apostas, conhecido na redação como “o câmbio do bicho”. Muita gente só comprava o jornal para saber que bicho tinha dado e inspirar-se nos palpites para o dia seguinte, segundo Vivaldo Coaracy. Um dia, Coaracy, que trabalhava na Cidade, tirou a tabela e levou “um pito solene”: “O ‘câmbio do bicho’ era o maior incentivo de venda avulsa. Eu estava prejudicando a circulação do jornal”.
Ainda segundo Coaracy, Patrocínio, “sob a premência da necessidade da vida tumultuada e desordenada que levava, comparava-se, sem rodeios, a um advogado, com banca aberta para contratar defesa e acusações, mediante altas tarifas de serviços. A sua tribuna era o jornal”. Patrocínio, “(a)tingindo alturas geniais, em dados momentos, noutros se revelava de uma simplicidade quase infantil, capaz de atos de nobreza (e) incide por outro lado em fraquezas morais e erros de julgamento quase incompreensíveis”.
A ácida pena de Luís Edmundo passa uma opinião ainda mais negativa da personalidade de Patrocínio: “Insolente, brutal e muito desbocado”; “um polemista vibrante”, de cuja “sinceridade dizem horrores. Os homens que hoje enaltece, ataca-os amanhã. E vice-versa. Usa as opiniões como as gravatas”.
Numa das crises financeiras, o jornal perdeu as oficinas devido à execução de uma hipoteca. Reabriu o capitalista português Manuel José da Fonseca pagou suas dívidas e arrendou para ele uma velha tipografia e um prédio de dois pavimentos. Mas a vida era ainda muito difícil para o jornal e para seu proprietário. Patrocínio não conseguiu pagar e A Cidade do Rio mudou várias vezes de impressor, até definhar, em 1903. Seu dono mal sobreviveu escrevendo um folhetim semanal para A Notícia. Morreu, literalmente, com a pena na mão.
Por Matías M. Molina em 27/12/2011
Reproduzido do Valor Econômico, 23/12/2011
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[Matías M. Molina é autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição]
Quando Bilac soube desses acertos, decidiu vingar-se. Não dos três que se aproveitavam de seu trabalho, mas do velho barão de Paranapiacaba, poeta bissexto, antigo conselheiro do Império, sua bête noire e alvo de suas brincadeiras, a quem chamava “o barão de Nunca-mais-se-acaba” e que era amigo de Patrocínio, o dono do jornal. Numa cena do romance-folhetim que estava traduzindo, um homem entra pela janela do quarto de uma mocinha “para fazer-lhe mal”. De repente, um raio de luz mostra o rosto do sedutor – e Bilac acrescentou no texto: “Era o barão de Paranapiacaba!”
Essa história, contada em suas memórias pelo jornalista Medeiros e Albuquerque, amigo de todos eles, revela, além da esperteza dos envolvidos e da maliciosa imaginação de Olavo Bilac, a generosidade ocasional de Patrocínio e sua capacidade para atrair escritores de talento para seu jornal.
Demissão em protesto
A Cidade do Riofoi um diário influente; brilhante e caótico, como seu dono, e de vida curta, ceifada pela intransigência do militarismo dos primeiros anos da República e, principalmente, por uma orientação errática e uma gestão desordenada. Houve poucos jornais tão identificados como este com a personalidade de seu dono.
Patrocínio era filho do cônego de Campos dos Goitacazes (RJ), brilhante orador da Capela Imperial, com uma escrava de 15 anos – “uma pobre preta quitandeira de Campos”, segundo diria ele mais tarde -, que lhe tinha sido cedida para ajudá-lo. Estudou farmácia e casou com a filha do capitão Emiliano Rosa Serra. Começou no jornalismo em 1877, na Gazeta de Notícias, de Ferreira de Araújo, onde escreveu “A Semana Parlamentar” e “A Semana Política”, com o pseudônimo de “Proudhomme”. Em 1878, foi enviado para informar sobre a grande seca do Ceará e no ano seguinte deu início, em sua coluna, à campanha abolicionista, junto com Joaquim Nabuco, Ferreira de Menezes, dono da Gazeta da Tarde, Ubaldino do Amaral e Francisco Paula Ney, que lhe deu fama em todo o país. Nabuco dizia que Patrocínio era um negro de gênio, “uma mistura de Espártaco e Camille Desmoulins”, numa referência ao líder da revolta dos escravos no Império Romano e ao revolucionário francês amigo de Robespierre.
Quando Ferreira de Menezes morreu, em 1881, Patrocínio, com ajuda do sogro, comprou a Gazeta da Tarde, praticamente falida e com uma circulação de apenas 1.900 exemplares, na qual continuou a pregação antiescravagista. Um contemporâneo, o alemão Carl von Koseritz, monarquista que viajou do Rio Grande do Sul à Corte pela primeira vez em 1883, ficou chocado com a desinibição do jornal. Para ele, “a Gazeta da Tarde, que trabalhava em denegrir a tudo e a todos, conquistou uma situação tão alta que roça pelo fabuloso. O senhor Patrocínio está agora se metendo pessoalmente com o Imperador e da mais insolente maneira que se possa imaginar”.
Em 1887, Patrocínio fundou A Cidade do Rio. O novo jornal, vespertino que circulava pontualmente às duas e meia da tarde – às duas horas saíam os resultados do jogo do bicho –, competindo com A Notícia. Era de corte moderno, paginação leve e clara, com títulos discretos e texto bem cuidado, cujo modelo editorial e empresarial esteve inspirado, segundo Juarez Bahia, no diário americano New York Herald. Tinha quatro páginas e custava 40 réis.
Com seu prestígio, Patrocínio conseguiu aliciar alguns dos melhores jornalistas da época. Como escreveu Pedro Calmon, A Cidade do Rio hospedava a literatura boêmia, com escritores como Olavo Bilac, Pardal Mallet, Raul Pompeia, Coelho Neto, Aluísio Azevedo, Guimarães Passos, Medeiros e Albuquerque, a maioria deles da equipe da Gazeta de Notícias. O jornal tornou-se alvo da imprensa conservadora, cresceu rapidamente em tiragem e foi líder de vendas no Rio durante um tempo. Mas não demorou muito para que a personalidade caótica de seu proprietário se refletisse no jornal.
Paulo Barreto, que trabalhou na Cidade de Patrocínio, seu contraparente, escreveu que ele “era irreprimível, era impetuoso (...) como certos fenômenos da natureza. (...) Preto, musculoso, bocarra aberta e pulso grosso, só teve na vida uma atitude: a de portador de raios, a de fulminante (...) ora achando-nos de gênio, ora achando-nos piores que a poeira”. E a Cidade “nada mais é do que uma simples gazeta de boêmios que se faz, um pouco pelas mesas da Pascoal e da Cailteau [duas confeitarias famosas], entre copos de cerveja e cálices de cognac, grandes frases de espírito, grandes gestos”. Acrescentou Barreto: “Os grandes escritores escreviam à luz de velas fincadas em garrafas vazias. Havia também muitas garrafas de cerveja cheias, que no fim podiam servir de castiçais”. Barreto fazia a “Crítica Literária”, sob o pseudônimo de “Claude”. Assim como outros jornalistas, desentendeu-se com a mulher e com um filho de Patrocínio e foi trabalhar na Gazeta de Notícias, onde tornou famoso o pseudônimo de João do Rio.
A situação no jornal mudou a partir de maio de 1888, com o fim da escravidão. Patrocínio, que tinha defendido a República, transformou-se em monarquista ferrenho, em gratidão à princesa Isabel, autora do decreto que libertou os escravos. Rompeu com seus antigos companheiros republicanos. A Cidade do Rio, aliando-se aos conservadores, defendeu o início de um terceiro reinado no Brasil, encabeçado pela princesa. A brusca mudança de orientação chocou a opinião pública e os leitores. Patrocínio foi chamado “o último negro vendido” no Brasil. Inconformados com a nova orientação política, vários jornalistas deixaram o diário. Olavo Bilac, Pardal Mallet, que era o redator-chefe, Luiz Murat e Raul Pompeia saíram para lançar um jornal a favor da República, o semanário A Rua, de vida curta.
Frase ferina
Segundo escreveu o redator-chefe do Jornal do Commercio, A Cidade do Rio era “escandalosamente subvencionada”, mas não disse por quem. O jornal conservava vigor e energia. No dia 15 de novembro publicou três edições informando de maneira direta e por vezes confusa, mas refletindo o calor e contradições do momento, a queda da monarquia e a proclamação da República. Patrocínio, realista, aceitou a situação e apoiou o novo regime, pelo que novamente foi acusado de inconsistente politicamente e de “vira-casaca”.
Olavo Bilac decidiu voltar para A Cidade do Rio, onde passou a ocupar o cargo de secretário do jornal. Inconformado, Pardal Mallet, que dirigia A Rua, acusou seu amigo de traidor e o desafiou para um duelo a espada, no qual ficou levemente ferido na barriga. Pouco depois, o próprio Mallet estava trabalhando de novo no jornal de Patrocínio. Bilac seria mais tarde, em 1890, correspondente da Cidade em Paris, a convite de Patrocínio. Conta que vivia “modestamente, mas com conforto” com o ordenado pago pelo jornal, pois “já era jornalista profissional”, que lhe permitia comprar alimentação, hospedagem, teatro e carro de aluguel.
A Cidadeapoiou o regime republicano, mas criticou seu primeiro presidente, o marechal Deodoro da Fonseca, e principalmente Rui Barbosa, ministro da Fazenda, e sua política econômica de expansão monetária conhecida como “encilhamento”. Fez também oposição a Floriano Peixoto.
Dois anos depois de proclamada a República, Patrocínio, acusado de conspirar para depor Floriano, foi preso junto com Mallet e Bilac, e confinado em Cacuí, no alto rio Negro, no Amazonas. Mallet foi enviado a Tabatinga, também no Amazonas, e Bilac ficou preso sete meses na fortaleza da Laje, no Rio, onde reclamou do tédio e da comida; solto, teve que se esconder em Minas Gerais, durante dois anos, enquanto durou o estado de sítio na capital federal. Guimarães Passos e Luis Murat se exilaram em Buenos Aires. O jornal foi fechado durante alguns meses.
Quando, depois de anistiado, voltou ao Rio em agosto de 1892, Patrocínio, doente, reabriu A Cidade, e continuou com as críticas a Floriano. Nesse ano, Bilac se desentendeu com Raul Pompeia, intransigente seguidor do presidente. Pompeia sentiu-se ofendido por um artigo de chocante grosseria publicado numa revista dirigida por Bilac, e o desafiou para um duelo a espada, que não chegou a acontecer. Três anos depois, Pompeia se suicidava. A Cidade entrou numa fase de decadência. Fez oposição a Campos Salles e à política de austeridade do ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho, e sofreu com isso, perdendo vários dos melhores colaboradores. No fim do mandato de Campos Salles, Patrocínio voltou a apoiar o governo. É atribuída a Murtinho a frase: “Este preto não se vende, aluga-se”. O escritor Vivaldo Coaracy disse que a frase não era original. Tinha sido usada por um estadista do Império em relação a outro mestiço. Patrocínio apoiou o governo de Prudente de Morais.
Morte em serviço
A Cidade do Rioteve uma vida irregular. Era um jornal cada vez mais improvisado, com uma gestão desordenada. Mas ainda era lido. O principal atrativo eram os “artigos de fundo” do seu diretor. “O artigo de Patrocínio tinha essencial importância. (...) Era através dele que Patrocínio exercia a advocacia da causa, qualquer que fosse, a que, na ocasião, tivesse alugado a sua pena de mestre. O artigo sustentava a folha, a casa de Patrocínio e as suas extravagâncias. (...) E era sempre uma preciosa lição de estilo ou de jornalismo, de técnica de imprensa e até mesmo de português que nos dava.” A Cidade continuava sendo uma escola. Dizia-se que o prazer de trabalhar para Patrocínio compensava a exiguidade dos salários e a irregularidade dos pagamentos.
Uma das fontes de receita foi o jogo do bicho. Todos os diários, menos o Jornal do Commercio, publicavam os resultados da loteria. Mas A Cidade, além de dar os números sorteados, divulgava um serviço adicional de tabelas e estatísticas das apostas, conhecido na redação como “o câmbio do bicho”. Muita gente só comprava o jornal para saber que bicho tinha dado e inspirar-se nos palpites para o dia seguinte, segundo Vivaldo Coaracy. Um dia, Coaracy, que trabalhava na Cidade, tirou a tabela e levou “um pito solene”: “O ‘câmbio do bicho’ era o maior incentivo de venda avulsa. Eu estava prejudicando a circulação do jornal”.
Ainda segundo Coaracy, Patrocínio, “sob a premência da necessidade da vida tumultuada e desordenada que levava, comparava-se, sem rodeios, a um advogado, com banca aberta para contratar defesa e acusações, mediante altas tarifas de serviços. A sua tribuna era o jornal”. Patrocínio, “(a)tingindo alturas geniais, em dados momentos, noutros se revelava de uma simplicidade quase infantil, capaz de atos de nobreza (e) incide por outro lado em fraquezas morais e erros de julgamento quase incompreensíveis”.
A ácida pena de Luís Edmundo passa uma opinião ainda mais negativa da personalidade de Patrocínio: “Insolente, brutal e muito desbocado”; “um polemista vibrante”, de cuja “sinceridade dizem horrores. Os homens que hoje enaltece, ataca-os amanhã. E vice-versa. Usa as opiniões como as gravatas”.
Numa das crises financeiras, o jornal perdeu as oficinas devido à execução de uma hipoteca. Reabriu o capitalista português Manuel José da Fonseca pagou suas dívidas e arrendou para ele uma velha tipografia e um prédio de dois pavimentos. Mas a vida era ainda muito difícil para o jornal e para seu proprietário. Patrocínio não conseguiu pagar e A Cidade do Rio mudou várias vezes de impressor, até definhar, em 1903. Seu dono mal sobreviveu escrevendo um folhetim semanal para A Notícia. Morreu, literalmente, com a pena na mão.
Por Matías M. Molina em 27/12/2011
Reproduzido do Valor Econômico, 23/12/2011
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[Matías M. Molina é autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição]
PRECONCEITO LINGUÍSTICO
Um dos debates mais quentes do ano foi sobre um livro didático acusado de ensinar regras de português erradas (na verdade, ninguém leu o livro; foram lidas algumas frases soltas de uma das páginas de um dos capítulos).
A acusação mereceu diversas manifestações de especialistas, que tentaram mostrar que uma língua é um fenômeno mais complexo do que parece ser quando apresentada apenas em termos prescritivos.
Um dos pequenos avanços da mídia (que, no quesito, representa grande parte da sociedade instruída) foi reconhecer que as teorias e as pesquisas linguísticas têm legitimidade. Mas acha que devem restringir-se à universidade. Para um linguista, tal posição equivale a sustentar que só se deve ensinar reprodução na universidade. Até o fim do colegial, deve-se ensinar aos alunos que as crianças são trazidas pela cegonha.
Um dos itens do debate foi o preconceito linguístico; questionou-se sua existência. Chegou-se a afirmar que a “defesa” de traços da fala popular produziria como um dos efeitos um preconceito às avessas, contra os que falam corretamente.
Foi uma das leituras mais desastrosas que a mídia conseguiu fazer da questão.
O que seria o tal preconceito linguístico? Ele existe? Se sim, qual a sua natureza? Se deve ser combatido, como todos os preconceitos, quais deveriam ser as armas de combate?
Talvez seja bom começar por uma definição de preconceito. A do Dicionário Houaiss é bastante esclarecedora. Segundo essa fonte, preconceito é “qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico”, o que em seguida é mais bem especificado: “ideia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão”.
Na segunda acepção, o preconceito é definido como “atitude, sentimento ou parecer insensato, especialmente de natureza hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância”. Os preconceitos que se tornaram mais conhecidos e cujo combate é mais aceito são o racial e o de gênero.
A expressão “preconceito linguístico” é mais ou menos corrente entre leitores de sociolinguística, disciplina que estuda o fenômeno da variação linguística, os fatores que a condicionam e as atitudes da sociedade em relação às variedades.
Fatos incontornáveis
A qualificação de certas atitudes como preconceito linguístico se baseia em diversas teses. A principal, mãe de todos os desdobramentos, é que haveria línguas primitivas, cujos falantes seriam incapazes de realizar determinadas operações mentais (faltaria clareza ou precisão), seriam incapazes de proceder a certas generalizações (suas línguas não teriam termos abstratos), seu conhecimento do mundo seria precário (expressariam seu ‘conhecimento’ em classificações confusas) etc. Enfim, certos povos (sempre os outros) seriam inferiores, e uma das razões, ou um dos reflexos, seria sua língua.
A tese de que há línguas primitivas tem uma descendência clara no domínio da variação: dialetos populares teriam defeitos análogos aos das línguas primitivas. Só a comparação é outra: no primeiro caso, com as línguas ditas civilizadas; no segundo, com a norma culta.
Já que o preconceito consiste em considerar alguém ou algum grupo inferior ou incapaz (mulheres para os homens, negros ou indígenas para os brancos etc.), a analogia em relação à diversidade das línguas se aplica quase automaticamente: os diferentes são portadores de defeitos.
Ora, qualquer tentativa de provar que tais línguas são primitivas esbarra em fatos incontornáveis. Vejamos alguns fatos que contradizem os principais preconceitos:
(a) sobre a propalada ausência de termos abstratos em línguas de “selvagens”, Lévi-Strauss apresenta diversos contra-exemplos, dentre os quais um do chinuque, língua em que traduziria “o homem mau matou a pobre criança” por “a maldade do homem matou a pobreza da criança”;
(b) sobre línguas “evoluídas” deverem ser claras (o que implicaria que fossem flexionais, como o latim e o grego, e, em grau menor, as línguas românicas), basta considerar o caso do inglês, que praticamente não tem flexões; you are pode significar “você é”, “tu és”, “vós sois”, “vocês são”, “o senhor é”, “os senhores são”;
(c) se um dialeto fosse obscuro por ter poucas flexões (“os menino tá muito sujo”), teríamos que dizer que o inglês é uma língua obscura, de difícil compreensão. Ora, ao contrário, ela em geral é avaliada como ótima exatamente para a ciência, que demandaria uma linguagem clara e unívoca. Uma oração como a do exemplo é absolutamente clara (espero sinceramente que todos os leitores a compreendam!). Apenas foram eliminadas, nessa gramática, todas as marcações de plural redundantes (como no inglês, exceto pela palavra que recebe a marca);
(d) o mesmo dialeto que é considerado errado ou precário por eliminar redundâncias também é considerado errado ou precário quando introduz redundâncias como “sair para fora” ou “entrar para dentro”, “subir para cima” e “descer para baixo”; são, de novo, construções análogas às do inglês, que ninguém estranha ou critica;
(e) línguas primitivas teriam poucas palavras (!) e elas teriam muitos sentidos, que dependeriam do contexto. Mas esta é uma propriedade de qualquer léxico. Basta espiar entradas como “ponto” em um dicionário de português e pack em um de inglês.
Equívoco secular
Voltemos ao Houaiss, que assim define preconceito linguístico: “Qualquer crença sem fundamento científico acerca das línguas e de seus usuários, como, p. ex., a crença de que existem línguas desenvolvidas e línguas primitivas, ou de que só a língua das classes cultas possui gramática, ou de que os povos indígenas da África e da América não possuem línguas, apenas dialetos.”
No fundo, o preconceito linguístico é um preconceito social. É uma discriminação sem fundamento que atinge falantes inferiorizados por alguma razão e por algum fato histórico. Nós o compreenderíamos melhor se nos déssemos conta de que “falar bem” é uma regra da mesma natureza das regras de etiqueta, das regras de comportamento social. Os que dizemos que falam errado são apenas cidadãos que seguem outras regras e que não têm poder para ditar quais são as elegantes.
Isso não significa dizer que a norma culta não é relevante ou que não precisa ser ensinada. Significa apenas que as normas não cultas não são o que sempre se disse delas. E elas mereceriam não ser objeto de preconceito.
A leitura de um ou dois capítulos de qualquer manual de linguística poderia fazer com que todos se convencessem de que estivemos equivocados durante séculos em relação a conceitos como “falar errado”. Para combater esse preconceito, basta um pouco de informação.
Sírio Possenti em 27/12/2011
Reproduzido do Ciência Hoje On-Line, 23/12/2011
***
[Sírio Possenti é professor do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas]
A acusação mereceu diversas manifestações de especialistas, que tentaram mostrar que uma língua é um fenômeno mais complexo do que parece ser quando apresentada apenas em termos prescritivos.
Um dos pequenos avanços da mídia (que, no quesito, representa grande parte da sociedade instruída) foi reconhecer que as teorias e as pesquisas linguísticas têm legitimidade. Mas acha que devem restringir-se à universidade. Para um linguista, tal posição equivale a sustentar que só se deve ensinar reprodução na universidade. Até o fim do colegial, deve-se ensinar aos alunos que as crianças são trazidas pela cegonha.
Um dos itens do debate foi o preconceito linguístico; questionou-se sua existência. Chegou-se a afirmar que a “defesa” de traços da fala popular produziria como um dos efeitos um preconceito às avessas, contra os que falam corretamente.
Foi uma das leituras mais desastrosas que a mídia conseguiu fazer da questão.
O que seria o tal preconceito linguístico? Ele existe? Se sim, qual a sua natureza? Se deve ser combatido, como todos os preconceitos, quais deveriam ser as armas de combate?
Talvez seja bom começar por uma definição de preconceito. A do Dicionário Houaiss é bastante esclarecedora. Segundo essa fonte, preconceito é “qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico”, o que em seguida é mais bem especificado: “ideia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão”.
Na segunda acepção, o preconceito é definido como “atitude, sentimento ou parecer insensato, especialmente de natureza hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância”. Os preconceitos que se tornaram mais conhecidos e cujo combate é mais aceito são o racial e o de gênero.
A expressão “preconceito linguístico” é mais ou menos corrente entre leitores de sociolinguística, disciplina que estuda o fenômeno da variação linguística, os fatores que a condicionam e as atitudes da sociedade em relação às variedades.
Fatos incontornáveis
A qualificação de certas atitudes como preconceito linguístico se baseia em diversas teses. A principal, mãe de todos os desdobramentos, é que haveria línguas primitivas, cujos falantes seriam incapazes de realizar determinadas operações mentais (faltaria clareza ou precisão), seriam incapazes de proceder a certas generalizações (suas línguas não teriam termos abstratos), seu conhecimento do mundo seria precário (expressariam seu ‘conhecimento’ em classificações confusas) etc. Enfim, certos povos (sempre os outros) seriam inferiores, e uma das razões, ou um dos reflexos, seria sua língua.
A tese de que há línguas primitivas tem uma descendência clara no domínio da variação: dialetos populares teriam defeitos análogos aos das línguas primitivas. Só a comparação é outra: no primeiro caso, com as línguas ditas civilizadas; no segundo, com a norma culta.
Já que o preconceito consiste em considerar alguém ou algum grupo inferior ou incapaz (mulheres para os homens, negros ou indígenas para os brancos etc.), a analogia em relação à diversidade das línguas se aplica quase automaticamente: os diferentes são portadores de defeitos.
Ora, qualquer tentativa de provar que tais línguas são primitivas esbarra em fatos incontornáveis. Vejamos alguns fatos que contradizem os principais preconceitos:
(a) sobre a propalada ausência de termos abstratos em línguas de “selvagens”, Lévi-Strauss apresenta diversos contra-exemplos, dentre os quais um do chinuque, língua em que traduziria “o homem mau matou a pobre criança” por “a maldade do homem matou a pobreza da criança”;
(b) sobre línguas “evoluídas” deverem ser claras (o que implicaria que fossem flexionais, como o latim e o grego, e, em grau menor, as línguas românicas), basta considerar o caso do inglês, que praticamente não tem flexões; you are pode significar “você é”, “tu és”, “vós sois”, “vocês são”, “o senhor é”, “os senhores são”;
(c) se um dialeto fosse obscuro por ter poucas flexões (“os menino tá muito sujo”), teríamos que dizer que o inglês é uma língua obscura, de difícil compreensão. Ora, ao contrário, ela em geral é avaliada como ótima exatamente para a ciência, que demandaria uma linguagem clara e unívoca. Uma oração como a do exemplo é absolutamente clara (espero sinceramente que todos os leitores a compreendam!). Apenas foram eliminadas, nessa gramática, todas as marcações de plural redundantes (como no inglês, exceto pela palavra que recebe a marca);
(d) o mesmo dialeto que é considerado errado ou precário por eliminar redundâncias também é considerado errado ou precário quando introduz redundâncias como “sair para fora” ou “entrar para dentro”, “subir para cima” e “descer para baixo”; são, de novo, construções análogas às do inglês, que ninguém estranha ou critica;
(e) línguas primitivas teriam poucas palavras (!) e elas teriam muitos sentidos, que dependeriam do contexto. Mas esta é uma propriedade de qualquer léxico. Basta espiar entradas como “ponto” em um dicionário de português e pack em um de inglês.
Equívoco secular
Voltemos ao Houaiss, que assim define preconceito linguístico: “Qualquer crença sem fundamento científico acerca das línguas e de seus usuários, como, p. ex., a crença de que existem línguas desenvolvidas e línguas primitivas, ou de que só a língua das classes cultas possui gramática, ou de que os povos indígenas da África e da América não possuem línguas, apenas dialetos.”
No fundo, o preconceito linguístico é um preconceito social. É uma discriminação sem fundamento que atinge falantes inferiorizados por alguma razão e por algum fato histórico. Nós o compreenderíamos melhor se nos déssemos conta de que “falar bem” é uma regra da mesma natureza das regras de etiqueta, das regras de comportamento social. Os que dizemos que falam errado são apenas cidadãos que seguem outras regras e que não têm poder para ditar quais são as elegantes.
Isso não significa dizer que a norma culta não é relevante ou que não precisa ser ensinada. Significa apenas que as normas não cultas não são o que sempre se disse delas. E elas mereceriam não ser objeto de preconceito.
A leitura de um ou dois capítulos de qualquer manual de linguística poderia fazer com que todos se convencessem de que estivemos equivocados durante séculos em relação a conceitos como “falar errado”. Para combater esse preconceito, basta um pouco de informação.
Sírio Possenti em 27/12/2011
Reproduzido do Ciência Hoje On-Line, 23/12/2011
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[Sírio Possenti é professor do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas]
O FIM DE UMA ERA
Sempre foi e sempre será uma triste tarefa a de noticiar o fim de um jornal. Foi duro para os jornalistas brasileiros verem a lenta decadência do Jornal do Brasil, seu desaparecimento na versão impressa, assim como foi penoso este mês para os jornalistas franceses verem chegar ao fim o France-Soir depois de 67 anos presente no panorama midiático francês.
Libérationdeu capa e a matéria principal de quatro páginas com a história do legendário France-Soir, além de uma análise da situação atual da imprensa francesa e das perspectivas futuras. No editorial assinado, Nicolas Demorand, diretor de Libération, escreveu que “o jornalismo da imprensa escrita é um esporte de combate” parafraseando o documentário sobre Pierre Bourdieu, A sociologia é um esporte de combate, de Pierre Carles. Como o brasileiro, o jornal francês vai manter sua versão online. Na França, France-Soir é o primeiro jornal impresso a parar de circular mantendo a versão online.
France-Soirfora comprado pelo milionário russo Alexandre Pougatchev, de 23 anos, em 2009, por 65 milhões de euros. O pai do jovem é um oligarca próximo de Vladimir Putin e já comprara o gigante da alimentação de luxo francês Hédiard. Mas tendo acumulado um prejuízo em 2010 de 31 milhões de euros, Pougatchev resolveu parar de perder dinheiro com a crescente perda de publicidade e de leitores. A equipe de 130 jornalistas que fazia o jornal impresso foi reduzida a 32 profissionais e o jornal passou a ter apenas uma versão online.
O fim da imprensa como a conhecemos
Criado em 1944 por Robert Salmon e Philippe Viannay, France-Soir é o diário que se originou do jornal clandestino da resistência contra os nazistas, Défense de la France, também fundado pelos dois jornalistas. Na época áurea de Pierre Lazareff, que comprara o jornal de seus fundadores, o jornal chegou a vender 1 milhão de exemplares diários.
O sociólogo Jean-Marie Charon, especialista da mídia, estima que essa tendência de passar do impresso ao web vai continuar na França. Os jornais La Tribune e L’Humanité podem seguir o mesmo caminho de France-Soir e passar a circular unicamente online. Nos Estados Unidos, onde a tendência ao fechamento dos jornais impressos é crescente, a imprensa diária já suprimiu 10 mil empregos desde 2007. Segundo o jornal Le Parisien, outro diário que migra lentamente para a internet, dois terços dos franceses se informa hoje pela internet.
Jean-Marie Charon arrisca uma profecia de especialista. Segundo ele, os cotidianos vão cada vez mais migrar para a internet. Alguns jornais manterão uma versão impressa apenas alguns dias da semana; outros, apenas um dia por semana. Ligados dia e noite no smartphone, no rádio e na TV, os leitores não têm mais tempo de ler um jornal impresso todo dia. E as novas gerações não formaram o hábito da relação sensorial, indispensável para alguns, do leitor com o papel do jornal.
Sem dúvida, o desaparecimento de uma geração que ainda compra ou assina um ou mais jornais diários marcará o fim da imprensa como nós a conhecemos.
***
Leneide Duarte-Plon em 27/12/2011
[Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris]
Libérationdeu capa e a matéria principal de quatro páginas com a história do legendário France-Soir, além de uma análise da situação atual da imprensa francesa e das perspectivas futuras. No editorial assinado, Nicolas Demorand, diretor de Libération, escreveu que “o jornalismo da imprensa escrita é um esporte de combate” parafraseando o documentário sobre Pierre Bourdieu, A sociologia é um esporte de combate, de Pierre Carles. Como o brasileiro, o jornal francês vai manter sua versão online. Na França, France-Soir é o primeiro jornal impresso a parar de circular mantendo a versão online.
France-Soirfora comprado pelo milionário russo Alexandre Pougatchev, de 23 anos, em 2009, por 65 milhões de euros. O pai do jovem é um oligarca próximo de Vladimir Putin e já comprara o gigante da alimentação de luxo francês Hédiard. Mas tendo acumulado um prejuízo em 2010 de 31 milhões de euros, Pougatchev resolveu parar de perder dinheiro com a crescente perda de publicidade e de leitores. A equipe de 130 jornalistas que fazia o jornal impresso foi reduzida a 32 profissionais e o jornal passou a ter apenas uma versão online.
O fim da imprensa como a conhecemos
Criado em 1944 por Robert Salmon e Philippe Viannay, France-Soir é o diário que se originou do jornal clandestino da resistência contra os nazistas, Défense de la France, também fundado pelos dois jornalistas. Na época áurea de Pierre Lazareff, que comprara o jornal de seus fundadores, o jornal chegou a vender 1 milhão de exemplares diários.
O sociólogo Jean-Marie Charon, especialista da mídia, estima que essa tendência de passar do impresso ao web vai continuar na França. Os jornais La Tribune e L’Humanité podem seguir o mesmo caminho de France-Soir e passar a circular unicamente online. Nos Estados Unidos, onde a tendência ao fechamento dos jornais impressos é crescente, a imprensa diária já suprimiu 10 mil empregos desde 2007. Segundo o jornal Le Parisien, outro diário que migra lentamente para a internet, dois terços dos franceses se informa hoje pela internet.
Jean-Marie Charon arrisca uma profecia de especialista. Segundo ele, os cotidianos vão cada vez mais migrar para a internet. Alguns jornais manterão uma versão impressa apenas alguns dias da semana; outros, apenas um dia por semana. Ligados dia e noite no smartphone, no rádio e na TV, os leitores não têm mais tempo de ler um jornal impresso todo dia. E as novas gerações não formaram o hábito da relação sensorial, indispensável para alguns, do leitor com o papel do jornal.
Sem dúvida, o desaparecimento de uma geração que ainda compra ou assina um ou mais jornais diários marcará o fim da imprensa como nós a conhecemos.
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Leneide Duarte-Plon em 27/12/2011
[Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris]
OS JOVENS, O TABLET, A INTERNET E O AVIÃO
O veredito foi proferido por ninguém menos do que Eric Hobsbawm. Aos 94 anos, o historiador inglês está mais atento e sagaz do que nunca. A classe média substituiu os trabalhadores nas revoltas de 2011 e usou o telefone celular, os computadores pessoais e as redes sociais da internet.
Em entrevista a Andrew Whitehead, do Serviço Mundial da BBC (23/12), Hobsbawm afirmou que não se trata do mesmo terremoto social e político de 1848, cujas insurreições sacudiram a França, a Alemanha, a Itália e a Áustria, mas vê semelhanças entre 1848 e 2011.
Para quem se viu confuso e até decepcionado com os rumos que as mudanças tomaram no Egito, o historiador e professor dá uma nova lição:
“Dois anos depois de 1848, pareceu que alguma coisa havia falhado. No longo prazo, não falhou. Foi feito um número considerável de avanços progressistas. Por isso, foi um fracasso momentâneo, mas sucesso parcial de longo prazo – mas não mais em forma de revolução”.
Hobsbawm identifica nas mudanças o sentimento comum de descontentamento e a existência de forças mobilizáveis, onde ganham relevo uma classe média jovem e estudantil e a facilidade de organizar protestos que as novas tecnologias ensejaram.
Nas ruas e nas escolas
Corte para o Brasil. Você viaja de avião? Olhe ao redor. Agora há passageiros que jamais tinham viajado de avião antes, assim como jamais tinham ido ao exterior. Quer dizer, só se o exterior fossem a Argentina, o Uruguai, o Paraguai, a Bolívia, talvez o México e a Venezuela. Mas, agora, o panorama mudou: a nova classe média brasileira que emergiu da distribuição de renda havida entre 1994 e 2011, depois que o Estado criou mecanismos de proteção social em forma de apoios à alimentação, moradia e estudo, viaja a passeio, a estudo e às vezes também a trabalho para o exterior.
Na edição de sexta-feira (23/12) do Estado de S.Paulo lemos o caso de um estudante de 17 anos, filho de taxista e de dona de casa, que economizou o salário de auxiliar administrativo e gastou R$ 8 mil para estudar inglês durante três meses nos EUA, depois de ter sido aprovado no vestibular de Administração de Empresas com ênfase em comércio exterior, numa universidade privada.
As mudanças havidas no Brasil fazem com que, pela primeira vez na história de suas famílias, os jovens dessas novas classes médias viajem de avião e cheguem à universidade.
Não sabemos quais os próximos passos dessas lutas. O curso superior e o acesso à internet fazem do leitor um eleitor mais difícil de ser enganado. Os inconformados privilegiaram o celular, o computador, o tablet e a internet como ferramentas de mudança. E já fazem mudanças nas ruas e nas aulas. E também nas próximas eleições.
Mas, é preciso cuidado com a qualidade. Por volta de 1900, foi levado aos tribunais de Berlim um homem acusado de ser curandeiro. Em sua defesa, comprovou ser médico, mas pediu ao juiz que não tornasse público o seu diploma: perderia a clientela. Quer dizer, a sociedade também precisa ter certeza de que o profissional com curso superior é mais qualificado.
Deonísio da Silva em 27/12/2011
***
[Deonísio da Silva é escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor e um dos vice-reitores da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa)]
Em entrevista a Andrew Whitehead, do Serviço Mundial da BBC (23/12), Hobsbawm afirmou que não se trata do mesmo terremoto social e político de 1848, cujas insurreições sacudiram a França, a Alemanha, a Itália e a Áustria, mas vê semelhanças entre 1848 e 2011.
Para quem se viu confuso e até decepcionado com os rumos que as mudanças tomaram no Egito, o historiador e professor dá uma nova lição:
“Dois anos depois de 1848, pareceu que alguma coisa havia falhado. No longo prazo, não falhou. Foi feito um número considerável de avanços progressistas. Por isso, foi um fracasso momentâneo, mas sucesso parcial de longo prazo – mas não mais em forma de revolução”.
Hobsbawm identifica nas mudanças o sentimento comum de descontentamento e a existência de forças mobilizáveis, onde ganham relevo uma classe média jovem e estudantil e a facilidade de organizar protestos que as novas tecnologias ensejaram.
Nas ruas e nas escolas
Corte para o Brasil. Você viaja de avião? Olhe ao redor. Agora há passageiros que jamais tinham viajado de avião antes, assim como jamais tinham ido ao exterior. Quer dizer, só se o exterior fossem a Argentina, o Uruguai, o Paraguai, a Bolívia, talvez o México e a Venezuela. Mas, agora, o panorama mudou: a nova classe média brasileira que emergiu da distribuição de renda havida entre 1994 e 2011, depois que o Estado criou mecanismos de proteção social em forma de apoios à alimentação, moradia e estudo, viaja a passeio, a estudo e às vezes também a trabalho para o exterior.
Na edição de sexta-feira (23/12) do Estado de S.Paulo lemos o caso de um estudante de 17 anos, filho de taxista e de dona de casa, que economizou o salário de auxiliar administrativo e gastou R$ 8 mil para estudar inglês durante três meses nos EUA, depois de ter sido aprovado no vestibular de Administração de Empresas com ênfase em comércio exterior, numa universidade privada.
As mudanças havidas no Brasil fazem com que, pela primeira vez na história de suas famílias, os jovens dessas novas classes médias viajem de avião e cheguem à universidade.
Não sabemos quais os próximos passos dessas lutas. O curso superior e o acesso à internet fazem do leitor um eleitor mais difícil de ser enganado. Os inconformados privilegiaram o celular, o computador, o tablet e a internet como ferramentas de mudança. E já fazem mudanças nas ruas e nas aulas. E também nas próximas eleições.
Mas, é preciso cuidado com a qualidade. Por volta de 1900, foi levado aos tribunais de Berlim um homem acusado de ser curandeiro. Em sua defesa, comprovou ser médico, mas pediu ao juiz que não tornasse público o seu diploma: perderia a clientela. Quer dizer, a sociedade também precisa ter certeza de que o profissional com curso superior é mais qualificado.
Deonísio da Silva em 27/12/2011
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[Deonísio da Silva é escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor e um dos vice-reitores da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa)]
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