"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



sábado, 28 de abril de 2012

ENQUANTO ISSO, NA CORTE DO HELL DE JANEIRO...

Sérgio Cabral, Fernando Cavendish em Paris.
O Governador Sérgio Cabral em um ataque de Tupiniquismo Rastaquera, é flagrado fazendo macaquices diante do Hotel Ritz em Paris, ao lado de ninguem menos que Fernando Cavendish. Ou, o dono da Delta contrutora, que também era dono do helicóptero que caiu na Bahia onde a nora do Cabral morreu junto a mais outras seis pessoas.
Que por sinal ele também é dono da casa numa praia baiana onde a família do Cabral iria passar um bucólico final de semana, se o Helicóptero não tivesse caido e estragado a festa.
E a Delta construtora é a maior "parceira" do governo nas obras do PAC no estado do Hell de Janeiro, que coincidentemente é governado pelo Sérgio Cabral que é apadrinhado político do desgoverno das Ratazanas Vermelhas, que são maioria na infame CPMI do Carlos Cachoeira, e que até agora ninguém fez ligação entre o Cachoeira e o Cabral, apenas para não embassar o "brilho" da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016.
Ou seja: Essa CPMI é uma baita fraude apenas para conseguirem atacar a oposição.
E assim caminha a imprensa amestrada, uma vez que se o ex governador Garotinho teve acesso a esssas fotos e fez a denuncia via Blog, é certo que a imprensa também teve as fotos em mãos e se calou convenientemente aceitando as ordens da camarilha vermelha.
E é por causa de momentos assim que as Ratazanas Vermelhas insistem em tentar calar a imprensa e os Blogs independentes. O PT e certos setores do "pudê" ainda não entenderam que por mais que escondam, nos dias de hoje, sempre tem alguém com um computador e muitos contatos para poder repassar as denuncias quando a imprensa se vende.
E definitivamente o Governador Sérgio Cabral não tem medo algum das consequencias dessa amizade. Ele sabe que está "blindado" pelos seus padrinhos políticos, o Enfermo Ex presidente Defuntus Sebentus, e pela Mamulenga presidANTA Dilmarionete Dentuça.
E o mais desmoralizante para a PF é que eles prenderam um dos "!aspones" do Cavendish na Delta Contrutora, e não chegaram no dono e nem nos seus "parceiros" pelo Brasil.
Essa CPMI se fosse feita com seriedade e respeito ao povo brasileiro, pelo visto iria derrubar muita gente, até no Planalto.
Só não vê quem não quer...ou é mal intencionado.
E no mais.
 
28 de abril de 2012
omascate

UM EDITORIAL CONTRA A DECISÃO DO STF, QUE OFICIALIZOU A DISCRIMINAÇÃO RACIAL NO BRASIL

Excelente o editorial do Estadão de hoje, criticando a absurda decisão do Supremo sobre as cotas raciais.

A discriminação racial no Brasil é constitucional, segundo decidiram por unanimidade os ministros do Supremo Tribunal (STF), num julgamento sobre a adoção de cotas para negros e pardos nas universidades públicas. Com base numa notável mistura de argumentos verdadeiros e falsos, eles aprovaram a reserva de vagas para estudantes selecionados com base na cor da pele ou, mais precisamente, na cor ou origem étnica declarada pelo interessado. Mesmo enfeitada com rótulos politicamente corretos e apresentada como “correção de desigualdades sociais”, essa decisão é obviamente discriminatória e converte a raça em critério de ação governamental. Para os juízes, a desigualdade mais importante é a racial, não a econômica, embora eles mal distingam uma da outra.

O ministro Cezar Peluso mencionou as diferenças de oportunidades oferecidas a diferentes grupos de estudantes. Com isso, chamou a atenção para um dos maiores obstáculos à concretização dos ideais de justiça. Todos os juízes, de alguma forma, tocaram nesse ponto ou dele se aproximaram. Estabeleceram, portanto, uma premissa relevante para o debate sobre a formação de uma sociedade justa e compatível com os valores da democracia liberal, mas perderam-se ao formular as conclusões.

O ministro Joaquim Barbosa referiu-se à política de cotas como forma de combater “a discriminação de fato”, “absolutamente enraizada”, segundo ele, na sociedade. Mas como se manifesta a discriminação? Candidatos são reprovados no vestibular por causa da cor? E os barrados em etapas escolares anteriores? Também foram vítimas de racismo?

A ministra Rosa Weber foi além. “A disparidade racial”, disse ela, “é flagrante na sociedade brasileira.” “A pobreza tem cor no Brasil: negra, mestiça, amarela”, acrescentou. A intrigante referência à cor amarela poderia valer uma discussão, mas o ponto essencial é outro. Só essas cores identificam a pobreza no Brasil? Não há pobres de coloração diferente? Ou a ministra tem dificuldades com a correspondência de conjuntos ou ela considera desimportante a pobreza não-negra, não-mestiça e não-amarela.

Mas seus problemas lógicos são mais amplos. Depois de estabelecer uma correspondência entre cor e pobreza, ela mesma desqualificou a diferença econômica como fator relevante. “Se os negros não chegam à universidade, por óbvio não compartilham com igualdade das mesmas chances dos brancos.” E concluiu:
“Não parece razoável reduzir a desigualdade social brasileira ao critério econômico”. A afirmação seria mais digna de consideração se fosse acompanhada de algum argumento. Mas não é. O fator não econômico e estritamente racial nunca foi esclarecido na exposição da ministra nem nos votos de seus colegas.

Nenhum deles mostrou com suficiente clareza como se manifesta a discriminação no acesso à universidade ou, mais geralmente, no acesso à educação.
O ministro Celso de Mello citou sua experiência numa escola pública americana sujeita à segregação. Lembrou também a separação racial nos ônibus escolares nos Estados Unidos. Seria um argumento esclarecedor se esse tipo de segregação - especificamente racial - fosse no Brasil tão normal e decisivo quanto o foi nos Estados Unidos.

Talvez haja bons argumentos a favor da discriminação politicamente correta defendida pelos juízes do STF, mas nenhum desses foi apresentado. Brancos pobres também têm dificuldade de acesso à universidade, mas seu problema foi menosprezado.

Se um negro ou pardo com nota insuficiente é considerado capaz de cursar com proveito uma escola superior, a mesma hipótese deveria valer para qualquer outro estudante. Mas não vale. Talvez esse branco pobre também deva pagar pelos “danos pretéritos perpetrados por nossos antepassados”. Justíssimo?
Como suas excelências poderão ser envolvidas em outras questões de política educacional, talvez devam dar uma espiada nos censos. Os funis mais importantes e socialmente mais danosos não estão na universidade, mas nos níveis fundamental e médio. Países emergentes bem-sucedidos na redução de desigualdades deram atenção prioritária a esse problema. O resto é demagogia.

27 de abril de 2012
Reinaldo Azevedo

O PAPAGAIO DAS LIBERDADES INDIVIDUAIS

          Artigos - Conservadorismo
A última de Rodrigo Constantino foi atacar Olavo de Carvalho em vídeo. Ao que parece, a surra que levou do ilustre pensador campinense jamais foi superada.


Recentemente, vi uma reportagem de uma revista semanal, onde fala de uma “nova direita” no ar: adivinha quem foi escolhido como modelo? Rodrigo Constantino! A imprensa propaga a direita que a esquerda quer. Uma direita inofensiva, que não cheira nem fede, e que no essencial, adere alegremente às cartilhas esquerdistas.

Até o Demétrio Magnoli é citado como “direitista”! Nota-se que os nomes citados não refletem a direita, mas em alguns casos, tão somente o centro e a direita da esquerda. Alguém acharia sério o Rodrigo Constantino ser considerado “direitista”, quando ele defende toda a agendinha politicamente correta do PNDH-3 e do PT?

A única divergência que Constantino tem contra o PT é em relação ao livre mercado. Mesmo assim, a divergência é bem pequena: petistas também adoram o livre mercado, ainda que seja para tributar, criar cabides de empregos públicos e roubar o dinheiro do povo.

Malgrado o estrelismo do homem, Rodrigo Constantino, endossado por uma mídia visivelmente esquerdista, gravou um vídeo querendo “depurar” a “verdadeira direita”. Ele se declara o representante da “direita esclarecida”, iluminista, secularista, amiguinha da razão e da modernidade.
E nós, cristãos, católicos, conservadores autênticos, defensores da família, da religião, de Deus e de valores absolutos e transcendentes, somos “medievais”. E mais: somos apologetas da Idade Média e da “teocracia medieval”. Só faltou colocar a guilhotina no meio de nossas cabeças, para idolatrar a “deusa razão”.

Na Idade Média não havia "teocracia". A teoria das duas espadas, a do poder temporal e espiritual, onde se consagravam duas esferas políticas distintas, já demonstra que o mundo medieval estava longe de ser teocrático. O papa não controlava toda a Europa. Pelo contrário, havia um conflitante equilíbrio de poder entre príncipes e clero. O conceito do Estado laico surge a partir daí.

Todavia, o máximo que se percebe no discurso de Constantino é que ele não tem o menor conhecimento histórico da Idade Média. Na verdade, o rapazinho é cheio daqueles clichês de cursinho pré-vestibular, alimentados por uma mentirosa literatura iluminista.
Na cabeça do liberal secularista, o mundo anterior ao século XVIII era só trevas e escuridão. Os iluministas, tal como que recriando um novo Gênesis, declararam “fiat lux” e a luz foi feita. E o mundo se tornou lindo e maravilhoso, sem os males do irracionalismo e da religião. A Santíssima Trindade foi substituída pela deusa natureza e deusa razão.

Óbvio. Antes do século XVIII não havia universidades, catedrais e filósofos. Não havia Santo Tomás, Santo Agostinho e Aristóteles. Não havia Palestrina, Monteverdi, Tomás de Victoria, Corelli, a ópera e a música renascentista e barroca. Não havia artistas, pintores, escultores ou poetas.

O mundo era obscuro, senil, enlouquecido. Era dominado pelo fanatismo religioso e pelas arbitrariedades do Antigo Regime. Sem contar que em priscas eras, as fogueiras santas da Inquisição dominavam todo o continente europeu, queimando bruxas. Era um fogaréu tremendo em cada esquina. Eis o fantástico mundo de Bobby idealizado por Constantino e pelos liberais. Apesar de sua completa ignorância sobre história, o pupilo sectário da Ayn Rand ainda rotula os conservadores autênticos de “direita tacanha”. Ou mais, contraditoriamente, ainda se autoriza a falar por eles.

Que raios afinal significa o “autêntico conservador”, nas palavras de Constantino? Simples: significa aprovar toda a pregação da revolução cultural, em nome da liberdade individual. Em suma, significa apoiar casamento gay, aborto, eutanásia, liberação das drogas, degradação familiar e todos os esquemas mentais da esquerda. Constantino admite uma exceção, um único acréscimo não inscrito no patacoada petista: transformar o livre mercado num objeto de culto idolátrico e acima dos valores essenciais da moral.

Divertida é a defesa que Rodrigo Constantino faz do aborto. Ele diz que a definição do início da vida é mera concepção religiosa. Porque, nas palavras do próprio, embora a vida comece pela concepção, não quer dizer que haja uma vida humana.
A contradição lógica aí não chega nem mesmo ser absurda. É simplesmente esquizofrênica. Se a vida humana tem um começo, ela não pode ser não-humana. Mas se a vida, no ventre da mãe, não é humana, o que então? É o capeta do bebê de Rosemary, do filme de Polansky?
Lembremos: não é a religião que afirma que a vida começa pela concepção. É a ciência. Os católicos apenas defendem o que é conforme à realidade. Constantino demonstra uma clareza racional digna dos protozoários: a vida começa pela concepção, mas, ali não há vida humana ou ser humano.

O mais interessante de tudo é que Constantino afirma que não cabe ao Estado reconhecer a personalidade civil ou os fenômenos característicos que descrevam, dão origem ou reconheçam a vida humana.
Ou seja, se eu quiser definir Constantino como um macaco e colocá-lo numa jaula para jogar uma banana para ele, será tão legítimo quanto as diretrizes legais do Estado que afirmam o contrário.
Aliás, até antes da infame decisão do Supremo Tribunal Federal sobre os anencéfalos, o Código Civil resguardava os direitos do nascituro. Embora a personalidade civil se inicie a partir do nascimento com vida, a lei então reconhecia os direitos de quem estava pra nascer. E por quê? Porque a ciência, a lógica e o bom senso reconhecem que o início da vida se origina pela concepção.
Constantino vai afirmar que o Código Civil segue valores religiosos? Não se pode dissociar a vida humana de seu início. Constantino não consegue perceber que a vida humana não se define por um formato visível ou ideal de pessoa, ou por meros aspectos formais da lei, e sim por um processo real e concreto da existência, que se inicia com a fecundação e termina com a morte.

A pergunta que fica no ar é: o que se define como um ser humano, na cabecinha vazia de Constantino? Uma hora ele diz que o Estado não tem o poder de definir o que é ser humano. Por outro lado, ele afirma justamente o contrário: quer ele próprio definir o que é um ser humano, embasado num critério formal de aparência do que ele acha que é humano. Ou mais, apelando à definição da personalidade civil como característico do que é humano!

No final das contas, Constantino reduz a humanidade a um complexo arbitrário de achismos. Recordemos que a lei, quando invoca a proteção legal da vida, não o restringe a quem nasce. Estende essa defesa a algo mais além, que é o seu início, na concepção, até a morte, embasada na realidade.
Quem quer bancar o deus, decidindo quem deve viver ou morrer, é o STF e Rodrigo Constantino.

O economista ficou revoltado quando o acusaram de eugenista, já que estava negando a humanidade dos anencéfalos e aos defeituosos, porque estes não teriam uma “vida plena”. Porém, o que é uma “vida plena”? O sujeito repete ad nauseam os chavões da “razão”, quando na prática, apenas destila uma subjetividade inócua e vazia, além de irracional. Na prática, Constantino faz uma confusão mental entre a realidade e suas preferências pessoais.

Esse achismo não se reduz tão somente às questões pessoais em relação à vida. Um defeito fatal visível, tanto em Rodrigo Constantino, como em seus acólitos libertários, como o vlogueiro Daniel Fraga, é a exploração oca do discurso da liberdade individual.
Eles idealizam a liberdade fora da esfera de qualquer ordem moral. A liberdade, por assim dizer, é um fim em si mesmo. Não me surpreendo quando vejo a defesa caricatural do “direito de morrer” ou qualquer outra prática perversa, em nome da liberdade.
Alguém tem o poder de impedir a morte? Nem mesmo a lei impede um sujeito depressivo de se matar. A questão é: por que o culto da morte? Por que a vontade de morrer seria necessariamente superior à própria vida?
A pregação do libertário é aquela que acha que destruir um ser humano é um direito. É a falsa liberdade que idolatra a corrupção, a destruição e a morte acima da vida, invertendo toda uma escala de valores.
A liberdade é reduzida a um fetichismo de palavras, numa notória moralidade de esterco.
E ainda Constantino quer nos ensinar o que é verdadeira liberdade! Lembremos que ele se considera muito “racional”.

Há um culto do niilismo, um relativismo moral grosseiro, prostituindo a liberdade e reduzindo-a a mero capricho de vontades ou de desejos. Constantino empobrece a concepção da liberdade e do próprio liberalismo. Esvazia-a de sentido. Inverte as hierarquias que legitimam a própria liberdade. Ou mais, o conceito de liberdade se barbariza. Tudo o que prega é a arbitrariedade do seu umbigo, que confunde com a "sua" liberdade e seus caprichos.

Por que alguém se espantaria que Constantino, adepto da Ayn Rand, e agora, pupilo de Nietzsche, queira pregar a “vontade da potência” e a exterminação dos fracos, porque eles não têm “vida plena”? A lógica do libertário é tão somente a destruição. Não é uma defesa sincera da liberdade, mas da supremacia do egocentrismo e do autismo.

A última de Rodrigo Constantino foi atacar Olavo de Carvalho em vídeo. Ao que parece, a surra que levou do ilustre pensador campinense jamais foi superada. Também pudera. Pode-se falar de muitas coisas sobre Olavo de Carvalho. Criticá-lo, brandi-lo como espantalho da “direita tacanha”, rotulá-lo, ridicularizá-lo. Eu mesmo já presenciei as piores palavras de ódio contra ele. Entretanto, é inegável a sua soberba erudição sobre grande parte de seus detratores. Constantino, perto de Olavo, é como uma criancinha birrenta esperneando contra um velho, porque não ganhou o Playstation do papai. A disparidade intelectual entre os dois é assustadora.

Constantino é um papagaio de pirata do liberalismo. Pura canja de galinha. Idiota útil das esquerdas e a direita que qualquer esquerdista sonha em ter como rival.

28 de abril de 2012
Leonardo Bruno  

O TRIUNFO DA VERDADE

Eos ratos pariram… mais ratos! Inquérito sobre Demóstenes vaza na íntegra e evidencia o que os decentes já sabiam: jornalista da VEJA estava apenas fazendo seu trabalho. Ou: como senador tentou abafar repercussão de reportagem da revista sobre a Delta a pedido de Cachoeira 
Leiam com muita atenção!

O ministro Ricardo Lewandowski autorizou o envio à CPI da íntegra do inquérito que investiga as relações do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com Carlinhos Cachoeira. A investigação corre em sigilo de justiça.

A imprensa publicar informações que estão nessa condição NÃO É NEM DEVE SER crime. Mas vazá-las é, sim, ato criminoso! E, no entanto, se as informações chegam aos jornalistas, a sua obrigação é divulgá-las. Nesse caso — curioso, não? —, ninguém indagou: “Qual é a fonte?” Gente que respeita a lei é que não é, certo? Mas a informação veio para o bem.
Os ratos, mais uma vez, pariram, como lhes é natural, ratos. Atenção! NÃO HÁ, PORQUE NÃO HOUVE, E VOCÊS PODEM VER POR CONTA PRÓPRIA, UMA SÓ INFORMAÇÃO, UMA SÓ CONVERSA, UM SÓ DIÁLOGO que revelem o jornalista da VEJA a fazer qualquer outra coisa que não buscar informações que eram do interesse público. Não há uma só sugestão que deixe o profissional da revista em situação incômoda, vexatória ou algo assim. Muito pelo contrário.

AQUILO QUE OS VAGABUNDOS PROMETERAM — O FIM DOS TEMPOS, O SUPOSTO CONLUIO ENTRE A REVISTA E ALGUNS CRIMINOSOS — ERA, EVIDENTEMENTE, FALSO! Ao contrário: nas vezes em que a reportagem de VEJA falou com Carlinhos Cachoeira ou alguém de seu esquema, estava interessada em obter informações que protegiam os cofres públicos da ação de larápios. É uma fantasia idiota a história de que ele era a única fonte. Quando chegou a vez de o próprio Cachoeira virar reportagem, a revista não hesitou. Foi a primeira a publicar matéria sobre os vínculos do senador Demóstenes Torres com o bicheiro. E isso é apenas fato, que petralha nenhum consegue eliminar da história.

Um repórter honesto pode falar com uma fonte suspeita 10, 20, 200 vezes (esse número, aliás, é uma fantasia!). E NÃO se corrompe nas 10, nas 20, nas 200 vezes. Se Lula falou alguma vez com Carlinhos Cachoeira, isso eu não sei. O que é fato? Na CPI dos Bingos, Rogério Buratti, amigo de Antônio Palocci, denunciou que o PT recebeu R$ 1 milhão do contraventor pelo caixa dois — os tais recursos não-contabilizados. A fonte é um petista!

O caso Delta, Demóstenes e VEJA
Os ratos se deram mal. O inquérito evidencia justamente o contrário do que eles vinham alardeando. E de modo muito impressionante! Prestem atenção! A revista que começou a chegar aos leitores no dia 7 de maio de 2011 trouxe a primeira grande reportagem sobre o fantástico crescimento da Delta (aqui e aqui). Aliás, é a revista em que dois empresários denunciam a “promiscuidade total” entre Sérgio Cabral e Fernando Cavendish — as fotos de Paris são muito eloquentes a respeito, não? Pois bem…
Basta ler o inquérito para notar que Carlinhos Cachoeira e seus rapazes se mobilizaram para “abafar” a repercussão da reportagem. E quem se encarregou da operação abafa, embora, publicamente, parecesse fazer o contrário, foi justamente Demóstenes Torres. Leiam este trecho do diálogo (em vermelho).

RESUMO

Conversam sobre a reportagem da VEJA relacionada à DELTA. CARLINHOS orienta DEMÓSTENES a evitar tocar no assunto.
CARLINHOS: oi, doutor.
DEMÓSTENES: fala professor. E aí tudo bem?
CARLINHOS: bom demais, a sogra não resistiu.
DEMOSTENES: é (… )
CARLINHOS: viu a matéria da DELTA aí?
DEMÓSTENES: isso, estou te ligando por isso, avisar o pessoal que está todo mundo em cima, ALVARO DIAS, não sei que, pan, pan…. E o que vai acontecer lá não tem jeito de aprovar nada, certo?, nós vamos fazer um requerimento, mas requerimento é convite, o cara pode recusar, agora o grande negócio é que chama a atenção do ministério público prá cima deles.
(…)
CARLINHOS: é mas eu não gosto da (…) A coisa é o seguinte: eu convivo com eles direto, não tem essa ligação com o ZE DIRCEU, ele comprou a empresa daqueles dois bandidos lá. E os caras dizendo que ele não pagou, e fez isso aí.
DEMÓSTENES: eles vão fazer barulho, vai sair um requerimento prá convidar, talvez o FERNANDO se antecipasse soltando a nota, dizendo que isso é mentira, que é um problema empresarial, que nunca teve isso e tal, tal. E pula fora, melhor alternativa. Agora o grande assunto no congresso vai ser isso, tentando chamar, tentando fazer isso e tal, já avisei a imprensa que não tem jeito de convocar, só tem jeito de convidar, porque não é autoridade, numa dessa aparece esses dois bandidos querendo palco e faz o regaço.
CARLINHOS: mas parece que eles não vão…

Voltei

O que o diálogo acima evidencia é justamente Carlinhos Cachoeira infeliz com uma reportagem da VEJA que punha em maus lençóis os seus amigos da Delta. E a razão é simples: QUEM EDITA A VEJA NÃO SÃO AS SUAS FONTES, SEJAM ELAS PESSOAS DE ÍNDOLE DUVIDOSA OU AS CARMELITAS DESCALÇAS. Das fontes, VEJA quer informações. Ponto.
O que me impressiona nessas conversas, confesso, mesmo depois de tudo o que sabemos, é a atuação de Demóstenes. O diálogo acima é do dia 8 de maio de 2011. No dia seguinte, a imprensa noticiava, como se vê abaixo, num trecho do jornal O Globo, que o senador iria pedir investigação. Leiam (em azul):

Os líderes da oposição no Senado querem ouvir os empresários Fernando Cavendish, presidente da Delta Construções, e os ex-donos da Sigma Engenharia,José Augusto Quintella Freire e Romênio Marcelino Machado, para que ele falem sobre o suposto tráfico de influência do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. Em reportagem da revista Veja desta semana, Freire e Machado afirmam que Dirceu foi contratado por Cavendish, para que o ex-ministro o aproximasse de pessoas influentes no governo do PT.

A reportagem afirma ainda que Cavendish teria dito que, com “alguns milhões seria possível comprar um senador” para conseguir um bom contrato com o governo.
O líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO), vai procurar o PSDB e o PPS para, numa ação conjunta da oposição, apresentarem requerimento de convite aos empresários. Para Demóstenes, caberia requerimento à Comissão de Constituição e Justiça ou à de Fiscalização e Controle.”Vamos conversar com os senadores da oposição, para tentar um requerimento conjunto.
O problema é que não temos número suficiente para aprovar na comissão, caso o governo queira impedir. Se nada vingar, vamos pedir que o Ministério Público averigue as denúncias”, disse Demóstenes.

Não é impressionante? Eu mesmo reproduzi trecho da matéria do Globo no clipping do blog. Ocorre que o senador estava dando um jeito, como revelam as conversas, justamente de impedir qualquer investigação. No dia 9, em nova conversa com Cachoeira, ele mostra satisfação porque a matéria da VEJA “não deu em nada” e faz alusão justamente à reportagem do Globo, que reproduzo acima:
RESUMO

CARLINHOS diz que DEMOSTENES vai trabalhar nos bastidores do SENADO para abafar a reportagem da VEJA relacionada à DELTA.
DEMÓSTENES: ah num deu em nada não cê viu né? Eu arrumei um… uma maneira de fragilizar o discurso. Eu… Única coisa que saiu foi no GLOBO dizendo que eu ia procurar o PPS e o PSDB, pra fazer um convide pros empresários, mas eles rumaram no DIRCEU. Todo mundo, e o resto num saiu porra nenhuma, e hoje eu num vou lá, é capaz que esse trem daqui pra quarta morre, falou?
CARLINHOS: é, ta bom. Eles viram a reportagem do GLOBO e me ligaram já.
DEMÓSTENES: É, num saiu nada, fala pra eles que num saiu nada que o trem era. Eles queriam um barulhão, falou?
CARLINHOS: tá bom. Obrigado aí.
DEMÓSTENES: um abraço, tchau.

E então? O senador parece orgulhoso de ter levado a imprensa no bico, de ter enganado todo mundo. Como se vê, a relação de Carlinhos Cachoeira com a cúpula da Delta é de absoluta proximidade. Ele foi procurado pelo comando da empresa — conversaram até sobre a matéria do Globo. E um dado relevante: notem que o contraventor estava garantindo que os dois empresários que denunciaram Cavendish e que acusaram a proximidade da empresa com Zé Dirceu, se convidados, não iriam ao Senado. Isso é preocupante. Dois dias depois de a matéria da VEJA ter sido publicada, a conversa sugere que ambos já tinham sido “contatados”…

Eu me orgulho de dizer que acreditei em Demóstenes ao ler no Globo, naquele dia, que ele queria investigar o esquema da Delta. Orgulho-me porque todos os valores que ele enunciava e anunciava no Senado estavam e estão corretos. Eu e milhões de pessoas achamos isso. Parece que ele não levava aquelas convicções a sério, o que não depõem contra elas, mas contra ele. Como resta evidente das duas conversas, também o seu empenho em investigar não era verdadeiro. Ao contrário: ele estava atuando a pedido de Cachoeira para impedir que a apuração prosperasse. Fui o único enganado??? Acho que não… Chego a duvidar de que ele tenha noção do mal que fez e que está fazendo não exatametne à oposição, mas aos valores da democracia liberal que ele dizia encarnar.

Agora, a imprensa
Mais uma vez, fica evidente que a tentativa de linchamento de jornalistas da VEJA é obra de obscurantistas, que odeiam, na verdade, a liberdade de imprensa.
Algumas estrelas do jornalismo investigativo, que têm até uma associação, deveriam vir a público para dizer se fontes que revelaram algumas das maiores falcatruas destepaiz, como diria aquele, estavam no convento das Carmelitas Descalças. Aliás, uma personagem emblemática estará na CPI do Cachoeira: o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL).
Eram anjos aqueles todos que forneceram aos petistas, que os vazaram para a imprensa, documentos contra o governo?
São decentes alguns “companheiros” infiltrados em bancos públicos, que quebram o sigilo de desafetos do partido? Jornalistas que passaram anos sustentado a veracidade do Dossiê Cayman estavam dialogando com professores de Educação Moral Cívica? VEJA só publica reportagens depois de apurar os fatos.

Eurípedes Alcântara já escreveu um detalhado texto a respeito dos procedimentos da revista. A qualidade moral da fonte não faz a qualidade da informação. Como eu já havia escrito anteriormente neste blog, falar com o papa não nos faz santos; falar com bandidos não nos torna criminosos. Em qualquer dos casos, há de haver apuração.
As de VEJA são rigorosas — ou Dilma, supõe-se, não teria demitido seis ministros e uma penca de funcionários do Dnit. Mas é compreensível, claro!, que Lula, cuja campanha recebeu R$ 1 milhão de Cachoeira pelo caixa dois, segundo revela um companheiro seu, esteja empenhado agora em tirar a Delta da CPI para investigar a imprensa… Investigar por quê? O inquérito já é público. Qual é acusação? Qual é a suspeita? O que há além da tentativa de intimidação?

“Ah, segundo a Polícia Federal, foi o pessoal do Cachoeira que forneceu a fita do circuito interno do hotel em que Zé Dirceu aparece se reunindo com autoridades da República…” E daí? Se foi ou não, a Constituição protege o sigilo da fonte. Que jornalista nestepaiz, de posse daquela fita, não a tornaria pública? Se um ex-deputado, cassado por corrupção, chamado pelo Procurador Geral da República de “chefe de quadrilha” e hoje notório lobista — o nome politicamente correto é “consultor” — despacha com figurões do governo e do Congresso, em reuniões clandestinas, a informação deveria ser amoitada, ainda que tivesse mesmo sido fornecida por alguém de índole suspeita? Ora…

O profissional de VEJA não precisa que um inquérito da Polícia Federal ateste que faz o seu trabalho dentro das regras do jogo e de acordo com a ética da profissão. Durante alguns dias, no entanto, a vagabundagem a soldo especulou à vontade. Eis aí!

O que sai de relevante do inquérito no que diz respeito à VEJA é o esforço de Carlinhos Cachoeira para abafar reportagem da revista sobre a Delta. Sempre a Delta — a construtora que os petistas não querem investigar. Petistas, sempre os petistas — aqueles que, confessadamente, receberam R$ 1 milhão pelo caixa dois de Carlinhos Cachoeira.
E o joio, Reinaldo? E o trigo? Ah, terei de fazer mais um post. Este já foi longe demais.

28 de abril de 2012
Reinaldo Azevedo

ENSINANDO A GOVERNAR: CONTRIBUIÇÃO À AGENDA RIVAL



Segundo o noticiário, a presidente Dilma Rousseff pretende buscar uma agenda que rivalize com a CPI do Cachoeira, que desagrada ao Palácio do Planalto e ameaça paralisar ainda mais a ação administrativa do governo federal.

Creio que essa intenção merece simpatia, sempre que a agenda rival seja positiva, feita de coisas reais, e não de PACs inexistentes ou de novos programas contra a miséria que só prosperam nos discursos oficiais e no noticiário. Tampouco vale renovar as reclamações em off sobre os maus costumes da vida pública brasileira, como se o PT nada tivesse que ver com isso.
Permito-me citar algumas iniciativas que estão ao alcance imediato do governo, sem grandes obstáculos jurídicos ou parlamentares. São apenas exemplos.

Um primeiro exemplo é a exigência de certificação ocupacional para o preenchimento dos cerca de 24 mil cargos de livre provimento da administração federal, bem como de suas empresas estatais. Ou seja, embora esses cargos não exijam concurso público, as pessoas nomeadas deveriam ter qualificações obrigatórias para ocupar certas funções, como capacidade técnica e gerencial, formação escolar compatível e experiência profissional, a serem atestadas em prova de avaliação; e ainda ter bons antecedentes.

Essa medida frearia o fisiologismo reinante, além de melhorar a qualidade do serviço público. E impediria casos como o do “amigo de 20 anos” do ministro da Saúde que, sem qualificação alguma, foi nomeado seu assessor e embolsou R$ 200 mil de propina a fim de prestar favores impróprios.

A certificação poderia começar pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), estropiada depois da recuperação promovida no governo FHC, quando foram exigidas qualificações específicas para os cargos de direção. Logo no começo da era petista, em abril de 2003, o decreto que estabelecia as exigências foi revogado, a fim de liberar o loteamento da instituição.

Uma certificação especial deveria ser exigida dos diretores das agências reguladoras, hoje loteadas entre pessoas na sua maioria sem a qualificação necessária. São nomeações que favorecem grupos partidários e interesses privados, fraturando a espinha de uma importante reforma do Estado brasileiro. Sempre chegam à imprensa cochichos sobre a insatisfação da Presidência da República com esse quadro deprimente. Por que, então, não adotar a certificação imediatamente, privilegiando os ocupantes de cargos efetivos nas próprias agências?

Outra medida urgente é a reestruturação da dívida de Estados e municípios com a União, vinculando seus benefícios a investimentos. Tem cabimento, hoje, o BNDES cobrar juros nominais de 4%, 5% ao ano de grandes grupos privados, com dinheiro do Tesouro, e este cobrar de Estados e municípios juros que, em alguns casos, chegam a 12,5% ou 14%?
Os efeitos são óbvios: dívidas crescendo como bola de neve, apesar dos elevados pagamentos, e corrosão da capacidade de investimento de governos estaduais e municipais. Acredite o leitor: essas unidades da Federação respondem por dois terços dos investimentos públicos do País, excluindo empresas estatais.

Outra providência fácil e oportuna é o descarrilamento do trem bala Rio-São Paulo. O projeto exige mobilizar recursos de R$ 65 bilhões para um trem de passageiros que não tem demanda. De tudo o que conheço da História brasileira posso assegurar: em face do tamanho e do despropósito, trata-se do projeto governamental mais alucinado que já tivemos desde o Descobrimento.
O governo precisa transferir esse esforço e os recursos virtuais para outras finalidades com bons resultados assegurados: metrô/modernização de trens urbanos (R$ 30 bilhões) em dez capitais e transporte ferroviário de carga Brasil afora (R$ 35 bilhões).

Um quarto exemplo é a eliminação já dos tributos federais (PIS e Cofins) que incidem sobre as empresas estaduais e municipais de saneamento, tirando-lhes em torno de R$ 2 bilhões anuais. Esses recursos seriam investidos pelos Estados e municípios em obras prioritárias na coleta e tratamento de esgotos, que não oferecem retorno financeiro adequado. Lembre-se que somente 55% dos domicílios no Brasil estão ligados à rede de esgotos e apenas 38% dos esgotos coletados são tratados.

Por último, a adoção da Nota Fiscal Brasileira, nos moldes da bem-sucedida Nota Fiscal Paulista, com a devolução de tributos federais que incidem sobre o consumo no varejo. Isso reduziria a carga tributária individual dos consumidores, que receberiam de volta parte dos impostos recolhidos pelo comércio, ao lado de uma redução significativa da evasão fiscal.

A presidente precisa ainda exigir que seu ministro da Educação tire do papel, de modo rápido e competente, o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) – uma espécie de ProUni do ensino técnico. Mais ainda, que o descentralize e estenda ao ensino técnico privado. E que o ministro da Saúde tire da lenga-lenga o programa Rede Cegonha, voltado para a assistência à maternidade, desde o início da gravidez até as primeiras semanas do bebê.
São programas baseados nas propostas que fizemos em 2010: o Protec e o Mãe Brasileira. Sinceramente, em políticas públicas, cópia não é plágio nem gera royalties. Ao contrário, se o projeto é bom, a cópia expressa inteligência administrativa. Exceto, é claro, quando é distorcida ou se serve mais para marketing eleitoral, sem sair do papel.

Sugeri acima, algumas poucas medidas que dependem da determinação e da clarividência do governante. Há várias outras. Reparem que nem falo em “vontade política”, um conceito sempre fluido. A pequena lista de providências citadas está entre as prerrogativas de fato e de direito do Poder Executivo.

Há muita coisa a melhorar na vida dos brasileiros e na institucionalidade do País que passa longe do famoso “toma lá, dá cá”. O governo federal só se tornará refém da eventual paralisia do Congresso Nacional se quiser, se continuar na letargia.

27 de abril de 2012
abobado

ENTRA EM CENA A BELA DA FERA

Instruída por Thomaz Bastos, mulher de Cachoeira diz que ele ameaça dar um depoimento bombástico.
Por recomendação do advogado Marcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça, entrou em cena a bela e doce Andressa Alves Mendonça, de 30 anos, mulher do empresário e bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, para dizer que o marido está “revoltado” e declarando-se um “preso político”, por ter sido preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal.

Em entrevista à Catia Seabra, publicada na Folha, Andressa fez uma ameaça direta a todos os envolvidos nessa rede nacional de tráfico de influências, ao dizer que Cachoeira não descarta prestar um depoimento bombástico à CPI da qual é alvo no Congresso.

“Ele reflete muito. Como toda pessoa que está presa, longe dos seus, pensa uma coisa e, depois, pensa outra. Difícil saber o que vai acontecer. Ele não tomou uma decisão”, afirmou a mulher de Cachoeira, que está preso desde 29 de fevereiro e é acusado de explorar jogos ilegais em Goiás e no Distrito Federal, mas vai responder por muito mais crimes.

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ASSESSOR LEVOU R$ 100 MIL

Escutas telefônicas indicam que em fevereiro, seis dias antes de ser preso, o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, entregou R$ 100 mil a um assessor do senador Demóstenes Torres (ex-DEM), informa reportagem de Fernando Mello, Leandro Colon e Breno Costa, publicada na Folha.

No grampo, o empresário, acusado de corrupção, orienta a mulher a fazer o pagamento e a contar o dinheiro na frente do assessor. Segundo relatório da PF, “ela diz que vai dar o dinheiro em notas de 50 que está embalado em plástico”.

Demóstenes responde a processo no Conselho de Ética do Senado por quebra de decoro parlamentar e pode perder o mandato. Ele também é alvo de inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal) que apura seu envolvimento com Cachoeira.

Mas a defesa do senador disse que o parlamentar desconhece as gravações que envolvem o assessor. Afirmou ainda que, por ser tratar de diálogos “pontuais”, não vai se manifestar sobre seu conteúdo.

28 de abril de 2012
Carlos Newton

ANOTAÇÕES POLÍTICAS DO JORNALISTA CARLOS CHAGAS

A MÃE QUE JOGAVA UM BOLÃO

Dois adversários empenhavam-se em acirrada disputa, tanto faz se política, artística ou esportiva. Um deles, no auge da emoção, afirmou pejorativamente que determinada cidade só produzia jogadores de futebol ou prostitutas. Ofendido, o outro retrucou dizendo-se ofendido, pois a mãe dele havia nascido e morava naquela cidade. Caindo em si o destemperado treplicou: “Pois é. A sua mãe está jogando um bolão…”

Essas firulas verbais servem para demonstrar que certas tertúlias tem limite. Ao contrário de outras, não constituem embate de vida e de morte, havendo sempre uma janela aberta para alguém escapar. É o caso, por exemplo, do PT e do PMDB, na luta pela prefeitura de São Paulo.

Fernando Haddad e Gabriel Chalita trocam farpas, não raro se agridem e fazem o impossível para continuar à tona na competição, esperando cada um passar para o segundo turno, já que o verdadeiro inimigo deles é José Serra, do PSDB, com lugar garantido.

Chalita imagina contar com o apoio de Haddad, e vice-versa, na dependência dos resultados de outubro. Por isso não chegam aos limites do rompimento definitivo, deixando sempre uma alternativa, mesmo às vezes ridícula como aquela do cidadão que elogiou os dotes futebolísticos da mãe do adversário.

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AMIGO DA ONÇA

De certos amigos, aliados e correligionários, é sempre bom desconfiar. Pelo menos, essa desconfiança tomou conta do comitê de campanha de José Serra, e do próprio candidato, depois de lida entrevista do senador Aécio Neves, concedida ontem à Folha de S. Paulo.
Porque o ex-governador de Minas admitiu a hipótese de Serra, elegendo-se prefeito de São Paulo, vir a renunciar, abandonando o mandato, para candidatar-se a presidente da República.
Foi um comentário digno do Amigo da Onça, porque do que menos Serra gostaria de debater, agora, seria sobre deixar dúvida em seus possíveis eleitores de não cumprir até o fim o compromisso de governar a maior cidade do país.
Já renunciou uma vez, colhendo frustrações aparentemente desfeitas, mas relembrar o episódio, mesmo de forma indireta, pode ser prejudicial. Em especial quando levantada a possibilidade pelo seu principal competidor no âmbito do PSDB.
Imaginar apenas boa vontade ou ingenuidade nas declarações de qualquer político mineiro equivale a correr um risco dos diabos. Estaria Aécio Neves tentando sepultar de vez a candidatura paulista, para ficar absoluto na disputa entre os tucanos?

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CONTA-GOTAS INESGOTÁVEL

Não se passa um dia sem que algum veículo de comunicação deixe de apresentar um capítulo a mais nessa novela que tem Carlinhos Cachoeira como vilão. São transcrições de telefonemas dados ou recebidos pelo bicheiro, deixando mal seus interlocutores, como são informações tiradas de alguma das milhares de páginas do relatório da Polícia Federal sobre a Operação Monte Carlo.
De graça essas coisas não acontecem, quer dizer, existe um centro de abastecimento da mídia que alimenta permanentemente o noticiário. Saber onde se localiza a fonte, ou as diversas fontes, constitui missão impossível.
As conclusões da Polícia Federal estão com a própria instituição, com o Supremo Tribunal Federal, com o Conselho de Ética do Senado, com a CPI mista agora instalada, com o ministério da Justiça, com a Abin e onde mais? Parece uma peneira, ou, em outra imagem, um conta-gotas alimentado por um oceano.

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FALTOU UM

Ninguém, no Congresso, tem lutado tanto contra a impunidade do que o senador Pedro Simon. Há décadas ele bate todos os dias nessa tecla, exortando governos e sociedade a combaterem o grande mal que assola o país. Como por sua independência é visto com desconfiança pelos líderes do PMDB, jamais foi incluído numa CPI sequer.
Eles tem medo da metralhadora giratória capaz de atingi-los, aliás, com razão. Não se dirá que Simon faz falta na CPI do Cachoeira, porque como senador, tem todas as prerrogativas para comparecer, opinar e inquirir possíveis depoentes. Ficam mal aqueles que não o escalam, porque entrar em campo, ele vai entrar. Ou melhor, já entrou…

Carlos Chagas

STF: PRESCRIÇÃO DE PENA NÃO SIGNIFICA PRESCRIÇÃO DE JULGAMENTO


Reportagem de Felipe Selligman, Folha de São Paulo de segunda-feira 23, apresentou todos os réus do processo mensalão, inclusive com suas fotografias e, na sequência, sustentou que, nos casos de pena mínima o passar do tempo conduz à prescrição dos crimes.

Acentuou Seligman que, nas hipóteses de penas mais fortes, o prazo prescricional ocorreria em 2015. O repórter, a meu ver, deveria ter aprofundado mais a análise para não fornecer a impressão (equivocada por certo) de que a matéria trazia também como objetivo indireto relaxar a tensão que está sem dúvida marcando os passos do presidente da Corte, ministro Carlos Ayres Brito.

É preciso separar as coisas. A prescrição das penas mínimas pode ocorrer, mas como o STF, antes do julgamento vai saber quais as que serão aplicadas? Inclusive as decisões variam de réu para réu. Nem todos são iguais ou possuem responsabilidade igual no mesmo processo que começou em 2005.

A denúncia foi encaminhada pelo então Procurador Geral da República, Antonio Fernando de Souza, em 2005, e aceita em 2007 pelo ministro Joaquim Barbosa, relator. Os acusados vão ser condenados ou absolvidos em 2012, cinco anos depois.

Por que a data de 2015? Não faz sentido. Sobretudo porque o ministro Ayres Brito já afirmou, mais de uma vez, que o mensalão será julgado este ano.
Se o presidente do Supremo já marcou julgamento final para este ano é porque, fica implícito, ele não mistura as figuras de prescrição de processo e prescrição da pena.
A pena, inclusive, não é só a de prisão. Existe também o efeito moral. Este, inclusive, é o espírito da lei sancionada pela Presidente Dilma Rousseff que instituiu a Comissão da Verdade.

O nome está dizendo. Não se trata de anular a lei da anistia, de agosto de 79, assinada pelo presidente João Figueiredo. Mas somente fixar a realidade do que aconteceu da forma mais nítida possível. Trata-se de produzir história.
Não se vai colocar ninguém na prisão. Mas divulgar-se a fotografia dos personagens de ambos os lados. Por que incomoda tanto? Exatamente porque psicologicamente a condenação não se restringe apenas a privar-se alguém da liberdade. Existe a consciência humana. Existe a consciência pública. Há ainda a autocondenação. Todas essas são punições fora das grades.

Assim, não se trata de condenar ou absolver, sob o ângulo do Supremo Tribunal Federal, mas de simplesmente julgar. O que não pode haver é omissão. Uma Suprema Corte deixar de cumprir seu dever. Ela está no topo da sociedade.
Que pensaria o país se o STF chutasse a bola para frente, para 2015, por exemplo, quando Ayres de Brito e Joaquim Barbosa não estivessem mais presentes? Em tal hipótese, julgado seria o próprio Tribunal. E, claro, não poderia ser absolvido.

Talvez passase a ser ignorado, pena suprema que lhe poderia ser aplicada. Não só pela sociedade brasileira. O gesto omisso ficaria para sempre na história do Brasil.Tenho a impressão que Felipe Seligman escreverá uma nova matéria focalizando o aspecto geral a que me refiro e, uma boa oportunidade para isso, será entrevistar o próprio Ayres de Brito.
Ele terá então a oportunidade de, num grande jornal como a FSP esclarecer a diferença essencial entre prescrição de pena e prescrição do processo.

HISTÓRIAS DO JORNALISTA SEBASTIÃO NERY


JADER BARBALHO, O AGIOTA DO PARÁ
General, interventor, governador, senador e glória do Pará desde a revolução de 30, Magalhães Barata foi ao aeroporto esperar o presidente Juscelino Kubitschek em sua primeira viagem ao Estado.
PSD e PTB disputavam o controle das posições federais no Pará e o velho líder pessedista não admitia que lhe tentassem puxar o tapete. O centro da briga era Valdir Bouhid, superintendente da SPEVEA, que os inimigos de Barata queriam derrubar e Barata queria manter.

Em Belém corria a notícia de que Juscelino já ia chegar levando no avião o novo superintendente. Barata espumava. Quando JK, desceu, atrás dele, levemente careca, um homem de olhar morno espiava os cantos como quem não sabia de nada e as pessoas como quem gostasse de saber tudo.
Barata, desconfiado, depois de abraçar Juscelino, mal cumprimentou o homem de olhar neutro. O presidente chamou Barata:

- General, tenho o prazer de lhe apresentar um dos líderes das finanças de Minas, o dr. Gilberto Faria, presidente do Banco da Lavoura de Minas (depois dividido em Banco Real, de Aloysio Faria, e Banco Bandeirantes, do irmão Gilberto).

Barata mediu o mineiro intruso, olhou rispidamente para Juscelino e rosnou, irritado:

- Presidente, me desculpe, mas se o novo homem é este o Pará agradece. De agiotas as esquinas de Belém estão cheias.

Juscelino caiu na risada. Gilberto Faria continuou com seu olhar morno e neutro, sem nada entender. Valdir Bouhid ficou na SPEVEA.

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O MAU HERDEIRO

Quarenta anos depois, o herdeiro político do PSD do general Barata no Pará e principal líder político do Estado nos últimos vinte anos, Jader Barbalho foi obrigado a renunciar ao mandato de senador, preso e vilipendiado por descabidas, arbitrárias e brutamontes algemas.
Depois, teve seus bens seqüestrados pela Justiça. Por quê? Por agiotagem. Por desvio de dinheiro público para suas contas bancárias. Todas as acusações contra ele resumem-se numa só: desviar e especular com dinheiro público, da Sudam, do Banpará, da Reforma Agrária e da Previdência.
Jader é o agiota que o general Barata pensava que Gilberto Faria era.

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TANCREDO, O SÁBIO

Tancredo Neves dizia: – “Em política, todo acréscimo significa também uma subtração. É preciso fazer bem as contas. Se der soma zero, não faça”.
O apoio do PSB a Fernando Haddad, por insistência de Lula, que está difícil de ser fechado, pode ser uma soma zero.

Sebastião Nery
28 de abril de 2012

TODOS SOMOS ARGENTINOS

O Brasil pode e deve, ser solidário com a Argentina, no caso da recuperação, para seu povo, das jazidas petrolíferas da YPF. O Brasil e a Argentina, sendo os dois maiores países da América do Sul, têm sido alvos preferenciais do domínio euro-americano em nosso continente.

A Argentina, sob Cristina Kirchner, depois de anos desastrados de ditadura militar, e do governo caricato e neoliberal de Menen, se confronta com Madri, ao retomar o controle de suas jazidas de petróleo que estava com a Repsol.
Quando um governo entrega, de forma aviltante, os bens nacionais ao estrangeiro, como também ocorreu no Brasil, procede como quem oferece seu corpo no mercado da prostituição. Assim, as medidas de Cristina buscam reparar a abjeção de Menem.
Será um equívoco discutir o conflito de Buenos Aires com Madri dentro dos estreitos limites das relações econômicas. A economia de qualquer país é um meio para assegurar sua soberania e dignidade – não um fim em si mesma.

As elites espanholas, depois da morte de Franco, foram seduzidas pela idéia de que poderiam recuperar sua presença na América Latina, perdida na guerra contra os Estados Unidos e durante a ditadura de quase 40 anos.
Já durante o governo de Adolfo Suárez, imaginaram que poderiam, pouco a pouco, readquirir a confiança dos latino-americanos, ofendidos pela intervenção descarada dos Estados Unidos no continente.
De certa forma, procediam com inteligência estratégica: a nossa América necessitava de aliados, mesmo frágeis, como era a Península Ibérica, na reconstrução de sua soberania, mutilada pelos governos militares alinhados a Washington.

Mas faltou aos governantes e homens de negócios espanhóis a habilidade diplomática, que se dissimula na modéstia, e lhes sobrou arrogância. Essa arrogância cresceu quando a Espanha foi admitida na União Européia, e passou a receber fartos recursos dos países ricos do Norte, a fim de acertar o passo continental.
A sua estratégia foi a de, com parte dos recursos disponíveis, “comprar” empresas e constituir outras em nossos países. Isso os levou a imaginar que poderiam ditar a nossa política externa, como serviçais que foram, e continuam a ser, dos Estados Unidos. A idéia era a de que, em espanhol, os ditados de Washington seriam mais bem ouvidos.

O paroxismo dessa paranóia ocorreu quando José Maria Aznar telefonou ao presidente Duhalde, da Argentina, determinando-lhe que aceitasse as imposições do FMI, sob a ameaça de represálias. E a insolência maior ocorreu, e sob o governo socialista de Zapatero, quando esse heróico matador de paquidermes indefesos, Juan Carlos, mandou que o presidente Chávez (eleito livremente pelo seu povo, sob a fiscalização de observadores internacionais, entre eles o ex-presidente Carter) se calasse, no encontro iberoamericano de Santiago.
Um rei matador de elefantes indefesos e sogro de um acusado de peculato – o bem apessoado serviçal da Telefónica de Espanha, Iñaki Urdangarin, pago com lucros obtidos pela empresa na América Latina, principalmente no Brasil.

Os espanhóis parecem não se dar conta de que as suas antigas colônias se tornara
m independentes, umas mais cedo – como é o caso da Argentina – e outras mais tarde, embora muitas passassem ao domínio ianque. Imaginaram que podiam fazer o que faziam antes disso no continente – e incluíram o Brasil na geografia de sua presunção.

O Brasil pode e deve, ser solidário com a Argentina, no caso da recuperação, para seu povo, das jazidas petrolíferas da YPF. E manter a nossa posição histórica de reconhecimento da soberania de Buenos Aires sobre o arquipélago das Malvinas.

Que querem os espanhóis em sua gritaria por solidariedade contra a Argentina, pelo mundo afora? Eles saquearam tudo o que puderam, durante o período colonial, em ouro e prata. Usaram esses recursos imensos – assim como os portugueses fizeram com o nosso ouro – a fim de construir castelos e armar exércitos que só se revelaram eficazes na repressão contra o seu próprio povo – como ocorreu na guerra civil.

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POR QUE NÃO FAZEM PÃES

Durante o seu período de arrogância subsidiada, trataram com desdém os mal chamados iberoamericanos, humilhando e ofendendo brasileiros e latino-americanos, aviltando-os ao máximo. Um só ser humano, em sua dignidade, vale mais do que todos os poços de petróleo do mundo.
Antes que Cristina Kirchner determinasse a recompra das ações da YPF em poder da Repsol, patrimônio muito maior dos argentinos e de todos os latinoamericanos, sua dignidade, havia sido aviltada, de forma abjeta e continuada, pelas autoridades espanholas no aeroporto de Barajas e em seu território.
Que se queixem agora aos patrões, como seu chanceler, Garcia-Margallo fez, ao chorar nos ombros da senhora Clinton, e busquem a solidariedade de uma Europa em frangalhos.
Ou que rearmem a sua Invencível Armada em Cádiz, e desembarquem no Rio da Prata . Isso, se antes, os milhões de jovens desempregados – a melhor parcela de um povo maravilhoso, como é o da Espanha – não resolvam destituir suas elites políticas, corruptas, incompetentes e opressoras, e seu rei tão ocioso quanto descartável.

E, ao final, vale lembrar a viagem histórica que Eva Perón fez à Europa, no auge de sua popularidade. Em Madri, diante da miséria em que se encontrava o povo, ofereceu a Franco, em nome do povo argentino, alguns navios cheios de trigo. O general respondeu que não era necessário, que os celeiros espanhóis estavam cheios de farinha. E Evita replicou, de pronto: “¿entonces, por qué no hacen pan?”

28 de abril de 2012
Mauro Santayana
(Transcrito do Jornal do Brasil Online)

O ATROZ ENCANTO DE SER ARGENTINO

A partir da segunda metade do século XX, a Argentina se transformou num dos melhores exemplos vivos de que é possível andar para trás.

Matéria sobre a Argentina da revista Veja desta semana começa com a afirmação de que “A presidente Cristina Kirchner expropria os espanhóis da petrolífera YPF e dá mais um passo rumo à ‘venezuelização’ da Argentina e encerra com a frase “Como sempre, o povo argentino será o maior prejudicado por se deixar seduzir pelo nacionalismo barato”.

Confesso que sou daqueles que só sentem prazer em derrotar a Argentina nas quadras e nos campos esportivos. Fora disso, tenho profunda admiração pelo país, em especial por sua capital, onde possuo volume considerável de amigos.
Desde cedo, primeiro graças aos comentários de meu pai, posteriormente com os estudos regulares, aprendi que a Argentina é um país dotado de recursos naturais essenciais abundantes, que atingiu, na metade do século XX, padrões de desenvolvimento superiores aos de diversos países europeus, que sua capital tem um extraordinário número de livrarias, que já havia eliminado o analfabetismo e era o país sul-americano com maior taxa de graduados em nível superior.

Ouvi também, tendo o desprazer de acompanhar em boa parte, a sucessão de disparates que fizeram com que a partir da segunda metade do século XX a Argentina se transformasse num dos melhores exemplos vivos de que é possível andar para trás.
A exemplo do caranguejo, o país apresenta indicadores socioeconômicos muito inferiores aos que já ostentou no passado e, ao que tudo indica, a descida ladeira abaixo não vai parar tão cedo.

Os disparates começaram com o casal Perón. A peça Evita, com diversas montagens no exterior e no Brasil, dá uma ótima visão do que se passou na Argentina naquela época (anos 50).
A alternância entre peronistas e militares – brevemente interrompida durante a gestão do presidente Raúl Alfonsín – é responsável por diversos outros disparates, quer no plano econômico, quer no político, quer no militar, com destaque para a invasão das Ilhas Falklands/Malvinas no início da década de 1980.

Procurar entender o que se passa na Argentina num breve comentário como este é impossível. Mas é possível sugerir algumas leituras que poderão ajudar bastante nesse sentido. Portanto, para aqueles que tiverem interesse em compreender melhor a triste sina argentina, fica aqui minha recomendação dos seguintes livros:

- El Estado y yo, de Faustino A. Fernández Sasso
- Manual do perfeito idiota latino-americano, de Plinio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa
- O atroz encanto de ser argentino (1 e 2), de Marcos Aguinis
- Patrimonialismo e a realidade latino-americana, de Ricardo Vélez Rodríguez
- O regresso do idiota, de Plinio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa
- Pobre Patria Mía!, de Marcos Aguinis
- A análise do patrimonialismo através da literatura latino-americana, de Ricardo Vélez Rodríguez

28 de abril de 2012
Luiz Alberto Machado

"A CARNE E O SANGUE" - PAIXÃO E VENENO NA CORTE DE D.PEDRO I

Mary del Priore pesquisou uma extensa documentação para contar uma história de amor e política.

Em seu novo livro “A carne e o sangue” publicado pela Editora Rocco, a historiadora Mary del Priore com uma narrativa envolvente descreve o famoso triângulo amoroso formado pelo primeiro imperador do Brasil, sua esposa melancólica, gorda, casta e conservadora, a arquiduquesa Maria Leopoldina da Áustria, e sua amante paulista Domitila de Castro Canto e Melo, uma jovem bela, esbelta e livre que não poluía o prazer com escrúpulos e orações.

Mary del Priore pesquisou uma extensa documentação, em grande parte inédita, em especial no arquivo do Museu Imperial de Petrópolis, para contar uma história ao mesmo tempo amorosa e política, que influiu no destino de uma nação. O sofrimento de Leopoldina com as aventuras extraconjugais do marido antecede o encontro de D. Pedro I com Domitila (ou Titília, como ele a chamava), que mais tarde receberia o título de marquesa Santos do imperador, mas dessa vez ele apaixonou-se perdidamente pela amante e em sua casa libertava-se da monotonia da corte austera da imperatriz Leopoldina.

No livro Cartas de D. Pedro I à marquesa de Santos editado em 1984 pela Nova Fronteira, sob a coordenação do Arquivo Nacional, as cartas que ele assinava às vezes como O Demonão ou Fogo Foguinho, no ardor apaixonado de certas expressões como “vou ser seu mico”, apressado e cheio de desejo de “ir ao cofre”, algumas citadas em A carne e o sangue, mostram o imperador em sua intimidade, sem as pompas protocolares da corte; um homem apaixonado como qualquer outro, com ciúmes da mulher amada. Em uma carta à marquesa de Santos de 4 de maio de 1824 ele escreveu: “Eu sou imperador, mas não me ensoberbeço com isso, pois sei que sou um homem como os mais, sujeito a vícios e a virtudes como todos o são.”

D. Pedro incentivava a presença da marquesa e dos filhos bastardos nos compromissos da corte. Essa presença constante foi, de acordo com Mary, um dos motivos da doença de Leopoldina. Em dezembro de 1826, após a morte da imperatriz, o tumulto instalou-se na cidade. A opinião pública diante do sofrimento e humilhação de Leopoldina e os murmúrios e calúnias contra a marquesa de Santos, que desgastaram sua relação com o imperador, foram decisivos para o retorno de Domitila a São Paulo. Além disso, foi uma condição imprescindível para seu casamento com a princesa Amélia de Leuchtenberg, a futura imperatriz. Ainda segundo Mary, o retorno de D. Pedro a Portugal em 1831 foi influenciado, entre outros fatos, pelo declínio da imagem pública dele.

No triângulo feito de carne e sangue a imperatriz Leopoldina viveu seu destino com estoicismo. D. Pedro esqueceu sua paixão feita de desejo impetuoso, feitiço e egoísmo. A Domitila restaram as lembranças de um amor que tanto escandalizou sua época.

Mary del Priore, autora de mais de trinta livros sobre história do Brasil entre eles História da vida privada, História das mulheres no Brasil, Histórias íntimas e agora o recém-publicado A carne e o sangue mais uma vez surpreende o leitor pelo rigor da pesquisa histórica, mas, ao mesmo tempo, o fascina com os relatos de erotismo e ciúme, intrigas, o casamento como perpetuação da linhagem e o prazer entremeados à história de nosso país.

28 de abril de 2012
Marisa Motta

FLORES E LIBERDADE: REVOLUÇÃO DOS CRAVOS COMPLETA 38 ANOS

Portugal deve sua democracia a militares golpistas que há 38 anos destituíram um governo civil tirânico sem dispararem uma bala sequer


“Tu vieste em flor, eu te desfolhei. Tu te deste em amor, eu nada te dei. Em teu corpo, amor, eu adormeci. Morri nele. E ao morrer, renasci.” Assim diz a canção “E depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho. A música ressoou por toda Lisboa precisamente às 22h45m do dia 24 de abril de 1974, transmitida pelos Emissores Associados da capital lusitana. Era o primeiro chamado para a revolução, como havia sido previamente combinado por oficiais da hierarquia intermediária do exército português.

Poucas horas depois, às 0h20m do dia 25, foram os versos de “Grândola Vila Morena” que ecoaram pela madrugada lisboeta. Era o sinal que faltava. “Em cada esquina, um amigo. Em cada rosto, igualdade.” Quando a voz de Zeca Afonso foi ouvida do Terreiro do Paço à Mouraria cantando a letra banida pelo regime salazarista, soube-se com alegria que em Portugal a censura e a repressão não tinham mais vez.

Assim, com trilha sonora e tudo, o Movimento das Forças Armadas (MFA) desencadeou o levante que pôs fim a uma ditadura que vigorava desde 1926, num só dia e sem disparar um tiro sequer.
Era o fim do fascismo português, que já estava carcomido pela tresloucada perpetuação da aventura colonial na África. Portugal se viu livre do salazarismo quatro anos após a morte do próprio Salazar, e seis depois do seu afastamento da presidência do Conselho de Ministros por motivos de saúde.

Na manhã seguinte àquela madrugada de música e de democracia — democracia que vinha à luz pelo inusitado caminho de um golpe militar –, a população saiu às ruas e distribuiu cravos vermelhos aos soldados, em forma de agradecimento e solidariedade. Reza a lenda que os cravos apareceram pelas mãos de uma florista que levava ramalhetes para a inauguração de um hotel, mas são muitas as histórias que se contam em Lisboa a respeito daquele 25 de abril.

Fato mesmo é que os soldados, um após o outro, começaram a colocar as flores nos canos dos seus fuzis, batizando sem saber, com letras maiúsculas, uma revolução que ainda hoje é celebrada em Portugal como se tivesse sido feita ontem.
Quando visitou Lisboa durante o período revolucionário, Gabriel García Márquez reportou a alegria do povo para a revista colombiana Alternativa: “É um país que nunca dorme.
Às quatro da madrugada, numa quinta-feira qualquer, não havia um só táxi desocupado”. No 1° de maio daquele ano, um milhão de pessoas marcharam pelas ruas da capital para celebrar o Dia do Trabalho.

O processo revolucionário colocou em prática um programa para reerguer a economia, a política e a sociedade portuguesas do limbo no qual se encontravam em razão das dispendiosas e traumáticas guerras coloniais. Todas as ações eram baseadas no três
Ds revolucionários: democratizar, descolonizar e desenvolver. Sindicatos e partidos foram legalizados, portugueses voltaram do exílio e se abriu as portas da prisão de Peniche, onde o regime fascista trancafiava seus presos políticos.
No dia 25 de abril de 1975 foram realizadas as primeiras eleições livres, para a Assembleia Constituinte.
Venceu o Partido Socialista, para alívio dos que morriam de medo de que a Revolução dos Cravos terminasse em uma Cuba incrustada na Península Ibérica, e não no modelo europeu de democracia parlamentar, como afinal aconteceu.
No início, o Partido Comunista Português havia sido o único e incondicional aliado do MFA. Com os ânimos acirrados desde o 25 de abril, até hoje o PS e o PCP se digladiam na tribuna do palácio de São Bento, sede do Parlamento português.

E o Brasil com tudo isso? O sucessor de Salazar, Marcello Caetano, exilou-se por aqui depois de ser deposto pela revolução. Foi morar em Copacabana e acabou como diretor do Instituto de Direito Comparado da Universidade Gama Filho. Morreu em 1980 vitimado por um prosaico ataque cardíaco. Mas isto é para os registros biográficos dos ditadores do século XX.

Paulo Francis disse certa vez que a maior contribuição da Revolução dos Cravos para o nosso país havia sido a chegada ao Rio de Janeiro do restaurante Antiquarius, em 1977. Após o fim do salazarismo, o ex-governador do Rio Carlos Lacerda teria convidado os sócios de uma pousada da região do Alentejo a se mudarem para o Brasil, onde não teriam problemas com revolucionários quaisquer e poderiam abrir um restaurante português de alto nível.

Francis certamente exagerou, com muita ironia e bom humor, como era seu hábito. A Revolução dos Cravos ajudou a deitar por terra um muro erguido pelo autoritarismo que separou dois povos irmãos. Foram décadas de ignorância recíproca. O caminho aberto pelo 25 de Abril para o intercâmbio cultural, político e econômico entre brasileiros e portugueses só foi pavimentado mesmo mais recentemente, quando da redemocratização do Brasil, mas foram os Cravos que aplainaram o terreno para a compreensão mútua.

Os estragos causados pela censura e demais cerceamentos autoritários nas relações bilaterais ainda não foram totalmente sanados, o que se reflete no absoluto descaso com que nossa mídia e elites políticas em geral tratam aquela pátria tão distante, mas tão próxima de nós por razões mais do que óbvias.

Você sabe o nome do presidente de Portugal? Já viu a foto do primeiro-ministro português?
Um passo importante no sentido de estreitar os laços foi o acordo assinado há poucos anos entre o ministério brasileiro da Justiça e a Universidade de Coimbra para a troca de informações sobre as ditaduras de lá e de cá. Mas ainda é pouco.

Quando a Revolução dos Cravos estourou, com suas músicas-código rasgando a noite de Lisboa e seus fuzis feitos de vasos de jardim, Chico Buarque escreveu uma canção chamada “Tanto Mar”, que na letra original dizia o seguinte:

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim


Chico encarnava em seus versos a melancolia de um Brasil que acabava de ver o general Ernesto Geisel ser empossado como o quarto presidente do regime militar, mas também saudava e parabenizava os felizardos do outro lado do Atlântico, que num certo 25 de abril amanheceram entre flores e liberdade.

28 de abril de 2012

Hugo Souza