"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 10 de junho de 2012

POBRE GRANDE IRMÃO

Há cerca de um século a cultura, tanto a popular quanto a mais refinada, está repleta de referências à burocracia sem rosto e corporativa. De Kafka a Aldous Huxley, passando por George Orwell e incontáveis filmes de Hollywood, a robótica indiferença corporativa assombra a alma moderna. É estranho, portanto, que os americanos tenham passado a receber de braços abertos a impessoalidade sem face.

O aspecto mais frustrante de gigantes da internet como o Facebook é o fato de não podermos ver o rosto de alguém que trabalhe para essas empresas. É impossível falar com eles pelo telefone. Perante o anonimato cósmico do Facebook, o Grande Irmão de Orwell parece uma figura terna. O mesmo vale para o Google. Deparou-se com um problema na sua conta do Gmail? Boa sorte para encontrar um ser humano a quem se queixar. É mais fácil ter uma de suas preces atendidas por Deus.

Outro dia, vivenciei uma experiência distópica com uma das gigantes entidades online que governam a existência americana. Tenho uma conta da AOL desde a aurora de minha existência virtual, há cerca de 17 anos. Pelos meus cálculos, devo ter quase 200 mil mensagens - recebidas e enviadas - na minha conta de e-mail. Naquele dia, em algum momento no fim da manhã, percebi que não podia entrar na minha conta. Fui informado que, por causa de "atividades suspeitas", ela havia sido bloqueada. Fui instruído a responder a uma "pergunta de segurança" pedindo que eu informasse o nome do meu bicho de estimação.

Ora, não tenho um animal de estimação desde os 15 anos. Portanto, não poderia ter informado o nome do meu bicho de estimação como resposta à "pergunta de segurança". Mas a AOL insistiu. Sem o nome do bicho de estimação, sem acesso à conta. Tentei várias vezes. Naveguei por todo o site na tentativa de encontrar maneiras de provar que eu era mesmo eu.

Nada feito. Precisava do nome do bicho de estimação. Assim, respondi com nomes de bichos que tive durante a infância, na medida em que era capaz de me lembrar deles: tartarugas, peixes dourados, hamsters e um pequeno schnauzer que batizamos de Lucky e morreu duas semanas depois de o trazermos para casa. Além de ter negado o acesso à minha conta de e-mail, na qual eu mantinha 17 mil mensagens armazenadas, comecei a me emocionar com as lembranças de Lucky. Nada parecia funcionar.

Telefonei para o número gratuito da AOL e fui atendido por uma pessoa de sotaque indiano que deveria estar sentada num cubículo em algum lugar como Nova Délhi, tentando sustentar a família com poucos centavos ao dia. O pobre sujeito repetiu a fórmula com que foi treinado: "Fico feliz em poder atendê-lo. Lamento que esteja enfrentando problemas. Estou aqui para ajudá-lo a solucioná-los". Ele finalmente concordou em deixar de lado a pergunta de segurança sobre o bicho de estimação. Perguntou-me o endereço no qual eu morava quando abri a conta.

Fácil. Era 220 East 36th Street, Nova York, NY 10016. "Sinto muito", disse ele. "Essa informação não consta em nossos registros. Forneça outro endereço." Dei a ele cada um dos endereços nos quais morei nos últimos 17 anos. Nada feito. Eu estava prestes a subir pelas paredes. "O que devo fazer?" - gritei, desesperado. Ele pensou por um momento. "Qual é o nome do seu bicho de estimação?", perguntou ele.
Fiz o que qualquer pessoa civilizada faria. Pulei pela sala feito um orangotango, berrei uma série de obscenidades e arremessei o telefone na parede. Fantasias de uma violência incrível contra o monstruoso empregador daquele homem inocente inundaram minha imaginação. Mas controlei meus impulsos e fiz a mim mesmo minha própria pergunta de segurança.

O que a corporação contemporânea mais teme? A mídia. Publicidade ruim. Uma reputação manchada num mercado de competitividade implacável. A calma me invadiu. O valium também estava começando a fazer efeito.
Usando a internet, que voltara a ser minha aliada, encontrei o e-mail dos principais executivos da AOL em Manhattan. Enviei a cada um deles uma mensagem simples. O texto era o seguinte: "Sou um jornalista que escreve para várias publicações. Acabo de passar por algo engraçado. Aquilo que começou como uma experiência frustrante logo se converteu numa pauta promissora". Estava falando sério. Em seguida, relatei minha saga de frustração.

Presto! A corporação sem rosto subitamente ganhou uma face. Um dos executivos me respondeu em questão de minutos, pedindo desculpas pelo inconveniente. Em questão de minutos, eu falava com dois técnicos que, em questão de minutos, conseguiram me devolver o acesso à conta. Poucos dias depois, recebi em casa uma caixa enviada pela AOL via FedEx. Dentro havia um cartão me agradecendo pela lealdade enquanto freguês da AOL (17 anos de altos e baixos) e vários brindes: uma camiseta com o logotipo da AOL; um moletom com o logotipo da AOL; um boné com o logotipo da AOL; e três ótimas canetas da AOL. A empresa tinha me convertido de freguês furioso em anúncio ambulante dos seus serviços.

É claro que não posso me queixar. A AOL me tratou bem. Mas eu me pergunto sobre o destino das pessoas que não podem responder ao abuso de poder do novo império online com sua própria demonstração de poder (ainda que pequeno e patético como o meu). Me pergunto por que os americanos aceitam toda a retórica online a respeito da "transparência" e da "acessibilidade" quando não conseguimos nem mesmo falar ao telefone com uma pessoa de verdade que represente essas entidades. Tenho medo de um futuro sem rosto no qual o próprio Grande Irmão parecerá inofensivo e simpático.
Mas bem que eu gostaria de ganhar mais algumas daquelas canetas.

Lee Siegel - O Estado de S.Paulo
10 de junho de 2012

TURNÊ MUNDIAL DO ARBÍTRIO

De China a Rússia, passando por Egito e Venezuela, autor visita os regimes autoritários de hoje

"Grândola, vila morena Terra da fraternidade O povo é quem mais ordena Dentro de ti, ó cidade."

(Primeiros versos de Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, canção portuguesa do Alentejo usada como senha para o início da Revolução dos Cravos em 25/4/1974)

Não está fácil ser um ditador hoje em dia", conclui William J. Dobson em seu recém-lançado The Dictator's Learning Curve: Inside the Global Battle for Democracy (A Curva de Aprendizagem do Ditador: Dentro da Batalha Global Pela Democracia).
O jornalista e editor internacional da revista Slate decidiu cair na estrada há dois anos para investigar a natureza da ditadura contemporânea. O sonho do repórter é estar no lugar certo no momento certo e Dobson não pode se queixar: 2011 foi o ano da Primavera Árabe e da queda de ditadores como Muamar Kadafi e Hosni Mubarak.

O livro de Dobson é uma turnê internacional pelo autoritarismo que passa pela China, Rússia, Egito e Venezuela. Ele escreve que os problemas dos ditadores contemporâneos começaram aos 25 minutos do 25 de Abril português, em 1974, quando a rádio Renascença de Lisboa começou a tocar a canção senha para a revolução e disparou um efeito dominó de derrubadas de regimes no sul da Europa, África, América Latina e no leste da Ásia.
O boom democrático culminou em 2005, quando o mundo tinha triplicado o número de democracias. Algo mudou naquele ano. Até 2010, novos golpes militares na Ásia, populismo na América do Sul e retrocessos em recém-liberadas repúblicas da antiga União Soviética sinalizaram um declínio da liberdade democrática no planeta.
O que mudou, argumenta Dobson, não foi o desejo coletivo de liberdade política e econômica. Foi a capacidade de adaptação dos regimes autoritários.

O local do mais recente massacre na Síria já era visto, em poucas horas, por imagens de satélite, em qualquer smartphone. O ditador contemporâneo, lembra Dobson, sabe que não pode garantir sua longevidade à base do genocídio. Por isso, o sírio Bashar Assad é o exemplo usado pelo autor como o pior aluno da classe.
Já que a maioria da população síria não é nem a favor nem radicalmente contra o regime, ele poderia ter feito pequenas aberturas, explica Dobson. "Mas Assad seguiu o manual do ditador do século passado. Foi lento na reação, recorreu à violência com uma rapidez e intensidade que não vimos nos outros países afetados pela Primavera Árabe."
O exemplo mais bem acabado de totalitarismo sofisticado é o de Vladimir Putin, que cria até partidos de oposição para encenar sua farsa de democracia constitucional.

No mês do 20º aniversário do massacre na Praça da Paz Celestial, Dobson lembra como era difícil imaginar então que o regime que colocou os tanques na praça estaria tão forte hoje. Os chineses estudaram o declínio da União Soviética, explica o jornalista.
E entenderam que o isolacionismo era um tiro no pé, que insistir na doutrinação individual era uma perda de tempo. A barganha chinesa - faça o que quiser na vida pessoal, busque a prosperidade, mas não questione o monopólio do Partido Comunista -, funciona.

Em The Dictator's Learning Curve, Dobson revela a extraordinária rede de militância que une oposicionistas de todos os cantos do mundo e também o novo negócio da promoção democrática, alimentado por ONG's e empresários.
O autor diz que seu otimismo no fim da viagem não foi provocado pela justiça da causa democrática, mas pela competência e a determinação dos oposicionistas que conheceu: "A verdade é que os protestos de 2011 foram tão potentes porque partiram do povo.
No fim das contas, o público faz a diferença. E, para um ditador, não há nada mais aterrorizante", conclui. A seguir, a conversa de William J. Dobson com o Aliás.

Como estudioso do autoritarismo moderno, como você vê Vladimir Putin?
O domínio exercido por Putin transcende muito o controle econômico. A Constituição russa não é especialmente autoritária, ela tem várias provisões em comum com as Constituições de democracias europeias. Putin não chegou aonde está com endurecimento constitucional.
Ele sabe comer as instituições pelas beiradas. Sempre acreditou na importância da fachada. Quando havia um debate sobre a legalidade de Putin se candidatar a um terceiro mandato, o então presidente egípcio, Hosni Mubarak, foi a Moscou e respondeu a um jornalista:
"É claro que Putin deve ficar no poder". Putin não concorreu, cedeu o cargo a Medvedev e hoje está de volta. E onde anda Hosni Mubarak? Putin entende da teatralidade do poder. O Kremlin cria até movimentos de oposição para concorrer contra o regime.


Um personagem proeminente no capítulo 'Inimigos do Estado' é o famoso advogado chinês Pu Zhiqiang, que defende o artista Ai Weiwei. Como você vê dois casos recentes de teste do controle chinês - o expurgo do cacique do Partido Comunista Bo Xilai e a fuga do dissidente cego Chen Guangcheng?
Quando você observa a extensão da perseguição do regime chinês à sociedade civil, a nova linha de defesa repousa em personagens como esses advogados. São eles que conduzem os cidadãos para apresentar suas queixas, usando como podem o sistema judiciário.
Guangcheng é um homem excepcional que enfrentou muita violência, e seus parentes também. Ficou insustentável para ele. Se tivesse conseguido chegar a um acordo com as autoridades para continuar na China, teria sido incrível. Eu acho que elas estão muito felizes com o dissidente em Nova York. Veem a ausência como o caminho mais rápido para a irrelevância.
Já o caso do Bo Xilai está ligado a uma luta interna entre as elites chinesas e essa é uma das maiores fontes de apreensão para o regime, porque não há regras claras de sucessão. Lembre que Deng Xiaoping, antes de morrer, escolheu não um, mas dois sucessores, até Hu Jintao.
O atual vice-presidente, Xi Jinping, que deve tomar o lugar de Hu no fim do ano, representa o primeiro teste de passagem de poder não planejada pela geração fundadora do partido. Fatos como Bo Xilai grampeando telefone de chefes do partido mostram que sucessões são o pesadelo de regimes autoritários.

A Venezuela de Hugo Chávez é um caso mais difícil de decifrar como regime autoritário por causa das percepções diferentes na América Latina e nos Estados Unidos?
Chávez desafia nossa percepção em qualquer parte do mundo, inclusive nos Estados Unidos, onde tem muitos fãs. Ele é muito competente. Seu regime repousa nas eleições. Quando conversei com membros da oposição venezuelana, ninguém acusou Chávez de roubar votos no dia da eleição. Mesmo que haja uma irregularidade, aqui ou ali, todos concordam que a eleição transcorre em relativa normalidade.
O problema são os outros 364 dias do ano, quando ele controla a mídia, usa ilegalmente dinheiro do Estado para financiar sua campanha, controla os militares e intimida a oposição. Aqueles discursos que ele faz em cadeia de TV são únicos como instrumento de acesso ao público.
Se juntassem os vídeos de todos os discursos que ele fez, ao longo de dez anos, Chávez passaria 54 dias no ar. É fato que o regime venezuelano não usa a violência, como vimos no Egito.
O símbolo do sucesso do Hugo Chávez é uma cédula eleitoral.

Na Síria, Bashar Assad é o exemplo do mau aluno do aprendizado do ditador?
Ele é péssimo aluno. Ninguém quer ser a Síria, o país virou um case study de como não agir. O que esses regimes têm em comum é a necessidade de evitar o dia em que o povo se reúna na praça. E, quando chega esse dia, os ditadores acabam se revelando, como no caso de Assad. Mas ele começou a fracassar bem antes do teatro de horrores a que assistimos hoje.
Assad foi lento na reação, recorreu à violência com uma rapidez e intensidade que não vimos nos outros países afetados pela Primavera Árabe.
Note que ele não ofereceu nenhum tipo de acomodação. Ele parece estar seguindo o manual do pai, Hafez Assad, responsável por um dos maiores massacres no Oriente Médio, a morte de mais de 20 mil pessoas em Hama.
É o manual do ditador do século 20, não funciona. A ironia é que a maioria da população síria não é nem a favor nem radicalmente contra o regime.
Ele poderia ter feito aberturas para essa população. Ao contrário, quer usar a oposição como exemplo para intimidar a maioria. Não tem um plano, apenas um regime de terror. Outros países, como a Jordânia e a Malásia, foram bons alunos.
Nos primeiros dias dos protestos no Egito, o primeiro-ministro malaio, Najib Razak, disse: "O que aconteceu no Cairo jamais vai acontecer na Malásia". Recentemente, classificou um protesto de "sinal de sofisticação e maturidade" do país. Vladimir Putin começou acusando a CIA de fomentar protestos e agora se diz "orgulhoso" dos russos que exercitam seus direitos.

Você esteve no Egito antes e durante a Primavera Árabe. Esperava que o movimento fosse evoluir para o cenário que temos hoje?
Estou muito preocupado com a trajetória do Egito. Antes da Primavera, a dúvida era se o país ia ter como sucessor de Hosni Mubarak um filho dele ou um militar. Quando os protestos da Praça Tahrir explodiram, os militares entraram em campo para "guiar" o processo.
Infelizmente, ainda continuamos com a dúvida: é revolução ou sucessão? Se você voltar a pronunciamentos da era Mubarak e ouvir o que os militares estão dizendo hoje, o teor é basicamente o mesmo. Eles não desmantelaram o aparato de segurança, apenas mudaram o nome.
Desde a queda de Mubarak, mais de 10 mil cidadãos receberam sentenças em tribunais militares, mas só dois eram soldados que mataram civis na Praça.

E mesmo nos países considerados sucessos, como a Tunísia, vemos que surgem outros tipos de questões, como a pressão para as mulheres cobrirem a cabeça.
O fato é que várias daquelas ditaduras reforçavam o secularismo. Não estou nada surpreso com esse aspecto da mudança. Mas prefiro viver num país que debate o limite entre o secularismo e a religião. É uma discussão que precisa acontecer entre os cidadãos e não ser suprimida.

Você menciona a euforia e o temor das mídias sociais, usadas igualmente por movimentos de oposição e regimes autoritários.
Esse é um debate estagnado. Defensores e detratores acabam por se enganar. A tecnologia é uma ferramenta e portanto, neutra. A questão é: quem sabe usar melhor? É claro que, no Egito, as mídias sociais foram um elemento importante da revolução.
No livro, eu conto um exemplo do que aconteceu antes, em 2008, quando o mundo não estava prestando atenção.
Um pequeno grupo, depois conhecido como 6 de Abril, se organizou em torno do Facebook para convocar uma greve em solidariedade a trabalhadores da indústria têxtil. Foi a primeira vez que os jovens egípcios usaram a tecnologia para divulgar um protesto. O movimento cresceu e atraiu 70 mil pessoas online.
O governo se assustou e começou a transmitir, na rede de TV, uma mensagem no pé da tela, mandando os cidadãos não faltarem ao trabalho o dia 6 de abril. Foi tudo que o movimento precisava: propaganda grátis. Quem assistia àquilo e não sabia do protesto ficava não só intrigado, porque trabalhava em todos os outros dias e se irritava com a ordem, como a própria ordem serviu de convocação para mais gente ficar em casa.

E no campo das ditaduras eficazes em reprimir pela tecnologia, como fica a China?
O uso que a China faz da tecnologia é um exemplo de sofisticação. Veja a maneira como eles conseguem neutralizar a internet. Reconheço que vai ficando cada vez mais difícil. Um dos problemas, que descrevo no livro, com a longevidade de um regime, é o acúmulo de datas simbólicas.
Não é só o aniversário recente do massacre na Praça da Paz Celestial. Em março, eles têm o levante tibetano. Em 4 maio, o levante de 1919. Em 6 de julho, a rebelião étnica de Xinjiang. O calendário deles vai ficando lotado de datas que o governo quer que o público ignore. Mas eles são muito bons em separar o clima de oportunidade econômica da repressão política.

Como uma pessoa criada numa democracia, depois da sua turnê internacional pelo autoritarismo você adquiriu uma nova apreciação pelo fato de que, para o cidadão comum, a ditadura é um mundo de nuances?
Sem dúvida, entender isso é um elemento crucial para sobreviver na área cinzenta entre democracia e autoritarismo. Se você é um ditador moderno, fala a língua dos direitos humanos. Patrocina workshops sobre liberdade. Participa de todas as atividades na ONU.
Você faz tudo igualzinho à Alemanha e cabe ao povo descobrir a diferença entre viver nesse país e na Alemanha. Ninguém quer ser um brutamontes como a Coreia do Norte.
O caso mais fascinante que vamos acompanhar agora é o de Mianmar. Nenhuma ditadura mudou mais no último ano do que a junta que governa Mianmar. Minha teoria é que eles deram uma olhada no que acontecia no mundo e concluíram que iam sair perdedores.

Então Mianmar é o 'país pôster' para o aprendizado do ditador?
Sim. Mianmar é novo membro do clube da ditadura moderna.

Há um personagem no seu livro, pouco conhecido das pessoas comuns, mas famoso entre ditadores: o teórico da resistência não violenta, Gene Sharp, de Boston. Ele inspirou revoluções, da Sérvia ao Egito...
Sharp é considerado um dos principais pensadores da não violência, o historiador que explicou a importância do movimento em personagens como Gandhi e Martin Luther King.
Nos anos 1980 o trabalho de Sharp atraiu a atenção de um militar americano que estava de licença em Harvard, o coronel Bob Helvey. Ele entendeu que as ideias de Sharp seriam eficazes para derrubar uma ditadura. O último posto de Helvey foi na embaixada americana em Mianmar.
Já na reserva, ele começou as palestras que fez aquelas ideias atraírem a atenção da oposição em Mianmar. Mas a obra de Sharp era muito vasta.
Foi assim que surgiu a ideia de um manual compacto, de pouco mais de 70 páginas, Da Ditadura à Democracia, que já foi baixado do website dele (www.aeinstein.org) dezenas de milhares de vezes. Está disponível em 26 línguas.
Por onde eu passava, encontrava algum ativista que tinha lido Gene Sharp ou citava suas ideias. Sharp explicou a inúmeros movimentos, estratégias de "negar" ou "tomar o poder" de ditadores com campanhas não violentas.

Lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo
10 de junho de 2012
JORNALISTA E EDITOR INTERNACIONAL DA REVISTA SLATE

O GOEBBELS DO KREMLIN

Vladimir Medinski, nomeado ministro da Cultura russo, é ex-jornalista chapa-branca e apparatchik com bons serviços prestados à carreira de Putin e ao obscurantismo


Cimeira em Xangai. A cúpula da Organização de Cooperação entre russos, chineses e vizinhos mais próximos reuniu-se essa semana para discutir problemas regionais e criticar a política externa norte-americana. Em pauta, entre outros problemas regionais, a blindagem ao Irã e o aval ao governo sírio.

No palco, Vladimir Putin & Hu Jintao. Na plateia, como ouvinte convidado, Mahmoud Ahmadinejad. Se Bashar Assad pudesse ter ido, o quadro estaria completo. E aí era só chamar o expert em neoditadores William Dobson (ler na página ao lado) para cobrir o evento com autoridade.

Interessante ver Rússia e China afinando acordes, após tantas décadas de discórdias e hostilidades. Mao e Stalin só se encontraram duas vezes; Mao viveu às turras com Kruchev e Brejnev, e já estava embalsamado quando Gorbachev logrou harmonizar as relações entre as duas potências. Agora é quase paz & amor. Li em algum lugar que Hu Jintao e seus pares admiram Putin por sua longevidade no poder; por enquanto, 12 anos. O resto seria secundário ou irrelevante.

Cesarista moderno, sufragado em eleições manipuladas e mais sutil na repressão que os autocratas à antiga, como Assad, Mubarak, Kadafi & cia, Putin é um czar new age, um Stalin engravatado, mas nada bonachão e avuncular, o que talvez seja uma deficiência. Veio da pior fábrica de líderes da Rússia, a KGB, que mudou de sigla (SVR), mas não de atributos: vigiar e punir. Cada vez menos consegue disfarçar seu penchant autoritário.

Confrontado com uma oposição bem articulada pelas mídias sociais, que agendou uma gigantesca passeata por Moscou para a próxima terça-feira, Putin mais que depressa multiplicou por 150 o valor da multa para quem participar de manifestações públicas não autorizadas contra o governo. Porrada no bolso, não no lombo, eis uma de suas sutilezas.
O que antes custava 2 mil rublos (R$ 123), sairá por 300 mil rublos (R$ 18.360). Pela nova tabela, ficou mais caro criticar o governo do que violar regras de armazenamento de materiais nucleares.

Nem a cultura escapou ao seu pervasivo espírito controlador. Em janeiro, em plena campanha para o terceiro mandato, Putin propôs, no diário Nezavisimaya Gazeta, uma unificação do melting pot russo através de cem obras literárias que a seu ver representariam o verdadeiro espírito da nação, a força de seu povo, de sua "civilização única".
Não se furtou a aconselhar armênios, tajiques e outras minorias a submeterem-se ao domínio da cultura russa, à inigualável pujança do russki narod, do povão das estepes.

Não listou os cem livros, mas é de se supor que a bibliografia oficial inclua os contos naturebas de Mikhail Prishvin e várias daquelas chaturas patrióticas executadas pelos beletristas da era stalinista. Espera-se uma valorização de O Dom Silencioso, de Mikhail Sholokhov, clássico da ficção mujique, celebração da vida rural russa, prêmio Stalin de 1941, apesar das suspeitas de que o Nobel de 1965 apenas emprestou sua assinatura à obra, efetivamente escrita pelo cossaco Fyodor Kryukov.

Escritores contemporâneos, como Boris Akunin e Edvard Limonov, com certeza não terão vez, por suas posturas antiautoritárias. Outro sem a menor chance é o poeta Lev Rubinstein, um dos organizadores de uma marcha de intelectuais (e mais 10 mil aderentes espontâneos) contra a eleição de Putin, semanas atrás, em Moscou.

"Certos autores podem ser danosos ao espírito russo." Transcrevo não o presidente russo, mas Vasilii Yakemenko, líder da organização jovem Caminhando Juntos, linha auxiliar do governo, que pegou a deixa de seu xamã ideológico e sugeriu uma troca pública de livros em Moscou. Quem entregasse um volume de Karl Marx (ainda leitura perigosa) e Victor Pelevin (cuja ficção sexualizada afronta o puritanismo predominante) levaria um tomo de autor mais afinado com a ordem vigente.
Citado como exemplo de "escritor patriótico", o contista Boris Vasiliev quase morreu de vergonha.
O que se faria com as obras trocadas? Bem, há nove anos a turma de Yakemenko incinerou, no melhor estilo nazista, um monte de exemplares de Banha Azul, provocativa ficção científica de Vladimir Sorokin, na qual, a certa altura, dois clones de Stalin e Kruchev sodomizam-se mutuamente.

Nesse contexto, a nomeação de outro Vladimir para ministro da Cultura, confirmada há menos de 15 dias, assustou, mas não surpreendeu. Vladimir Medinski, ex-jornalista chapa-branca de 41 anos, duas vezes eleito para a Duma (a Câmara Baixa russa), mas derrotado na terceira tentativa, em dezembro, o novo cacique cultural de todas as Rússias, é um apparatchik com bons serviços prestados à carreira política de Putin e ao obscurantismo.

O histórico da pasta da Cultura não é dos mais edificantes. Quem a ocupava antes de Medinski era o ex-diplomata Aleksander Avdeev, expulso da França por espionagem em 1983, escândalo detalhado no filme O Caso Farewell, de Christian Carion. Além de fiscalizar as artes, o cinema, o patrimônio histórico, os arquivos, as bibliotecas e os museus, o sucessor de Avdeev terá a seu talante o controle da imagem do país, sobretudo dentro do território nacional.
A bem dizer, Medinski será mais um ministro da Propaganda do que um gestor das atividades artísticas de seus conterrâneos, mais um Goebbels russo do que o Zdanov do novo milênio.

Medinski estudou jornalismo e inglês no Instituto de Relações Internacionais de Moscou, celeiro de diplomatas e espiões, onde se doutorou com uma tese sobre a qual se amontoam 16 acusações de plágio. Entre 1991 e 1992 cuidou do setor de imprensa da embaixada russa em Washington.

Grafômano dos mais exuberantes, publicou uma série de livros de história, Mitos sobre a Rússia, com o objetivo de "limpar o passado de impurezas" supostamente inventadas alhures para demonizar a antiga União Soviética. Nem o proverbial alcoolismo dos russos resistiu à sanha revisionista do futuro ministro, que também considera improcedente a fama de cruéis que em seus patrícios grudou.
Convicto de quem controla a história controla o presente, Medinski passou detergente no passado. E criou seus próprios mitos.
Pintou Ivã, o Terrível, o primeiro dos czares, como um líder de bom coração; minimizou a longa tradição de antissemitismo da Rússia; reduziu a ocupação dos Estados bálticos e da Polônia, durante a 2ª Guerra, a meras "incorporações" territoriais; negou o envio de prisioneiros de guerra para campos de trabalhos forçados após a derrocada do Terceiro Reich; sugeriu que o pacto Molotov-Ribbentrop (o nefando acerto de neutralidade entre Stalin e Hitler) merecia um monumento; qualificou de falsificados os registros fotográficos da invasão da Polônia por tropas soviéticas em 1939.

Não obstante - ou justamente por causa de sua visão edulcorada da Rússia e sua gente - a história alternativa escrita por Medinski vendeu mais do que qualquer outro livro do gênero entre Omsk e Murmansk. Machado dizia que o povo ama as coisas que o alegram; os russos, deduzo, só apreciam as coisas que os engrandecem. Medinski, cito agora o reputado historiador da 2ª Guerra Aleksei Isayev, não escreve história, faz agitprop e nonsense.

Por que lhe deram um ministério? Segundo outro Vladimir (Pribylovski, cientista político), porque não conseguiram mais ninguém disposto a servir de megafone para o atual czar do Kremlin.

Sérgio Augusto - O Estado de S.Paulo
10 de junho de 2012

RELAÇÕES MAIS QUE AZEDAS

Não só a CPI em curso azeda as relações do governo com o PMDB, como sintetizou o deputado Cândido Vacarezza (PT-SP), ao oferecer proteção ao governador do Rio, Sérgio Cabral, no célebre torpedo flagrado por uma câmera de televisão.

A demora no preenchimento de cargos, em parte pela resistência da presidente Dilma Rousseff em politizar algumas áreas técnicas e, em parte, pelo condicionamento de vagas às negociações eleitorais, podem responder por recentes revezes do governo no Congresso e projetam tempos mais difíceis com o principal parceiro da aliança e uma parte da base excluída do processo decisório.

Pior: o PMDB tem certeza de que o Planalto trabalha contra seus candidatos à presidência da Câmara (Henrique Alves) e do Senado (Renan Calheiros). A percepção do partido é que o governo costura a formação de um bloco reunindo PT, PSB, PSD e PC do B para eleger o próximo presidente da Câmara. No caso do Senado, um nome do PMDB é irreversível, mas o governo quer impedir que este seja Renan Calheiros.

Nas últimas semanas, duas medidas provisórias caducaram - a 556, que incluía como "contrabando" a inclusão das obras do PAC no Regime Diferenciado de Contratações (RDC)), que já vigora para a Copa; e a 557, criando o bolsa-gestante de R$ 50, programa de apelo popular gerado no Ministério da Saúde.

Para agravar, a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, extinguiu as reuniões com lideranças partidárias, concentrando as negociações nos líderes do governo na Câmara e no Senado, respectivamente Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Eduardo Braga (PMDB-AM).

Como gato escaldado

Depois da rejeição do nome de Bernardo Figueiredo, há três meses, para o comando da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o Planalto ainda teme novas derrotas no Senado. Por isso, retarda o envio de mensagem com o indicado do PMDB para uma das vagas da Agência Nacional de Saúde (Anvisa), até que o PT indique o seu eleito para a segunda. O Planalto acha que tem menos risco de derrota se as indicações forem enviadas e votadas em bloco.

A partilha

Alvo de investigação por desvios superiores a R$ 100 milhões, o Banco do Nordeste, controlado pelo PT do Ceará, é disputado agora também por PMDB e PSB. Sob suspeita, parte da diretoria será substituída. O PSB condiciona o apoio a Fernando Haddad, em São Paulo, à cobiçada presidência do banco, alterando o acordo feito no governo Lula, que lhe deu o comando da Chesf (Companhia do São Francisco), ao PMDB, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) e, ao PT, justamente o Banco do Nordeste. Sem definição

A menos de um mês do início oficial da campanha eleitoral, os cenários estão indefinidos em quatro importantes capitais. Em São Paulo, o PSB sinalizou o apoio a Fernando Haddad, mas não formalizou. Aguarda a presidência do Banco do Nordeste. Também em SP, o PC do B condiciona a aliança com o PT ao apoio a Manuela D'Ávila em Porto Alegre. No Recife, o PT continua sangrando e o PSB ameaça lançar candidato próprio. E em Fortaleza, PSB e PMDB rejeitam o candidato da prefeita Luizianne Lins (PT).

Ao rei, nada

Marta Suplicy disse a senadores que a candidatura de Fernando Haddad, imposta por Lula, minou a chapa que negociava com o PMDB, com Gabriel Chalita de seu vice. Por isso, não vai mesmo atender aos apelos feitos por Lula para entrar de corpo e alma na campanha do partido em São Paulo.

JOÃO BOSCO RABELLO - O Estado de S.Paulo
10 de junho de 2012

MOMENTOS HISTÓRICOS

Esta vida de saltimbanco das letras às vezes me dá uns sustos. Antigamente, escritor só precisava escrever. Hoje, suspeito que as editoras, em breve, passarão a exigir dele diplomas de marketing, habilidades de vendedor e proficiência em conferências e entrevistas. Some-se a isso a apregoada morte dos direitos autorais e poderão vir aí aulas de canto, dança, sapateado, piadas, violão, piano, mágica, leitura de bola de cristal e o que mais possa entreter uma plateia exigente, a ponto de ela aceitar pagar para ver o escritor.


Foi o que sugeriu um advogado da abolição dos direitos autorais. Indagado como os escritores iriam sobreviver sem remuneração, o reformista retrucou, com um certo desdém por lhe haver sido feita indagação tão destituída de importância, que eles poderiam sustentar-se por meio de aparições públicas, em shows, espetáculos e o que mais lhes parecesse poder render uns trocados.


Com os livros pirateados de todas as formas, desde xerox até cópias baixadas gratuitamente da internet, se tornará comum um livro ser lido por milhões de pessoas, e vender em um ano uns 80 exemplares, de maneira que, para defender a verba do supermercado, é melhor que o escritor se adapte aos novos tempos.


Creio que o grande público se aliará a essas mudanças, porque se sabe que, na opinião mais corrente, os escritores não trabalham. Discam um 0-800 da vida, cujo número completo não revelam nem sob tortura, que lhes fornece um canal inspirador, o qual eles só fazem escutar e transcrever, para depois algum infeliz revisar e publicar.
Além disso, como se lê sempre nos jornais, vendem suas garatujas para Hollywood e ganham US$ 10 milhões com o primeiro livro, passando então a viver como a gente também vê em filmes americanos, ou seja dormindo com nove em cada dez estrelas de cinema, promovendo bacanais, acendendo charutos com notas de mil euros e fretando aviões para levar os amigos a uma tourada em Madri e esticar no mesmo dia, para um bistrô de outro amigo em Paris, onde cada um receberá de brinde uma trufa branca de R$ 10 mil o quilo, com a farra terminando somente no dia em que o escritor precisar de mais US$ 10 milhões e passar uma semana ocupado na preparação de novo sucesso hollywoodiano.


Para os que ainda não pegaram o dinheiro de Hollywood, a rotina deverá ser menos opulenta, mas não obstante atraente. Os editores se transformarão em empresários de espetáculos e os escritores terão um sem-número de vias para defender a graninha do supermercado e já posso ver os cartazes, em teatros, auditórios, circos, escolas e onde quer que haja espaço para a literatura.
O romancista e sua harpa paraguaia, com a participação de Los Guaranis de Mossoró! O contista lerá de graça as mãos de quem comprar um livro (comprando três, o leitor terá direito a quiromancia para toda a família)! Hoje, sensacional strip-tease de três poetisas na Livraria Fuzarca, entrada franca para quem declamar de cor uma quadrinha de uma delas!


Vivendo entre essas perspectivas, que às vezes são levemente inquietantes, é natural que eu ontem tenha tomado um dos sustos a que me referi. Acordei cedo e demorei bastante para entender por que a cama me parecia diferente e a paisagem pela janela também. Só muito gradualmente fui lembrando que não estou no Rio, mas em Londres.
Que é que eu vim fazer em Londres, meu Deus do céu? Num lento esforço de reportagem tentei voltar gradualmente à realidade. Vasculhei a mente. Não podia ser a demonstração de capoeira, fui reprovado no exame final e tenho de fazer cinco anos de reciclagem. E Canetinha e Lapiseira, a dupla sertaneja que pretendo integrar, com um parceiro cujo nome o contrato ainda não permite divulgar, mas vai ser uma bomba, ainda está nos acertos preliminares. Mas Londres?


Na mesa de cabeceira, um lembrete escrito me deu novo susto. Um amigo meu que mora em Londres ia passar daí a pouco, para me levar a Covent Garden. Covent Garden, onde os artistas de rua tradicionalmente fazem seus exibições, para depois passar o chapéu entre os espectadores. A idade opera misérias e, pelo visto, me haviam designado para uma demonstração de xaxado enquanto tentariam empurrar meus livros e, falhando isto, recorreriam ao chapéu, começo de carreira é isso mesmo, não se pode rejeitar nada.


Mas, por não ter trazido as alpercatas e o chapéu de cangaceiro, fiquei preocupado com um fiasco e telefonei para o amigo. Ele logo me tranquilizou. Que é isso, nada disso, eu tinha vindo fazer uma palestra, ainda não cheguei ao estrelato do xaxado. E a palestra ainda estava no estágio de abotoar os passantes e oferecer uma caipirinha grátis a quem topasse comparecer, isso era trabalho para os promoters. Por enquanto íamos somente dar umas voltas pelo centro e apreciar algumas das muitas comemorações de rua com que os ingleses marcavam os 60 anos de reinado de Elizabeth II.


Logo estávamos circulando, as ruas fervilhando, tudo fervilhando. Andando à toa, chegamos ao Palácio de Buckingham e paramos em frente. Desde a rainha Victoria, ele estava ali, quanta história tinha visto, de quantos momentos célebres tinha sido testemunha, quantos pronunciamentos momentosos lá tinham sido feitos! É, respondeu meu amigo, e o Brasil faz parte. Como assim, alguma frase brasileira ecoava naquelas paredes veneráveis? Claro, disse ele, o presidente Lula ficou hospedado aqui, se emocionou e fez seu comentário histórico. Verdade, que comentário ele fez?


- Ah, ele declarou que, poucos anos antes, ninguém ia acreditar que ele estaria ali, fazendo cocô no banheiro da rainha. Mas esse povo é muito preconceituoso, acho que ninguém botou a declaração brasileira no acervo do palácio.

João Ubaldo Ribeiro - O Estado de São Paulo
10 de junho de 2012

AO JEGUE, COM CARINHO

Submisso e glorioso, resignado e irredutível, é como se ele nos olhasse, compadecido, e dissesse: 'Não se preocupe. Vai passar'
Está na hora de lembrar dos jumentos. Os jornais falam muito do Festival de Cannes, do aquecimento global, do naufrágio da Grécia, mas aos jumentos quase ninguém se refere. O cavalo é mais favorecido. É sempre o foco da atenção pois tem elegância, brilho. Domingo vai às corridas, onde caminha gingando como uma estrela de cinema. Os homens usam belas calças e as mulheres lindos chapéus para montar nele.


O jumento não tem a mesma presença. É chamado de "burro" e de "asno". Palavras ofensivas. Tem cor de estopa. É desnutrido. Por que esse rosário de afrontas? Se eu fosse jumento, faria um motim. Brigitte Bardot falou recentemente dos jumentos, os do Brasil. Ela ficou furiosa ao saber que o Rio Grande do Norte, visando a criar uma nova fonte de renda, teria aceitado exportar 300 mil jumentos por ano para a China para nutrir as indústrias alimentícias e cosméticas desse país. Eu compartilho da cólera de Brigitte.


A rarefação dos jumentos nos campos - no Nordeste brasileiro, no sul da França, mesmo na Palestina - sempre me pareceu uma desgraça. Fizemos tanta coisa juntos, eles e nós - as pirâmides, as minas, as rodas d'água, as catedrais, a agricultura...


O jumento também transformou uma desvantagem em mérito. Ele sofre de um problema de vértebras: tem uma a menos. Mas, como é dono de um espírito dócil, aceitou esse infortúnio, que lhe dá pavor de correr e lhe tira o fôlego quando o dono o faz trotar. Na verdade, ele transforma essa fraqueza em força. Como suas vértebras dorsais são bastante desenvolvidas, seu dorso é saliente e seus rins são fortes. Essa constituição singular se ajusta à sela, de madeira ou de couro.


Todas essa inferioridade e a maneira com que ele teve de assumi-la compuseram o destino do jumento. Ele não é bom para correr e não sabe galopar. Em compensação é ótimo para puxar charrete, mover as rodas que trazem a água para a superfície no deserto, carregar feixes de trigo e sacos de terra e pedra. É bom também para descer ao fundo das minas de carvão, onde, muitas vezes, de tanto viver no escuro, acaba ficando cego.


O jumento participou de todas as aventuras do homem. Suou por nós. Perdeu seu fôlego por nós. Morreu sob nossos golpes. E, quando os engenheiros inventaram o motor de explosão, a moto, o trator e o caminhão, adeus jumento! Adeus, velho servidor! Vamos vendê-lo para a China para que as pessoas o comam. Nós o jogamos como se joga uma roupa esgarçada, uma gilete sem corte. Adeus, velho amigo, mas você não serve para mais nada!


Gosto muito dos jumentos do Nordeste brasileiro. Venho testemunhando sua derrota há 40 anos. E vi esta aberração: motos ruidosas, nauseabundas, perigosas, substituindo jumentos para cercar os rebanhos, em meio a um atroz odor de combustível. Em 1974 fiz uma longa viagem pelo Nordeste do Brasil. Sozinho. Fui de cidade em cidade, ao acaso, segundo meu desejo, em ônibus que rodavam 10, 12 horas por dia.


Os jumentos já começavam a desaparecer, mas ainda eram numerosos. Faziam parte da paisagem nordestina. Quando chegava aos vilarejos assolados pela seca, eu ia cumprimentá-los. Eles me lembravam aqueles jumentos que conheci e amei na minha infância, não no Brasil, mas na França, nas montanhas austeras e pedregosas da Provença.
Eu falava com os jumentos de João Pessoa ou de Epitácio Pessoa. Temos boas lembranças em comum, os jumentos do Nordeste e eu. Hoje, quando atravesso esses lugares ermos, em meio à barulheira dos caminhões e das motos, procuro por todo o lado as orelhas, as belas orelhas sensíveis, e elas sumiram.


Eu respirava seu odor. Olhava seus grandes olhos melancólicos e era como se um tapete mágico me conduzisse de volta aos tempos felizes da infância. Foi nessas longas noites no Nordeste que compreendi por que tanto amava os jumentos. Do outro lado do mundo, encontrei os mesmos animais, tão bonitos, tão fortes, tão resignados. Como seus congêneres da Provença, os pequenos jumentos do Nordeste se aproximavam de mim e cheiravam minhas mãos.
Eles gostavam do meu cheiro, e eu do deles. Certas noites, nesse longo périplo solitário entre Salvador e Natal, Recife e Terezinha, sentia uma certa angústia pelo fato de estar só. Então ia ver os jumentos. Tínhamos este ponto em comum: detesto a solidão, os jumentos, também. Se um jumento está sem companhia, fica infeliz. Entedia-se a ponto de parecer que pode morrer de tédio.


O jumento não é só corajoso e útil: também tem caráter. Apesar de sua cortesia e indulgência com relação às loucuras e vilanias dos homens, jamais transige em questão de princípios. Na Bíblia, uma jumenta impediu que seu senhor, o adivinho Balaam, bloqueasse a passagem do povo de Israel quando este se aproximava da Terra Prometida.
Naquele dia, os homens estiveram muito perto do desastre. Se a jumenta não tivesse dado uns bons coices em Balaam, os judeus jamais teriam continuado sua epopeia e isso teria provocado uma grande confusão na Bíblia, na história religiosa e em toda a História. Teríamos que começar tudo do zero. E Deus, como iria se sair dessa?


Em recompensa, o jumento teve o privilégio de aquecer com seu sopro o Menino Jesus na manjedoura. O jumento também teve a honra de servir de montaria para Cristo quando Ele entrou em Jerusalém, antes da Paixão. Jesus ficou muito emocionado e marcou o dorso do jumento com um sinal da cruz. Na Provença nós chamamos de "cruz de Santo André". Fiquei comovido ao encontrar nos jegues do Nordeste o mesmo sinal da cruz.


O jumento é bem considerado pelos deuses. Enquanto os homens o condenam ao insulto, ao desprezo, à pancada e ao trabalho perpétuo, as sociedades religiosas têm consideração com ele. A história santa está repleta de jumentos.
A Bíblia o cita 133 vezes, um recorde entre os animais. Em Josué, ficamos sabendo que o jumento foi montado por judeus da mais alta sociedade, príncipes e damas. Cada patriarca tinha seu jumento. Abigail, que vai ao encontro de David, sela seu jumento (Samuel, 25) Zorobabel, depois da Babilônia retorna a Jerusalém montado no dele. Sansão, quando 3 mil filisteus o atacam, usa uma queixada de jumento para revidar e os mata.


O jumento vai do Velho Testamento para o Novo. Jesus escolheu um burrico, não um cavalo, para entrar em Jerusalém. Em Roma, os pagãos ridicularizavam a religião cristã por causa de sua amizade com os jumentos. Um pouco mais tarde, encontramos muitos místicos cristãos no Egito que se entregavam a penitências terríveis: viver sentados na ponta de uma coluna de pedra, numa árvore, quase imersos num pântano ou então se mantendo de tal modo imóveis que os pássaros faziam ninho em suas mãos. Os pagãos se divertem com esses fanáticos. E os chamam de "jumentos".


É verdade que mesmo em países cristãos os jumentos foram às vezes maltratados. Na Espanha, quando Isabel, a Católica, mandava queimar uma feiticeira, esta era amarrada nua num burro para que, à pena de morte, se adicionasse o suplício de partir da vida no dorso de um animal desprezado e obsceno.
Na França os professores durante muito tempo colocavam um chapéu de asno na cabeça dos maus alunos. Por toda parte o jumento foi relegado ao desprezo e à injúria. Ao longo da história (salvo nos países do Oriente Médio), ele esteve no mais baixo nível da sociedade. Pior: foi sempre o bode expiatório dos mais humildes, o doméstico dos domésticos, o escravo dos escravos, o proletário dos proletários.


Alguns intelectuais foram em seu socorro. Victor Hugo escreveu, no fim da vida, um imenso poema glorificando o jumento. O grande historiador Michelet sublinhou o papel do burro na história dos homens, e o grande naturalista Buffon defendeu o jumento contra o cavalo.
 O filósofo da Renascença Giordano Bruno, último homem queimado pela Inquisição, em 1600, fez do jumento um modelo de espírito e erudição. Os sábios que acompanharam Napoleão Bonaparte no Egito, em 1798, montavam jumentos. Quando a tropa foi atacada pelos mamelucos, os oficiais franceses gritaram: "Protejam os jumentos no centro". No geral, pintores e poetas amam o jumento.
Os cabalistas judeus descobriram que a palavra "jumento", em hebraico, tem as mesmas letras que a palavra "matéria". E concluíram que o jumento é "o mestre dos segredos do universo". Têm razão. O jumento entende tudo: se é idiota, é idiota como O Idiota de Dostoievski, o príncipe Muichkine - que é genial porque, se não compreende as coisas corriqueiras, compreende, por outro lado, as mais obscuras.


O jumento sabe tudo. Ele não trota nas mesmas paisagens que nós. Apenas aparenta compartilhar nossos caminhos, quando na realidade está em outro lugar, vem de outro lugar, vai para outro lugar. Ele atravessa educadamente nossa geografia sem fazer ruído para não nos perturbar, mas na verdade não caminha no mesmo passo que nós.
Somente os poetas compreenderam a nobreza do jumento. Na França, no início do século 20, Francis Jammes escreveu uma oração para eles. É tão bela e luminosa que eu vou citá-la:
Prece para chegar ao Paraíso em Companhia dos Jumentos


Quando for a hora de ir a vosso encontro, meu Deus, fazei com que seja num dia em que o campo esteja brilhando em festa. Pegarei meu bastão e pela grande estrada irei, e direi aos jumentos, meus amigos: sou Francis Jammes e vou para o paraíso, porque não existe inferno na terra do Bom Deus. Eu lhes direi: venham pobres animais queridos, que com um brusco movimento de orelhas se livram das moscas, dos golpes e das abelhas.
Que eu apareça diante de Vós entre esses animais que amo tanto porque baixam a cabeça docemente e juntam as pequenas patas de uma maneira tão gentil que dá pena. Meu Deus, fazei com que eu chegue até Vós com esses jumentos. Fazei com que os anjos nos conduzam em paz pelos riachos ensombreados em cujas margens tremulam cerejeiras, e fazei com que nessa morada das almas, sob vossos divinos olhos, eu me assemelhe aos jumentos, cuja humildade e doce pobreza se refletirão na limpidez do amor eterno.


Certamente, com o passar do tempo e dos milênios (ele está entre nós há 5 mil anos) o jumento começa a entender que as coisas não vão muito bem para ele, mas não se revolta. Sua tática é sutil. O cérebro humano não a alcança. O jumento é submisso e glorioso ao mesmo tempo, resignado e irredutível, escravo e soberano, vencido e vencedor. Ele dá cambalhotas nas primaveras onde não já não estamos. Encontrou obstáculos e os contornou. Ele se salvou do tempo. Sobre seus belos cascos, trota nas pradarias onde as horas não soam.


Se o espancamos, ele nos olha com um olhar incrédulo e belo. Não fica com raiva. Tem pena de nós. Não nos culpa, só nos observa. Ele gostaria de nos ajudar a ser menos vingativos. E nos consola de nossas maldades. "Não se preocupe", parece dizer, arreganhando os beiços, "não é sua culpa. Você é assim, mas isso vai passar. É um mau momento, uma má eternidade. Depois, você vai ver, tudo será melhor."


Durante a 1ª Guerra Mundial, em Verdun, inúmeros soldados foram mortos e enterrados. Inúmeros jumentos também foram mortos, mas não foram enterrados. Há alguns anos, um pintor de Auvergne (região montanhosa no centro da França onde há muitos jumentos), Raymond Boissy, manifestou sua indignação. E propôs que um monumento fosse erigido aos mortos, um monumento ao Jumento Desconhecido (como há em Paris o Túmulo do Soldado Desconhecido).


É uma ótima ideia. Aqueles jumentos, o Exército francês os fez vir de barcos do Magreb, do Marrocos, porque os jumentos dessa região são pequenos, dóceis e muito fortes. Eram capazes de transportar 150 quilos de obuses. Rastejavam nas trincheiras levando munição para os soldados que se encontravam em casamatas e fortins. Claro, os alemães descobriram e seus artilheiros bombardearam os ventres dos pequenos jumentos marroquinos. Foi uma carnificina. Aqueles que sobreviveram e retornaram às linhas francesas, contentes de reencontrar seus senhores, estavam feridos. Então foram abatidos. 150 mil jumentos foram mortos em Verdun.


O solo de Verdun está repleto de valas comuns de jumentos. Ali eram jogados os cadáveres desses animais tão gentis, suas pequenas coxas quebradas, as pequenas patas rígidas, seus olhos, tão belos, tão indulgentes, tão resignados. Como não chorar?

Gilles Lapouge - O Estado de S.Paulo
10 de junho de 2012
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

TRIUNFO DA VONTADE

O PT já foi um partido vivo, orgânico, movido ao embate das tendências e regido pela vontade da maioria tal como é descrito hoje em algumas análises cuja visão tem evidente referência no espelho retrovisor.


O PT não é mais aquele do tempo em que até as interferências resultavam de processos, alguns traumáticos, mas tinham o componente da participação da militância. Exemplo disso foram as sucessivas candidaturas de Luiz Inácio da Silva à presidência da República, sempre resultado da expressão majoritária do partido.


Mesmo as mais difíceis. Uma delas, a de 1998, deu especial trabalho à direção. Havia postulantes de peso à prévia (Tarso Genro, Eduardo Suplicy e Cristovam Buarque) e uma questão complicada a ser resolvida no Rio.


Lula, José Dirceu e companhia articularam uma chapa com o PDT e Leonel Brizola de vice. Para isso possibilitar a aliança com Anthony Garotinho, então no PDT, na eleição estadual, foi preciso atropelar a decisão da seção regional que havia escolhido Wladimir Palmeira como candidato ao governo do Estado.
Houve reação, muito barulho e confusão, além de um resultado desastroso que praticamente dizimou o partido no Rio.


Mas, quem estava na reunião do partido no hotel Glória onde se decidiu que Lula seria o candidato a presidente e Brizola o vice com a primazia de indicar o titular da chapa estadual, testemunhou uma decisão colegiada. A força da militância era tão incisiva, o apoio a Lula tão evidente que os pretendentes a disputar com ele a indicação já chegaram ao encontro na condição de desistentes.
E por que esse preâmbulo de passeio pelo passado?


Para que se note a diferença entre a época em que postulantes desistiam premidos pelas circunstâncias, vencidos pela maioria, e o tempo atual da imposição de uma só vontade, subtraída a instância da consulta ao coletivo.


Não há, no Brasil, partidos vivos, orgânicos nem celebrantes da democracia interna. É verdade. Mas são duas outras verdades também. Mesmo nos outros partidos existe o contraditório interno, essa é uma.


No velho PFL Antonio Carlos Magalhães imperava, mas fora da Bahia não imperava sozinho, o grupo de Jorge Bornhausen fazia o contraponto. No PSDB as escaramuças dispensam apresentações e no PMDB nem se fale, embora nada disso possa ser entendido como sinal de vivacidade partidária.
A outra verdade decorre da impossibilidade de comparação: o PT nasceu e se criou propondo-se a atuar de modo diferente das ditas legendas tradicionais. E durante muito tempo foi. Seus encontros eram abertos e o embate de embate de posições internas, livres.
Direção sempre houve. Daí a organicidade do partido. Mas não havia o que hoje vai se consolidando como uma prática despótica e, sobretudo, contraditória em relação à história do partido.

 DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo
10 de junho de 2012

A GRÉCIA CAMINHA DO CAOS PARA O CAOS


Votando, de novo


A Grécia, berço da democracia, gosta de votar. As eleições do último dia 6 foram inconclusivas e agora teremos mais um exercício em junho. O medo de muitos, que eu não compartilho, é que o berço da democracia seja o túmulo do projeto europeu se viver uma definitiva degringolada econômica, saída do euro e caos político ainda mais acentuado.
Existe incoerência política de uma população que rechaça a austeridade imposta para sua permanência na zona do euro e quer ficar no seu aconchego.


Noriel Roubini, o economista também conhecido como Doutor Apocalipse, é coerente com a fama. Foi rápido para prever que as próximas eleições serão vencidas pela Coalizão da Esquerda Radical, que se opõe ao programa de austeridade e isto levará ao abandono grego da zona da euro.
É verdade que as mais recentes pequisas de opinião indicam que este partido de extrema esquerda (que ficou em segundo lugar nas eleições de 6 de maio) ampliará seu apoio em junho.
No entanto, a nova eleição terá lugar em um ambiente diferente, num referendo sobre a permanência do país na zona do euro. Péssimo se ficar, pior se sair. A velha Grécia precisa decidir se quer crescer ou continuar com suas molecagens. Mas seria conveniente a babá alemã misturar vigilância com alguns afagos.


Sempre difícil prever o futuro, então vamos prever o passado. Bem que avisaram que seria uma fria a Grécia entrar no clube europeu. Antes da Segunda Guerra Mundial, o país era integrante do briguento clube dos Balcãs, como Bulgária e Iugoslávia. O desfecho da guerra fez da Grécia um país ocidental (o negócio de berço da civilização ocidental era remoto), enquanto os outros dois países entraram no clube comunista.


A história andou e em 1981, contra as recomendações da Comissão Europeia e por cálculos relacionados com a política da Guerra Fria (e o fato de que a Grécia, assim como Espanha e Portugal, deixara de ser uma ditadura), ela foi aceita na União Europeia. Andamos mais 20 anos e a Grécia entrou na zona do euro. Aceitação igualmente prematura. Agora é pagar para ver e ver quanto a Europa irá pagar.


Com o colapso da ditadura militar (1967-74), a Grécia, sem suar muito, depositou as esperanças na aquisição de uma moderna identidade europeia. Não abandonou sua cultura clientelista, em que grandes partidos de esquerda e de direita têm culpa no cartório. A Grécia agora pode perder ou rasgar a carteirinha de sócio do clube do euro.
Enquanto isto, integrantes do briguento clube dos Balcãs (que há 20 anos travavam guerras e empreendiam limpeza étnica), caminham na direção oposta. A Croácia está chegando para ser admitida como o vigésimo-oitavo estado-membro da União Europeia e o bloco vai abraçando Sérbia e Montenegro.
Nesta coluna trágica que começou com a Grécia, só falta terminar, para relaxar, com a sabedoria já clássica de Groucho Marx que desconfiava do clube que o aceitava como sócio. Mas o problema com a Grécia é que deveria ter havido mais desconfiaça mesmo sobre o sócio.

10 de junho de 2012
Caio Blinder

CHEGOU A HORA DE LER "ULISSES"? TALVEZ, MAS SEM ESTRESSE

“Na literatura, como no amor, nós nos espantamos com as escolhas que os outros fazem.” ANDRÉ MAUROIS
Se você for um daqueles que contemplam a obra-prima de James Joyce a certa distância, com um misto de fascínio e pavor, sem jamais se animar a encarar suas muitas centenas de páginas, saiba que seu nome é legião.

Talvez você tenha passado batido pela tradução pioneira de Antonio Houaiss (Civilização Brasileira, 1966) porque ela tem fama de erudita demais – “será que ele usa todas as palavras do dicionário dele?” – e um estranho “Sims” como palavra final, quando o original é um simples Yes. (Millôr Fernandes, irreverente como o próprio Joyce, sugeriu a tradução “É”, como num grito de orgasmo.)

Pode ser ainda que a versão mais coloquial da professora Bernardina Pinheiro (Objetiva, 2005), que procurou tornar o “Ulisses” menos intimidador, mais joycianamente brincalhão, e ainda restituiu o “Sim” de Molly Bloom à sua singularidade, também não tenha sido suficiente para levá-lo a encarar o tijolo.

Nesse caso, quem sabe você está se sentindo finalmente tentado a dar uma chance a Leopold Bloom na recém-lançada tradução de Caetano Galindo (Penguin/Companhia), que consumiu dez anos de trabalho, contou com a “coordenação editorial” de um tradutor experiente como Paulo Henriques Britto e vem embalada numa capa elegante e cabeçuda como o próprio romance – embora também, como a versão Houaiss, tenha encontrado sua letrinha da discórdia na decisão de manter um ípsilon anglófilo no coração do título: “Ulysses”.

Será que chegou a hora de ler “Ulisses”, afinal?

Por que não? Se as inevitáveis comparações entre as três traduções, esse surpreendente luxo brasileiro, já ocupam hoje um time de eruditos – e continuarão a ocupar por muito tempo – o certo é que a ideia de “tradução definitiva” para uma obra tão apinhada de jogos de linguagem e referências subterrâneas como “Ulisses” é ridícula. Em vez de ficar esperando pela corporificação dessa miragem, começar imediatamente é uma decisão tão boa hoje quanto teria sido em 1966.

O único conselho que me parece importante é o seguinte: não leve “Ulisses” tão a sério, é só um livro. Grande, influente, inovador, ambicioso – certo. Elogiado por ninguém menos que Jorge Luis Borges com palavras fortes: “Mais que a obra de um único homem, o ‘Ulisses’ parece o trabalho de muitas gerações” – OK.
Mais até do que isso, é provavelmente o único livro na história da literatura que conseguiu conciliar o máximo de vanguardismo com o máximo de “popularidade” – entre aspas porque se trata de uma popularidade erudita, com perdão do paradoxo, mas de todo modo resistente à passagem do tempo e com traços inequívocos de beatlemania, cosplay e outros componentes de histeria.

Tudo isso é verdade, mas é sempre bom ter em mente um alerta sábio de Raduan Nassar: “Reverenciam-se mitos de modo obsceno. Tem gente que fala em Joyce ou em Pound e parece que está dando cria”. Para contrabalançar os possíveis efeitos emburrecedores dessa mitologia, ajuda saber que um compatriota de Joyce, o escritor Roddy Doyle, declarou há poucos anos que o “Ulisses” era superestimado e “teria melhorado com uma boa edição”. Não se trata de dar razão ao autor de “The Commitments”, apenas de aproveitar o efeito benéfico de sua coragem herética.

Esse efeito benéfico é o de ler “Ulisses” em busca de prazer, não de charadas, enigmas, paralelos com Homero, piscadelas variadas. É claro que, com muita frequência, o prazer que houver virá de charadas e piscadelas, o que é ótimo. Acontece que inverter as prioridades, deixando de ser um leitor de carne e osso para ser um exegeta de pincenê, é para a maioria das pessoas a forma mais garantida de estragar a leitura e abandoná-la antes da página 20.

Não por acaso, é também uma traição ao espírito de Joyce, um sujeito dotado de altíssimos teores de molecagem que, diante do reverente culto acadêmico que inaugurou, talvez reagisse com um ataque de flatulência e meia dúzia de palavrões.

O homem não era flor que se cheirasse. “Enfiei (no ‘Ulisses’) tantos enigmas e charadas”, disse, “que ele vai manter os professores ocupados por séculos, discutindo o que foi que eu quis dizer, e esta é a única forma de garantir a imortalidade.”

É um dos traços de sua genialidade que essa declaração seja ao mesmo tempo uma verdade e uma gozação, duas faces de uma moeda que nunca para de girar. Vladimir Nabokov, que percebia o risco de enxergar apenas o lado sério da questão, atacou violentamente o autor do mais famoso “guia de leitura” do romance, Stuart Gilbert, “um chato”, afirmando que “seria uma completa perda de tempo procurar paralelos próximos (com a ‘Odisséia’) em cada personagem e cada cena do livro”.

Pode ser que o conselho não sirva para todos. Foi o que me serviu. Quando, após anos de relutância, finalmente li “Ulisses” (no original), fiquei surpreso de descobrir que o livro é – nem sempre e não só, mas certamente também – apaixonante, sensual, engraçado, cheio de efeitos sonoros, cromáticos e olfativos de um certo dia em Dublin, tudo plasmado em frases de musicalidade irresistível.
Quanto a “entender” tudo, esmiuçar tudo, dissecar a borboleta, deixo para aqueles “professores ocupados por séculos”. Com todo o respeito, tenho mais o que fazer.

10 de junho de 2012
Sérgio Rodrigues

O MIRACULOSO CRESCIMENTO DO PATRIMÔNIO DO ONGNELO

O crescimento do patrimônio de Agnelo Queiroz e a incrível presença de Juliana Roriz na vida de familiares do governador do DF 

O governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), que depõe na próxima quarta-feira na CPI do Cachoeira, embora seja de partido diferente do seu colega de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), terá de dar explicações sobre um fato comum: o crescimento exponencial de seu patrimônio desde 1998. Nesse período, a soma dos bens do petista subiu quase 12 vezes. Perillo, como revelou O GLOBO na semana passada, teve um aumento patrimonial de cinco vezes, mas, na conta, não estão computados cinco imóveis que o tucano deixou de informar à Justiça Eleitoral.
O porta-voz do governo do Distrito Federal, Ugo Braga, informou que “a evolução patrimonial do casal (Agnelo e mulher) deve-se ao trabalho de ambos durante 30 anos de casados”.

Do apartamento à mansão sem financiamento

No início de sua carreira política, Agnelo tinha poucos bens: apenas um apartamento, no valor de R$ 70 mil, mais três carros — um deles um Chevette 1989, avaliado, na época, em R$ 4 mil — e quatro telefones, dois dos quais celulares. Em 2010, quando concorreu ao governo do DF, a situação era bem diferente. A soma de tudo aquilo que estava registrado em seu nome, com o de sua mulher, atingia a cifra de R$ 1,150 milhão. No período de 12 anos, a frota continuou sendo de três veículos, mas todos seminovos.

O apartamento também continua em posse do casal, mas, agora, Agnelo mora em uma mansão de 549 metros quadrados de área construída, adquirida em março de 2007 por R$ 400 mil, segundo informações do 1 Cartório de Registro de imóveis, mas que, para efeitos de declaração pública, foi registrada por R$ 450 mil. Ainda segundo o cartório, a mansão foi adquirida “sem condições” e não há referência a financiamento.

Há, ainda, outros dois imóveis em Brasília — um deles, no valor de R$ 139 mil, dos quais R$ 79 mil foram financiados —, e cerca de R$ 150 mil depositados em contas e aplicações. Em 1998, ele não informou que possuía recursos financeiros.

Na eleição anterior, em 2006, Agnelo também mantinha um patrimônio modesto, que somava R$ 224 mil. Na época, suas contas bancárias somavam R$ 45 mil. Em 2002, ele entregou cópia da declaração de Imposto de Renda da esposa, atestando que tudo o que constava ali lhe pertencia também, além de uma Parati, ano 2002, que havia comprado e pela qual pagara R$ 30 mil. No total, naquele ano, os bens do casal eram de R$ 214 mil.

Nesse ínterim, além de deputado federal eleito pelo PCdoB em 1998 e reeleito em 2002, Agnelo assumiu o Ministério do Esporte no primeiro governo Lula, em 2003, e, em outubro de 2007, foi nomeado para diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), uma vez que não havia conseguido se eleger senador no pleito de 2006. A partir daí, não apenas ele, mas também sua família começaram a melhorar o padrão de vida.

Franquias repassadas para parentes

A mansão que Agnelo e a esposa adquiriram em 2007 tinha como proprietários o advogado Glauco Alves e Santos e a mulher dele, Juliana Roriz Suaiden Alves e Santos. Ela é irmã de Jamil Elias Suaiden, dono da F.J. Produções. Durante o período em que Agnelo foi diretor da Anvisa, a F.J. venceu um leilão de registro de preços para realizar 260 eventos. O preço vencedor foi de R$ 14 mil cada. O que chamou a atenção é que os demais concorrentes apresentaram propostas risíveis: R$ 23,06, o que é totalmente inexequível. Por conta disso, todas as empresas foram desclassificadas e a F.J. Produções levou a melhor.

De um faturamento de R$ 61,9 mil em 2006, a F.J. Produções passou a receber uma bolada do governo federal: R$ 4,8 milhões, em 2007; R$ 19,1 milhões em 2008; R$ 50,9 milhões em 2009; R$ 103,2 milhões em 2010; e R$ 71,3 milhões em 2011.

Juliana Roriz também aparece como sócia de restaurantes e docerias abertas em 2007 e que em seguida acabaram transferidos para parentes do governador, incluindo sua mãe, irmãs e irmão. A sequência dos negócios é sempre a mesma: Juliana abre uma franquia, permanece poucos meses e as repassa para um parente do governador. Para Agnelo, embora admita que seus parentes só conheceram Juliana e Glauco depois da transação imobiliária, em 2007, tudo é mera coincidência.
(…)
Por Chico de Gois, no Globo:
10 de junho de 2012
in Reinaldo Azevedo

TESTE REVELA A IDEOLOGIA DOS POLÍTICOS (OU A FALTA DELA)

Um trabalhista contra direitos trabalhistas. Jair Bolsonaro na esquerda. PT e PSDB lado a lado. É o retrato da política partidária brasileira
Solenidade de posse dos deputados eleitos para a 54ª legislatura do Congresso Nacional Solenidade de posse dos deputados eleitos para a 54ª legislatura do Congresso Nacional (Wilson Dias/ABr)
O quadro político brasileiro espelha o mais completo caos. A base aliada é capitaneada por um partido histórico de esquerda, mas abarca até mesmo o PP, herdeiro da antiga Arena – que ajudou a perseguir os fundadores do PT. O bloco de oposição coloca no mesmo barco uma legenda liberal clássica, o DEM, e um herdeiro do Partido Comunista, o PPS.

No Congresso e nos governos, o debate de ideias tem sido substituído pela mais pura e pragmática disputa de poder. E se, em meio a esse cenário, os políticos brasileiros fossem submetidos a um exame de "pureza" ideológica?
O site de VEJA aplicou a nomes influentes dos 13 maiores partidos do Brasil o teste do Politicômetro, criado para avaliar com critérios objetivos a orientação ideológica dos eleitores.
O resultado mostra um relativo consenso em temas relativos às liberdades individuais e uma ampla variedade de opiniões quando o assunto é a economia – com uma visível vantagem para os esquerdistas.

Entenda - Os conceitos de direita e esquerda, liberalismo e conservadorismo, são objeto de intensa discussão teórica. O teste de VEJA adota critérios adaptados ao cenário brasileiro. Quanto mais defensor da economia livre e do estado mínimo, mais direitista. Quanto mais enfático apoiador da economia gerida pelo estado e do controle dos meios de produção, mais esquerdista.
O eixo vertical, que vai do "liberal" ao "antiliberal", diz respeito às liberdades individuais. Alguém que defenda a legalização da maconha, por exemplo, ganha pontos na escala de liberalismo. Quem é a favor do ensino religioso nas escolas caminha no sentido oposto.

O quadrante inferior esquerdo – dos que defendem uma economia gerida pelo estado e, ao mesmo tempo, são flexíveis em relação aos costumes, foi o mais frequentado no teste de VEJA: oito representantes. A direita-liberal, circunscrita ao quadrante inferior direito, teve quatro afiliados. São entusiastas do mercado como condutor da economia que, ao mesmo tempo, mantêm noções relativamente progressistas em temas ligados aos direitos individuais.

O quadrante superior esquerdo teve apenas um representante. Nesta área, ficam os defensores de um estado forte, intervencionista na economia, e intransigentes em relação a temas como a legalização das drogas e o aborto.

O conservadorismo clássico, que alinha o liberalismo econômico à defesa dos valores tradicionais, é representado no gráfico pelo quadrante superior direito – o único que ficou vazio. Esse vácuo parece ser uma particularidade brasileira. “A democracia é um regime de palavras e os políticos têm a obrigação de dizer a que vieram, pelo que lutam, o que defendem”, diz o cientista político Paulo Kramer. “É uma anomalia que ninguém se assuma como de direita conservadora”.

Para Kramer, a herança dos anos de ditadura e a falta de cultura política entre os brasileiros (e mesmo entre parlamentares) contribuem para o preconceito de se declarar direitista. “Há um atraso político e ideológico no Brasil”, acredita. “Parece que o muro de Berlim caiu no quintal da esquerda brasileira e ainda não removeram o entulho”.
Incongruências - Uma análise detalhada dos resultados obtidos pelo Politicômetro mostra algumas curiosidades. O senador Valdir Raupp, presidente do PMDB, foi marcado como liberal de centro-direita no exame. E não gostou: "Eu queria ter ficado mais para a esquerda", disse. O peemedebista pediu para refazer a avaliação, orientado por um assessor. Dessa vez, saiu-se como centro-esquerdista e ficou satisfeito. O site de VEJA, entretanto, considera que a primeira versão do teste foi a mais sincera. É a que aparece na imagem.

Preocupado com o resultado do próprio teste, outro parlamentar pediu sigilo para fazer uma proposta: só aceitou participar da avaliação sob a condição de que, se fosse taxado como de direita, o resultado não seria publicado. No fim das contas, não precisava temer. Ele é dos centro-esquerdistas.

Há, também, incongruências que mostram a falta de identidade ideológica que atinge as legendas.
O deputado Sílvio Costa (PTB-PE), um dos protagonistas da CPI do Cachoeira, embora pertença ao Partido Trabalhista Brasileiro, tem ideias surpreendentes: é a favor, por exemplo, de que benefícios como o 13º salário e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) sejam retirados da lei e negociados caso a caso. Ele acredita também que deve haver cobrança de mensalidades em universidades públicas. Apesar disso, não se vê como um liberal de direita. “Defendo o estado mínimo, mas sou de centro-esquerda”, diz.

Outro caso curioso é o do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). Foi marcado como um representante da esquerda antiliberal. O deputado é a favor, por exemplo, da aplicação de métodos violentos na tentativa de obter confissões de criminosos. Economicamente, entretanto, está mais perto do PT do que do DEM. “Acho mesmo que o estado tem que gerir a economia”, explica. "Mas costumo me identificar como conservador".

Para o cientista político David Fleischer, a frouxidão ideológica dos partidos subsiste, em parte, porque o eleitor também não demonstra interesse pela macropolítica. "Alguns partidos políticos tenuamente tentam se filiar a uma ideologia, mas com tantas legendas, essas ideologias não ficam muito evidentes”, diz. “Para a maioria, estar em um partido ou outro não tem a ver com ideologia. E o eleitor também não liga muito para isso na hora do voto".

PT e PSDB - Em meio à falta de identidade ideológica dos partidos, o PSD se tornou um símbolo do pragmatismo entre os partidos brasileiros. É, nas palavras de seu comandante Gilberto Kassab, uma sigla "nem de esquerda, nem de direita, nem de centro". Ironicamente, foi um representante da legenda o político que se posicionou mais claramente à direita no teste: Guilherme Campos, líder do PSD na Câmara. Egresso do DEM, defensor do livre mercado e um cético quanto à intervenção do estado em matéria de valores, ele se encaixa no perfil do liberal clássico.
E diz que a frase de Kassab se justifica não porque faltem bandeiras, individualmente, aos integrantes do partido, mas porque o perfil dos adeptos do PSD é variado. "O partido ainda é muito heterogêneo e deve passar a ter uma cara mais definida na próxima eleição", diz.

Há quase duas décadas, PT e PSDB protagonizam as disputas políticas em plano nacional. Mas, programaticamente, têm mais semelhanças do que diferenças. O teste do Politicômetro confirma isso. Alvaro Dias (PSDB-SP), líder tucano no Senado, e o veterano senador petista Eduardo Suplicy (SP), apareceram próximos um do outro, na centro-esquerda liberal. Dias afirma que o resultado corresponde ao que pensa da própria atuação: "Costumo dizer que sou camisa 10, caindo para a centro-esquerda". Suplicy também saiu satisfeito – cobrou apenas a inclusão de uma pergunta sobre o programa Renda Mínima no exame.

Veja quem participou do teste:

PT: senador Eduardo Suplicy (SP)
PSDB: líder do partido no Senado, Alvaro Dias (PR)
PMDB: presidente do partido, senador Valdir Raupp (RO)
PSB: senador Rodrigo Rollemberg (DF)
PSD: Guilherme Campos (SP), líder do partido na Câmara
DEM: presidente do partido, senador José Agripino Maia (RN)
PTB: Sílvio Costa (PE), deputado e integrante da CPI do Cachoeira
PDT: deputado Reguffe (DF)
PR: líder do partido na Câmara. Lincoln Portela (MG)
PSOL: senador Randolfe Rodrigues (AP)
PCdoB: senadora Vanessa Grazziotin (AM)
PPS: presidente do partido, deputado Roberto Freire (SP)
PP: deputado Jair Bolsonaro (RJ)

10 de junho de 2012
Gabriel Castro e Laryssa Borges - VEJA