"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 17 de março de 2013

A IGREJA, DESSE JEITO, 'NÃO FUNCIONA MAIS', AFIRMA D.CLAUDIO HUMMES


Apontado como o cardeal brasileiro mais próximo do novo papa, dom Claudio Hummes, 78, diz que a igreja "não funciona" do jeito que está e pede mudanças em toda sua estrutura.
Na sua apresentação ao mundo, Francisco convidou dom Cláudio, arcebispo emérito de São Paulo, a ficar do seu lado no balcão da Basílica de São Pedro.

Emocionado com o convite e com a homenagem ao fundador de sua ordem, o franciscano d. Cláudio disse à Folha que a escolha do nome é por si só uma encíclica. O ex-bispo de Santo André disse ainda que as acusações de que o novo papa colaborou com a ditadura militar argentina são "grande equívoco, senão uma falsificação".

Folha – O sr. foi convidado pelo papa Francisco a estar ao seu lado na primeira aparição. Como é a relação entre vocês?
D. Claudio Hummes – Nós nos conhecemos de tantas oportunidades, porque fui arcebispo de São Paulo, e ele, arcebispo de Buenos Aires. Mas sobretudo foi em Aparecida (SP) onde estivemos mais tempo trabalhando juntos, na 5ª Conferência Latino-americana, em 2007. Existia ali a comissão da redação, a mais importante porque ali que se formulava o documento para depois ser votado. Ele era o presidente, e eu, um dos membros. Admirei muito a sua sabedoria, serenidade, santidade divina, espiritualidade. Muito lúcido e muito pastoral, grande zelo missionário, de querer que a igreja seja mais evangelizadora, mais aberta.

Como foi o convite para o balcão?
Quando se começou a organizar a procissão da Capela Sistina para o balcão na praça, ele chamou o cardeal Vallini, que faz as vezes do bispo de Roma, o vigário da cidade, e me chamou também. Disse: "D. Cláudio, vem você também, fica comigo neste momento". Disse até: "Busca o teu barrete [chapéu eclesiástico]", bem informalmente. Fui lá buscar o meu barrete e estava todo feliz…. Porque não é o costume, quem vai junto são os cerimonários, nunca tem cardeais com o papa, eles estão nos outros balcões. E o fato de que ele nos convidou acabou rompendo um monte de rituais. Mas foi realmente, para mim, muito gratificante. E também pelo fato de ele ter recém-escolhido o nome de Francisco. Eu sou franciscano, então isso me envolvia muito pessoalmente.

Como o sr. interpreta esse gesto?
Como um gesto pessoal dele, muito espontâneo, muito simples. Não sei quais os significados que ele queria dar. Eu digo que fiquei muito feliz, estava ali com o primeiro papa chamado Francisco.

O papa recusou a limusine, foi pagar a conta do hotel….
São gestos simples, mas que mostram quem ele é e como ele vê as coisas. A minha maravilha foi que esses gestos foram compreendidos pelo povo simples e pela mídia. A mídia também interpretou esplendidamente, entendeu as mensagens que o papa queria dizer.

Qual é o significado de ter um papa de fora da Europa depois de mais de mil anos e além disso latino-americano?
Os outros papas que não foram exatamente europeus vinham da região do Mediterrâneo. Nesse sentido, era a Europa da época, era uma grande realidade geopolítica. Mas o fato de que hoje venha um papa de fora da Europa tem um significado muito grande porque mostra o que a igreja sempre tem dito: a igreja é universal, para a humanidade. Não é para a Europa. Ter um papa é o sinal maior. É o gesto de dizer: o papa pode vir de qualquer parte do mundo. Também acho importante que tenha vindo da periferia ainda pobre, emergente. Isso é uma confirmação para todos os católicos de lá: "Nós temos um papa que vem daqui". E não só para os católicos, até os países se sentem muito mais em pé de igualdade com os outros.

São Francisco também é lembrado pela missão de reformar a igreja como um todo. A escolha do nome também tem essa abrangência?
Certamente, para o papa, o nome é todo esse programa. Hoje, a igreja precisa, de fato, de uma reforma em todas as suas estruturas. Organizar a vida da igreja, a Cúria Romana, que tanto se falou e que precisa urgente e estruturalmente ser reformada, isso é pacífico entre nós. Porém uma coisa é entender que precisa ser feito e outra coisa é fazê-lo. Será uma obra gigantesca. Não porque seja uma estrutura gigantesca, mas por um mundo de dificuldades que há dentro de uma estrutura como essa, que foi crescendo nos últimos séculos. Alguém disse já que a escolha do nome Francisco já é uma encíclica [mensagens do papa à igreja], não precisa nem escrever. Isso é muito bonito, é muito promissor.

Em que sentido a reforma é necessária?
Não é só da Cúria, são muitas outras coisas: o nosso jeito de fazer missa, de fazer evangelização, essa nova evangelização precisa de novos métodos. O papa falou no encontro com os cardeais sobre novos métodos, nós precisamos encontrar novos métodos. Mas se falou sobretudo da Cúria Romana, que precisa ser reformada estruturalmente. É muito grande, mas tudo isso precisa de um estudo, a gente não tem muitas coordenadas. Muitos dizem que é grande demais, que foi feito um puxadinho aqui, um puxadinho lá, mais uma sala aqui, mais uma comissão lá, mas essa aqui não tem suficiente prestígio…. Essas coisas todas que acontecem numa estrutura dessas. A igreja não funciona mais. Toda essa questão que aconteceu ultimamente mostra como ela não funciona. E depois, uma vez feito esse novo desenho, você tem de procurar as pessoas adaptadas para ocuparem esses cargos, esses serviços.

Reza a lenda de que o papa Francisco não gosta de vir a Roma, que sua formação foi longe daqui. Isso contribuiu para a sua escolha?
Não sei se contribui para a sua escolha, mas contribui agora, que ele é papa, a ser mais independente, a ser uma visão mais objetiva. É muito diferente ver um jogo da arquibancada e ver um jogo jogando futebol. Ele não jogou futebol. Vai ajudar, certamente. Mas ele também vai ouvir pessoas que jogaram, porque é importante ouvir do jogador como ele viu o jogo e quais são as necessidades dentro da forma como se joga.

Continuando a metáfora, o sr. jogou aqui por quatro anos e já foi convocado por ele. O que o sr. pode dizer a ele sobre o que precisa ser feito?
Se um dia me perguntarem sobre isso… Claro, todos nós já falamos sobre isso nas congregações gerais [reuniões pré-conclave], em que ele estava presente. E estamos disponíveis sempre para ajudar e precisamos ajudar. Os cardeais são o conselho que deve ajudar o papa.

Há relatos na imprensa argentina sobre o envolvimento – por omissão ou colaboração – do papa Francisco com a ditadura militar. O que tem sr. pode falar sobre isso?
Certamente, isso não é real. Pode ser que alguém tenha se equivocado em certos discernimentos, mas conhecendo toda a pessoa dele…. Não conheço os detalhes, mas, conhecendo a pessoa, nem é possível imaginar isso. Ele é um homem extremamente dos pobres, dos direitos da gente, dos mais simples, dos mais oprimidos, dos mais humilhados, ele é um exemplo de defesa, de estar junto dos pobres…. É inimaginável. Tenho certeza de que tudo isso de fato é um grande equívoco, senão uma falsificação.

A igreja no Brasil, incluindo o sr., teve um papel muito importante na defesa dos direitos humanos durante a ditadura. Como isso se deu na Argentina, sem levar em conta o papa Francisco?
As igrejas pelo mundo afora tiveram as suas próprias avaliações e seu próprio modo de ser. Não me sinto autorizado para fazer um juízo sobre a igreja nesse ou naquele país.

Fala-se muito que a herança da Teologia da Libertação para a igreja na América Latina é o discurso em favor dos pobres. No caso do papa Francisco, qual é a relação dele com esse movimento?
Basta olhar como ele foi arcebispo em Buenos Aires e o documento de Aparecida, que diz tudo isso. Ele está nessa linha, certamente. Se a gente quer descobrir qual é a linha dele de pastoral social, de relação com os pobres, nós vamos encontrá-lo lá, sim. A Teologia da Libertação foi uma fase histórica que, obviamente, tem essa questão da consciência que temos dos pobres e da necessidade de sermos solidários em termos construtivos da justiça social. Tudo isso a Teologia da Libertação também reforçou. Eu acho que hoje, se a gente quer ver como as pessoas se relacionam com esse passado, é preciso olhar os documentos de hoje. Senão, você começa a transportar o passado, que não é mais uma resposta para hoje. O mundo já mudou, e as respostas são diferenciadas.

A primeira viagem do papa deve ser ao Brasil, onde a igreja enfrenta desafios muito grandes, como a evasão de jovens e o avanço das igrejas neopentecostais. O sr. tem uma ideia do que o papa pretende orientar sobre o futuro da igreja no país?
Ainda não transpirou nada sobre as mensagens que ele vai levar, mas a gente sabe, tem certeza de que ele vai falar, em primeiro lugar, da importância dos jovens, de que devemos estar do lado dele, devemos ser compreensíveis. Ele quer que a igreja seja compreensiva, misericordiosa, saiba caminhar juntos e que isso é um percurso que tem de fazer, não se pode exigir que amanhã alguém já seja um cristão perfeito. É um caminho, um processo. É dar a certeza aos jovens de que a igreja os entende e quer acompanhá-los e também quer mostrar a luz. Quer dizer: "Prestem atenção, existe, sim, um sentido para a vida, existe alguém pelo qual vale a pena viver e dar a vida. Há alguém, que é Jesus Cristo, ele é uma luz que vocês deveriam seguir." Isto é, não deixar de mostrar o caminho, mas, ao mesmo tempo, ser compreensivo de onde o jovem ainda está nesse caminho. E depois a nova evangelização certamente será um outro tema forte dele.

Desde o Concílio Vaticano 2º, há um grande esforço para o diálogo interreligioso, principalmente com as religiões mais antigas. No caso da América Latina, como é o diálogo neste momento entre a igreja e o neopentecostalismo, que não para de crescer?
O diálogo ecumênico com as outras igrejas cristãs não católicas existe de forma muito forte, sobretudo a partir do Concílio Vaticano 2º. Com as grandes igrejas: ortodoxa, oriental, as igrejas protestantes de origem luterana, calvinistas, que são igrejas históricas. Mesmo com o judaísmo, há um grande diálogo. E também com o islamismo, mas isso é outro setor porque, para eles, Jesus Cristo não é como para nós cristãos. Esse diálogo é lento, mas vai caminhando. Com as igrejas neopentecostais, onde existe muito uma teologia da prosperidade, se dá muito acento ao exorcismo, ao dízimo e coisas assim, elas se diferenciam das igrejas pentecostais. Mas tanto uma com a outra são muito semelhantes. Com elas, é mais difícil, porque muitas delas simplesmente não aceitam o diálogo, mesmo se nós quiséssemos dialogar. Porque não aceitam pensar numa unidade um dia. E muitas vezes são agressivamente anticatólicas, então é muito complicado.

O sr. já é emérito, mas vai ficar no Vaticano em alguma função?
Não, não, eu vou ficar aqui até o dia 22, vou participar da cerimônia pública religiosa e vou participar de uma reunião no dia 21. E aí volto para os meus trabalhos.

Há relatos na imprensa italiana de que o sr. contribuiu durante o conclave para eleger o papa Francisco. O sr. confirma?
Tudo o que aconteceu dentro do conclave, eu não posso falar.

Voltando ao seu trabalho na cúria, de 2006 a 2010, na Congregação para o Clero, houve uma entrevista em que o sr. falava que o celibato era uma questão disciplinar e que, por isso, estava aberto à discussão. O sr. teria sofrido uma reprimenda quando chegou ao Vaticano. Está na hora de questões como celibato e a ordenação de mulheres serem menos ortodoxas?
Isso de reprimenda, você é quem está dizendo. Eu apenas digo que todas essas questões, todos esses desafios hoje, grandes questões que estão aí em aberto, a igreja não se fecha a discutir aquilo que é necessário ser discutido, ser aprofundado. E isso significa uma igreja capaz de dialogar, capaz de ouvir, capaz de aprofundar, discutir e procurar caminhos. É o que ela vai fazer, certamente. E esse papa é muito aberto a ouvir. Ele mesmo disse que quer ouvir o mundo, e não só os cardeais e os bispos.

17 de março de 2013
Fabiano Maisonnave
(Folha)

JUSTIÇA INOPERANTE: A MAIORIA DOS TRIBUNAIS NÃO ATINGE META ESTABELECIDA PARA JULGAMENTO DE HOMICÍDIOS

 

Apenas 12 dos 27 tribunais de Justiça estaduais atingiram ao menos 50% da meta da Estratégia Nacional de Justiça e Segurança Pública (Enasp) que estabelecia que os juízes analisassem, até o fim do ano passado, todos os processos por homicídios ajuizados até 31 de dezembro de 2008 para decidir se o caso deveria ou não ser submetido a julgamento popular, superando a chamada fase de pronúncia do processo penal.



A meta foi estabelecida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2010, ano em que a Enasp, pacto firmado pelo Judiciário, pelo Ministério Público e pelo Ministério da Justiça entrou em vigor, quando foram contabilizadas 60.650 ações penais ajuizadas até o fim de 2008.

Segundo o representante do CNJ no comitê gestor da Enasp, o conselheiro Bruno Dantas, a superação da chamada fase de pronúncia nos processos penais, quando o juiz decide que o caso é para julgamento em tribunal de júri, é importantíssima, já que interrompe o prazo de prescrição da denúncia.

Após o compromisso estabelecido pelo CNJ, juízes de tribunais das 27 unidades da Federação proferiram 27.193 mil pronúncias de sentença, admitindo a existência de indício de crime doloso contra a vida e definindo que o caso deve ir a júri popular. Somadas a 8.845 mil ações em fase de suspensão, 52,5% da meta foi cumprida.

AMAPÁ NA FRENTE

O tribunal com o melhor resultado em termos percentuais foi o do Amapá (TJAP), que informou ao CNJ que seus juízes se pronunciaram em relação a todas as 150 ações existentes, embora apenas 24 casos tenham superado a fase de pronúncia, enquanto os outros 126 estão em fase de suspensão.

Em seguida vêm os tribunais de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), que apreciou 98,2% dos 561 casos, e do Acre (TJAC), onde 41 dos 53 processos por homicídio anteriores a 31 de dezembro de 2008 superaram a fase de pronúncia e nove estavam em fase de suspensão.

Os três tribunais foram os únicos a se pronunciar em relação a mais de 90% dos casos. Já os piores resultados foram obtidos pelos tribunais do Pará (21,5%), Piauí (16%) e de Goiás (15%).

Também coube ao CNJ coordenar a meta da Enasp que estabelecia que todos os mais de 32 mil processos por homicídio doloso (quando há intenção de matar) distribuídos até o fim de 2007, mas ainda não julgados, fossem levados a júri até 31 de dezembro de 2012.
O resultado foi um pouco melhor, mas também está distante do cumprimento da meta, já que, considerados os resultados de todos os tribunais, apenas 57% das ações foram julgadas.

Quatorze estados cumpriram mais da metade do objetivo, mas apenas três tribunais conseguiram analisar mais de 90% dos casos: o de Sergipe (100%), o do Distrito Federal e Territórios (98,3%) e o do Amapá (91%).

Presente à apresentação do resultado, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, disse que o simples fato de o CNJ ter feito o acompanhamento da questão e divulgado os resultados da iniciativa já é algo positivo, mas ele cobrou iniciativa dos tribunais estaduais.

“O quadro é preocupante, já que estamos tratando de homicídios e de tentativas de homicídio, da possibilidade ou não de se fazer o júri. Vimos que alguns estados sequer forneceram os números e que, portanto, não há como fazer uma avaliação. O importante é que se prossiga neste trabalho, já que isso é uma questão básica de segurança pública”.

17 de março de 2013
Alex Rodrigues (Agência Brasil)

QUANDO O HUMOR DESENHA A REALIDADE

 



17 de março de 2013

VOZES DA MEMÓRIA

O Millôr Fernandes costumava dizer que quem não tem memória sabe tudo de olvido. O Rio de Janeiro leva a sério o Millôr. Aqui, destrói-se o passado a rodo, sem qualquer remorso, colocando em seu lugar monumentos à bizarrice e a certa modernidade pasteurizada. Prédios históricos esperando a marreta ou os cupins, casarões antigos demolidos para empanturrar a farra da especulação imobiliária, espaços públicos desvirtuados. É a pedagogia do grande Ivan Lessa: a cada quinze anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos quinze anos anteriores. Palácio Monroe, prédio da UNE, cinemas da praça Saens Peña, últimas casas de Copacabana, todos os colégios onde o Menino estudou e, por que não ?, o Teatro Recreio.

O velho teatro da região central da cidade, construído no século XIX, foi peça chave da época de ouro do "teatro rebolado", erotismo num país chegado ao puritano. Ao menos, o país oficial. Comédias com Oscarito não foram privilégio da Atlântida. Ele frequentava o Recreio regularmente e suas imitações de Getúlio Vargas ficaram famosas (uma delas, no clássico das chanchadas Nem Sansão, nem Dalila, é obra-prima). No início dos anos 60, o Menino, deslumbrado, pisou naquele palco improvável. Foi toureiro destemido e tenor galináceo (oh, voz pré-adolescente…) nas toscas produções de encerramento de ano letivo da escola. Aplausos condescendentes das famílias. Para o Menino, o encantamento de pisar nas mesmas tábuas onde dançavam coxas gloriosas e derramavam seu gênio artistas inesquecíveis.

Demolido em 1968, o Recreio virou estacionamento. É a grande arte brasileira da metamorfose: transformar fruição e prazer em curral de aço. A voz do Menino, entretanto, cruzou o saguão do teatro e desembarcou em outros palcos. Lembrou deles nesta época em que os judeus comemoram o Pessach, erradamente chamado de Páscoa judaica. A celebração é marcada por um jantar em família com determinadas regras, no qual se canta muito e, claro, come-se mais ainda. O leitmotiv é o mito da saída dos hebreus da escravidão no Egito, muitos séculos atrás.

O Menino demonstrava facilidade para decorar textos e, sem muito constrangimento, foi "convidado" a memorizar umas quantas passagens cantadas do texto tradicional. Copo de vinho (suco de uva ?) na mão, punha a boca no trombone. Que maravilha ! Viram só que talento ? Talento para confundir decibéis com musicalidade. Para aquela arcada dentuça, porém, a mensagem era outra. Solidão. Talvez, parafraseando Wim Wenders, a mesma solidão do goleiro diante da cobrança de um penalty. Trocaria todos os guefilte fish e as matzot por um abraço sincero, cheiro de loção pós-barba, por um acolhimento desinteressado. Trocaria seus saberes por sabores que desconhecia. Os jantares continuavam, o gueto dos adultos era hermético, a tia continuava a batizar Coca Cola com água, a voz interna tremia.

Hoje, visita aquela voz com outras partituras. Os aromas da chamada Festa da Liberdade continuam espetaculares, incomparáveis. A história do Pessach, porém, ganhou pontos de interrogação. Como é que não se vê a monstruosidade de várias passagens da narrativa oficial, comemoradas com alegria ? A voz adulta não pode admitir punições coletivas, hoje reconhecidas como crime contra a Humanidade, e é exatamente isso que o livro do Êxodo descreve. Olhem de perto, por exemplo, as pragas com que Deus teria punido o faraó pela teimosia em não libertar os escravos hebreus. O assassinato indiscriminado de primogênitos, aí incluídos os filhos de servos não-hebreus e os filhotes de animais, é um primor de perversidade. Como é que alguém pode se regozijar com tamanha crueldade ?

Como é que não se pode duvidar do senso de justiça de uma entidade que, considerada onipotente, prefere apelar para a carnificina ? Era este o preço necessário da liberdade ? Sam Harris, num livrinho primoroso (Carta a uma nação cristã), faz perguntas perturbadoras aos religiosos em geral. Indaga, por exemplo, "o que Deus estava fazendo enquanto o furacão Katrina devastava New Orleans ?". Onde estava, acrescento, enquanto exércitos se exterminavam, e com eles muitos milhões de civis, durante as guerras de todos os tempos ?

Por que há tanto sentimento de vingança e retaliação nas páginas de um livro que muitos acreditam ter sido ditado diretamente por Deus ? Onde a misericórdia ? Onde a moral ? Onde a ética ? Onde o diálogo e o cultivo da esperança ? Talvez o pastor/deputado Marco Feliciano tenha respostas. Não foi ele que apresentou o projeto Papai do Céu na Escola, de ensino religioso obrigatório na rede pública escolar ? Disse que gostaria que as crianças deveriam saber que "há um papai do céu que cuida de nós". Não, infelizmente essa não é uma piada do Oscarito.

A voz do Menino embarga. Não precisa mais obedecer ordens. Os imperadores estão mortos. Pode arriscar tons menos convencionais, escolher o programa. Está livre. Está ? Termino me socorrendo novamente com mestre Millôr: a liberdade começa quando a gente aprende que ela não existe.

PS: Tadinhos: A revista Forbes, bíblia dos ricaços, informa que, apesar da crise que corrói as entranhas do capitalismo, 210 pessoas entraram na mais recente lista de bilionários. A Espanha está com um desemprego maior do que 55% entre os jovens, um recorde histórico, compartilhado com a Grécia. Enquanto isso, o espanhol Amancio Ortega, dono da marca de roupas Zara, ganhou US$ 19,5 bilhões nos últimos 12 meses. Já acumula uma fortuna próxima a US$ 60 bilhões. Não há melhor aula prática sobre a "ética do capital".

17 de março de 2013
Jacques Gruman

SOBRE FRANCISCO E O SIGNIFICADO DA IGREJA NO MUNDO DE HOJE

Observe quem ataca o Papa. Depois pense sobre por que fazem isso


Passei o dia lendo críticas ao papa Francisco. Se puder, faça o mesmo. Observe de onde vêm esses ataques.

O inacreditável nisso tudo está no fato de que muita gente, apesar de todas as evidências, ainda não entendeu que a Igreja Católica é o maior obstáculo à tomada e manutenção do poder, através do propagação do marxismo cultural, pelos comunistas e assemelhados.

Atacam a Igreja sem se darem conta de que contribuem com as duas mãos para a consolidação de um projeto que chutariam com ambos os pés se pudessem.
17 de março de 2013
Percival Puggina

LIVRE PENSAR É SÓ PENSAR (MILLÔR FERNANDES)

 




17 de março de 2013

FALANDO DE MÚMIAS

 

Na semana passada, alguém que visitasse o Brasil pela primeira vez poderia pensar ter chegado a um hospício ou a qualquer coisa parecida, tal o disparate das notícias que circulavam na mídia: enquanto, em São Paulo, os fãs do cantor Chorão choravam sua morte, em Belo Horizonte, as atenções estavam voltadas para o júri do goleiro Bruno, que afirmou não ter sido o autor da morte de Eliza Samudio, uma de suas amantes, mas admitiu que poderia ter evitado o crime, porque sabia que ela seria assassinada por dois de seus capangas, Macarrão e Bola.

Uma testemunha afirma que os restos mortais da infeliz mulher foram jogados à voracidade de alguns cachorros. Meu Deus…

Não bastasse o susto causado pela renúncia do papa, coisa que não acontecia há mais de 500 anos, chegou também a notícia da morte do ditador Hugo Chávez, da Venezuela.

Desse assunto, pouco se pode saber, uma vez que Sua Excelência morreu em segredo de Estado.

Muita gente acha que ele morreu durante sua permanência em Cuba, e, de fato, há algo estranho, pois, no lugar de uma junta médica, como seria natural, a notícia foi dada por um militar, segundo o qual as últimas palavras do presidente foram “não me deixem morrer”.

De acordo com as primeiras notícias, Chávez teria falecido em razão de um ataque cardíaco fulminante, mas, agora, fala-se que médicos e comandantes militares teriam se reunido e autorizado o desligamento dos aparelhos que o mantinham vivo, por razões humanitárias. Mas, se ele respirava mecanicamente, havia passado por uma traqueostomia e, assim, não poderia ter falado nada.

O governante que o sucede anunciou, comovido, que o corpo do ex-presidente será embalsamado para a posteridade. Portanto, o senhor Chávez fará companhia aos mumificados Lênin, líder da revolução russa; Ho Chi Minh, revolucionário vietnamita; Mao Tse-Tung, líder comunista chinês, e Kim Jong-il, presidente eterno da Coreia do Norte. Essa coisa, ou mania, do tempo dos faraós egípcios parece que está voltando.

Não sei por onde andará a múmia do faraó Ramsés II, simbolizado nas pirâmides do Egito, que teve uma vida de opulência, oito esposas e mais de uma centena de amantes. Se pegar essa moda de mumificar gente que pensava ser um deus, colecionava amantes e achava que podia fazer a água correr morro acima e fogo descer morro abaixo, eu conheço um aspirante, babalorixá de nove dedos, que se prepara para subir aos céus no terceiro mandato, quando ressurgirá dos mortos. Mais uma vez, clamo a Deus: Senhor, tem piedade de nós e “despetifica” o Brasil.

Era minha intenção escrever sobre alguns casos escabrosos da Petrobras, como a negociata que foi a compra de 50% da Pasadena Refining System, por US$ 360 milhões, do grupo belga Astra Oil, e poderá dar um prejuízo de quase US$1 bilhão à nossa empresa. Acabei por mudar de rumo, falando desses acontecimentos esquisitos do nosso cotidiano. Mas voltarei ao assunto.

(transcrito do jornal O Tempo)

17 de março de 2013
Sylo Costa

DOIS CASOS EXEMPLARES E DUAS MEDIDAS

Ex-mulher é um perigo. Veja só como um político britânico foi facilmente liquidado.


Em 2003, o carro de Chris Huhne foi detectado em excesso de velocidade numa estrada britânica. O político liberal-democrata fez com que a mulher assumisse a culpa.


Divórcio à inglesa

Foi o início de um caso que custou a ele primeiro o lugar de ministro, depois seu posto no Parlamento e agora a liberdade: Huhne vai cumprir uma pena de oito meses de prisão.

A agora ex-mulher, Vicky Pryce, também foi condenada a oito meses de prisão, por ter colaborado na mentira às autoridades.

O caso aconteceu em 2003, mas só foi conhecido em 2011, depois de o político ter assumido um romance com uma empregada e pedido o divórcio.

Vicky Pryce, uma reputada economista, se vingou: contou a história aos jornais, e Huhne foi acusado de mentir às autoridades. Enquanto isso, no Brasil...

(transcrito do Diário do Centro do Mundo)

*** *** ***

Desembargador é condenado por ligação com bicheiro Cachoeira. A única pena é se aposentar mais cedo.

O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 18º Região, de Goiás, condenou por unanimidade o desembargador Júlio César Cardoso de Britto à aposentadoria compulsória com provimentos proporcionais por envolvimento com o contraventor Carlinhos Cachoeira. O juiz foi acusado de improbidade administrativa, corrupção passiva e exploração de prestígio.
 

Vai se aposentar…

A ligação do magistrado com o bicheiro foi descoberta durante a operação Monte Carlo da Polícia Federal (PF), que desarticulou uma quadrilha de exploração do jogo ilegal em Goiás, além de identificar relações entre Cachoeira e governos estaduais, prefeituras e parlamentares do Congresso.

Escutas telefônicas da PF e documentos apontam que o desembargador realizava tráfico de influência para o grupo de Cachoeira e orientava advogados do bicheiro a lidar com ações no tribunal.

Segundo o inquérito policial, o magistrado teria viajado com um assessor de Cachoeira para Buenos Aires, na Argentina, com passagens pagas pelo grupo. Teria, também, pego emprestado o carro – um Mercedes – do irmão do contraventor.

O magistrado, que é ex-vice-presidente do TRT, nega as denúncias. Desde junho do ano passado, ele está afastado preventivamente do tribunal. Ao final do julgamento, o advogado Felicíssimo Sena, que defende Júlio César, disse que vai recorrer da decisão no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Sena alegou a nulidade das escutas feitas pela PF, por terem sido obtidas através da interceptação de linhas telefônicas de terceiros, sem qualquer autorização judicial em relação ao desembargador Brito – como seria necessário.

NOTA DA REDAÇÂO DO BLOG - A impunidade de magistrados é uma ofensa à cidadania, uma vergonha nacional. Mostra a que ponto vai a podridão dos três Poderes. Um juiz corrupto ser condenado a se aposentar precocemente, e ainda mantendo direito a trabalhar como advogado, isso não é pena, é bonificação. E ainda querem que os jovens sejam honestos... (C.N.)


NOTA AO PÉ DO TEXTO

Há muito pouco a ser dito, de tudo que já foi lido e ouvido. Fui buscar Gregório de Mattos Guerra, a quem não faltou espírito de crítica e observação dos 'maus costumes' do seu tempo.
O que temos aí é o exemplo acabado da ruina ética a que chegamos. Comparando a situação política e moral do conteúdo de ambos, podemos avaliar o índice de nossas instituições. Podemos perceber que chegamos ao fundo do poço e agora, só falta chover para afogar o Brasil na calamidade da sem-vergonhice. Ilustro com o Epigrama de Gregório de Mattos - apenas excertos que interessam ao caso e que descrevem com o habitual sarcasmo do poeta, os crimes de sua época.
m.americo
                                                      Epigrama
 
Gregório de Mattos e Guerra

I

Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia.

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

(...)

Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.

Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia?... Simonia.
E pelos membros da Igreja?... Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?... Unha

Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.

E nos frades há manqueiras?... Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

*** *** ***

Gregório de Mattos e Guerra
(1633/1696), o Boca do Inferno, nascido na Bahia, foi o primeiro de nossos satíricos, homem de língua destravada e fácil veia poética. Estudou humanidades em Portugal, tendo feito o curso de leis na Universidade de Coimbra. Na terra mãe foi juiz criminal e de órfãos. Voltou ao Brasil com 47 anos, sob a proteção do arcebispo da Bahia, D. Gaspar Barata. Tantas e tais fez que não só perdeu a proteção do prelado, como ainda foi degredado para Angola. Reabilitado, voltou ao Brasil, indo para Recife, onde conquistou simpatias e viveu com menos turbulência que na Bahia. É o patrono da cadeira n.º 16 da Academia Brasileira de Letras. Além de versos satíricos e humorísticos, escreveu poesias eróticas com a maior incontinência verbal.

Texto extraído de "Antologia de Humorismo e Sátira", organizada por R.Magalhães Júnior, Editora Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1957, pág. 05.

"SEM PAPA, OSCAR OU NOBEL"

Piadas sobre Francisco revelam recalques nacionais e nossa obscuridade sintomática
 
 
A ARGENTINA tem papa; vários Nobel e Oscar, dizia-se entre milhares de piadas que suscitou a eleição de Francisco.

O chiste tem lá suas relações com o inconsciente, mas não se trata aqui de fazer análise de recalques nacionais nem de lamentar o fracasso no BBB da fama mundial, bobagem provinciana e burra.

O Oscar é dado por uma associação comercial, kitsch como tantas, que chama a atenção por ser povoada por gente bonita, rica e famosa.

O Nobel poderia ser lá um indicador com mais tutano, ainda mais se a gente levasse em conta prêmios de ciência. Os Nobel de Literatura são o túmulo do escritor desconhecido, de tanto escrevinhador agraciado. O da Paz já premiou ex-terroristas, afora trastes demagogos.

Ainda assim, por que o país é desconhecido e ignorado como esses nomes de rua? Numa piada do ciclo papal, um cardeal diz a outros: "Não tínhamos combinado de eleger um brasileiro?". Alguém responde: "Ué, mas a capital do Brasil não é Buenos Aires?". A piada é velha, mas não seu motivo.

Para glosar Francisco, se a Argentina vive no "fim do mundo", o Brasil parece morar no mesmo endereço, mas nos fundos. Por que somos tão obscuros? Importa? Importa, mas como sintoma de deficiências e perversidades nacionais.

Somos obscuros porque somos recentes. Até 1960, não passávamos de mistura de Sudão com Império Russo perdida num canto do mapa. Tínhamos fome africana, massas de servos no sertão, éramos ainda mais iletrados do que hoje. Exportávamos café, açúcar e algodão, produtos sem rosto, afora o de Carmen Miranda. Os vizinhos do Cone Sul eram mais educados e ricos. E mais brancos, o que diminui o preconceito.

Somos separados do mundo porque falamos português, essa língua remota, quando não acham que falamos espanhol (ainda hoje, sim, até em universidades aqui nos EUA).

Somos isolados porque países grandes tendem a ser mais autocentrados. Por não temos importância militar e geopolítica. Mas moramos longe em parte porque queremos.

Somos muito ignorantes. Gostamos pouco de escola; de aprender no exterior; de falar com o exterior. Nas universidades de elite dos EUA, há relativamente menos brasileiros que mexicanos, chilenos e argentinos.

Entre 187 países, estamos em 85° lugar em desenvolvimento social (Chile: 40º; Argentina: 41º). Isso, entre outras coisas, é sinal de ignorância, de incivilidade.

Somos isolados. O Brasil é um dos países mais fechados do mundo ao comércio internacional.

Demoramos a importar tecnologias; raro importamos cérebros. Vendemos ainda produtos sem rosto, soja e ferro (nada contra) e raras Embraer. Nas prateleiras do mundo, há café da Colômbia e daqueles países miúdos da América Central e da África que confundimos no mapa. Não do Brasil.

Mas o Brasil tem o maior sistema de ciência e a economia com o maior nível de sofisticação técnica no mundo em desenvolvimento. A invenção de tais coisas ajudou a criar mais desigualdade, mas essa é outra história.

Somos assim algo obscuros porque pouco "conversamos" com o resto do mundo, embora gostemos de miçangas, "gadgets"; olhamos muito para nosso umbigo pouco educado.

17 de março de 2013
Vinicius Torres Freire, Folha de São Paulo

NOTAS POLÍTICAS DO JORNALISTA ELIO GASPARI

UMA TRAPALHADA EM CINGAPURA

Antonio Patriota deverá explicar quem mandou sugerir à Jurong que saísse do caminho de Eike e André Esteves

Está sobre a mesa do chanceler Antonio Patriota uma daquelas encrencas que caem nas costas dos diplomatas e acabam em fritura quando eles ouvem os poderosos do momento. O senador Ricardo Ferraço denunciou que o embaixador do Brasil em Cingapura, Luís Fernando Serra, procurou a direção da empresa Jurong para que ela transferisse seu estaleiro do município capixaba de Aracruz para o Porto do Açu, no norte do Rio de Janeiro. Esse empreendimento pertence ao empresário Eike Batista, que há pouco se associou ao banqueiro André Esteves, do BTG Pactual. A gestão de Cingapura foi confirmada pelos diretores da Jurong no Brasil.

Como se fosse uma brincadeira de cubos, um estaleiro que está com 15% de suas obras feitas, com investimentos previstos para R$ 500 milhões e encomendas assinadas, seria transferido total ou parcialmente para outro lugar. No fundo, trata-se de repassar as encomendas e de absorver um concorrente. Dificilmente uma ideia dessas sairia da cabeça do embaixador. Segundo o senador Ferraço, num contato que teve com Nery De Rossi, secretário do Desenvolvimento do governo capixaba, o diplomata informou que a gestão foi solicitada pelos ministros Guido Mantega, da Fazenda, e Fernando Pimentel, do Desenvolvimento. Os dois negaram que tenham patrocinado a proposta.

Se os ministros pediram a gestão, deveriam tê-lo feito formalmente. Nesse caso, estaria documentada. O que levaria um diplomata lotado em Cingapura a sugerir a transferência de um empreendimento para a carteira de interesses de Batista e Esteves? Não é da tradição do Itamaraty esse tipo de ligeireza. Pelo contrário, em 1980 o embaixador do Brasil no Chile, Raul de Vincenzi, provocou uma situação de barata-voa no Planalto quando um general muy amigo de Augusto Pinochet disse-lhe que a transação de uma hidrelétrica já tinha sido acertada em escalões superiores brasileiros. Quando De Vincenzi narrou o encontro num telegrama oficial e pediu instruções, os hierarcas disseram que nada tinham a ver com a história.

Ricardo Ferraço preside a Comissão de Relações Exteriores do Senado e pediu formalmente a Patriota que explique a história. A ver.


MP 608

O governo enviou ao Congresso uma medida provisória (608) mexendo com as relações entre a banca e a Receita. Na essência, ela corrige uma anomalia, pela qual os bancos têm que pagar impostos sobre empréstimos antes que eles sejam pagos. Assim como cobrar a um jornal um imposto sobre a tiragem, em vez de fazê-lo sobre os exemplares vendidos. Como todas as legislações do gênero, tem seus cantinhos empoeirados. Há parlamentares lendo o texto arcano da MP, certos de que um de seus dispositivos, prevendo que as despesas da Viúva entrarão no Orçamento do ano que vem, indica que vai sobrar para o Boa Senhora.


BARRA PESADA

Para que se meça o tamanho da encrenca em que se meteu o papa Francisco. Seu antecessor, Bento 16, jogou a toalha e, para não ser sequestrado pela Cúria, João Paulo 2º não repassava ao secretário de Estado memorandos de algumas de suas audiências privadas. Dava a memória das conversas ao seu secretário particular que mantinha um diário, guardado num cofre. Algumas cartas a ele endereçadas deveriam ser entregues fechadas. O papa Woytila exasperava alguns cardeais ouvindo-os por horas e fazendo o contrário do que lhe sugeriam.


EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo é um idiota e ouviu o ministro Guido Mantega dizer que, se houver "abusos" com os preços de mercadorias que tiveram seus impostos desonerados, o governo poderá suspender os benefícios. O cretino não sabe definir "abusos", mas acha que, nesse caso, os preços subirão ainda mais e ele pagará a conta pela valentia do ministro.


UMA CARIDADE PARA FRANCISCO, LEIA SEU LIVRO

O papa Francisco precisa de uma ajuda. Leiam seu livro "Sobre el Cielo y la Tierra". (O e-book está à venda na Amazon americana por US$ 6,99, mas, por arte de Asmodeu, está fora da loja eletrônica brasileira.) Tem 215 páginas e saiu no início do ano passado. Trata-se de um longo diálogo com o rabino Abraham Skorka. Coisa inteligentíssima. É impossível lê-lo e sair por aí repetindo rótulos tais como "conservador" ou "homem simples" porque anda de ônibus. A simplicidade do cardeal Bergoglio vai muito além. Ele vê o catolicismo como algo despojado: "Bispos e padres têm que sujar os pés de barro". Uma das suas mais duras críticas (depois das lambadas nos ladrões-milionários) vai para os meios de comunicação que simplificam as agendas, tornando-as irrelevantes ou insolúveis: "Desinformam".

Até a noite de quarta feira o signatário não sabia quem era ele. No dia seguinte, não encontrou um só bergogliólogo que mostrasse ter lido o livro de Francisco. Ele é tudo menos um clérigo conservador. (Segundo o fidedigno jornalista Horácio Verbitsky, há 30 anos ele deu uma mãozinha à ditadura, numa época em que a hierarquia católica estava casada com os generais. Bergoglio admitiu que foram cometidos erros genéricos, mas não assumiu responsabilidade pessoal.)

Pode ser conservador um cardeal que quer abrir os arquivos do Vaticano para que se estude o Holocausto? Ele é contra o casamento de homossexuais e o aborto, mas isso não é conservadorismo, é a doutrina da igreja. Pílula? Astuciosamente calado. Em diversas ocasiões critica a conduta da igreja, seu regalismo e a promiscuidade com afortunados que fingem fazer caridade. Propõe tolerância zero para os pedófilos e chama o velho truque de transferi-los para outras paróquias de "estupidez".

O papa Francisco é um jesuíta severo. Diz que senhoras emperiquitadas, "vestidas, ou desvestidas", em casamentos não vão às igrejas para um ato religioso, mas para exibirem-se. Tabela de preços para cerimônias? "Isso é fazer comércio com o culto." Ao mesmo tempo, reconhece que casais morando juntos antes do matrimônio são um "fato antropológico".

Francisco tem um "alertômetro". Evita dar a comunhão a notórios vigaristas e jamais se deixa fotografar com eles.

O livro é muito melhor que este breve resumo. Quem lê-lo viverá umas boas duas horas. Não pode ser conservador (seja lá o que isso significa) uma pessoa que diz o seguinte:

"O religioso às vezes chama atenção sobre certos pontos da vida privada ou pública porque é o condutor da paróquia. Ele não tem direito de se meter na vida privada dos outros. Se Deus, na criação, correu o risco de nos tornar livres, quem sou eu para me meter?"

17 de março de 2013
Elio Gaspari, O Globo

"OS PRECONCEITOS"

Em 10 anos de PT, existe uma minoria que não foi contemplada com nenhum cargo importante: a gay

Vamos falar a verdade: o governo de Fernando Henrique fez muito pela queda dos preconceitos e a valorização das minorias em geral. Mas devemos reconhecer que o PT fez muito mais: deu voz forte às mulheres e aos afrodescendentes, voz que eles talvez nunca tenham tido antes.

Desde que d. Dilma assumiu o cargo, sempre que houve uma brecha ela colocou uma mulher, e nem sei quantas existem em cargos importantes (nem se estão dando conta do que fazem), mas sei que são muitas. Talvez até mais do que seria preciso, para que o universo se convença da igualdade entre homens e mulheres.

Mas em 10 anos de PT, existe uma minoria que não foi contemplada com nenhum cargo importante: a minoria gay, que nem é tão minoria assim.

Na parada gay de São Paulo eles conseguem lotar a av. Paulista com centenas de milhares de pessoas entre gays e simpatizantes da causa.

Eles existem -e eu conheço muitos; são médicos, advogados, arquitetos, engenheiros, enfim, estão em todos os setores, para não falar na vida artística. Mas nos ministérios, na presidência, nas diretorias das grandes Estatais, nunca se ouviu falar de nenhum; porque será?

A ministra da Cultura sempre prestigiou a parada Gay, mas nem agora, com o poder na mão, convidou algum -ou alguma- representante da classe para colaborar com ela.

Pode ser até que exista um ou uma homossexual, em algum cargo modesto, mas que ainda não saiu do armário. Aliás, não sejamos ingênuos: é claro que em postos altíssimos da República devem existir muitos gays, só que ainda enrustidos, e não é desses que estamos falando. Mas daqueles sobre os quais não existe a menor dúvida, e que se assumem como tal.

Se os prefeito de Nova York, Paris e Berlim -e excelentes prefeitos, tanto que foram reeleitos são gays, porque o Brasil não pode ter um ministro assumido? E por falar na ministra, acho que ela só existe para fazer a ponte entre os héteros e os gays, para que não pensem que o PT não gosta dos gays.

Voltando: o PT está no poder há 10 anos e não me recordo de ter ouvido falar de ninguém do partido que seja assumidamente gay, então vamos combinar: para acreditar que o PT quer mesmo acabar com os preconceitos e é mesmo contra a intolerância e a favor da aceitação da pluralidade e das diversidades -todas-, é preciso que algum figurão petista, gay, seja candidato ou assuma um posto importante no governo.

Seria bacana, ver o ex-presidente Lula num palanque, pedindo votos para um candidato gay assumido. Vamos lá, Lula? A reforma ministerial está por pouco e a campanha já começou, dois bons momentos que não podem ser desperdiçados, a não ser que o PT seja preconceituoso em relação aos homossexuais.

Será que ele é?

P.S.: Todos estamos cansados de saber que as mulheres são capazes de tudo, e está aí d. Dilma provando que são mesmo; mas vamos admitir que mesmo as pessoas mais liberais têm, lá no fundo, um ranço preconceituoso, e às vezes ele se revela, inconscientemente. Aconteceu, no Dia Internacional da Mulher.

Foi exatamente este o dia que d. Dilma escolheu para desovar mais uma de suas bondades: a desoneração da cesta básica. Cesta básica é coisa de cozinha, e quem fala em cozinha pensa em mulher; ato mais do que falho da presidente.

17 de março de 2013
Danuza Leão, Folha de São Paulo

"QUE ELITES, QUE ESQUERDAS?"

Que imprensa golpista? Que editorial ou comentário pediu golpe? Comportamento golpista é o de quem se diz vítima de linchamento, quando foi condenado em processo legítimo e incontestável.
A cada instante e cada vez mais, somos alvejados por milhares de informações de todos os tipos, muitas delas procurando, como consequência final, alterar nosso comportamento, seja para pormos fé nas lorotas pseudoestatísticas e conceituais que nos pregam os fabricantes de remédios, pastas de dentes e produtos de farmácia em geral, seja para acreditarmos que determinado partido político, ao pedir com fervor nossa adesão, realmente tem alguma identidade que não seja a que lhes emprestam seus tão frequentemente volúveis caciques. Aparentemente, nossos cérebros se defendem de ser entulhados com essa tralha e grande parte dela é esquecida.

Mas em algum lugar da mente ela permanece e afeta talvez até nossa maneira de ver o mundo. Se prestarmos atenção aos comerciais de tevê e fizermos um esforçozinho de abstração, veremos que temos plena ciência de que quase todos eles, ou mesmo todos, se apoiam em pelo menos uma mentira ou distorção.

O xampu não produz cabelos como aqueles, a empresa não dá o atendimento ao cliente que apregoa, o plano de saúde falha na hora da necessidade, a velocidade da banda larga não chega nem à metade do que contrata, o sistema de saúde que descrevem como o nosso parece gozação com o pessoal que estrebucha em macas no hospital, o banco professa carinho e oferece gravações telefônicas diabólicas, o lançamento imobiliário mente sobre as vantagens do bairro e a segurança da construtora, a moça não é bonita como aparece, o sinal da operadora não é confiável, a prestação sem juros é enganação, a garantia do carro não vale nada para a concessionária.

Tudo, praticamente, é mentira e sabemos disso. Mas, mistérios desta vida, agimos como se não soubéssemos, numa postura acrítica e já meio abestalhada.

Em relação à política, talvez nossa situação possa ser até descrita em termos mais drásticos. As afirmações mais estapafúrdias são divulgadas e ninguém se preocupa em examiná-las. Não me refiro a chutes que prostituem a estatística e fazem dela, como já se disse, a arte de mentir com precisão. Os números nos intimidam desde a escola primária e qualquer embusteiro se aproveita disso para declarar que 8.36% (quanto mais decimais, melhor) de alguma coisa são isso ou aquilo e ver esta assertiva ser recebida reverentemente, como se não fosse possível desconfiar de tudo, da coleta dos dados, às categorias empregadas e os cálculos feitos. Média, então, é uma festa e eu sempre penso em convidar o dr. Bill Gates para morar em Itaparica e me transformar em nativo do município de maior renda média do Brasil, cuíca do mundo.

Não, não me refiro a números, mas a alegações estranhas. Por exemplo, esse negócio de o governo ser de esquerda. Só se querem dizer que a maior parte do nosso cada vez mais populoso bando ministerial é constituído de canhotos.

O presidente Lula, que não quis ser presidente emérito e prefere continuar sendo presidente perpétuo mesmo, já disse — e creio que com sinceridade — que não é, nem nunca foi, de esquerda e que não usa mais nem a palavra “burguesia”. E que é que o governo fez que caracterize uma posição de esquerda? Apoiar Chavez com beijos e abraços, ao tempo em que respalda os bilhões de dólares de negócios brasileiros na Venezuela? Manter boas relações com Cuba, o que não quer dizer nada em matéria de objetivo político? Ser da antiga turma que combatia o governo, no regime militar? E já perguntei aqui, mas pergunto de novo: o PMDB é de esquerda? Quem é esquerda, nesse balaio todo? Furtar, desviar, subornar, corromper são de esquerda? Zelar por valores éticos e morais é de direita?

É gritaria da direita reclamar (e pouca gente reclama) do descalabro inacreditável em que se tornaram as trombeteadas obras do rio São Francisco, hoje uma vasta extensão de ruínas e destroços, tudo abandonado ao deus-dará, em pior estado do que cidades bombardeadas na Segunda Guerra? Ou o que está acontecendo com a Petrobras, que, da segunda posição entre as petrolíferas, despencou para a oitava e pode despencar mais, acrescida a circunstância de que ninguém explica direito qual é mesmo a situação do hoje já não tão radioso pré-sal? E combater a miséria nunca foi de esquerda ou direita. Ter altos índices de popularidade tampouco.

Também se diz que as elites dominantes querem derrubar o governo. Que elites dominantes? A elite política, que se saiba, é a que exerce o poder político. O Poder Executivo é exercido pelo governo que está aí e que, presumivelmente, não atua contra si mesmo. O Poder Legislativo está sob o controle da base do governo. E o Judiciário, por mais que isso seja desagradável aos outros governantes, não pode associar-se à ação política no sentido estrito. Já as elites econômicas não parecem empenhadas em subverter uma situação em que os bancos têm lucros nunca vistos, conforme o próprio presidente perpétuo já frisou, e as empreiteiras estão muito felizes e, convocadas pela presidente adjunta, prometeram fazer novos investimentos. Qual é a elite conservadora que está descontente e faz oposição ao governo? É justamente o contrário.

Finalmente, temos a imprensa golpista. Que imprensa golpista? Que editorial ou comentário pediu golpe? Comportamento golpista é o de quem acusa o Judiciário de ser agente de armações politiqueiras, quem chega a esboçar desobediência a ordens judiciais, quem se diz vítima de linchamento, quando foi condenado em processo legítimo e incontestável. A imprensa sempre se manifesta contra o desrespeito à Constituição e a desmoralização das instituições democráticas e tem denunciado um rosário sem fim de ações lesivas ao interesse público. Golpista é quem busca silenciá-la ou controlá-la, não importa que explicações se fabriquem e que eufemismos inventem.

17 de março de 2013
João Ubaldo Ribeiro, O Globo

A BURRICE E SEU LIMITE

Desabafo de empresário e colaborador do Planalto sobre excesso de ministérios toca no ponto fraco do Estado -o império da fisiologia
 
Enquanto se processa um dos rotineiros ajustes nos ministérios (a palavra "reforma" seria evidente exagero), ouve-se de respeitável conselheiro do governo Dilma Rousseff um desabafo inusitado.

O empresário Jorge Gerdau, que a título de voluntariado exerce o cargo de presidente da Câmara de Políticas de Gestão da Presidência da República, declarou considerar uma "burrice" a existência de 39 pastas no país.

Em entrevista a Fernando Rodrigues e Armando Pereira Filho, o empresário alterna momentos de esperança e desespero. A rigor, combinam-se: é numa avaliação de desespero esperançoso, por assim dizer, que Gerdau acrescenta: a burrice "talvez já tenha chegado a seu limite".

Não se trata, evidentemente, de crítica à capacidade intelectual da presidente, com quem o encarregado de racionalizar a administração pública federal mantém bom relacionamento e compartilha, sem dúvida, opiniões parecidas.

A questão é que, para acomodar a ampla variedade de partidos políticos que apoiam o governo, cargos são criados e distribuídos sem nenhum motivo técnico. Vai-se chegando ao paradoxo: para garantir a chamada "governabilidade" do país, a estrutura do próprio governo se torna ingovernável.

Em face das pressões sempre crescentes do empreguismo e da fisiologia, são bastante modestos os avanços que Gerdau pode creditar a seu trabalho no governo.

Pequenas coisas foram obtidas, diz o empresário, e dá como exemplo o aeroporto de Guarulhos. A capacidade de atendimento do maior aeroporto brasileiro era de 900 usuários por hora; de 2011 para 2012, o índice passou a 1.500.
 
A minúcia dessa conquista já consiste, por si só, em sintoma de que os problemas estruturais da administração federal -à qual competiria, em tese, resolvê-los- passam longe da esfera de poder concedida a Gerdau e encontram sua origem num sistema político que, burramente, subsiste inalterado no país.

A burrice talvez tenha chegado a seu limite, espera Gerdau. Será? Anunciou-se na sexta-feira, por exemplo, uma mudança de nomes na Secretaria da Aviação Civil -órgão que, para quem não sabe, tem status de ministério no Brasil. Seu titular, um técnico sem filiação partidária, cede espaço a um político do PMDB. É que outra secretaria, a de Assuntos Estratégicos, antes destinada ao peemedebista, pareceu insuficiente à agremiação.

O problema, para resumir, parece não ser tanto o de que a burrice tenha limites. É que, na política brasileira, a esperteza não os tem de modo algum.

17 de março de 2013
editorial da Folha

"A REVOLUÇÃO QUE NÃO HOUVE"

 
Chávez intitulou seu regime de "revolução bolivariana", embora não tivesse feito qualquer revolução
Hugo Chávez foi, sem qualquer dúvida, um líder carismático que aliava, em sua atuação, a audácia e a esperteza política. Desde cedo, a ambição de poder determinou suas ações, que o levaram da conspiração nos quartéis às manobras populistas características de seu projeto de governo.

Sempre soube o que deveria fazer. Compreendeu, desde logo, que teria de atender às necessidades de grande parte da população que, ignorada pela oligarquia venezuelana, vivia na miséria.

Ganhar a confiança dessa gente, atendê-la em suas carências, era a providência eticamente correta e, ao mesmo tempo, o caminho certo para tornar-se um líder de imbatível popularidade. Mas, para isso, teria que enfrentar os poderosos e obter o respaldo das forças armadas, às quais, aliás, pertencia. Foi o que fez e ganhou a parada.

Outro traço característico de Hugo Chávez era o pouco respeito às normas democráticas. Se é verdade que ele chegou ao poder pelo voto e pelo voto nele se manteve, é certo também que se valeu do prestígio popular e de alguns erros dos opositores para controlar os diferentes poderes da nação venezuelana, impor sua vontade e consolidar o poder discricionário.

Nesse sentido, o que ocorreu na Venezuela é um exemplo de como o regime democrático, dependendo do nível econômico e cultural da população de um país, pode abrir caminho para um governo autoritário que, dependendo da vontade do líder, anulará a ação política dos adversários, como o fez Hugo Chávez.

Ele não só fechou emissoras de televisão como criou as Milícias Bolivarianas, que, a exemplo da conhecida juventude nazista, inviabilizava pela força as manifestações políticas dos adversários do governo.

Para culminar, fez mudarem a Constituição para tornar possível sua reeleição sem limites. Aliás, é uma característica dos regimes ditos revolucionários não admitir a alternância no poder. Está subentendido que sua presença no governo garante a justiça social com a simples exclusão da classe exploradora e, portanto, como são o povo no poder, não há por que sair dele.

Chávez intitulou seu regime de "revolução bolivariana", embora não tivesse feito qualquer revolução. O que fez, na verdade, foi dar comida e casa aos mais necessitados, o que, ao contrário de levar à revolução, leva à aceitação do regime pelos que poderiam se revoltar. Daí a necessidade de haver um inimigo, que ameace tomar o que eles ganharam. E o líder -Chávez- está ali para defendê-los.

O azar dele foi o câncer que o acometeu e que ele tentou encobrir. Quando já não pôde mais, lançou mão da teoria conspiratória, segundo a qual seu câncer foi obra dos norte-americanos. Como isso ocorreu, nem Nicolás Maduro nem Evo Morales se atrevem a explicar.

De qualquer modo, tinha que se curar e foi tratar-se em Cuba, claro, para que ninguém soubesse da gravidade da doença, que o obrigaria a deixar o governo. Sucede que o câncer não cedeu à onipotência do líder, obrigando-o a ausentar-se da Venezuela e da chefia do governo, por meses seguidos. O povo venezuelano, naturalmente, desejava saber o que se passava com o seu presidente, mas nada lhe era dito.

No entanto, Chávez deveria disputar eleições em 2012 para manter-se no governo e, por isso, voltou à Venezuela dizendo-se curado. Foi reeleito, mas teve que voltar às pressas à UTI em Havana. Daí em diante, mais do que nunca, o sigilo foi total: está vivo? Está morto? Vai voltar? Não vai voltar? Pela primeira vez, alguém governou um país de dentro de uma UTI.

Chega a data em que teria que tomar posse, mas continuava em Cuba. Contra a Constituição, Nicolás Maduro, que ele nomeara seu vice-presidente, assume o governo, embora já não gozasse, de fato, da condição de vice-presidente, já que o mandato do próprio Chávez terminara.

Mas, na Venezuela de hoje, a lei e a lógica não valem. Por isso mesmo, o próprio Tribunal Supremo de Justiça -de maioria chavista, claro- legitimou a fraude, e a farsa prosseguiu até a morte de Chávez; morte essa que ninguém sabe quando, de fato, ocorreu.

Durante o enterro, Nicolás Maduro anunciou que Chávez seria embalsamado e exposto para sempre à visitação pública, como Lênin e Mao Tse-tung. Um líder revolucionário de uma revolução que não houve. Não resta dúvida, estamos em Macondo.

17 de março de 2013
Ferreira Gullar, Folha de São Paulo

MÃOS LIVRES

 

A recusa do PSD a assumir um ministério deixa o partido livre para fazer o jogo político que lhe for mais conveniente. Sem assento na Esplanada, Gilberto Kassab tem um problema a menos: não precisará passar pela etapa da cobrança pelo "abandono dos cargos" nem construir um discurso para, se for o caso, contrariar a promessa de ficar com Dilma Rousseff em 2014.

Oficialmente ele diz que é "cedo" para discutir a próxima eleição, mas em verdade o gesto tem tudo a ver com a próxima eleição. Uma decisão cautelosa e, sobretudo, calculada.

O ex-prefeito de São Paulo anunciou o recuo (que obviamente não classifica assim) ressalvando que ainda apoia a presidente na disputa pela reeleição.

Palavras que não necessariamente se escrevem. Até outro dia mesmo o governador Eduardo Campos também dizia isso, mas parou de dizer na proporção direta em que o PSB e simpatizantes falam cada vez mais frequente e abertamente na candidatura dele para presidente.

O governo abriu a temporada eleitoral antes do tempo a fim de mudar a agenda que estava cheia de assuntos desagradáveis (mensalão, possibilidade de investigação sobre atos de Lula, críticas à condução da economia, caso Rosemary etc.) e agora precisa administrar a antecipação que teve seu efeito bumerangue ao animar outros blocos a saírem a campo.

De onde um esperto como Gilberto Kassab não ia imobilizar suas fichas numa aposta só. Embora por enquanto nada indique que poderia apoiar Aécio Neves, também não interessa a ele brigar com o PSDB que ainda está no controle político do Estado mais forte da federação e seu reduto.

Os tucanos já vinham avisando: era só o PSD assumir um ministério para o partido oficializar o rompimento com ele.

Fora isso, de Kassab pode-se dizer que foi um dos primeiros a farejar as possibilidades de Eduardo Campos.

Há pouco mais de dois anos o então prefeito tentou articular a fusão do DEM com o PSB. Não deu certo, mas o governador de Pernambuco ajudou a criar o PSD e pode ser uma opção para Kassab em 2014.

À medida que aparecem alternativas, menos sólida vai parecendo a fortaleza governista, mais movimentado fica o ambiente e com maior vigor as mariposas voam em busca de outros focos de luz.

O governo quis assim, liberou geral, mas não levou em conta o dito que aconselha a ter cuidado para que os desejos não se transformem em armadilhas.

Só tem tamanho. De reformadora a chamada reforma do ministério não tem nada. Na sexta-feira, a Folha de S. Paulo publicou uma entrevista com o empresário Jorge Gerdau, presidente da Câmara de Políticas de Gestão da Presidência da República, em que pela segunda vez (a primeira foi ao Valor Econômico) ele faz severas críticas à quantidade de ministérios.

Antes Gerdau havia dito que era impossível administrar quatro dezenas (39, para ser precisa) de pastas. Agora foi mais incisivo: acha que o Brasil chega ao limite da "burrice, da loucura ou da irresponsabilidade" ao se render à lógica do gigantismo.

Segundo ele, a presidente trabalha com "meia dúzia" de ministérios realmente importantes. "O resto anda com delegações de menos peso."

Nessa perspectiva é que se enquadram as mudanças que equivocadamente são chamadas de reforma. Não mudam coisa alguma, não visam à melhoria de desempenho, não atendem a um projeto delineado de País e a maioria das pastas não tem importância. Quando fala em "delegações de menos peso", Gerdau é elegante. Evita dar à coisa a vulgar, porém real, definição de "penduricalhos".

Todo mundo sabe disso: a presidente, os ministros e os partidos participantes da partilha, que fingem dar duro na administração e ela faz de conta que compartilha de fato o poder.

 
17 de março de 2013
Dora Kramer - O Estado de S.Paulo