"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



quinta-feira, 19 de abril de 2012

COMEÇA A INDICAÇÃO DE NOMES PARA A CPI DO CARLINHOS CACHOEIRA

Partidos começam a indicar nomes para CPI; PCdoB indica deputado flagrado em conversa com homem do esquema Cachoeira

Por Marcelo Parreira e Nathalia Passarinho, no Portal G1. Volto depois:
Partidos com representação no Congresso já anunciaram as indicações de pelo menos 18 dos 32 integrantes da
CPI mista criada nesta quinta (19) para investigar as relações de políticos, governantes e empresários com o bicheiro Carlos Augusto Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso desde fevereiro, acusado de chefiar um esquema de jogo ilegal.

O prazo oficial para as indicações termina na próxima terça-feira (24), mas muitas legendas já anteciparam os nomes dos indicados. Na terça, haverá nova sessão do Congresso Nacional (que reúne deputados e senadores) para que seja feita a instalação da CPI. Nessa sessão, serão oficializados os nomes dos titulares e suplentes da comissão.

A CPI terá seis meses para investigar os fatos, mas o período pode ser prorrogado. Uma comissão de inquérito tem poderes para pedir quebra de sigilo fiscal e telefônico. Ao final, um relatório sobre a investigação será encaminhado para o Ministério Público Federal, que poderá tomar medidas judiciais cabíveis nas áreas cível ou criminal.

Apesar do requerimento que criou a CPI informar que a comissão terá 15 deputados e 15 senadores (com distribuição proporcional pelas bancadas), o regimento do Congresso Nacional prevê uma vaga extra em cada casa a ser destinada a um partido que não tenha bancada necessária para ter direito a participar da comissão. No Senado, essa vaga será destinada ao PSB. Na Câmara, ao PC do B. Além dos 16 titulares, a CPI terá outros 16 suplentes.
(…)

DEPUTADOS

Íris de Araújo (GO) PMDB
Luiz Pitiman (DF) PMDB
Carlos Sampaio (SP) PSDB
Fernando Francischini (PR) PSDB
Onix Lorenzoni (RS) DEM
Iracema Portella (PI) PP
Paulo Foletto (ES) PSB
Rubens Bueno (PR) PPS
Protógenes Queiroz (SP) PC do B
Filipe Pereira (RJ) PSC
Miro Teixeira (RJ) PDT
Silvio Costa (PE) PTB
Maurício Quintella Lessa (AL) PR

SENADORESFernando Collor (AL) PTB
Vicentinho Alves (TO) PR
*Alvaro Dias (PR) PSDB
*Jayme Campos (MT) DEM
*Cássio Cunha Lima (PB) PSDB
*Aloisio Nunes Ferreira (SP) PSDB
*Jarbas Vasconcelos (PE) PMDB
*Randolfe Rodrigues (AP) PSOL

(*)Ainda se vai definir quem será titular e quem será suplente

Voltei

O PCdoB indicar o tal Protógenes ou é piada de mau gosto ou é tentativa de desmoralizar a CPI antes mesmo de ela começar. Este senhor é um dos flagrados em conversas incômodas com um dos principais homens do esquema de Carlinhos Cachoeira: Idalberto Matias, o Dadá.
O ex-delegado, que só está livre de um processo (por enquanto) porque se tornou deputado (eleito com os votos de Tiririca, o palhaço assumido) em razão das ilegalidades praticadas na Operação Satiagraha, usou os serviços do araponga. Está mais para investigado do que para investigador.

19 de abril de 2012
Por Reinaldo Azevedo

BOCOZICES NIETZCHEANAS


Seria surpreendente encontrarmos um socialista e um liberal unidos por uma causa comum? Nem tanto. Ambos são filhos do racionalismo iluminista, com toda a praga de totalitarismos e relativismos que esse pensamento gerou.

Confesso, há certos blogueiros que servem para “malhação de Judas”, servem como saco de pancadas. Eles apanham, não somente pelos posicionamentos ideológicos, mas pela superficialidade com que discorrem sobre assuntos complexos.
A república brasileira é, atualmente, o paraíso dos palpiteiros. Recentemente, no dia 15 de abril, participei de um debate sobre capitalismo e socialismo, no programa do site Rádiovlogs, do vlogueiro Daniel Fraga (confira abaixo). E uma deficiência que vejo na fala de certos interlocutores é a velha expressão “eu acho”... As pessoas dificilmente explanam fatos, realidades, acontecimentos, que justifiquem suas idéias. Simplesmente parece que conjecturar sobre capitalismo ou socialismo é pura defesa de gosto.

Já fiz vários blogueiros de saco de pancadas. Um deles foi o professorzinho esquerdista da PUC, Leonardo Sakamoto. A desonestidade intelectual dos seus argumentos e o puxa-saquismo governamental foram causas de alguns artigos nada elogiosos do meu blog. E há também Rodrigo Constantino.
Curioso é notar que ele se identifica como liberal. Todavia, sendo um liberal, tem os mesmíssimos pontos de vista de Leonardo Sakamoto, no que diz respeito ao aborto, à eutanásia, ao casamento homossexual e ao ódio a religião. Em outras palavras, seria surpreendente encontrarmos um socialista e um liberal unidos por uma causa comum? Nem tanto. Ambos são filhos do racionalismo iluminista, com toda praga de totalitarismos e relativismos que esse pensamento gerou.

Neles, existe uma notória aliança: a associação espiritual com a morte. Não esperaria outra coisa de um comunista como Sakamoto. Contudo, de um liberal, ao menos, se supõe a defesa do direito à vida. Constantino cita Nietzsche para criticar a piedade dos cristãos. Nós, cristãos, somos os “cultores” do sofrimento humano! Desprezamos a vida em sua “potência plena” (essas foram as palavras do blogueiro). P
orque os cristãos, no fundo, são vaidosos e hipócritas, que adoram ver gente sofrer. Que absurdo esperar que a lei proteja a vida dos nascituros doentes ou defeituosos, contra a sanha dos pais e dos engenheiros sociais! Como esses inúteis não sobreviverão, ou mais, não chegarão a
“potência plena” de vida, a melhor caridade que se faz é matá-los.

Mas afinal, o que é “potência plena”? Nietzsche idealizava o super-homem, a “vontade da potência”, e, no entanto, era um pobre doente que ficou louco. Constantino idealizará um estereótipo de perfeição humana, para que alcancemos a tal “potência plena”? Um austríaco frustrado, embebido com algumas ideias nietzscheanas, também idealizou um novo homem, perfeito, belo, másculo, superior: Adolf Hitler. E deu no que deu.

A guerra, os massacres de povos inteiros, o genocídio. E no fim, a derrocada da civilização européia. E o nosso liberal de meia pataca se ofende quando é chamado de nazista.
A discussão sobre a anencefalia no STF espantou pela sua natureza pseudo-científica e anti-ética. Primeiro, porque reduziu a vida a um mero problema biológico, como se o processo mesmo definidor da vida se resumisse a um prognostico técnico previsto por médicos. E segundo, porque a ética relacionada ao direito à vida, instituída na Constituição e na legislação infra-constitucional, foi solenemente ignorada pela subjetividade de perspectivas dos ministros. Ou melhor, pelas crendices materialistas impregnadas no conceito da vida humana.

Os médicos e ministros do Supremo são uma espécie autodeclarada de semideuses, autoridades eclesiásticas de uma nova ordem, definindo, ao arrepio da discussão moral, da filosofia e da própria complexidade visível da existência humana, quem deve viver e morrer.
E, lembremos, pela presunção cega de que supostamente não há vida. O fato de crianças anencéfalas terem sobrevivido ao nascimento por algum tempo foi ignorado pelo STF. Como são frágeis demais para viverem, por que se dar ao trabalho de cuidá-las? Na prática, a Corte Suprema do país deu largo precedente para a eugenia pura e simples. O nascituro, filho de um casal, é portador de síndrome de Down? É fisicamente defeituoso? É pobre? Ou não atende a um estereótipo de “potência” para uma vida plena? Então, elimina-se os fracos.

Rodrigo Constantino é reflexo de uma humanidade cada vez mais mesquinha e covarde. Uma humanidade frouxa, que teme a dor e o sacrifício, pelo fato de não se responsabilizar por ninguém e, tampouco, pelos dramas da própria existência. A vida é também sofrimento e dor, para que haja maturidade no homem. Quem não sofre, nunca cresce.

O que está se produzindo é uma sociedade de gente imatura e de infância prolongada, por não aceitar a fase adulta da vida. Esse tipo de gente é tão estúpido, que muitas vezes prefere morrer a aceitar a dor.

O cristianismo nos ensina aceitar a dor como parte da vida e da existência. E da dor extrai-se alguma lição moral de superação e dignidade. Dignidade que é intrínseca ao ser humano, independentemente do seu estado.
O universo filosófico nietzscheano de Constantino é puramente infantil. É mero reflexo das compensações um filósofo louco, que não possuía qualquer firmeza espiritual, para o viés de sua enfermidade.

Debate Capitalismo x Socialismo na Rádio Vlogs.

http://www.youtube.com/watch?v=5I45fi-aTdw&feature=player_detailpage

Debate entre Leonardo Bruno e Daniel Fraga: Estado Laico.
http://www.youtube.com/watch?v=nkE72adh3AI&feature=player_detailpage


Escrito por Leonardo Bruno

LANÇADO UM PORTAL IMPERDÍVEL, QUE EXIBE A FOLHA CORRIDA DOS PARLAMENTARES

Segue endereço de um portal criado para termos acesso a todos os dados dos parlamentares em exercício (inclusive passagens pela justiça).
Basta clicar na cidade ou estado e fazer a busca. Se buscarem sem digitar nada, aparece uma lista com todos os políticos da zona escolhida.

http://www.excelencias.org.br

Façam bom uso e COMPARTILHEM essa ferramenta, que é muito importante. Estamos num ano de eleições e podemos fazer a diferença.

Lembrem-se desse conselho da filósofa russo-americana Ayn Rand, judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920:


“Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem nada produz; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.


SAIA JUSTA. COMANDANTE DO EXÉRCITO CRITICA BAIXOS SALÁRIOS NA FRENTE DE DILMA

Reportagem de Márcio Falcão mostra que, na presença da presidente Dilma Rousseff, o comandante do Exército, general Enzo Peri, mandou um recado em defesa de melhores remunerações para os militares durante cerimônia em comemoração ao Dia do Exército.


O comandante disse que o soldado é “despojado de si mesmo e desapegado de interesses materiais”, mas precisa de “meios” para cumprir sua missão. “Sua ambição é ter meios para que possa bem cumprir sua missão, sem submeter-se a riscos desnecessários. Entretanto, por trás desse homem há uma família – o bem mais caro de todos nós -, onde repousa seu coração, e que precisa de condições compatíveis para viver com dignidade”, afirmou.


Diminuindo a saia justa, o general então pediu que a força confie no comando do Exército e na presidente Dilma Rousseff.


“Soldados, confiem na cadeia de comando – em todos os níveis, sob a autoridade suprema da presidenta da República; confiem que as manifestações de entendimento das nossas urgências serão traduzidas em atos concretos; confiem na valorização da carreira que escolheram por vocação; confiem nos estímulos que recebem pelo seu profissionalismo; confiem que existe o tempo certo para semear, cultivar e colher”, disse.

CAVENDISH ACHA QUE O ESCÂNDALO PODE QUEBRAR A DELTA. CABRAL ESTÁ INCONSOLÁVEL

O empresário Fernando Cavendish, presidente da Delta Construções, negou em entrevista exclusiva à Mônica Bergamo, publicada na Folha, afirma que, com o escândalo, a Delta vai “quebrar”. A empreiteira é a que mais recebe recursos do governo federal desde 2007.


A Delta, como se sabe, está no centro do escândalo do empresário-bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, envolvendo grande número de políticos, mas Cavendish alega que nem conhece os governadores Marconi Perillo (PSDB-GO) e Agnelo Queiroz (PT-DF), que aparecem nas gravações feitas pela Polícia Federal.


O Ministério Público faz a acusação da “sociedade oculta” com base em grampos e relatórios que mostram Demóstenes negociando verbas para obra em Anápolis (GO) e condicionando a liberação à contratação da Delta. Mas Cavendish nega, ao afirmar que o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) não é sócio oculto da empresa.


Quem está inconsolável com a situação de Cavendish é o governador Sergio Cabral, seu amigo de fé, irmão, camarada e ex-concunhado. Afinal, ainda faltam mais de dois anos de governo, tantas obras a fazer… Mas na verdade as preocupações do governador são mais no campo afetivo, porque se a Delta quebrar, logo aparece outra empreiteira compreensiva para ocupar seu lugar. É só consultar as páginas amarelas do Código de Ética.



CHARGE DO DUKE

O POETA E OS APRESSADINHOS

Queria falar sobre ETs e a origem da vida na Terra (sem a permissão dos criacionistas), com pinceladas de Rod Serling e Robert Wise. Fica para a próxima. No meio do caminho, fui atropelado – e não fui o único – por um poema-bomba e não vou jogá-lo fora com um peteleco blasé. Simplesmente não dá.


Quem é que ia dar bola para um poema, menos de trinta linhas, publicado num pequeno jornal do sul da Alemanha? Acontece que o autor era Günter Grass, prêmio Nobel de literatura, e o alvo uma suposta ameaça de Israel à paz mundial.


Um bombardeio pesado veio em reação. Foi do patético (a embaixada israelense em Berlim não teve pudor em divulgar uma nota, enquadrando Grass na mitologia antissemita do assassinato ritual de gentios antes da Páscoa judaica) ao comedido. Creio que vale a pena olhar de perto o que está por trás dessa situação. Senão, caímos na histeria e no assassinato da Razão.


Grass, é verdade, serviu, por um breve período e no final da Segunda Guerra Mundial, na SS, a tenebrosa tropa de elite nazista, responsável por crimes hediondos. Era um adolescente que, como tantos outros, foi provavelmente forçado a se alistar no ocaso do Terceiro Reich, quando começavam a escassear recrutas.


A ligação com a SS foi um dos argumentos usados para desqualificar o grande escritor alemão e acusá-lo de antissemita. Ora, sem levar em conta as circunstâncias em que ele esteve na SS e a idade que tinha (quantos de nós estão completamente amadurecidos com dezessete anos?), é imoral julgá-lo.


Mais do que isso. Tristão de Athayde, San Tiago Dantas e Dom Helder Câmara, para ficar nos mais conhecidos, foram integralistas na juventude. Dantas chegou a contribuir para o jornal dos galinhas verdes em São Paulo. Todos mudaram e, cada um à sua maneira, deram importante contribuição humanista para a política brasileira. Se a lupa congelasse nos anos 1930, seriam execrados.


Grass ousou criticar a pusilanimidade com que a comunidade internacional trata o único estado nuclear do Oriente Médio: Israel. O Estado judeu tem um arsenal atômico não determinado (calcula-se em algumas dezenas de bombas), tecnologia militar para alcançar qualquer país da região e se recusa a admitir fiscalização independente (a mesma que exige, junto com seus aliados, do Irã). Não assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e obteve parte do material, que usou para fabricar as bombas, da África do Sul, durante o regime de apartheid.


Será que é ser antissemita exigir ao menos igualdade de tratamento para as potências nucleares? O escritor alemão criticou a hipocrisia do Ocidente, que troca de lentes quando olha seus aliados. Nisso, estou com ele. Serei um ingênuo perigoso? Terei auto-ódio? Cartas para a redação.
Grass é “culpado” pela militância pró-palestina.
Ah, isso não lhe perdoam os que igualam, de forma pueril e inconsistente, antissionismo e antissemitismo. O primeiro, é uma forma de manifestação política legítima, com a qual, ao longo da História, muitos judeus se identificaram. Ninguém é obrigado a concordar com ele. Os que discordam, com argumentos igualmente legítimos, podem lutar com seus adversários no terreno adequado: a política.


O segundo, é uma patologia múltipla, com braços religiosos, psicológicos, sociais. Claro que há casos em que um se aninha nos braços do outro, a política servindo de biombo para a patologia. Isso, no entanto, não é, em absoluto, obrigatório.


Grass vocalizou uma preocupação verdadeira: o que acontecerá caso Israel lance um ataque contra o Irã? Se isso for antissemitismo, muitos israelenses se enquadram no figurino, a começar pelos escritores David Grossman e Amos Óz. Grossman, que perdeu um filho num dos conflitos com o Líbano, chegou a dizer que, caso aconteça, o ataque será “uma aposta selvagem, apressada, passível de mudar o futuro completamente, de maneira que eu sequer me atrevo a imaginar”.


O fato de Grass ser alemão tira-lhe o direito e o dever de pensar sobre ações que envolvam um Estado nacional e, dentro dele, os judeus? Leio que o governo israelense proibiu a entrada de uma missão da ONU, criada para apurar o impacto dos assentamentos judaicos sobre a população palestina. Em 2010, autoridades israelenses deportaram uma prêmio Nobel da Paz (certamente uma ameaça perigosíssima à segurança nacional). Os falashas, judeus etíopes que vieram com fanfarras, protestam contra a discriminação. Será que criticar essas e outras mazelas deve ser monopólio dos patrícios? Se os críticos não pertencerem à tribo, serão antissemitas?


É tão constrangedor que me faz lembrar um personagem do seriado Seinfeld, um dos meus vícios declarados. É o tio Leo (uncle Leo). Judeu, ele via antissemitas em todos os cantos. Serviam-lhe um hambúrguer mal passado na lanchonete? O cozinheiro é antissemita! Não conseguia um bom lugar na sinagoga? O rabino é antissemita! A paranoia do Leo é engraçada na televisão. Na vida real, não tem graça nenhuma.

Jacques Gruman é judeu e dirige a ASA – Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação, no Rio de Janeiro
19 de abril de 2012

EFEITOS ESPECIAIS


Está delicioso ver Neymar jogar. Ele percebeu o quanto é capaz de driblar, de todos os jeitos, até o gol. Une a brincadeira e a fantasia com a técnica e a eficiência. Os efeitos especiais são variados, numerosos e cada dia mais bonitos. Um show! Nem Steven Spielberg seria capaz de tanto.
Se Neymar driblar do mesmo jeito, com a mesma frequência e objetividade, contra os melhores times e seleções do mundo, estará sempre entre os três melhores do planeta. Por isso e porque quer melhorar o futebol brasileiro, Muricy, insistentemente, tem pedido intercâmbio entre os grandes do Brasil e da Europa. Estamos isolados.


Bastaria mudar o calendário e diminuir os Estaduais. Isso não vai ocorrer. Os dirigentes, provincianos e politiqueiros, não estão nem aí para a qualidade do futebol.
Faltam mais discussões sobre o calendário, sobre os gramados, sobre os aspectos técnicos, táticos, científicos e psicológicos e sobre muitas outras coisas. Por outro lado, há um excesso de conversas inúteis, de briguinhas e de fofocas, que teimam em atrasar o nosso futebol.
A discussão atual é saber quem será o vice-presidente da CBF da região Sudeste: Zagallo, do Rio, ou Marco Polo del Nero, de São Paulo. Disputa inútil.


Coisas diferentes. Quando critico a falta de mais craques e a maneira de jogar do futebol brasileiro, não quero dizer que está uma porcaria, no fundo do poço. Há coisas boas, Neymar e várias promessas. Mas é preciso rever conceitos e mudar a formação dos jogadores.
Escutei, por várias vezes, os técnicos brasileiros reclamarem de que, quando escalam três zagueiros, os críticos falam que é uma postura ultrapassada e, quando Guardiola faz isso, o que tem sido frequente, ele é bastante elogiado.


São coisas diferentes. Guardiola põe três zagueiros para o time ficar mais ofensivo. Troca um dos quatro defensores por mais um jogador do meio para frente. No Brasil, fazem o contrário. Trocam um meia ou um atacante por mais um defensor. No Barcelona, quando se joga dessa forma, não há laterais ou alas, e, sim, pontas, atacantes bem abertos. No Brasil, são laterais ou alas, marcadores que, quando avançam, não têm habilidade de um atacante.


Prefiro o Barcelona com quatro defensores (dois zagueiros e dois laterais), ainda mais fora de casa, contra o Chelsea. O Barcelona tem também problemas. Há poucos reservas no nível dos titulares. Falta mais um excelente atacante. O time envolve o adversário, mas depende demais de Messi.


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EXPLICAÇÕES

Para tentar ser mais claro, na última coluna, quis dizer que Zagallo convocou Dario para a Copa de 1970 porque o jogador merecia, e não porque o ditador Médici pediu ou ordenou. Um leitor entendeu o contrário.


Na semana passada, alguns jornais do Rio e de São Paulo publicaram matérias sobre o livro que escrevi, “A Perfeição Não Existe”. Um leitor perguntou se eu não iria lançar o livro em BH, e outro reclamou que eu fiz o lançamento fora, e não aqui. Não fiz em lugar nenhum. Obviamente, se fizesse, seria, também, em Belo Horizonte.


É uma seleção de minhas crônicas nos últimos dez anos. O título é o de uma crônica sobre a seleção de 1970, que foi espetacular, mas não foi perfeita. Nada é.
(Transcrito do jornal O Tempo)
19 de abril de 2012

DIA DO ÍNDIO PODERIA TRAZER REFLEXÃO SOBRE O "GENOCÍDIO INTELECTUAL" CONTRA CRIANÇAS

As comemorações pelo Dia do Índio, hoje, poderiam também ter um momento de reflexão sobre o “genocídio intelectual” contra as crianças brasileiras, em decorrência da exclusão escolar e da baixa qualidade da educação, afirma o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), porque esse é o terceiro genocídio da história do país, depois do aniquilamento dos índios e de milhões de negros escravos.


O senador sugere que “o dia 19 de abril sirva para que os índios, que tanto sofreram, nos dêem uma lição para que nós não possamos, no futuro, ser acusados do holocausto intelectual, do holocausto de mentes que nós estamos provocando contra as nossas crianças”.

Segundo Cristovam, o país tem a “obrigação fundamental” de com
emorar o Dia do Índio, por todo o mal causado a eles ao longo de mais de 500 anos, um vez que a população indígena, em torno de 5 milhões na época do descobrimento, acabou reduzida a 350 mil indivíduos nos dias atuais.


O senador enfatiza o artigo “Redescobrir os Índios”, escrito por Edison Barbieri, que aborda a condição trágica dos indígenas ainda hoje, cujo texto lembra que até agora não foi cumprida a previsão constitucional de 1993 para a definitiva demarcação das terras indígenas.


O artigo de Edson Barbieri observa também que “grupos ainda vivem isolados na Amazônia, resistindo às tentativas de aproximação. Os que aceitam a presença branca acabam pagando alto preço, com doenças, mortes, alcoolismo, invasão de suas terras e a perda de sua identidade cultural”.


Quanto aos negros escravos, Cristovam Buarque destaca que quase 10 milhões de africanos foram trazidos ao Brasil e, também, enfrentaram um genocídio, que atingiu seus filhos e netos. Eles enfrentaram o “holocausto da morte precoce, da exploração permanente do trabalho forçado, do deslocamento do seu habitat e da sua cultura”.


Historicamente, esses dois genocídios, lembra o senador, ocorreram pela violência, pela escravidão e pelo preconceito religioso, fundamentado na ideia que prevaleceu por muito tempo de que “os índios e negros não tinham alma”.


Para Cristovam Buarque, o país não pode se calar diante do que houve e ignorar a responsabilidade do Brasil, onde a atual geração está sendo omissa em relação ao “genocídio intelectual” contras as crianças brasileiras. Na verdade, este “genocídio intelectual” contribui bastante para o aumento das taxas de criminalidade, envolvendo crianças e adolescentes excluídos que não conseguem sair da marginalização.
19 de abril de 2012

PELUSO QUER JULGAR LOGO O MENSALÃO. JÁ MARCO AURÉLIO...




Aos poucos, vai ficando mais transparente a disposição do Supremo em julgar logo o Mensalão ou deixar que todos os crimes prescrevam, como já começou a ocorreu. O novo presidente, Ayres de Brito, quer julgar agora. Gilmar Mendes e Cezar Peluso, também.

Segundo o repórter Felipe Seligman, da Folha, Peluso prefere julgar o Mensalão rapidamente por três razões: para não interferir nas eleições, não correr risco de prescrição e porque “a opinião pública pressiona muito”.

Ele disse que, se fosse o ministro Ricardo Lewandowski, revisor da ação, “procuraria ser o mais expedito possível para me livrar desse constrangimento”.
Gilmar Mendes já deu declaração semelhante. Mas Lewandowski não gostou nada e sugeriu que Mendes não se metesse no assuntos dos outros ministros.

Marco Aurélio Mello está do lado de Lewandowski e diz que é “terminantemente contra” a convocação do Supremo em julho apenas para apressar o andamento do processo do mensalão, como defendem alguns ministros.

“Entre as coisas extravagantes que tenho visto, esta é a maior de todas”, diz ele. Para Mello, o mensalão “é um processo como outros 700 que temos que apreciar. Por que pinçar este para julgar a toque de caixa?”.

Traduzindo tudo isso: são onze ministros. três querem julgar logo o Mensalão e dois não querem. Faltam os outros seis, que estão sempre pressionados pelos jornalistas a se manifestarem.
E ainda há quem não defenda a imprensa livre…

Com a imprensa gozando de liberdade total, como agora, o Judiciário e os outros poderes estão podres, cheios de mutretas e favorecimentos.
Imaginem o que aconteceria se a imprensa fosse amordaçada, como se pretende, insistentemente?
19 de abril de 2012

CHARGE DO ALPINO

Hillary acredita que Dilma é modelo contra a corrupção

ANOTAÇÕES POLÍTICAS DO JORNALISTA CARLOS CHAGAS

As causas da reviravolta

Aguarda-se para os próximos dias o início do funcionamento da CPI do Cachoeira, afastadas pela maciça maioria parlamentar as dificuldades que pareciam obstar sua formação.
A pergunta mais ouvida na Praça dos Três Poderes era sobre o porquê de tamanha manifestação em favor da apuração de graves denúncias de corrupção envolvendo políticos e bandidos.

Teria sido porque o Lula mandou? Quem sabe para demonstrar a Dilma que ela não manda tanto assim? Insubordinação do PT diante da presidente da República? Devoção plena ao antecessor? Manobra das oposições para tentar atingir o governo, com o apoio de setores governistas insatisfeitos com a distribuição de cargos e a liberação de verbas?

Seria bom buscar a natureza das coisas. A CPI se constitui por conta da necessidade de o Congresso demonstrar que não compactua com os malfeitos de alguns de seus integrantes, de governantes e de empresários.

Protelar a CPI equivaleria deixar as instituições em frangalhos, como pareceu estar se verificando. Claro que interesses menores também pesaram, mas o principal foi o desejo de expor os ladrões diante da opinião pública.


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NAS GRAÇAS DO POVO E DO CONGRESSO…

Em 1976, na China, com o presidente Mao ainda vivo e o “bando dos quatro” na plenitude do poder, ouvi centenas de vezes a cantilena de que “os ventos direitistas de Teng Xiauping não removeriam o país de seus gloriosos destinos”. Era tempo de radicalismo, exacerbado pela anterior revolução cultural.

Quatro meses depois, o “bando dos quatro” estava na cadeia e Teng Xiauping dava início à maior das mutações verificadas na sociedade chinesa, com a adoção do capitalismo das massas e a vertiginosa ascensão da China na economia mundial.

Pouco depois chegou a Brasília, como embaixador, o funcionário que me acompanhara num périplo de 20 dias pelo território chinês. Num jantar na embaixada, cobrei dele aquela reviravolta surpreendente: “você dizia horrores do Teng e agora o exalta, como seu representante no Brasil!” Resposta pronta: “é que agora ele caiu nas graças do povo…”

Bem que eu poderia referir essa milenar sabedoria para justificar porque, na coluna de ontem, duvidei de que deputados e senadores dessem número para a formação da CPI do Cachoeira e, horas depois, mais de 400 parlamentares estavam assinando o devido requerimento.
Seria explicação dizer que a CPI caiu nas graças do Congresso em tão pouco tempo? Melhor reconhecer que errei feio na interpretação do episódio.


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SANGUE DE QUEM?

O PMDB ficou na espreita. Seus principais líderes preferiam que a CPI não se constituísse. O presidente do partido, senador Valdir Raupp, repetiu ontem que vai correr sangue: “será a mais sangrenta de todas as CPIs”.

Indaga-se: sangue de quem? Se for apenas dos corruptos, menos mal. O diabo é que os corruptos podem estar em todos os partidos, do PT ao PSDB e o DEM. Até no PMDB. Em governos estaduais e no governo federal, também.


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A VERDADE PRÓXIMA

No despacho de ontem com a presidente Dilma, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, terá levado sugestões para a nomeação dos sete integrantes da Comissão da Verdade.
Não deve demorar muito o anúncio formal do grupo e o conseqüente início dos trabalhos. Na bolsa de cotações continuam falados José Gregori, Paulo Sérgio Pinheiro e Célio Borja.
E D. Evaristo Arns, não fosse sua idade avançada.

Em janeiro especulava-se que o principal acontecimento político do ano em curso seria a eleição municipal de outubro. Ledo engano. O julgamento dos réus do mensalão, a CPI do Cachoeira e a Comissão da Verdade devem prender as atenções nacionais com muito mais intensidade.
19 de abril de 2012

CACHOEIRA, O TERCEIRO HOMEM DE CAROL REED OU ORSON WELLES

Leio as reportagens de O Globo e da Folha de São Paulo publicadas no domingo 15, sobre a nova ligação de Carlos Cachoeira, agora com a Delta Construções, e me vem à lembrança “O Terceiro Homem”, filme de Carol Reed e que tem no elenco Orson Welles como o protagonista principal. O terceiro homem aparecia, desaparecia, reaparecia nas situações mais misteriosas.

É o caso de Carlos Ramos Cachoeira, esse homem fatal, como escrevi há poucos dias, intermediário compulsivo de não se sabe quantas transações ilegais. Evidentemente uma fonte de distribuição de dinheiro. Não há dúvida quanto a ilegalidade, pois se sua atuação fosse legal não necessitaria utilizar o nome de terceiros para não aparecer no centro do palco. Agora: por que uma empresa forte como a Delta precisava de Cachoeira?

Esta explicação cabe a Fernando Cavendish, controlador e presidente da empresa. Ele, Fernando Cavendish, inclusive, demitiu um dos diretores exatamente por desempenhar o papel de ponte entre a sombra e a claridade dos acontecimentos.

Incrível. A Delta, segundo O Globo e a Folha de São Paulo, é a empresa que mais obras executa para o PAC, na área federal.
Mas igualmente tem fortíssima participação nas obras do governo do Rio de Janeiro. A modernização do Maracanã, estádio Mário Filho, se não me engano, a principal. A construção do novo prédio do Forum, outra.

As reportagens a que me refiro – cito sempre a fonte – são de Leandro Colon e Fernando Melo. Na Folha de São Paulo. E, no O Globo, de Cássio Bruno, Luiza Damé, Evandro Éboli e Maiá Menezes. A foto de Gustavo Miranda. Causam perplexidade, o que é muito, no Brasil, país em que os escândalos e o tráfico de influência entre o interesse privado e o poder público estão se transformando em rotina.

O que espanta, no caso da Delta, é como uma empresa de tal porte necessitava da influência de Cachoeira, um empresário de presença negativa em todas as transações de que participa. Inclusive, quanto a Delta, emergia das sombras um outro personagem controverso: Giovani Pereira da Silva, em nome de quem a Delta fazia depósitos numa agência do HSBC.

Em paralelamente, efetuava saques originários de depósitos do grupo Cavendish. Depósitos e saques diretos ocorreram em alta sequência tanto em 2010, ano eleitoral, quanto em 2011. Uma loucura. Principalmente de parte de Fernando Cavendish. Como pode ele aceitar abastecer as águas de Cachoeira, o que já era profundamente ilegal, como, ainda por cima, deixar um rastro facilmente identificável. Tanto assim que foi revelado pela Polícia Federal.

As provas estão no HSBC. E também, neste momento, na consciência da opinião pública. Falta que ingressem na lógica dos governantes que, na melhor das hipóteses, por omissão, não conseguiram perceber o que se passava. E o que continua se passando, a seu redor.

É assim que o dinheiro público se evapora como um jato do antigo lança perfume, durante décadas no passado, um dos símbolos do carnaval carioca. Por que a intermediação de Cachoeira, se problemas e etapas dos contratos, incluindo o pagamento das faturas, seriam simplesmente solucionados pelas duas pontas dos processos? Lavagem de dinheiro? Não. Pois no caso funcionou ao contrário. Colocar-se sempre um terceiro homem em qualquer questão é encarecer e dificultar tudo.

Comecei citando “O Terceiro Homem”. Termino recorrendo a Hitchcock: Cachoeira é também “O Homem Que Sabia Demais”. Esta semana instala-se a CPI para ouvir a sua narrativa. Será certamente das maiores. Da dimensão das consequências.

19 de abril de 2012

HISTÓRIAS DO JORNALISTA SEBASTIÃO NERY


A ORELHA MORDIDA

“Na hora do casamento, num incidente que daria o tom dos quarenta anos seguintes, dona Carlota deu uma mordida violenta na orelha de Dom João. No cerne dos problemas da família real portuguesa, estava um casamento tão desastroso que, em alguns momentos, suas conseqüências transbordariam para o domínio público.

Dona Carlota (Joaquina, infanta espanhola, filha do príncipe das Astúrias, futuro rei Carlos IV) fora convocada para desposar Dom João (príncipe de Portugal), então com 18 anos, em 1785, quando contava apenas 10 anos (o casamento só se consumou em 1790, quando ela fez 15 anos). Selada por razões de Estado, a união deu continuidade a uma tradição de casamentos entre as cortes espanhola e portuguesa. O casal teve nove filhos”

E foi assim, de uma mordida na orelha do noivo na hora do casamento, da demência da rainha-mãe louca e fugindo de Napoleão que invadia Portugal, que o “príncipe do Brasil”, Dom João (a partir de 1815, Dom João VI), desembarcou na Praça XV, no Rio de Janeiro, em 8 de março de 1808, e o Rio se transformou na capital do Império Português.


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A FROTA

Foi uma aventura para humilhar qualquer Manoel Carlos ou Glória Perez. Essa história “recheada de personagens extravagantes” é contada, dia a dia, pelo jornalista australiano, radicado em Londres, Patrick Wilcken, que se baseou em documentos brasileiros e portugueses, além de pesquisas no ministério de relações exteriores britânico: – Empire Adrift – The Portuguese Court in Rio de Janeiro – 1808-1821 (Império à Deriva – A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro – 1808-1821).

“Talvez nunca saibamos quantos conseguiram embarcar na frota: 3 fragatas, 2 brigues, um navio de provisões, 8 navios de carreira, diversas chalupas e corvetas armados, alguns navios do Brasil e 4 navios britânicos de escolta – uma frota considerável. Parece que cerca de 10 mil pessoas viajaram para o Brasil na primeira leva – número gigantesco, considerando que a população de Lisboa na época era de pouco mais de 200 mil habitantes”.


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A VIAGEM

“A família real dividiu-se entre quatro navios. O Alfonso de Albuquerque trouxe dona Carlota e quatro de suas seis filhas. As duas filhas do meio viajaram no Rainha de Portugal, enquanto os membros inferiores do cortejo real – a tia e a cunhada idosas de Dom João, ficaram a bordo do Príncipe do Brasil. Na nau capitânea, a Príncipe Real, embarcaram Dom João, a Rainha Maria 1ª, a Louca, e os herdeiros varões Pedro e Miguel”.

“Saíram na manhã de 29 de novembro de 1807. Suportaram sete semanas de vida a bordo em alto-mar, mares revoltos, tormentas. Ancoraram em 22 de janeiro de 1808 em Salvador, que tinha sido a capital até 1763 e era a cidade mais populosa do império português. Era uma cidade mais africana que européia, com uma população predominantemente negra e mulata”.


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DONA CARLOTA

“Dona Carlota era minúscula, baixa, menos de um metro e meio, de feições andaluzas morenas e usando um curioso turbante para cobrir a cabeça raspada. Dom João, um homem baixo e corpulento, de cabeça grande e braços e pernas troncudos.
A família real passou um mês descansando em Salvador. Em 8 de março, desembarcaram no Rio. Durante um curto período, dom João e Dona Carlota dormiam em quartos situados no mesmo corredor, um em frente ao outro. Mas esse arranjo não durou muito. Os dois não tardaram a morar em extremos opostos da cidade, com os familiares divididos entre eles”.

“O Rio era menor do que Salvador: 60 mil habitantes na chegada da família real. O vice-rei invocou uma lei impopular que dava à coroa o direito de confiscar casas particulares. Funcionários percorriam a cidade, escolhendo arbitrariamente as residências adequadas e escrevendo a giz, em suas portas de entrada: PR (Príncipe Regente).
O sinal indicava que os moradores deveriam desocupar prontamente as propriedades. Essas iniciais tornaram-se popularmente conhecidas pelos cariocas exasperados como Ponha-se na Rua”.


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DOM JOÃO

“Dom João saía com um cortejo de autoridades. Logo, passou a cumprimentar muitos súditos pelo nome. Criou um sistema de concessão de honrarias, do qual nasceu a nobreza brasileira: fazendeiros, senhores de escravos e comerciantes ricos receberam títulos de marquês, conde, barão e cavaleiro, o que consolidou ainda mais a popularidade de Dom João. O príncipe regente era venerado. Dona Carlota galopava pela zona rural. As excentricidades de dona Carlota viraram temas de mexerico na cidade: o hábito pouco feminino de montar como um cavaleiro, com um rifle pendurado no ombro, suas expedições de caça pelas montanhas e o óbvio afastamento do marido chocaram a sociedade colonial conservadora”.
“Joaquim José de Azevedo, o funcionário da corte que havia supervisionado o embarque da família real, enriqueceu tanto no Brasil que acabou por se tornar o banqueiro da corte”.

De lá para cá, as coisas não mudaram muito. Continua-se a morder a orelha do povo.



UMA CONVERSA ALEGRE E EMOCIONANTE COM HÉLIO FERNANDES

Foi com alegria que ontem recebi telefonema do nosso Helio Fernandes. Agradeceu as notas que fiz em diversos espaços, exaltando Millôr. Conversamos bastante, colocamos os assuntos em dia, conversa essencialmente particular, com lembranças dos nossos filhos.

Helio sempre perguntando pela minha filha Joana, torcendo pelo sucesso dela, onde estiver, trilhando o caminho que escolher. Evidente que Helio não esconde a imensa tristeza que tomou conta da sua vida e de dona Rosinha nos últimos meses, com a perda de dois filhos, Rodolfo e Helinho e o irmão dele, Millôr.

Quem sofre tanto assim, no coração e na alma, realmente precisa ser forte. Tem que ser cidadão forjado em lutas e batalhas memoráveis. Como é o caso de Helio Fernandes. Nesta linha, reiterei a Hélio que resista, que permaneça cada vez mais vivo e atuante entre nós.