"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 28 de abril de 2013

QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ


Escreveu o recórter tucanopapista hidrófobo da Veja ontem:

Afirma ainda o presidente da CCJ: “Admissibilidade não é concordância com o mérito, é preciso que fique claro.” Claro que não! Só que a admissibilidade, numa Comissão de Constituição e Justiça, quer dizer que se considerou a proposta CONSTITUCIONAL E JUSTA (isto é, subordinada à ordem legal). Na hipótese de que a tinta no cabelo e o botox não afetaram o cérebro de Lima (não consta que afetem…), gostaria que ele me respondesse: quem tem a guarda da Constituição, segundo a própria… Constituição? É o Congresso? É a voz das ruas transformada em turba? Se o Parlamento e, no limite, o plebiscito definirão a constitucionalidade ou não de uma emenda ou lei, então Supremo Tribunal Federal para quê? Organizemo-nos em milícias, e quem pode mais chora menos. Voltemos, pois, ao estado da natureza, a uma sociedade comandada por senhores da guerra.

Nem sempre foi assim. Há exatamente um ano, o recórter tucanopapista hidrófobo achava simpática a proposta do sublime Nazareno. Em 26/04/2012, quando a PEC petista foi aprovada, escreveu:
Cotas, aborto de anencéfalos, casamento gay, marcha da maconha, coligações, uso do Twitter… Tribunais Superiores estão solapando prerrogativas do Congresso. Isso não é bom! Já há uma primeira reação na Câmara

É, senhores… As coisas vão tomando um rumo não muito bom. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou ontem, por unanimidade, uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que permite ao Congresso alterar decisões do Poder Judiciário se considerar que elas exorbitaram o “poder regulamentar ou os limites da delegação legislativa”. A proposta é de um deputado do PT chamado Nazareno Fonteles, do Piauí. Não sei quem é. Nem vou procurar para que não me sinta desestimulado a dizer o que acho que tem de ser dito. Eu adoraria estar aqui, neste momento, a escrever um texto esculhambando as pretensões do deputado Nazareno e de quantos se alinhassem com tal intento. Mas, infelizmente, não vou fazer isso, não! O STF, lamento, ocupa de tal sorte a cena política, e com tal protagonismo, que alguém terá de lembrar que o tribunal que ele não existe para a) reescrever a Constituição; b) criar leis — e isso vale também para o Tribunal Superior Eleitoral. Numa democracia, nenhum Poder é soberano. Infelizmente, vejo o Judiciário tentando exercer essa soberania sob a justificativa de que o Poder Legislativo não cumpre a sua parte. Ainda que não cumprisse, indago: o que dá ao Judiciário o poder de legislar? Infelizmente (repito o advérbio), ativismo judicial está virando discricionariedade.


28 de abril de 2013
janer cristaldo

NO ATUAL RITMO, PIB PER CAPITA DO BRASIL ALCANÇARIA O DOS EUA EM 108 ANOS

 


Em quanto tempo o PIB per capita do Brasil alcançaria o de países ricos

EUA: 108 anos. O PIB per capita do Brasil foi de US$ 11.875 em 2012 e tem crescido a uma taxa média de 4,5% ao ano. Nesse ritmo, o país levaria 33 anos para atingir o mesmo patamar que os EUA têm hoje (US$ 49.922). Mas como nos EUA o indicador também cresce (3,1% ao ano), somente em 108 anos o PIB per capita dos dois países se igualaria Leia mais AP


Mantido o atual ritmo de crescimento em cada país, o PIB (produto interno bruto) per capita do Brasil se igualaria ao dos Estados Unidos em 108 anos, ao do Reino Unido em 47 anos e ao da Itália em 30.

Em 2012, o PIB (produto interno bruto) per capita do Brasil foi de US$ 11.875, e o dos EUA, de US$ 49.922, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Esse número foi calculado com base na paridade do poder de compra, uma cotação do dólar que desconta a diferença do poder aquisitivo em cada país.

Para calcular o ritmo de crescimento atual, Achados Econômicos considerou a média dos últimos cinco anos e a da projeção de crescimento para os próximos cinco, elaborada pelo FMI, ou seja, o período que vai de 2009 a 2018.

Nesses dez anos, o PIB per capita brasileiro vem crescendo a uma média de 4,5% ao ano, enquanto o dos EUA avança a 3,1% ao ano.

É claro que nenhum país mantém o mesmo ritmo de crescimento desse indicador por períodos tão longos – na verdade, é difícil que a taxa se repita mesmo em dois anos seguidos.

A economia dos países está exposta a inúmeros eventos que influenciam o seu crescimento. Ainda, quanto maior o PIB per capita, mais difícil manter um ritmo de expansão alto.

Na China, por exemplo, o PIB per capita tem crescido acima de 10% ao ano, mas, com isso, os trabalhadores locais tendem a começar a ganhar mais, de modo a aumentar o custo do trabalho e, possivelmente, corroer parte da competitividade dos produtos chineses.

Nem por isso o cálculo do tempo que os países vão levar para aumentar o seu PIB per capita é inútil. Ele mostra para onde a economia de cada nação está apontando neste momento.

Não deve ser visto, portanto, como uma tentativa de prever o futuro, e sim como uma forma de enxergar melhor o atual momento.

Emergentes

A China e a Coreia do Sul são os dois países emergentes que mais rapidamente alcançariam a renda per capita dos EUA, se mantivessem o atual ritmo de crescimento. Veja quanto tempo cada nação em desenvolvimento levaria para chegar ao mesmo nível dos americanos.


PaísPIB per capita atual (US$)Crescimento anual* (%)Em quantos anos alcançaria os EUA
China9.16210,126
Coreia do Sul32.2724,826
Chile18.4195,446
Índia3.8307,266
Rússia17.7094,768
México15.3123,4483
África do Sul11.3753,3786
  • * Média do período 2009-2018
  • Fonte: FMI
 
28 de abril de 2013
Sílvio Guedes Crespo - UOL

CENTRAIS SINDICAIS VÃO USAR 1o. DE MAIO PRA HOSTILIZAR DILMA

 
Boca no trombone Sem resposta do governo sobre a pauta de 12 itens encaminhada a Dilma Rousseff ao final da marcha de março, as principais centrais sindicais transformarão o 1º de Maio em palanques hostis à presidente. Além da Força Sindical, que franqueará seu showmício a presidenciáveis da oposição e proporá reajustes salariais trimestrais contra a inflação, a CUT, até agora alinhada ao Planalto, ameaça mudar o tom, discutindo calendário de paralisações a partir do Dia do Trabalho.

3 em 1 Cientes dos entraves conjunturais para a redução de jornada e o fim do fator previdenciário, sindicalistas afirmam que a presidente sinalizara que agiria para deter a alta rotatividade no mercado de trabalho, o que contemplaria o pleito de ratificação da Convenção 158 da OIT.

Mais-valia "É muita desoneração anunciada para o patrão. Precisamos pensar no trabalhador", diz Vagner Freitas, que preside a central.

Line-up Diante do impasse, Lula avisou que não irá ao ato promovido pela entidade. Dilma enviará os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) e Manoel Dias (Trabalho) aos dois eventos. Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB) devem comparecer à festa da Força.

Bagagem 1 Ao anunciar que iria a uma aldeia indígena no Amazonas, o ministro Alexandre Padilha, agora favorito no PT para disputar o governo de São Paulo, ouviu um gracejo do prefeito de Santo André, Carlos Alberto Grana, na última sexta-feira.

Bagagem 2 "Quando voltar da Amazônia, traga um tambaqui e seu título'', disse o petista. Para concorrer em 2014, Padilha precisa transferir seu domicílio eleitoral, que hoje é Santarém (PA).

Porta Se antes a ordem no PSB era evitar responder às estocadas dos irmãos Cid e Ciro Gomes, agora se consolida a impressão de que eles estão dispostos a deixar a sigla.

História... Os embargos não necessariamente encerrarão a novela do mensalão. Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) já admitem, reservadamente, rever pontos controversos do julgamento, caso haja pedido de revisão penal por parte dos advogados após o acórdão transitar em julgado.
... sem fim Como exemplo, um integrante da corte cita a decisão segundo a qual o dinheiro que circulou pelo valerioduto era público e pertencia ao Banco do Brasil. "Seria um novo julgamento", diz um interlocutor da corte.

Arsenal No Direito Penal, a revisão vale para casos excepcionais, como provas falsas ou novas provas de inocência. Embora admitam que o alcance dos embargos é restrito, criminalistas afirmam que a questão do caráter público ou privado dos recursos do fundo Visanet deverá ser levantada ainda nesta fase.

Sujeito oculto Juízes identificam atuação de Francisco Falcão na campanha no Congresso pela suspensão da promulgação da proposta que cria quatro tribunais regionais federais. Presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) alega erro técnico para não assinar o texto.

28 de abril de 2013
Vera Magalhães - Painel - Folha de São Paulo

"O NEW YORK TIMES TAMBÉM NÃO SABIA"

Lula terá uma coluna mensal no New York Times. Pelo visto, os americanos estão levando a sério o projeto da decadência do império. Escolheram a dedo o amigo dos fantasmas de Khadafi e Chávez, porta-voz nas Américas de Ahmadinejad, o tarado atômico que quer explodir os Estados Unidos. Não se sabe ainda quem escreverá a coluna de Lula. Possivelmente, algum democrata importado por José Dirceu de Cuba. O New York Times verá o que é bom para a tosse.

Lula já cansou de dizer a seu povo que ler jornais é perda de tempo. O filho do Brasil vive exortando seus fiéis a não acreditar no que a imprensa diz. Nesse aspecto, pode-se dizer que o NYT chegou à perfeição. Se a vocação da imprensa é mentir, o jornal americano tem agora o maior especialista no assunto.

O gesto do jornal mais influente do mundo, ao contratar um ex-presidente no exato momento em que ele é investigado pela polícia de seu país por corrupção, pode ser entendido de duas formas: ou o NYT aderiu à moral petista ou - mais provável - o jornalão está se lixando para o que acontece no Brasil e resolveu usar Lula como mais um suvenir da pobreza, desses que a esquerda festiva americana ama. Se o colunista disfarçar bem os ideais parasitários que implantou em seu país, a contratação exótica pode até ajudar a vender jornal. Ficção científica sempre dá ibope.

Dizem que a coluna de Lula tratará de vários assuntos internacionais. Fica aqui, então, uma sugestão de pauta para o texto de estreia: a conquista de Roma por Rosemary. A despachante de Lula e Dilma, investigada por tráfico de influência, foi instalada pelo Itamaraty na elegante embaixada brasileira na Itália, numa viagem de passeio. Não pode haver assunto internacional mais quente para a coluna de Lula no New York Times.

Mas Lula não deve contar tudo de uma vez só. O ideal seria que ele iniciasse uma série - sugestão de título: "Rose's story" - e, a cada coluna, fosse detalhando os passos épicos de Rosemary Noronha como representante da Presidência da República em São Paulo, com todas as ações cirúrgicas para implantar picaretas nas agências reguladoras e transformá-las em balcões de cargos e negócios. Seguiria-se a história de como Dilma Rousseff a protegeu no lendário escritório paulista da Presidência, até que a floresta de golpes finalmente vazasse. O leitor americano vai adorar - achará que está lendo Agatha Christie, a rainha do crime.

Truman Capote e Gay Talese sumirão na poeira com o realismo pulsante de Lula no NYT. Os americanos descobrirão, enfim, o verdadeiro thriller da vida como ela é - e as famosas incursões de Capote e Talese pelo submundo parecerão brincadeira de criança. O colunista brasileiro poderá narrar as peripécias de Waldomiro, Valdebran, Gedimar, Vedoin, Bargas, Valério, Delúbio, Silvinho, Erenice, Rosemary e grande elenco. Isso garantirá ao New York Times, pelo menos uma vez por mês, uma edição de arrepiar. Os leitores interessados na realidade terceiro- mundista entenderão enfim o que é miséria (moral).

O público gringo de Lula vibrará com a história fantástica do mensalão, o escândalo que levou ao maior julgamento por corrupção da história de seu país, sem sequer arranhar o poder do grupo político que engendrou o golpe. O leitor americano se fascinará com a história da marionete que virou presidente e símbolo feminista, sem completar um único raciocínio lógico de autoria própria. Acharão que é realismo fantástico - e aí caberá ao colunista jurar pela liberdade de Rosemary que é verdade. A coluna de Lula será um sucesso.

Basta ele colocar lá suas memórias dos últimos dez anos. Líderes do mundo todo ficarão magnetizados com o final feliz petista - a tecnologia de eternização no poder sem governar, apenas torrando as riquezas nacionais em propaganda "progressista" e aliciamento de cúmplices. Um governo que chama a inflação de volta com seu show de populismo, fisiologismo e negligência - e consegue recordes de aprovação... O mundo descobrirá que Paulo Coelho não é o maior mago brasileiro.
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Não se sabe ainda quem escreverá a coluna de Lula. Talvez algum democrata importado de Cuba
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Enquanto a revolução bolivariana não acaba com a imprensa burguesa, o companheiro Lula pode contar tudo o quenãosabia-bastamandarDilmaproibiraPolíciaFederal de ler o New York Times.

28 de abril de 2013
Guilherme Fiúza, Epoca

"A RAPADURA ESTÁ CADA VEZ MAIS AMARGA"

 
A rapadura, quem diria, não é mais doce -- e continua dura de roer --  e tem deixado um gostinho amargo (Foto: Felipe Rau / AE)
A rapadura, quem diria, não é mais doce -- e continua dura de roer -- e tem deixado um gostinho amargo (Foto: Felipe Rau / AE)


Abcdefghjklmnopqrstuvxz, 23 letrinhas que choram num soluço de dor (ou numa declaração de amor).

Arrumadas de forma conveniente produzem a Bíblia, o Torah e o Alcorão (em português falado no Brasil). A Enciclopédia Britânica, 1984, As portas da Percepção, Guerra e Paz, As profecias de Nostradamus, o Acórdão do STF e os nomes da Gangue dos Quatro, que votou em bloco pra livrar as caras dos mensaleiros: Melandowski, Dias Toffoli e as moçoilas Cármen Lúcia e Weber.
 
Os votos na Comissão de Constituição e Justiça dos cidadãos acima de qualquer suspeita Genoíno, João Paulo Cunha e Paulo Maluf.

O “Apocalipse Segundo João”, “As Portas da Percepção”, as letras do Jim Morrison e Bob Dylan, “She´s Like a Rainbow” de Jagger e Keith Richard. As Obras Completas de Shakspeare e dos Beatles, as poesias do Vinícius, o Pai Nosso Que Estais no Céu, a “Ave Maria no Morro”, “Aquele Abraço” do Gil, “Fio Maravilha” de Jorge Ben, Luís “Respeita Januário” Gonzaga. “Eu quero é sossego”, do Tim Maia, que sossegou.

E mais toda a sabedoria, humor e tragédias da humanidade, aí incluídos o besteirol “50 Tons de Cinza” e porno-assemelhados, como “Fome Zero”, “Pac”, “Minha Casa Minha Vida”, “O Mensalão Não Existe”, “Nunca antes na história deçepaíz”.

Há também os tarjas-pretas impróprios para dimenores,”Relaxa e Goza” e “Lula é Deus”, atribuídos à Martaxa e “Quando Lula fala o país se ilumina”, obscenidade de suposta autoria de Spinoza, pronunciada através do cérebro, boca, língua e lábios da Profª Drª Chauí.

“And last but not the least”, o imortal enunciado do cientista Luís Inácio, verdadeiro autor da Teoria da Relatividade, dele surrupiada pelo Hospital Albert Einstein. Candidato com toda justiça ao Prêmio Nobel de Física Quântica por ter demonstrado que “se a Terra fosse quadrada ou retangular, noçopaíz não tinha polussão”.

Seus estudos são aplaudidos por Hawking e Sagan , a romancista de “Bonjour Tristèsse”, não o Carl, de “A verdade está lá Fora”. A Teoria do Big Bang, que só ocorreu por sua vontade, permissão e comando, está em vias de sofrer correções.

Invente a bobagem que quiser, como “Paz e Amor”, “Eu te amo”, “Você é bipolar”, “A inflação é conquista nossa!” (de indiscutida autoria da Tia), que aquelas 23 letrinhas produzem.

As letras, danadas, servem a vários senhores (Imagem: Latinstock)
As letras, danadas, servem a vários senhores (Imagem: Latinstock)

Durante alguns anos usei-as neste espaço plural deste DC para divulgar ideias paranoicas e teorias da conspiração que, espero, os leitores não tenham levado a sério; eu levei, para desabafar e me divertir.

A cada desabafo, divirto-me menos e sou remetido a uma magistral definição da Itália, feita pelo sisudo The Times, de Londres: “Não é só impossível governar a Itália; é inútil”.

Não é só impossível entender a aceitação bovina do “país dos mais de 80%” a toda a corrupção praticada nas nossas fuças — é inútil.

O que sobra em indignação em uma parcela da população, chamada com desprezo de “zelite”, sobra em porres de alegria para quem privatiza nos seus bolsos o nosso Pib – Produto Interno dos Burros.

Nós somos os burros de carga que produzimos, enquanto “eles”, você sabe quem são eles, socializam (rachuncham entre os sócios) cada centavo que pinga na soma dos trilhões que nos arrancam do couro em impostos escorchantes.

O “Leão” é apenas um cobrador treinado para cobrar; o perigo reside no seu “domador”, que o põe para cobrar. “Um dia é da caça o outro é do caçador”. É nada.

Fiz 70 anos na semana passada e nunca vi um só dia da caça. Não acredite em “vox populi vox Dei”. Vox populi é vox Deles, espalhada aos quatro mil ventos pela maior verba de propaganda oficial nunca antes vista “neçepaíz”, para hipnotizar, capturar e aprisionar corações e mentes do povão do “país dos mais de 80%”.

Não o meu coração nem a minha mente; não sou povão, sou zelite assumido, estrangeiro sem visto de permanência nesse país dos infelizes felizes , que com 71 reais por mês foram catapultados à Crasse Mérdia, por Decreto Imperial da Imperatriz.

Contemplo 3 saídas possíveis, que fantasio usar: Congonhas, Guarulhos e Viracopos, vira vira vira, virou! Se for pra virar, que seja Black Label cowboy e não a preferência oficial nacional, a 51.

Tenho a sensação de que perdi o meu tempo e o tempo de quem me leu, se é que alguém leu, e desperdicei este precioso espaço. Aprendi que espaço livre na imprensa é mais uma espécie em risco de extinção, como a ararinha azul.

Sei que a Democracia é a prevalência da vontade da maioria. Respeito-a, mas suspeito de que essa Democracia que temos é “La Democrácia” dos irmãos Castro, Evo Morales, La Kirchner, do Fantasma de Chávez reencarnado no Passarinho Bolivariano, do Lula e da Madama, iluminada, “La Democrácia”, pelos Faróis da Humanidade, o Cumpanhero Stálin e o gordinho da Coréia do Norte. Conte comigo fora dessa.

A rapadura está implorando para ser atirada ao lixo, por amarga que ficou; e estou a ponto de jogar a toalha.

Os mensaleiros ameaçam melar o julgamento do STF, cana neles.

28 de abril de 2013
Neil Ferreira
Por Neil quase desistindo Ferreira, publicado no Diário do Comércio da Associação Comercial de São Paulo

"MAIS SUCESSOS DE ERENICE, ESSA BATALHADORA INCANSÁVEL DA EFICIÊNCIA E DA ÉTICA"

 
Na edição que começou a chegar aos leitores no dia 7 deste mês, VEJA demonstrou que Erenice Guerra voltou com tudo. Esteve em Fortaleza no mesmo dia em que lá despachava a presidente da República, Dilma Rousseff, sua ex-chefe, amiga de fé, irmã, camarada. É tratada por empresários como ministra ainda e tida como poderosa no Planalto.
O Globo também se interessou pelas atividades dessa batalhadora incansável da eficiência e da ética. Leiam trecho da reportagem de Fernanda Krakovics e Danilo Fariello:
Pouco mais de dois anos e meio após ser demitida da Casa Civil em meio a denúncias de tráfico de influência, a ex-ministra Erenice Guerra tem defendido interesses de grandes multinacionais que buscam conquistar negócios junto ao governo federal, inclusive em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O escritório Guerra Advogados, do qual é sócia, está representando empresas do setor de energia. Erenice era consultora jurídica do Ministério de Minas e Energia quando a presidente Dilma Rousseff era titular da pasta.
Ex-braço-direito de Dilma, de quem foi secretária-executiva na Casa Civil no governo Lula, Erenice assumiu o comando da pasta quando a petista saiu para disputar a Presidência em 2010. A ex-ministra foi prestigiada pela antiga chefe mesmo após ser defenestrada do governo Lula. Erenice estava na ala dos convidados especiais do Palácio do Planalto na cerimônia de transmissão da faixa presidencial de Lula para Dilma. Também foi à festa da posse no Palácio do Itamaraty.
Com experiência na administração pública e uma rede de contatos no governo federal, Erenice foi contratada, por meio de seu escritório, pela multinacional Isolux Corsán, com sede na Espanha. Ela atua, por exemplo, em processo administrativo na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para rever as condições da concessão de trecho de linhas de transmissão de Tucuruí, sob controle da empresa espanhola.
A Isolux afirmou que contratou o Guerra Advogados e outros dois escritórios de advocacia de Brasília “com atuação administrativa junto à Aneel, para a discussão e o encontro de soluções em relação ao reequilíbrio econômico-financeiro do contrato de concessão de linhas de transmissão — Linhão de Tucuruí.” Área que Erenice conhece profundamente.
Na França, está o controlador de outro megaempreendimento do setor elétrico com a participação de Erenice, segundo fontes credenciadas do setor. A ex-ministra atua na disputa de bilhões de reais entre as usinas de Jirau e Santo Antônio pela alteração do nível do Rio Madeira, duas obras do PAC. Ela, segundo essas fontes, presta consultoria para a Energia Sustentável do Brasil (ESBR), que administra Jirau. A ESBR, que é controlada em 60% de suas ações pela francesa GDF Suez, disse que não se pronuncia sobre o tema da reportagem.
Segundo políticos que atuam na área de energia, Erenice está intermediando a negociação para venda de ativos da Petrobras na Argentina. E trabalhando para o grupo argentino Indalo, que fez uma oferta de compra. Procurado, o grupo Indalo não se manifestou. Já a Petrobras disse, em um primeiro momento, que não comentaria o assunto. Duas horas e meia depois, informou desconhecer qualquer ligação de Erenice com o grupo Indalo e esse tema.
(…)
 
28 de abril de 2013
Reinaldo Azevedo - Veja Online

"TIRO DE CANHÃO, TIRO NO PÉ"

A semana passada foi de crise e esta será de sorrisos e salamaleques, mas a crise continua.

O grande problema não é de forma e de retórica apenas, mas sim de conteúdo. Logo, a crise só acaba com o fim de seus dois pivôs.

São eles um projeto que visa aniquilar uma candidatura e enfraquecer a oposição em favor da reeleição da presidente e outro que dá ao Congresso poder de veto em decisões tomadas pelo Supremo Tribunal Federal (Supremo Tribunal Federal!). Seria cômico, não fosse trágico.

Até casuísmos têm limite, e o Congresso aprovar a lei pró-Dilma e anti Marina a um ano e pouco da eleição tem um ranço "bolivariano" incompatível com o Brasil. As regras não favorecem o rei (ou a rainha)? Mudem-se as regras!

E o projeto de emenda constitucional aprovado em minutos pela CCJ da Câmara para atacar e retaliar o Supremo é de uma violência e de uma irresponsabilidade poucas vezes vistas na democracia deste país.

Uma ousadia sem tamanho, iniciada por um parlamentar do partido do governo e encaminhada alegremente (ou seria o oposto, raivosamente?) pelos que não se conformam com a independência e a lisura do Supremo no julgamento do mensalão. A corte suprema não se rendeu ao poder? Puna-se a corte!

Ao se reunirem amanhã, distribuindo sorrisos e amabilidades diante das câmeras, o ministro Gilmar Mendes e os presidentes da Câmara e do Senado, Henrique Alves e Renan Calheiros, darão mostras de civilidade e responsabilidade. Mas o problema transcende a eles.

O que Lula, Dilma, o PT e parte do PMDB não percebem é que, radicalizando, fortalecem o outro lado e a ideia de um bloco alternativo ao projeto Lula-Dilma.

Os dois projetos e a crise criaram o ambiente perfeito para um acordo de cavalheiros (e de damas) entre Aécio, Eduardo Campos, Marina e seus seguidores. Seriam tiros de canhão, viraram um tiro no pé do PT.

28 de abril de 2013
Eliane Cantanhêde, Folha de São Paulo

"BRASIL, COLÔNIA DA CHINA"

Industriais, incomodados com uma concorrência desleal, demonstram que não há uma real parceria

Marcos Troyjo, diretor do BRICLab da Universidade Columbia e professor do Ibmec, fez a seguinte comparação em artigo recente: "O comércio com a China aumentou dez vezes na última década. Mas tal expansão foi impulsionada principalmente pelo crescimento dramático da China e seu resultante apetite voraz por commodities minerais e agrícolas em que o Brasil tem vantagens comparativas.
 
O resultado? Uma tonelada de exportações brasileiras para a China vale cerca de US$ 200. Uma tonelada de exportações chinesas para o Brasil vale mais do que US$ 2 mil. Isso dificilmente poderia ser chamado de parceria".

Tem razão. É muito mais uma relação colonial, o que causa tremendo incômodo à indústria brasileira, até porque 63% dos exportadores queixam-se à CNI (Confederação Nacional da Indústria) de prejuízos com a concorrência chinesa.

Natural, portanto, que a entidade decidisse encomendar um estudo sobre a política industrial chinesa ao escritório King & Spalding, que habitualmente presta consultoria aos governos norte-americano e mexicano quando o assunto é China.

As conclusões põem números nessa relação de tipo colonial. São dados relativamente conhecidos, mas apresentados em conjunto impressionam muito. Cito apenas dois de uma vasta coleção:

O Brasil exporta para a China apenas 7,6% de produtos considerados de alta tecnologia, mas importa 41,4% nessa rubrica.

Já em commodities primárias (produtos típicos de colônia), as exportações brasileiras saltam para 31,6%, enquanto os chineses vendem ao Brasil só 1,6% nessa área.

Conclusão inescapável do relatório: "Esse padrão levou à preocupação no Brasil e em outros países de que a predominância da China nas manufaturas pode levar à desindustrialização em seus parceiros comerciais".

É uma situação que incomoda também o governo tanto que, na agenda de sua visita à China, já faz dois anos, Dilma Rousseff reivindicou uma mudança na qualidade do comércio.

Passados dois anos, o relatório divulgado agora pela CNI demonstra que a reivindicação não produziu mudança alguma.

Nem vai haver mudança, prevê o documento: "Apesar da adoção de políticas orientadas pelo mercado, no fim dos anos 70, o governo da China continua, em todos os níveis, a exercer substancial influência sobre o setor industrial. Os subsídios para indústrias são substanciais, e essa subsidiação tem provavelmente causado danos às indústrias brasileiras concorrentes tanto no mercado doméstico como nos de exportação".

O escritório recomenda que o Brasil recorra à Organização Mundial de Comércio para propor "ações apropriadas", em vista do que leva todo o jeito de ser concorrência desleal, já que a indústria brasileira está, na verdade, competindo com o portentoso Tesouro chinês, não apenas com as suas congêneres.

Resta ver se o governo Dilma terá a coragem de peitar a China para tentar reconduzir a relação para a parceria, em vez de um neocolonialismo.

28 de abril de 2013
Clovis Rossi, Folha de São Paulo

"YO NO CREO EN LAS BRUJAS, PERO..."

Einstein chamou de 'fantasmagórico' o efeito à distância entre partículas proposto na física quântica

Quando Newton publicou sua teoria da gravitação universal em 1686, sabia que ia ter problemas com alguns críticos. Afinal, sua teoria descrevia a atração gravitacional de uma massa sobre outra como uma força que, misteriosamente, agia sobre o espaço vazio, meio que fantasmagoricamente.

Como é que a influência do Sol sobre a Terra, da Terra sobre o Sol, deste jornal sobre sua cabeça ou da sua cabeça sobre o jornal atua sem que haja um contato direto?

Esse é o problema da "ação à distância", que ficou sem explicação na teoria do Newton. Aparentemente, tudo se passava instantaneamente: se o Sol deixasse de existir, sentiríamos isso imediatamente --e "cataclismicamente".

Muito esperto, Newton incluiu na conclusão de sua obra uma espécie de ação preventiva contra críticos, argumentando que sua teoria explicava tanta coisa que não precisava explicar a origem da gravidade ou como esta se propagava pelo espaço: "Não farei qualquer hipótese a respeito". Já bastava assim.

Apenas em 1915, Einstein mudou esse quadro com sua teoria da relatividade geral. A ação da gravidade poderia ser ligada à curvatura do espaço em torno de corpos com massa: planetas têm órbitas elípticas em torno do Sol porque o espaço à sua volta é deformado como uma espécie de cone, e a elipse é a curva mais curta nessa geometria.


A teoria de Einstein substituiu a misteriosa ação à distância de Newton por um efeito local, produto da ação da massa sobre o espaço ao seu redor. Se o Sol desaparecesse de repente, não sentiríamos isso instantaneamente: levaria pouco mais de oito minutos, o tempo que demora para a gravidade se propagar do Sol até aqui, na velocidade da luz.

Quando Einstein achou que havia exorcizado o fantasma da ação à distância, eis que ele retorna triunfalmente à física quântica.

Tudo começou em 1926, quando Schrödinger obteve sua equação de onda descrevendo as órbitas do elétron em torno do núcleo atômico.

Era claro que o elétron não podia ser visto como uma mera partícula; já se sabia da "dualidade partícula-onda", na qual objetos podem ser tanto localizados como partículas quanto espalhados como ondas.

Schrödinger supôs que a onda fosse o próprio elétron ou sua carga elétrica espalhada em torno do núcleo, feito um borrão. Logo ficou claro que essa onda não era de matéria, mas de probabilidade: a equação dava a probabilidade de o elétron ser encontrado aqui ou ali. Pior, quando sua posição era medida, a onda entrava em colapso instantaneamente em um ponto --onde estava o elétron. A ação à distância retorna!

O efeito piora quando temos um par de elétrons girando em sentidos opostos. Separando-os e invertendo a direção de um, o outro inverte a sua também, de modo que ambos mantenham seu giro oposto.

O incrível é que isso ocorre instantaneamente, a qualquer distância! Einstein ficou horrorizado com isso, chamando o efeito de fantasmagórico. Pudera, havia-o exorcizado uma vez na gravidade e queria fazê-lo na física quântica.

Mas ele e outros não conseguiram isso: efeitos "não locais" são parte do mundo quântico, confirmados experimentalmente. O significado disso está em aberto. "Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay."

28 de abril de 2013
Marcelo Gleiser, Folha de São Paulo

"SE A VIDA FOSSE FÁCIL"


Não se pode amar alguém aprovado pela família, pela igreja e pela sociedade; esses são para casar
Se você pudesse escolher, preferiria ter um marido fiel mas que fosse um mau marido --desses que bebem errado e falam o que não devem, e é, frequentemente, um tédio-- ou um marido infiel e ótimo marido? Difícil escolha, e saiba: um ótimo marido se percebe pelo brilho do olho da mulher.

Teoricamente, um bom marido é aquele que, em primeiro lugar, não trai, e são esses os que as mulheres mais abandonam. Para que uma paixão continue a existir, é preciso que não se tenha muitas certezas, e nenhuma mulher ama um marido fiel demais. Para tudo há limites, até para a fidelidade.

Quais são os homens mais inesquecíveis da vida de uma mulher? São sempre os que mais aprontam, mais desaparecem, mais traem --e não confessam nunca--, mas que a faz mais feliz do que todos os bons rapazes do mundo.

É mais ou menos simples: se um homem é aprovado por todos, nunca é aquele que faz um coração juvenil bater descompassadamente. Não se pode amar alguém aprovado pela família, pela igreja e pela sociedade. Esses são para casar, o que não tem nada a ver com o amor.

Nada pode incendiar mais um romance do que a oposição da família; ela costuma ter razão, quando é contra, e a família está sempre unida contra os "maus" rapazes. E o amor, então? Desde os Capuleto e os Montecchio (famílias de Romeu e Julieta, para quem esqueceu) tem sido assim, e não há modernidade que mude essa regra.

O que mudou foi que hoje não dá nem tempo de alguém ficar contra, porque aí já acabou. E vamos reconhecer, pais e mães estão certos: nessa hora eles estão pensando em seu próprio sossego e em sua própria tranquilidade, no que estão cobertos de razão. Aliás, quase todos têm sempre razão, e algum dia você viu pais e filhos estarem de acordo? Se estão, alguma coisa deve estar errada.

Eles querem, para marido de sua querida filha, estabilidade em todos os sentidos, começando pela financeira, e que os sentimentos do pretendente também sejam estáveis. É até melhor que ele não ame apaixonadamente; melhor que tenha um sentimento calmo, maduro, confiável.

Enquanto isso a filha, com seus hormônios à flor da pele, anseia por um homem que a enlouqueça e a faça perder o rumo de casa.

Esse às vezes até casa (quando ela é rica), mas que ninguém espere dele fidelidade; esquecendo esse pequeno detalhe, costumam ser ótimos maridos, capazes de levar a mulher para um motel numa tarde de segunda-feira, ou a um fim de semana em Nova York, a troco de nada --as crianças ficam com a babá, qual é o problema?

E se for flagrado às 2h da madrugada tomando um uísque na sala, lembrando de como era boa a vida de solteiro, quando a mulher chega devagarzinho e faz a pergunta, aquela --"em que você está pensando?"-- ele vai responder, com a maior sinceridade, "em você, amore". Ela não vai acreditar, mas fica na dúvida: e se for verdade? Esse é um bom marido, e esse casamento vai durar --sobretudo se o pai dela continuar rico.

Mas afinal, você quer saber o que preferem as mulheres, se um marido fiel ou infiel? Refleti sobre o assunto, e acredito que a solução deve ser um homem fiel fingir que é infiel, e o infiel fingir que é fiel. Simples a vida, não?

P.S.¹: Para mandar um Sedex (um envelope com UMA folha de papel), do Rio para São Paulo você paga R$ 30,00.

P.S.²: E Rose, hein? Ela é a cara do PT

28 de abril de 2013
Danuza Leão, Folha de São Paulo

"CULTURA E TERROR"

As diversas concepções religiosas e políticas podem levar os homens a divergências insuperáveis
Essa minha ideia de que o homem é, sobretudo, um ser cultural, não deve ser entendida como uma visão idealizada e otimista, pelos simples fato de que isso o distingue dos outros seres naturais.

Se somos seres culturais, se pensamos e com nosso pensamento inventamos os valores que constituem a nossa humanidade, diferimos dos outros animais, que se atêm a sua animalidade e agem conforme suas necessidades vitais imediatas.

Entendo que, ao contrário dos outros animais, o homem nasceu incompleto e, por essa razão, teve de inventar-se e inventar o mundo em que vive. Por exemplo, um bisão ou um tigre nasce com todos os recursos necessários à sua sobrevivência, mas o homem, para caçar o bisão, teve que inventar a lança.

Isso, no plano material. Mas nasceu incompleto também no plano intelectual, porque é o único animal que se pergunta por que nasceu, que sentido tem a existência. Para responder a essas e outras perguntas, inventou a religião, a filosofia, a ciência e a arte.

Assim, construiu, ao longo da história, uma realidade cultural, inventada, que alcança hoje uma complexidade extraordinária e fascinante. O homem deixou de viver na natureza para viver na cidade que foi criada por ele.

Mas, o fato mesmo de se inventar como ser cultural criou-lhe graves problemas, nascidos, em grande parte, daqueles valores culturais. É que, por serem inventados, variam de uma comunidade humana para outra, gerando muitas vezes conflitos insuperáveis. As diversas concepções filosóficas, religiosas, estéticas e políticas podem levar os homens a divergências insuperáveis e até mesmo a conflitos mortais.

Pode ser que me engane, mas a impressão que tenho é de que o homem, por ser essencialmente os seus valores, tem que afirmá-los perante o outro e obter dele sua aceitação. Se o outro não os aceita, sente-se negado em sua própria existência. Daí por que, a tendência, em certos casos, é levá-lo a aceitá-los por bem ou por mal. Chega-se à agressão, à guerra.

Certamente, nem sempre é assim, depende dos indivíduos e das comunidades humanas; depende sobretudo de quais valores os fundamentam.

De modo geral, é no campo da religião e da política que a intolerância se manifesta com maior frequência e radicalismo. A história humana está marcada por esses conflitos, que resultaram muitas vezes em guerras religiosas, com o sacrifício de centenas de milhares de vidas.

Com o desenvolvimento econômico e ampliação do conhecimento científico, a questão religiosa caiu para segundo plano, enquanto o problema ideológico ganhou o centro das atenções.

A questão da riqueza, da desigualdade social e consequentemente da justiça social tornou-se o núcleo dos conflitos entre as classes e o poder político. Esse fenômeno, que se formou em meados do século 19, ocuparia todo o século 20, com o surgimento dos Estados socialistas. O ápice desse conflito foi a Guerra Fria, resultante do antagonismo entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Surpreendente, porém, é que, em pleno século do desenvolvimento científico e tecnológico, tenha eclodido uma das expressões mais irracionais da intolerância religiosa: o terrorismo islâmico, surgido de uma interpretação fanatizada daquela doutrina.

O terrorismo não nasceu agora mas, a partir do conflito entre judeus e palestinos, lideranças fundamentalistas islâmicas o adotaram como arma de uma guerra santa contra a civilização ocidental, que não segue as palavras sagradas do Corão.

Em consequência disso, homens e mulheres jovens, transformados em bombas humanas, não hesitam em suicidar-se inutilmente, convencidos de que cumprem a vontade de Alá e serão recompensados com o paraíso.

Parece loucura e, de fato, o é, mas diferente da doença psíquica propriamente dita. É uma loucura decorrente do fanatismo político ou religioso, que muda o amor a Deus em ódio aos infiéis.

Embora o Corão condene o assassinato de inocentes, na opinião dos promotores de tais atentados --que matam sobretudo inocentes-- só é proibido matar os "nossos" inocentes, como afirmou Bin Laden, não os inocentes "deles".

Tudo isso mostra que o homem é mesmo um ser cultural, mas que a cultura tanto pode nos transformar em santos como em demônios.

28 de abril de 2013
Ferreira Gullar, Folha de São Paulo

"O BRASIL PINTADO DE ROSA"

Com produção em alta, inflação em queda, finanças públicas em ordem e contas externas bem sólidas, o Brasil vai bem, no mundo imaginário do Ministério da Fazenda, retratado na edição de março do boletim Economia Brasileira em Perspectiva. Nesse universo de fantasia, o único fator de perturbação é a crise internacional.


Sem ela, a situação do País seria ainda mais brilhante. Mas essa história feliz se desfaz quando se examinam com alguma atenção os números divulgados pelas próprias fontes oficiais. Exemplo: com um buraco de US$ 67 bilhões, o Brasil exibiu nos 12 meses terminados em março o pior resultado das contas externas desde 2002.

O rombo acumulado nas transações correntes com o exterior chegou a 2,93% do PIB. As transações correntes englobam a balança comercial, a conta de serviços e as transferências unilaterais. No boletim da vida cor-de-rosa, os resultados são "estáveis" e facilmente financiáveis com investimentos estrangeiros diretos.

Os fatos desmentiram essa última afirmação nos 12 meses terminados em março, quando aqueles investimentos somaram US$ 63,6 bilhões. Foi necessário, portanto, completar com outros recursos, provavelmente mais especulativos, a cobertura do buraco.

A realidade conflita com a avaliação do Ministério da Fazenda em muitos outros pontos. O comércio vai mal, as importações têm crescido bem mais que as exportações e o País continua muito dependente das exportações de commodities para a China e outros mercados emergentes - uma tendência resultante dos erros cometidos pela diplomacia comercial petista a partir de 2003.

No mundo imaginário do Ministério da Fazenda, a economia brasileira retomou com firmeza o crescimento, depois de dois anos de fiasco. O fracasso de 2011 e 2012 é atribuído, naturalmente, às más condições internacionais.

Como de costume, evita-se um tema delicado e incômodo: o desempenho muito melhor de outras economias em desenvolvimento. A nova fase de prosperidade brasileira, segundo o boletim, será sustentada por investimentos crescentes. Em 2012, o governo e o setor privado investiram o equivalente a 18,1% do PIB. A proporção havia chegado a 19,5% em 2010.

Para 2013 o Ministério projeta um número maior que o de 2012, sem bater, no entanto, em 20% do valor do produto interno. A projeção indica uma trajetória de alta contínua até 24% do PIB em 2018. Nesse momento, o País estará investindo, talvez, o necessário para um crescimento sustentável de uns 5% ao ano ou pouco mais.

A aplicação de recursos em máquinas, equipamentos, construções privadas e infraestrutura continuará, portanto, muito abaixo do volume necessário por vários anos. Isso é uma confissão de impotência feita com palavras de otimismo e de confiança.

A embromação fica mais evidente quando se apresentam detalhes das grandes vitórias da política econômica. Segundo o relatório, já se aplicaram R$ 328,2 bilhões nos projetos do PAC 2, tendo sido concluídos 46,4% das ações previstas. Como de costume, a realização mais vistosa foi a destinação de dinheiro ao programa Minha Casa, Minha Vida - R$ 188,1 bilhões, ou 57,3% do total empregado.

Estimular a construção habitacional pode ser muito bom, mas investimentos planejados para aumentar a produtividade e a competitividade da economia nacional pertencem a categorias muito diferentes. Em energia, por exemplo, foram gastos apenas R$ 108,1 bilhões. Em transportes, míseros R$ 27,7 bilhões, apenas 8,4% dos R$ 328,2 bilhões aplicados no PAC 2. Nada mais natural, portanto, que as dificuldades para levar aos portos a soja destinada à exportação.

Quanto às contas públicas, aparecem no boletim como em ótimas condições. Não há uma palavra, é claro, sobre a contabilidade criativa para o fechamento das contas fiscais nem sobre o mal disfarçado endividamento do Tesouro para apoiar os bancos públicos. Muito menos uma palavra sobre o uso desse dinheiro para financiar empresas escolhidas para ser campeãs nacionais nem sobre a quebra de várias dessas favoritas da corte.

28 de abril de 2013
Editorial do Estadão

INFLAÇÃO VOLTA FANTASMA DA INDEXAÇÃO E PREOCUPA DILMA, A DESASTRADA

Inflação alta traz de volta fantasma da indexação e preocupa Dilma. Presidente teme que agentes econômicos repassem perdas para preços de produtos e serviços, o que alimenta o índice


 

O governo da presidente Dilma Rousseff enfrenta uma inflação que tem se mantido bem acima do centro da meta de 4,5% ao ano
Foto: ALEXANDER JOE / Alexander Poe/AFP/27-3-2013
O governo da presidente Dilma Rousseff enfrenta uma inflação que tem se mantido bem acima do centro da meta de 4,5% ao anoALEXANDER JOE / Alexander Poe/AFP/27-3-2013

A presidente Dilma Rousseff tem dito a interlocutores que está preocupada com o risco de uma volta generalizada da indexação na economia. Esse é um problema do qual o Brasil nunca conseguiu se livrar totalmente e que tende a crescer em momentos como o atual, em que a inflação está alta e resistente. O maior temor da presidente é que, para se proteger da forte alta dos preços, os agentes econômicos comecem a transferir automaticamente para produtos e serviços as perdas provocadas pela inflação passada. Isso reduz fortemente o poder de compra da população e torna mais difícil fazer os índices de preços convergirem para as metas estabelecidas pelo governo.

A inflação tem se mantido bem acima do centro da meta, que é de 4,5% (com uma margem de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo). O IPCA fechou 2012, por exemplo, em 5,84%. Até março, o índice acumulado em 12 meses estava em 6,59%, estourando o teto da meta. Os técnicos da área econômica esperam que a inflação recue em abril e maio, mas preveem um repique em junho, quando deve ocorrer uma série de reajustes nos setores de saúde e transporte, serviços que hoje já são indexados.

Os técnicos admitem e analistas do setor privado afirmam que o governo federal tem responsabilidade na indexação da economia, considerando a grande quantidade de itens que têm preços monitorados e corrigidos de acordo com a inflação passada e com percentuais estabelecidos pelo setor público. São exemplos o salário mínimo (que tem o Produto Interno Bruto e a inflação como referências para o reajuste), os planos de saúde e o petróleo.

Segundo o ex-diretor do Banco Central (BC) Carlos Thadeu de Freitas, quando a sociedade tem a expectativa de que os preços vão continuar subindo, começa a se antecipar a esse movimento, criando um efeito em cascata:

— Isso fica muito claro no setor de serviços. Os prestadores tentam se proteger da inflação repassando a alta já ocorrida para os preços.

Atitude do BC é fundamental

Freitas destacou que os serviços têm sido, com os alimentos, os maiores vilões da alta dos preços. Em março deste ano, por exemplo, o IPCA teve alta de 0,47%. Entre os serviços, o item empregado doméstico subiu 1,53% no mês e representou o maior impacto individual sobre a inflação mensal: 0,06 ponto percentual. Segundo o ex-diretor, é importante que o BC deixe claro para o mercado que não é leniente com a inflação e que vai usar os juros para fazer o índice voltar para o centro da meta.

— O recado tem que ser firme. Se o BC sinalizar que a inflação vai permanecer alta por um período mais longo, vai alimentar a indexação — disse ele.

Ex-presidente do BC em uma das fases mais críticas da economia brasileira, no início dos anos 80, o economista Carlos Langoni, da Projeta, diz que a volta da indexação generalizada seria um retrocesso tão grave que ele prefere nem considerar. Segundo ele, após uma longa história de hiperinflação, o Brasil conhece bem o elevado custo econômico e social causado pelo que chamou de “esquemas sofisticados de indexação”:

— O efeito regressivo do imposto inflacionário nunca foi neutralizado pela indexação. Ou seja, essa combinação virtuosa dos últimos dez anos entre crescimento e redução de desigualdade simplesmente não ocorreria. Os programas de transferência de renda perderiam sua eficácia e a nova classe média sofreria um envelhecimento precoce.

Langoni defende a redução da meta de inflação anual para 3,5% e o fim da indexação residual ainda existente em aluguéis, contratos de serviços em geral, salário mínimo, tarifas e até títulos públicos. Paralelamente, seria preciso restabelecer as bases de um ajuste fiscal sustentado e de melhor qualidade, o que passaria por uma reforma tributária:

— Não é difícil avançar para esse novo e superior estágio. O fator chave seria um choque de expectativas com a independência informal do BC. Um cenário de indexação e volta ao passado não seria nada brilhante para nossa economia.

Clima de desconfiança

Para o economista Alcides Leite, da Trevisan, o momento é crucial. Com a taxa anualizada em cerca de 6%, mas sem o nível de expectativa que existe hoje, não haveria problema. No entanto, alertou, se a inflação continuar subindo e chegar a dois dígitos a indexação será inevitável:

— É como ingerir bebida alcoólica. Se você toma uma cervejinha, não tem problema. Mas não pode ultrapassar o limite da tolerância, senão perde o controle.

O presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro, Antenor Barros Leal, diz que o clima de desconfiança provocado pela intervenção do Estado na economia estimula a inflação. Ele citou a intervenção no setor elétrico no ano passado.

Para um interlocutor do governo, o momento é ruim para falar de desindexação:

— O momento bom é quando a inflação está baixa. Quando está alta, não se pode mexer no bolso do cara que cobra aluguel corrigido por um índice

28 de abril de 2013
O Globo

ENDIVIDADAS, INDÚSTRIAS ESTÃO FECHANDO AS PORTAS. É GRAVE A CRISE DE DILMA.

Subsídios à gasolina, problemas climáticos e custos elevados tiram competitividade do setor
Festejada como potência mundial, a indústria brasileira do etanol vive tempos difíceis. Nos últimos quatro anos, das 330 usinas do Centro-Sul do país, 40 fecharam as portas e outras dez devem parar de moer cana de açúcar neste ano. Endividada e sem novos projetos de investimento, a indústria da cana deve encerrar a atual safra operando com 96% da capacidade instalada, nível delicado diante das perspectivas de aumento de 13% na demanda anual de etanol no mundo e de crescimento do mercado doméstico.

Entre 2011 e 2012, problemas climáticos fizeram com que o país produzisse quase 100 milhões de toneladas a menos que em 2010, mas a atual safra deve chegar a 635 milhões de toneladas, de acordo com a Datagro, consultoria especializada no setor.

— Voltando ao patamar de 2010 e com o fechamento de usinas, a moagem começa a ficar próxima da capacidade efetiva do setor. E não existe ainda um ambiente que estimule o setor privado a investir em capacidade — diz Plínio Nastari, da Datagro.

Estudo do banco Itaú BBA sobre o setor constata que, dos 147 grupos produtores de etanol e açúcar do Centro-Sul do país, 90 (responsáveis por 28,5% da produção nacional) estão excessivamente endividados e precisam passar por processos de fusão ou aquisição ou terão de encerrar as atividades.

— A paridade com o preço da gasolina, controlado pelo governo nos últimos anos, levou a um valor para o etanol que não remunera os investimentos e, em muitos casos, gera prejuízo. Por isso, entre as empresas a ordem é sobreviver. Investir, nem pensar — diz Alexandre Figliolino, diretor de Agronegócio do banco Itaú BBA.

Os custos elevados desde a crise de 2008, que pegou a maioria das empresas muito endividadas, combinados com os problemas climáticos que afetaram as safras de cana e a manutenção do subsídio à gasolina minaram a competitividade do etanol. Resultado: a participação do álcool (hidratado e anidro) no consumo interno de combustíveis para veículos leves desabou de 45%, em 2010, para 31,7% ano passado.

Exportações estão crescendo

Ao mesmo tempo, as exportações dessa fonte de energia limpa só aumentam: chegaram a 3 bilhões de litros em 2012 e devem atingir os 4,1 bilhões de litros este ano, segundo a Datagro.

Marcos Fava Neves, professor da Faculdade de Economia da USP em Ribeirão Preto, considera a falta de estratégia do governo para o setor “o grande equívoco de política pública” do governo Dilma Rousseff.

— O etanol é reconhecido como um combustível avançado nos Estados Unidos e, por isso, tem tributação diferenciada. Aqui, não tem — diz Fava Neves. — Tenho viajado o mundo e as pessoas não entendem o que acontece aqui.

De acordo com a Unica (entidade que representa as usinas do Centro-Sul), o país precisa instalar ao menos cem novas usinas de etanol e açúcar até 2020. Só que desde 2008, diz Antonio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da Unica, nenhum novo projeto foi aprovado. Quadro que o pacote anunciado semana passada pelo governo pouco deve mudar.

— Os incentivos anunciados pelo governo contribuem para recompor as margens de operação e reforçar o caixa. Mas não há nenhuma diretriz nova na política energética e nenhuma indicação de que o etanol terá maior peso na matriz energética. Sem isso, não vale a pena investir no aumento da produção — diz um usineiro que pediu para não ser identificado.

28 de abril de 2013
Ronaldo D’Ercole - O Globo

ESTRANGEIROS JÁ RESPONDEM POR 33% DA PRODUÇÃO BRASILEIRA DE AÇÚCAR E ÁLCOOL

Estrangeiros são a nova geração de usineiros. Crise abre oportunidades para investidores, que já têm 33% da produção de açúcar e álcool no país 
 
 

Colheitadeiras substituem mão de obra local: trabalhadores temem o desemprego
Foto: Marcos Alves
Colheitadeiras substituem mão de obra local: trabalhadores temem o desemprego. Marcos Alves

RIBEIRÃO PRETO (SP) - Bandeiras estrangeiras, sobretudo americanas, francesas e inglesas, tremulam nos mastros das usinas de açúcar e álcool do Brasil, que iniciou esta semana na região de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, a colheita da maior safra de cana-de-açúcar da História. Enfrentando uma crescente desnacionalização, o setor atingiu no ano passado uma marca impressionante: os estrangeiros foram responsáveis por 33% da produção brasileira de açúcar e álcool. Em 2010, a participação era de apenas 12%. Em 2006, quando o processo de internacionalização começou, a presença dos estrangeiros era de somente 3%. Nessa velocidade, a estimativa é que em breve o setor será totalmente dominado pelo capital externo, conforme levantamento da Datagro, empresa que presta consultoria à Organização Internacional do Açúcar.

Assim, este ano pelo menos um terço das 654 milhões de toneladas de cana que serão colhidas no país (11% a mais do que no ano passado) será para abastecer usinas de capital estrangeiro. Só a produção de açúcar será 13,6% maior este ano (43,5 milhões de toneladas). Os usineiros produzirão também 25,7 bilhões de litros de etanol, com um aumento de 9% sobre o ano passado. Um recorde total, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Os estrangeiros estão sendo atraídos pela alternativa mundial do álcool como combustível limpo e também pela crise dos usineiros brasileiros, pertencentes a tradicionais famílias, especialmente em 40 municípios no entorno de Ribeirão Preto, que produz 60% da produção nacional. Somente nos últimos quatro anos, 42 usinas de açúcar e álcool fecharam as portas. Muitas, no entanto, estão sendo compradas pelo capital internacional.

Um exemplo dessa expansão estrangeira no setor aconteceu nesta última sexta-feira em Ivinhema, no Mato Grosso do Sul, com a inauguração de uma grande destilaria de etanol pertencente à Adecoagro, do megainvestidor americano George Soros. Ele investiu US$ 900 milhões (ou aproximadamente R$ 1,8 bilhão) na filial brasileira da empresa, que tem sede na Argentina. Há dois anos, a anglo-holandesa Shell se associou ao empresário Rubens Ometto, e virou dona da metade das 24 usinas brasileiras pertencentes à Raízen, empresa resultante da fusão e que é segunda maior do setor, com 9,5% da produção nacional de açúcar e álcool. Até 2020, a Shell pode exercer o direito de comprar 100% do capital da empresa.

— Por enquanto, não pensamos em mudar nada na nossa parceria com a Shell. Estou muito feliz com o negócio do jeito que ele está — desconversou Rubens Ometto.

Além da Shell, os americanos da Bunge e da Cargill já são donos de dezenas de destilarias. Só a Bunge tem sete usinas. Os franceses da Louis Dreyfus Commodities (LDC) são proprietários de outras 11 usinas da Biosev, a terceira maior empresa do setor, com 7% de toda a produção. A primeira ainda é a brasileira Copersucar, que tem 34 usinas e 23% da produção brasileira. A indiana Renuka tem quatro usinas (duas no Paraná e duas em São Paulo), com capacidade para a moagem de 13 milhões de toneladas. O objetivo é exportar açúcar e etanol para a Índia, que começa este ano um programa de misturar 5% de álcool na gasolina.

Estrangeiros investiram US$ 22 bilhões na compra de usinas

A chinesa Noble, de Hong Kong, tem duas usinas no Brasil e os japoneses da Sojitz já detém 30% do capital da ETH Bioenergia, do grupo Odebrecht, que tem 9 usinas para processar 22 milhões de toneladas de cana. Os franceses da Tereos foram os primeiros a chegar ao mercado brasileiro, com a compra da Açúcar Guarani, que tem sete usinas no país. Hoje, a Tereos tem 50% do capital nas mãos da Petrobras e capacidade para processar 21,5 milhões de toneladas de cana. Assim como a poderosa Petrobras, outra petroleira, a British Petroleum (BP), comprou recentemente usinas em Goiás e Minas Gerais.

De acordo com levantamento da Datagro, os estrangeiros investiram US$ 22 bilhões (ou R$ 44 bilhões) na compra de usinas brasileiras de açúcar e álcool.

— O capital estrangeiro é bem vindo. Não fosse ele, certamente não teríamos aumento da produção este ano. Os estrangeiros é que tem crédito, que estão investindo na modernização das indústrias e na renovação dos canaviais — disse Antonio de Pádua Rodrigues, diretor da União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica).

As empresas internacionais, contudo, não estão se tornando donas das terras. Até porque, a Advocacia Geral da União (AGU) fez um parecer limitando em 2010 em cinco mil hectares o volume de terras em mão de um estrangeiro. Com isso, as empresas estão comprando só as usinas. A terra em que plantam é arrendada dos produtores brasileiros ou adquirem toda a safra dos canavieiros nacionais.

Essa é uma das razões que leva o diretor da Unica a não ver risco dos estrangeiros dominarem o setor. Antonio de Pádua Rodrigues acha mais perigoso o que está acontecendo com a falta de investimentos da Petrobras no refino de gasolina, entre outras coisas.

— Será que as empresas estrangeiras continuarão interessadas no setor, depois de anos sem lucratividade? Eles tem mais fôlego financeiro do que os empresários nacionais e estão dispostos a ficar no mercado, de olho no futuro, mesmo não tendo lucro no presente — esclareceu Pádua, para quem, as recentes medidas anunciadas pela presidente Dilma Rousseff, da desoneração do PIS/Cofins e da redução da taxa de juros para financiamentos na modernização de equipamentos e renovação dos canaviais, podem ajudar a minimizar os problemas do setor, mas ainda são consideradas insuficientes para a expansão do segmento. O aumento da mistura de 25% de etanol na gasolina, que passa a vigorar neste 1º de maio, não é vista como incentivo para o setor, mas como benefício para a Petrobras, que passa a importar menos gasolina para abastecer o mercado interno.

O geógrafo Bernardo Mançano, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), contudo, vê riscos da expansão estrangeira à segurança nacional. Afinal, o setor emprega 4,5 milhões de pessoas e responde por 8% do PIB agrícola brasileiro.

— Ao permitir o avanço do capital estrangeiro num setor estratégico, o governo está abrindo mão de estabelecer sua política agrícola, de definir o uso do território para a sua soberania. Hoje quem define a política agrícola é a Organização Mundial do Comércio e o agronegócio. O que mais preocupa é que o capital estrangeiro avança no setor e dentro de dois ou três anos pode chegar a 66% do setor. E o pior, é que o BNDES está financiando muitos desses projetos —disse Mançano.

O auge da invasão estrangeira ocorreu depois da crise mundial de 2008/2009, que afetou intensamente os usineiros brasileiros. Segundo Plínio Nastari, presidente da Datagro, que deu consultoria a 70% dos estrangeiros que vieram para o Brasil a partir de 2005/2006, o capital internacional veio para o Brasil atraído pelo fato do país ser o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, responsável pela exportação de 50% do açúcar mundial e de 43% da exportação mundial de etanol. Nos últimos oito anos, o volume do açúcar exportado pelo Brasil cresceu 48%, enquanto que o resto do mundo teve uma queda de 1%.

— Depois que os estrangeiros vieram para o Brasil, a exportação brasileira de etanol saltou de 1,7 bilhão para 5,1 bilhões de litros. Na safra do ano passado, caiu para 3,3 bilhões, mas este ano já deve subir novamente e deve chegar a 4,1 bilhões de litros. A demanda mundial por etanol está crescendo 13% ao ano e a do açúcar 2,3% ao ano.

A partir do momento em que os estrangeiros começaram a tomar o lugar dos usineiros tradicionais, a produção começou a subir. Em 2004, o Brasil processava apenas 358 milhões de toneladas de cana. Em 2006, com a entrada do capital externo, o país produzia 386,6 milhões de toneladas. No auge do ingresso do capital internacional, a produção de cana subiu para 602,6 milhões de toneladas em 2009 e para 620,5 milhões de toneladas em 2010.

Para este ano, a Conab estima uma produção de 653,8 milhões de toneladas, o dobro do que produzia antes da chegada dos estrangeiros. A produção de etanol, que era de 15,9 bilhões de litros em 2006, deve ser de 25,7 bilhões de litros. A de açúcar era de 25,8 milhões de toneladas e este ano deve ser de 43,5 milhões de toneladas.

Um dos primeiros empresários brasileiros a vender suas usinas para os estrangeiros foi Maurílio Biagi, de Ribeirão Preto, que faz parte do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), do governo Dilma Rousseff. Em 2006, ele vendeu a Cevasa (Central Energética Vale do Sapucaí), que esmaga anualmente 4 milhões de toneladas de cana, para a americana Cargill, uma das maiores empresas do setor alimentício do mundo. Biagi prevê que até 2016 a participação estrangeira no setor será de 50%.

— A maioria das aquisições de estrangeiros no setor ocorre porque o empresário brasileiro está quebrado, cheio de dívidas em bancos. Mas esse não foi o meu caso. Eu já tinha negócios com a Cargill na Síria e El Salvador e acompanhei o esforço dos americanos que queriam entrar no setor de açúcar e álcool de qualquer maneira. Eles quase compraram a Usina Corona. Então, resolvi vender minha usina por entender que era um ótimo negócio — disse Biagi.

A Usina São Francisco, de Sertãozinho, é uma das que resiste ao assédio estrangeiro. Segundo Jairo Balbo, diretor industrial, a empresa sobrevive por ter desenvolvido o projeto Native, que faz produtos orgânicos, além dos tradicionais, e por isso ele se recusa a vender o controle da empresa, que está com a família há 100 anos. Ele vê com bons olhos o capital estrangeiro, mas acha que a crise do setor só vai acabar quando o preço do produtor subir em R$ 0,40 por litro. Atualmente, um litro de etanol custa R$ 1,44 na usina, já com impostos, ou R$ 1,15 sem impostos (para o consumidor, o preço do litro custa em torno de R$ 2,00).

— A desoneração do PIS/Cofins em R$ 0,12 por litro, vai ajudar um pouco, mas o importante é que o governo abriu diálogo com o setor. Não acredito que a crise levará à desnacionalização. Os estrangeiros ainda precisam muito de nós. Tanto que eles estão comprando só a parte industrial. A parte agrícola ainda está na mão dos brasileiros. A tecnologia do setor também é nossa. Um bom exemplo da parceria com o capital estrangeiro é o que aconteceu com a Shell. Eles compraram as usinas, mas quem toca a produção são os brasileiros — disse Balbo.

28 de abril de 2013
Germano Oliveira, Enviado especial - O Globo